Catolicismo Nº 203 - Novembro de 1967
"O Estado de S. Paulo", 1º de novembro de 1967
No 50º aniversário da Revolução Bolchevista
Por motivo do 50º aniversário da implantação do comunismo na
Rússia, a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade
publicou o manifesto abaixo estampado, de autoria do Prof. Plinio Corrêa de
Oliveira, Presidente do Conselho Nacional, e assinado por todos os membros do
mesmo órgão.
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Vladimir Illitch
Ulianov, mais conhecido como Lenine, líder dos bolchevistas, incita o povo
à derrubada do governo provisório de Kerensky, a qual se consumou em
novembro de 1917 |
Esse documento, com o qual "Catolicismo" se solidariza
inteiramente, contém uma tomada de posição lúcida e corajosa em face da situação
contemporânea.
Ele enfrenta a atmosfera feita de derrotismo, apatia e – aqui
e acolá – laivos de simpatia pelo comunismo, que prepondera nos comentários que
os grandes meios de publicidade internacional e nacional vêm consagrando ao
cinqüentenário da revolução bolchevista.
Enquanto, na orquestração a este respeito organizada em todo
o mundo, se incute um otimismo ingênuo quanto às intenções dos atuais dirigentes
do Cremlin e as possibilidades de uma "evolução" interna do comunismo, o
manifesto da TFP apresenta uma "mise au point" da política russa que
mostra quanto há de precário nessas esperanças.
Assim, esse documento importa num incitamento a que o
Ocidente se mantenha vigilante na defesa de seus valores ideológicos, dos seus
direitos e de suas fronteiras.
Dessa vigilância, pensamos nós, poderá resultar a paz. A
imprevidência e a cegueira diante do comunismo constituem um convite para que
este se atire à guerra. Tal como o guarda-chuva de Chamberlain e o espírito de
Munique foram um convite aliciante para que Hitler se atirasse à conquista de
adversários que se lhe afiguravam entorpecidos e débeis.
É contra uma imensa Munique em relação ao comunismo, que o
pronunciamento da TFP alerta a opinião nacional. Atitude que, por ser rara ou
talvez única no ambiente em que nos encontramos, tem um mérito relevante, do
qual a história do Brasil tomará a devida nota, quando cuidar das torvas
vicissitudes de nossos dias.
A SOCIEDADE BRASILEIRA DE DEFESA DA TRADIÇÃO, FAMÍLIA E
PROPRIEDADE AO PAÍS
NO 50º ANIVERSÁRIO DA REVOLUÇÃO BOLCHEVISTA
Plinio Corrêa de Oliveira
Transcorrerá no dia 7 do corrente o qüinquagésimo aniversário
da implantação do regime comunista na Rússia.
Por ocasião desse lúgubre aniversário, a Sociedade
Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) fará celebrar
nesta capital, em Brasília e em doze outras cidades, Missas pelo descanso eterno
das vítimas feitas pelo marxismo, por todo o mundo, nas guerras, revoluções e
atentados a que deu causa.
O Santo Sacrifício será celebrado também para obter da
bondade divina que faça cessar o oprobrioso jugo vermelho exercido desde a
última guerra sobre tantos países.
A estas intenções, somar-se-á por fim uma outra: que Deus
jamais permita que o comunismo prevaleça no Brasil.
Se bem que esta entidade seja de caráter essencialmente
cívico, e tenha por campo de ação a sociedade temporal, considera que nem por
isto pode omitir-se do magno dever da oração. E obedece aos ditames de sua
consciência, convidando para essa celebração religiosa seus sócios e militantes,
bem como a população em geral.
Porém, não basta rezar. Cumpre agir. E, na ordem da ação, o
que mais importa é esclarecer as mentes. Assim, no presente documento, a TFP
oferece ao público uma "mise au point" de alguns aspectos de que o problema
comunista se reveste em nossos dias.
Elogio do anticomunismo
Antes de tudo, impõe-se desfazer um equívoco.
