Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

Como se prepara uma revolução:

o Jansenismo e a terceira força - I

 

 

 

 

 

Catolicismo Nº 20 - Agosto de 1952

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O Cardeal Fleury, ministro de Luiz XV, foi, por temperamento e ambição política, um instrumento ideal da terceira força. Apoiou sistematicamente os Bispos que, com aparência de ortodoxos, impediam por sua inércia a luta contra o jansenismo. O quadro de Rigaud exprime bem a mentalidade superficial e otimista de Fleury. Fisionomia inteligente, risonha, despreocupada, porte nobre mas distendido, de homem pouco afeito à luta, o Cardeal parece fruir todas as venturas desta vida no exercício das altas funções eclesiásticas e civis cuja pompa é manifestada no quadro pela riqueza dos móveis, abundância e fausto dos panejamentos.

Como se sabe, a Revolução Francesa foi fruto de uma preparação ideológica profunda, que, desde o Renascimento e o Protestantismo, passando pelo Deísmo e o Iluminismo, chegou à impiedade completa, expressa com toda a nitidez nas realizações políticas e religiosas do surto republicano de 1792.

O Jansenismo, quinta coluna na Igreja

Considerada à primeira vista, nos fins do século XVIII a luta pareceria delinear-se em termos muito claros: de um lado a Igreja, no lado oposto o conjunto de correntes e seitas declaradamente ímpias - Protestantismo, Filosofismo, Iluminismo, etc. - que se poderia chamar a anti-Igreja. Na realidade, o panorama era mais complexo. A anti-Igreja não colocara todos os seus sequazes nas hostes reconhecidamente heterodoxas; pois encontrou ela meios para instalar em grande número elementos seus dentro das próprias fileiras católicas. E estes elementos não estavam isolados uns dos outros, agindo cada qual por própria conta. Constituíam toda uma rede de atividades sabiamente executadas, visando fazer dentro da Igreja o jogo dos adversários desta, em suma o que em nossos dias se chamaria uma quinta-coluna.

O objetivo desta quinta-coluna consistia em minar a reação católica. Para isso, tinha uma dupla missão. Primeiramente, difundir, sob capa de Catolicismo genuíno, sistemas teológicos e morais errôneos, que aproximassem os fiéis das tendências ímpias, e os distanciassem dos ensinamentos de Roma. Em segundo lugar, introduzir-se quanto possível nos cargos chave: cátedras universitárias, direção espiritual de seminários e comunidades religiosas, de tronos e principados, paróquias importantes, e, acima de tudo, sólios episcopais. A heresia procurava assim infiltrar-se o mais profundamente que podia nas próprias entranhas da Igreja e das monarquias cristãs e conseguia desnortear e perder os fiéis, ensinando-lhes com autoridade quase da mesma Igreja os erros que esta condenava.

Tal foi o Jansenismo, heresia nefasta que com cínicos subterfúgios burlou as várias condenações contra ela lançadas pelo Magistério Infalível, e procurou conservar-se sempre no seio do Catolicismo, para viciar-lhe as fontes de vitalidade.

O Jansenismo minava a Fé e extinguia a piedade

A obediência e docilidade ao Santo Padre, a fidelidade à Escolástica - essa síntese admirável da Filosofia e da Revelação -, o fervor dos fiéis no hábito da Confissão e da Mesa Eucarística, e a devoção a Nossa Senhora, asseguram na Igreja a conservação dessa energia que a torna a rocha viva contra qual se quebram as armas infernais.

Os jansenistas, inimigos da Igreja, tentam permanecer aparentemente no seu seio, para acabar com tudo isso. Seu rigorismo farisaico afasta os fiéis dos Sacramentos. A crítica sofística a que submetiam as decisões pontifícias, criou o "opinionismo", o "liberalismo católico", a liberdade de pensar cada um como queira, pois que tudo não passa de opiniões que podem ser verdadeiras, como podem ser falsas; a exaltação da Patrística e da Igreja primitiva, abalando a confiança na Escolástica, teologia mais clara, mais precisa mais definida, dá origem às incertezas da inteligência agindo em um campo ainda nebuloso, e confirma profundamente os espíritos na convicção de que tudo são opiniões igualmente respeitáveis.