O amor à concórdia dos espíritos, o desejo de unir todos os
homens em torno de um pensamento e de uma ação comum, são por certo coisas
excelentes. Entretanto, neste vale de lágrimas de tudo se pode tirar pretexto
para exageros. Ora, o exagero é uma forma de corrupção. E, como a corrupção do
ótimo é péssima, péssimas são, por força, as demasias e as afoitezas que um
irrequieto e febricitante espírito de concórdia vai despertando aqui e acolá.
Para desfazer equívocos, desarmar prevenções, diminuir ou até
eliminar divergências, nada melhor em muitas ocasiões do que o diálogo da
salvação, como o mencionou Sua Santidade o Papa Paulo VI na Encíclica "Ecclesiam
Suam". Entretanto, a propensão a dialogar, tão nobre em si mesma, não pode
transformar-se em mania levada a um ponto que exclua qualquer atitude de leal e
peremptória rejeição do que sabemos ser errôneo e mau. Em nome do diálogo da
salvação, tem-se por vezes procurado ocultar a incompatibilidade fundamental que
existe entre a ordem natural e a civilização cristã, de um lado, e o
totalitarismo comunista de outro lado. Diante do comunismo, tem-se apregoado não
raro como únicas razoáveis, sadias e atualizadas, uma linguagem e uma política
de "compreensão", coexistência e até colaboração, em face das quais toda tomada
de atitude nitidamente anticomunista aparece como antiquada, antipática e
condenável.
Em uma palavra, na era do diálogo, em que entramos, seria
sempre antipsicológico e contra-indicado – quando não descaridoso – apontar os
erros do comunismo, prevenir contra eles a opinião pública, e utilizar a
controvérsia doutrinária para que tais erros não só fracassem na conquista do
Ocidente, mas acabem por ser rejeitados nas próprias nações de além da cortina
de ferro e de bambu. Em lugar de alternar o diálogo com a controvérsia e até com
a polêmica honesta e elevada, tratar-se-ia somente, entre comunistas e
anticomunistas, de entrar em composição, e de chegar por um diálogo cheio de
ambigüidades a uma síntese que seja uma amálgama de comunismo e anticomunismo.
Este modo de proceder, professado não raras vezes por pessoas
que timbram em dizer-se não comunistas, se ressente da influência da própria
dialética marxista, para a qual não existe uma distinção objetiva e inteira
entre a verdade e o erro, e o espírito humano caminha necessariamente de duas
proposições contrárias – a tese e a antítese – para uma síntese que as contém e
as supera. Cria-se assim o vezo de considerar que a solução para o grande
confronto ideológico do nosso século está em encontrar uma terceira posição
entre a verdade e o erro, o bem e o mal. Daí resulta que o anticomunismo seria
em si mesmo errôneo. Pois ele vê no comunismo uma negação radical de verdades
religiosas e de princípios da ordem natural imutáveis.
Tal é a habilidade com que a seita marxista tem sabido
inocular por toda parte seu relativismo dialético, que neste cinqüentenário é
preciso começar por proclamar que, em face dela, o anticomunismo é uma posição
legítima e necessária.
Por anticomunismo entendemos aqui toda atuação que, dentro
dos cânones da moral cristã, e alternando judiciosamente o diálogo com a
polêmica, vise a refutar a doutrina marxista, a afirmar os princípios que lhe
são opostos, a desfazer as tramas comunistas, a criar obstáculos à ascensão do
comunismo nos países livres, e a favorecer a libertação dos povos por ele
tiranizados.
O anticomunismo assim visto comporta, como é óbvio, também a
eliminação das injustiças que nas sociedades livres sirvam de caldo de cultura
para o comunismo. E de nenhum modo se confunde com os excessos, ora burlescos
ora trágicos, para o qual tem sido pretexto.
Tudo isto esclarecido, repetimos que o anticomunismo é um
bem.
Para afirmar esta verdade, e para professar uma atitude
definidamente anticomunista, é preciso coragem nos dias que correm.
A bem dos princípios da ordem natural, a cuja defesa se vota,
a TFP quer ter essa coragem, afirmando de público, nesta data cinqüentenária,
sua posição anticomunista.