Esta a intenção do Jansenismo como pode ver-se por sua história. Na realidade apresentava-se como defensor da Teologia de Santo Agostinho, interpretada em sentido protestante, como se o Doutor da Graça admitisse a dupla predestinação como fruto necessário da graça divina ou de sua ausência. Pois, para os jansenistas, há preceitos divinos para cujo cumprimento faltam ao homem as energias necessárias; e caso receba estas energias, ou seja a graça de Deus, já não é mais ele livre de realizar a boa obra: o auxílio divino impulsiona necessariamente sua vontade.

Na aparência, portanto, o Jansenismo divide os espíritos num mero campo teológico. De fato, é uma conjuração à maneira de quinta-coluna hodierna, para solapar a Igreja.

Desmascarada a quinta coluna

Percebe-se facilmente que esta seita herética realizaria sua infernal empresa com êxito se conseguisse ficar inteiramente oculta dentro dos meios católicos. Porém, tal não se deu. Vigorosamente combatida por polemistas e teólogos de valor, foi ela obrigada a defender-se. E, saindo a campo, pôs à mostra não só as garras, mas toda a musculatura. Seu objetivo essencial ficava assim, ao menos em parte, baldado. Roma, alertada, condenara o sistema. Os fiéis estavam, pois, premunidos. Os jansenistas que se diziam católicos, já não podiam agir na sombra, como uma quinta coluna. Restava-lhes constituir, conservando a aparência de católicos, uma espécie de "igreja dentro da Igreja", arregimentando os espíritos mais orgulhosos, mais temerários, mais relaxados, para, numa guerrilha incessante de chicana e sofismas com os católicos autênticos, manter em luta contínua os filhos da luz. Com isto, mais fácil se urdia a conspiração dos filhos das trevas fora dos arraiais da Igreja.

Entre jansenistas e ortodoxos, uma terceira força

Na revista "Annales" (abril-junho de 1951), atualmente, como se sabe, um dos melhores órgãos especializados em História, Émile Appolis publica um artigo valioso e muito interessante, em que, reunindo fatos já conhecidos e documentos novos por ele pesquisados, chega a demonstrar, com impressionante clareza, que o jansenismo, caracterizado, condenado, perseguido, mas sempre entranhado nos meios católicos, engendrou por sua vez uma como que terceira força - terceiro partido, diz Appolis - constituída de eclesiásticos de várias categorias, que realizaram a tarefa muito delicada de dar aos jansenistas condições de existência suportáveis no seio da Igreja, apesar de toda a pressão contrária. Preliminarmente, estes eclesiásticos não se diziam jansenistas. Antes, a linha geral de seu procedimento dava a ilusão de que estavam de acordo com Roma. Na realidade, porém, não combatiam o Jansenismo, sustentavam a tese de que este normalmente desapareceria se os anti-jansenistas cessassem qualquer campanha contrária, e Santa Sé se abstivesse de toda medida de rigor que tivesse caráter pessoal.

Esta posição, que doutrinariamente nem era a dos jansenistas, nem a dos anti-jansenistas militantes, agradou a muitos espíritos eminentes, desejosos de empenhar toda a sua influência para desmoralizar a luta contra a heresia.

A partir do momento em que esta tática ardilosa triunfou, nas fileiras católicas houve três atitudes: os jansenistas, em luta aberta com os partidários de Roma; a terceira força, também em oposição aos partidários de Roma, que acusava de exagerados, intransigentes, fomentadores de lutas, inimigos da caridade; e os partidários de Roma, isolados, incompreendidos, desmoralizados porque contra eles se voltavam não só os jansenistas, mas muitas pessoas ilustres pelos seus cargos, e dignas por sua piedade e austeridade de vida, alistadas na terceira força.