Mas, dir-se-á, esta posição é evidentemente negativista, como
se vê pela própria expressão "anticomunismo". Tudo quanto é "anti" é negativo. E
tudo quanto é negativo é destrutivo.
Tal objeção resulta da ignorância de certas peculiaridades da
linguagem humana. Por motivos vários, há em todos os idiomas palavras negativas
de sentido positivo. Em português, por exemplo, apontamos entre outras, as
seguintes: inocência, infalibilidade, independência.
O comunismo é o "anti" por excelência, pois nega todas as
verdades da Religião e todos os princípios básicos da ordem natural como no-los
ensina a Igreja. Ser anticomunista é portanto ser contrário ao "anti", à
destruição. Negar o caráter positivo dessa ação contrária ao comunismo é o mesmo
que negar o conteúdo positivo da atuação de um exército que repele a invasão
inimiga, dos bombeiros que extinguem um incêndio, dos médicos que lutam contra
alguma epidemia, etc.
Uma sociedade como a TFP, que realiza uma considerável obra
positiva de formação cívica da opinião pública, e de assistência à juventude
moral e materialmente necessitada, pode – mais do que muitas outras entidades –
afirmar a legitimidade e necessidade do anticomunismo.
Tal afirmação, a TFP pode fazê-la sem temor de ser alcunhada
de fascista ou nazista. Pois se tornou notório, durante o apogeu nazi-fascista,
o combate sem tréguas que aqueles de seus diretores, que então tinham ação na
vida pública conduziram dentro dos meios católicos contra o totalitarismo
vermelho ou pardo, através do prestigioso hebdomadário paulistano "Legionário".
Homenagem aos heróis do anticomunismo
Isto dito, compreende-se que uma palavra de homenagem
comovida se profira aqui em memória de quantos, nestes cinqüenta anos,
derramaram seu sangue levantando bem alto o pendão da luta anticomunista. Formam
eles um longo, glorioso e trágico cortejo que começou com os valorosos russos
brancos e se veio desdobrando através de vários povos e continentes. Nele
notamos com especial emoção os "cristeros" mexicanos, os "requetés" da guerra
civil espanhola, e os heróis da insurreição húngara de 1956.
Também desejamos mencionar todas as vítimas que, nos campos
de concentração, bem como nas várias prisões comunistas, desde a patibular
Lubianka de Moscou, até a sinistra La Cabaña cubana, morreram, ou sofrem e
agonizam no momento, por sua indômita recusa em aceitar o marxismo.
Prestamos especial homenagem a todos quantos pelo mundo vão
sofrendo a difamação e campanha de silêncio, a perseguição econômica e outras
formas de pressão moral com que o comunismo alveja os que se lhe opõem.
Uma figura há – vítima dos maiores tormentos morais e físicos
– que simboliza de modo inigualável, nestes dias, a luta de todos esses heróis.
Um Príncipe da Igreja que, por sua afirmatividade, seu desassombro, seu heroísmo
de mártir autêntico, plenamente merece a púrpura que o exorna: Sua Eminência o
Cardeal Mindszenty, Arcebispo de Esztergom e Primaz da Hungria, cujo nome é
pronunciado com veneração e com indizível afeto por todos aqueles em cujo peito
ainda vive autenticamente a fé.
O fracasso mundial do proselitismo comunista
Enganar-se-ia quem supusesse que os sacrifícios de todos
esses bravos têm sido inúteis.
O comunismo se encontra, é certo, em um apogeu. Domina um dos
mais extensos impérios da História: desde o Elba até o Pacífico, desde o Pólo
Norte até o Vietnã. A este império há que acrescentar os diversos "enclaves"
vermelhos na própria Ásia, na África e na América.
Entretanto, a História deixa bem claro que tal império de
nenhum modo foi formado pela persuasão ideológica ou pelo livre assentimento dos
povos que o integram. Nasceu ele da força brutal, do maquiavelismo político, da
fraqueza quando não da cumplicidade de elementos instalados em posições de
cúpula das próprias nações cuja missão é conter a expansão do comunismo.