O grande mérito do estudo de Appolis está em que põe em relevo que os homens da terceira posição, sob a capa de neutralidade, eram dedicados agentes da causa jansenista e que à seita prestavam o mais precioso dos serviços.

Este importante ponto da História eclesiástica recebe assim luz nova. "CATOLICISMO", em cujo programa se inscreve o fomento do interesse pela História da Igreja, oferece a seus leitores os principais tópicos do estudo de Emile Appolis. Desnecessário será lembrar a pessoas cultas que a grande interferência, então existente, do poder temporal na preconização dos Bispos, prejudicava gravemente a liberdade de movimentos da Santa Sé, bem como a seleção de Pastores verdadeiramente imbuídos do espírito de integral fidelidade a Roma.

Constitucionários, Apelantes, Moderados

Appolis toma como objeto de seu estudo a França do século XVIII. O Jansenismo estava em sua última fase de existência como seita (pois sobreviveu a si mesmo no espírito liberal que infesta ainda hoje muitas mentalidades e movimentos católicos). Seu grande chefe naquela época era Pasquier Quesnel, cujo livro "Réflexions morales sur le Nouveau Testament" foi, após várias peripécias, fulminado pela bula "Unigenitus" de Clemente XI (8 de setembro de 1713). Mas o Jansenismo, graças à negligência do poder secular, já tinha firmado raízes em França.

Assim, embora registrada pelo Parlamento, e aceita pela Assembléia do Clero, não obteve aquela bula papal obediência pacífica de todo o país; diante dela dividiram-se os Bispos franceses em três grupos. Uma parte acatou plenamente a palavra de Roma, e aplicou com ardor todos os dispositivos da bula; chama-os Appolis "constitucionários", em virtude de sua adesão perfeita à Constituição Apostólica. Outra parte, declaradamente jansenista, recusou submeter-se à decisão da Santa Sé, e apelou da Constituição para o futuro Concílio geral: são os "apelantes", que eram quatro em 1717, e depois foram em número de vinte. Uma terceira parte escolheu posição média, subscreveu a bula, mas nada fez para sua aplicação: são os que Appolis chama de terceira força.

A arma da 3ª força: salvar a união

A razão invocada por este último grupo de Prelados é a manutenção da paz entre as ovelhas, e da caridade com todos. Assim, não tomam partido, nem se preocupam com saber se há jansenistas em suas dioceses. Tal o Bispo de Perigueux, Mons. Pedro Clemente que, ao morrer, mereceu este elogio: "M. l’Evêque avait, jusques à sa mort même, assez contribué à notre repos; personne n’avait pris de parti (a favor ou contra a "Unigenitus") et on ne nous en avait point demandé – O Sr. Bispo tinha, inclusive até à sua morte, contribuído bastante ao nosso repouso; ninguém tomara partido (a favor ou contra a “Unigenitus”) e também não o pediram a nós" (Carta do subdelegado de Perigueux ao intendente de Bordeaux, em 25 de abril de 1719).

Mesma atitude a de vários outros Prelados: do sucessor de Mons. Pedro Clemente em Perigueux; de Mons. Dionisio Alexandre Le Blanc, da diocese de Sarlat; de Mons. Luiz-Carlos des Alrys de Rousset que mantém durante quarenta anos na sua diocese uma calmaria inexistente nos bispados vizinhos; de Mons. J. A. Phélypeaux, Bispo de Lodéve, absolutamente alheio às bulas e às declarações reais. Quando uma destas últimas em 11 de julho de 1722 impunha a aceitação do Formulário anti-jansenista a quantos recebessem ordens sacras, ou fossem providos em benefícios eclesiásticos, Mons. Phélypeaux não teve a menor dúvida em conferir ordens a muitos súbditos seus que recusaram a subscrição do formulário, como também concedeu prebendas eclesiásticas sem exigir das pessoas assim favorecidas o preenchimento desta formalidade.