Dado que este é principalmente uma seita, e que enquanto tal
visa convencer toda a humanidade do acerto de suas doutrinas, constitui para ele
um fracasso iniludível o fato de que suas vitórias hajam sido sistematicamente
filhas da violência, da traição e da imprevidência, e não da persuasão.
O manifesto comunista de Karl Marx foi lançado em 1848.
Durante cento e vinte anos, portanto, o comunismo vem conclamando as massas para
o confisco, para o morticínio e para a impiedade. Nesta faina lhe têm sobrado os
meios de propaganda: dinheiro fácil, agentes numerosos, técnicas de intimidação
e confusão requintadas. Entretanto, nem uma só vez conseguiu ele apossar-se do
governo pelo sufrágio popular. Nos próprios países em que chegou a arrebatar o
poder não lhe foi possível até agora persuadir e menos ainda entusiasmar as
multidões. Os seus déspotas só logram governar apoiados na opressão, na força e
na espionagem policial. O "paraíso" vermelho parece tão atraente aos que nele
habitam, que para evitar evasões em massa é mister fechá-lo como uma prisão.
É patente que o marxismo perdeu nestes cem anos a batalha
pela conquista da opinião mundial. Se disto mais alguma prova fosse necessária,
dá-la-ia o repetido insucesso das guerrilhas que ele vem ateando com insistência
em diversos países da América Latina. Lançadas habitualmente com sobejos
recursos materiais e técnicos, acabam por se extinguir como uma chama à qual
falta o ar. Por que? Sabe-se que nenhuma guerrilha é capaz de prolongar-se
muito, sem o apoio das populações. E as guerrilhas comunistas têm definhado e
morrido porque jamais obtiveram a simpatia dos honrados trabalhadores a que
visam "libertar".
Cada vez mais – em conseqüência – o comunismo, para
progredir, precisa disfarçar-se e diluir-se em "frentes comuns",
"terceiras-forças", movimentos democrático-socialistas de rótulo cristão ou não
cristão. De tal maneira ele se sabe indigesto para o paladar de toda a
humanidade quando se apresenta com seu sabor próprio.
E mesmo esses numerosos disfarces se vão desacreditando um a
um. Disto dá provas em nosso País o calor com que importantes e dinâmicos
setores da juventude, fechando o ouvido aos apelos esquerdistas do filocomunismo,
confluem para as fileiras sempre mais numerosas e mais entusiásticas da TFP.
Este fracasso se deve à inteligência, à ação e à efusão do
sangue dos que nestes últimos cem anos têm lutado por toda a face da terra
contra o marxismo. A efusão do sangue tem entretanto sua glória própria.
Rendamos um preito especial aos heróis incontáveis que tombaram, e cujo nome
está escrito no Livro da Vida.
O dissídio sino-russo e o "aggiornomento" soviético:
fundas suspeitos
Uma panoramização atualizada da situação do comunismo no
mundo, por mais sumária que seja, não pode abstrair do problema que preocupa
incontáveis espíritos sérios: até que ponto é profunda, consistente e durável a
animosidade recíproca, alardeada por Moscou e Pequim?
Na raiz da divisão entre os dois "grandes" do comunismo, se
apontam divergências de interesses econômicos e políticos. Tais divergências são
difíceis de verificar por um observador ocidental, não só em razão da distancia
geográfica, como da carência de informações. Com efeito, sendo a China vermelha
e a União Soviética países estritamente ditatoriais, nos quais todas as
informações são de fonte oficial e portanto dadas em proveito próprio, e
acrescendo que a liberdade de movimentos e de investigação dos observadores para
além da cortina de ferro e da cortina de bambu é muito escassa, o material
informativo sobre a fricção dos interesses de ambas as nações é de pouca valia.
Principalmente, é difícil saber de que peso essa fricção é na
fixação dos rumos políticos do mundo comunista em face do mundo livre. Em outros
termos, se em determinado momento se abrir para o Cremlin a possibilidade de
jogar uma cartada internacional que lhe assegure algum enorme progresso em
detrimento do Ocidente, até que ponto poderá ele contar – apesar do presente
dissídio – com a solidariedade de Pequim? Caso essa cartada importe numa mais
acentuada superioridade de forças da União Soviética, estará a China vermelha
disposta a aceitar tal conseqüência, para o bem da expansão do comunismo?
Mutatis mutandis, pergunta análoga se poderia fazer quanto à atitude da
Rússia numa eventual cartada jogada pela China contra alguma nação livre da Ásia
ou da Oceania.
Como é bem de ver, esta problemática domina todo o assunto. E
ela de índole essencialmente ideológica, pois importa em saber se a fidelidade
dos governantes atuais das duas grandes potências do comunismo à causa da
expansão mundial deste último é bastante forte para os impelir à imolação dos
respectivos interesses nacionais ou pessoais.
Muitas pessoas pensam encontrar elementos seguros para a
solução deste problema no que parece estar ocorrendo na Rússia. A julgar por
notícias vindas desse país, dir-se-ia com efeito que algo de novo ali começou a
existir. Um surto ideológico à maneira de um "aggiornamento" (tomada a expressão
em seu sentido etimológico) se iria operando nos arraiais mais conscientes e
lúcidos do comunismo russo, o que faria esperar para a URSS um movimento análogo
ao que foi o do Termidor na fase de liquidação final da Revolução Francesa. Esse
"aggiornamento", inspirado pelo desejo da paz e pelo manifesto absurdo de
algumas conseqüências extremas do marxismo, conduziria ao relaxamento na
coerência ideológica do Partido, a uma liberalização política interna em face
das tendências oposicionistas, e por fim a uma distensão nas relações
diplomáticas com o mundo livre.
Segundo consta, o sopro de neo-termidorismo se estaria
fazendo sentir especialmente entre os comunistas descontentes. E seria tão
forte, que mesmo nos setores governamentais e nas esferas dirigentes do PCUS
estaria ele determinando uma ou outra profunda mudança de orientação.
Todas estas notícias se situam no campo político. E em
política é preciso saber desconfiar. Assim, cabe a pergunta: até que ponto é
autêntico esse conjunto de constas? Qual a verdadeira força desse "aggiornamento"
no marxismo? Crepita ele contra as intenções dos supremos dirigentes do Partido
e do governo? Ou pode ser comparado a uma mecha de fogo cuja graduação,
dependente inteiramente dos desígnios do Cremlin, se acha agora em ponto algum
tanto alto, só para facilitar um jogo internacional deste?
Sim, um jogo gigantesco. Considerados os efeitos que têm
produzido no Ocidente essas versões difundidas por todas as esferas
filo-soviéticas, e acolhidas benevolamente em desavisados ambientes não
comunistas, vê-se que a União Soviética alcançou com elas em breve tempo
resultados superiores às expectativas mais otimistas.
Se não fosse, por exemplo, a crença numa profunda "evolução"
interna na Rússia, de Gaulle não teria desenvolvido uma política exterior que
importou em criar um sensível mal-estar no Ocidente e acarretou uma diminuição
de eficácia da NATO. Se dividir é a condição preliminar para imperar, é o caso
de dizer que os rumores de um degelo ideológico na URSS alcançaram para esta
última um precioso resultado. Pois lançaram uma não pequena medida de confusão e
divisão na opinião pública de aquém da cortina de ferro e de bambu.
Estas considerações são bastantes para que não se entreguem a
um otimismo irrefletido, precipitado e possivelmente suicida os elementos
responsáveis do mundo livre. E para que não baseiem toda a sua conduta em
versões mal controladas, a respeito de fatos aliás instáveis por sua própria
natureza.
Mas, dir-se-á, esta atitude de vigilância não põe em risco a
paz?
A paz é certamente um bem inestimável. Não há sacrifício
lícito que não se deva fazer em prol dela. Um destes sacrifícios consiste em
manter diante das potências comunistas uma vigilância penetrante e calma. Tal
vigilância fica a meio termo entre os dois extremos que comprometem a paz: a
agressividade e a indolência.
Ora, tal vigilância, é preciso recomendá-la mais do que
nunca, no que concerne a um eventual degelo na Rússia. E se desse degelo se deve
desconfiar, também cumpre não confiar na consistência do espalhafatoso
antagonismo entre Moscou e Pequim. Pois, como vimos, o degelo ideológico dos
soviéticos seria o fator mais ponderável do antagonismo sino-russo.
Causa por isto alguma surpresa que certos círculos de
responsabilidade em diversos países tenham continuado a deitar toda a confiança
no dissídio China-Rússia, depois de haverem presenciado a colaboração política
das duas potências em favor do Egito contra Israel. E que continuem a crer sem
sombra de dúvida nas intenções pacíficas dos atuais dirigentes soviéticos,
apesar de haverem sido noticiados nos últimos dias quatro fatos bem próprios a
despertar as mais fundadas apreensões:
1 – as despesas militares da Rússia para o próximo ano terão
um aumento de 3 trilhões e oitocentos bilhões de cruzeiros velhos, atingindo um
total de 50 trilhões de cruzeiros velhos;
2 – o poder defensivo antimíssil da URSS está sendo
consideravelmente acrescido;
3 – a URSS está passando, em matéria de mísseis, de uma
posição meramente defensiva, para uma posição ofensiva, e equipa submarinos
capazes de bombardear com esses engenhos qualquer litoral da Europa, América ou
outro continente;
4 – uma poderosa esquadra de guerra soviética se introduziu
no Mediterrâneo, e pode a todo momento atacar qualquer nação do sul da Europa.
É fácil de ver quanto importa, à vista de tais fatos, não dar
crédito fácil à autenticidade, à consistência e à durabilidade do "aggiornamento"
russo e do correlato dissídio entre Moscou e Pequim.
Uma das mais trágicas injustiças da História: as nações
cativas
Um balanço dos reflexos do fenômeno comunista no mundo
contemporâneo não poderia deixar de incluir uma referência dorida a uma das
maiores injustiças de toda a história da humanidade.
Enquanto um vento de anticolonialismo sopra pela África e
pela Ásia, e uma sensibilidade anticolonialista por vezes exacerbada se indigna
com qualquer vestígio de colonialismo em qualquer parte do mundo, uma oprobriosa
campanha de silêncio procura fazer esquecer que o colonialismo mais reprovável
mantém cravadas as suas garras em numerosos povos dignos, por vários títulos, de
sorte bem diversa.
Com efeito, a dominação vermelha, alcançada pelo
maquiavelismo e baseada na força, conserva sujeitos a um jugo injusto e a um
regime social e econômico desumano, antinatural e nefasto, povos na maior parte
ilustres por seu papel na cristandade, pelo valor de sua cultura, de sua arte e
de seu progresso técnico. Mencionemo-los um a um pois, já que cada um tem um
título a nosso respeito: albaneses, alemães, armênios, bielo-russos,
búlgaros, chineses, coreanos, croatas, cubanos, eslovenos, eslovacos,
estonianos, georgianos, húngaros, letões, lituanos, macedônios, mongóis,
poloneses, romenos, russos, sérvios, tchecos, tibetanos, ucranianos e
vietnamitas.
Esse gênero de dominação tem todas as agravantes. Representa
a sujeição do cristão ao ateu, do homem probo ao regime ímprobo, do homem
civilizado à barbárie marxista. Importa na sujeição de povos estuantes de
vitalidade e de possibilidades de progresso, a uma tirania onímoda, que os
paralisa e que os asfixia, e em cujas garras se debatem em vão, sujeitos como
estão a déspotas que não têm recuado diante de práticas genocidas, de
perseguições religiosas e raciais, e de deportações em massa, – muito
semelhantes, note-se, às do nazismo.
Não é só o crime que constitui uma vergonha, mas também a
indiferença ante ele, a placidez do espectador que, sentindo-se a coberto do
risco, não quer assumir o duro ônus da defesa da vítima. Desta vergonha
participam no mundo livre consideráveis setores de egoístas, quando não de
simpatizantes do agressor. Não somos destes, e não queremos ser daqueles.
A Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e
Propriedade não pode deixar que transcorra o ominoso cinqüentenário da
revolução bolchevista, sem que – em meio a tantos silêncios deploráveis –
levante contra esse colonialismo sua voz, a qual vai alcançando sempre maior
ressonância na América Latina como em diversos ambientes da Europa e da América
do Norte.
Esse protesto vai acompanhado de uma expressão de profunda
solidariedade com o sofrimento de todos os povos de além da cortina de ferro e
da cortina de bambu, e de uma saudação fraterna aos refugiados de tantas nações
mártires legitimamente saudosos da pátria em que deixaram o melhor do seu
coração.
Pelo Brasil
O infortúnio do próximo nos leva a erguer ao Altíssimo nossa
ação de graças pelo fato de ter nosso País escapado ao gravíssimo perigo
comunista, de que o libertou o benemérito movimento de 31 de março.
O comunismo continua a ser um perigo no Brasil. Mas importa
saber com precisão no que consiste a força deste perigo.
No auge da crise janguista, bem claro se tornou em que
setores sociais mais intensa – ou melhor diríamos mais agressiva – é a
fermentação vermelha.
Com efeito, enquanto as camadas populares de tal maneira
faziam ouvidos moucos à demagogia, que chegou a se queixar delas o Presidente em
discurso proferido na antevéspera de sua queda, era em certos círculos (aliás
minoritários) da burguesia que o janguismo tinha seu verdadeiro dispositivo de
base: a "inteligenzia" comunista ou comunistizante, o esquerdismo demo-cristão e
as "terceiras-forças" de todo naipe. Nestes ambientes é que o comunismo também
poderá encontrar a todo momento os adeptos fanáticos, os cúmplices e os
inocentes-úteis com que tentar alguma aventura no Brasil. Aventura tanto mais
aliciante quanto constitui a única perspectiva de vitória para quem, como os
agentes de Moscou e de Pequim, fracassou no intento de inocular nas massas a sua
doutrina; para quem – como os déspotas soviéticos ou chineses – ao espírito
aventureiro, servido pela violência e pelo maquiavelismo, deve vários de seus
êxitos mais espetaculares.
Sintomático do fato de que a percentualidade de um
esquerdismo agressivo, ou até por vezes de um prurido comunista indisfarçável, é
maior em certos círculos burgueses do que nas massas, é o que ocorre com os
abnegados militantes da Tradição, Família e Propriedade que oferecem à
venda em logradouros públicos obras anticomunistas. Nos bairros habitados pelas
camadas mais modestas, inclusive o operariado, são recebidos com urbanidade e
simpatia tão gerais, que é raro serem alvo de algum protesto. Nos bairros
preferidos pelas camadas mais elevadas, pelo contrário, se bem que a atitude da
grande maioria seja também cortês, simpática e não raro até entusiástica – são
sensivelmente mais freqüentes os protestos de sentido esquerdista e mesmo
comunista. Destes protestos, vários vêm de donos de carros que diminuem a marcha
para lançar brados esquerdistas aos nossos militantes, e logo a seguir
corajosamente disparam, a toda a velocidade. Assim procedem, por exemplo, alguns
tantos ocupantes de automóveis de alto preço...
A Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e
Propriedade está bem certa de que, não só pela presença pessoal como em
espírito, serão incontáveis os brasileiros que se associarão no dia 5 às Missas
que, em doze unidades da Federação, ela fará celebrar na intenção de que,
vencidos os indeslindáveis e vigorosos dispositivos de difusão comunista,
dissipada a simpatia, a ingenuidade e a displicência que diante do comunismo em
certos círculos existe, a Terra de Santa Cruz nunca deixe de ser um País de
civilização cristã, fiel ao seu passado e cada vez mais próspero e poderoso ao
longo do seu porvir.
São Paulo, 1º de novembro de 1967
O CONSELHO NACIONAL
Plinio Corrêa de Oliveira
Presidente
Fernando Furquim de Almeida
Vice-Presidente
Eduardo de Barros Brotero –
1.º Secretário
Caio Vidigal Xavier da Silveira
2.º Secretário
(Seguem-se as assinaturas dos demais membros do Conselho).