Não são estes propriamente a terceira força. Sua falta de zelo e uma tintura de espírito céptico fazem deles uma porção menos digna dos cargos que ocupam. Os do terceiro partido têm atitude análoga, mas são levados não por negligencia, e sim por questão doutrinária, pelo princípio de que a paz é um valor supremo, sendo pois desejável mantê-la a todo custo, ainda quando com isto se atem os pulsos aos defensores da verdade, e se abra campo aos propagadores do erro.

Mantendo, diz Appolis, uns com os outros relações muito cordiais, formam um verdadeiro partido intermediário entre os "apelantes" e seus adversários. Sem recorrer para um futuro Concílio, e afirmando sempre sua submissão à bula de Clemente XI, estes Prelados recusam, não obstante, enfileirar-se entre os "constitucionários" inteiramente dóceis a Roma. Como os jansenistas, é por "amor da paz" e "ódio ao cisma" que eles almejam o fim das discussões. Não querem considerar os "apelantes" como suspeitos de heresia, uma vez que estes afirmam condenar as cinco proposições de Jansenio e sustentar sobre a graça a doutrina de Santo Agostinho, por cujas idéias têm eles também grande veneração. Assim, o que estes Bispos querem é simplesmente pôr uma pedra sobre a questão. "Os que sustentam este terceiro partido, pois, - conclui Appolis - aspiram restaurar a unidade na Igreja, não pela retratação dos jansenistas, mas pelo estabelecimento de uma tolerância da qual estes seriam os beneficiados".

Significativa é a este respeito a pastoral de fevereiro de 1715 de Mons. Honorato de Quiperan de Beaujeu, Bispo de Castres. Depois de protestar sua deferência para com a Santa Sé, e falar em termos comovedores "do respeito e submissão que devemos a Cefas", declara ele que pretende manter a balança igual entre os dois grupos adversários: "Prelados respeitáveis por sua ciência e piedade julgaram dever apelar para o futuro Concílio... Outros Prelados a quem devemos não menor respeito acabam de condenar este apelo e declará-lo cismático". Por amor da paz, Mons. de Beaujeu se mantém à margem das disputas. E dá aos seus diocesanos mandamentos coerentes com este propósito. Ele só deseja, em sua diocese, a paz e a caridade: "... deixamos a outros o cuidado de esclarecer e defender a verdade, obscurecida ou atacada pelas discussões que viciam a caridade, na qual, só, queremos nos firmar e firmar-vos conosco".

Transborda particularmente sua caridade para com os "apelantes": "Sentimos grande pesar de ver nossos irmãos - e que irmãos, meu Deus! - sentimos pesar de vê-los acusados de rebelião, temos pesar de vê-los tratados como cismáticos e sabemos que eles aborrecem o cisma como o maior dos crimes. Temos pesar de vê-los acusados de heresia, sabemos que eles condenam as cinco proposições de Jansênio, e que sustentam, em matéria da graça, nada mais do que a doutrina de Santo Tomás e Santo Agostinho..."

Não é, pois, para admirar que os Bispos "apelantes" mantenham grande cordialidade com os homens do partido intermediário.

O Cardeal Fleury apóia a 3ª força

Quando o Cardeal Fleury foi chamado ao posto de Ministro de Luiz XV, e teve o encargo de prover os benefícios eclesiásticos, alegrou-se com a existência do terceiro partido. Nele via o Ministro os homens da paz, que evitariam toda perturbação no reino. De maneira que, embora desejasse a submissão a Roma, considerava mais urgente manter a tranqüilidade pública. Esta preocupação orientou toda a política eclesiástica de Fleury. Não lhe agradavam os "constitucionários". Também não apoiava abertamente os "apelantes". Suas predileções eram para os da terceira força, não obstante notar neles simpatias e tendências jansenistas. Foi nas fileiras da terceira força que Fleury recrutou os candidatos ao Episcopado, e, com a prudência que o caso pedia, foi substituindo no governo das dioceses os "constitucionários" por elementos do grupo intermediário.

Em Carcassone, no lugar de Mons. L. J. de Chateauneuf de Rochebonne, que entregara seu seminário aos jesuítas, Fleury coloca a Bazin de Bezons; em Chalons-sur-Marne a Mons. Tavannes, que proibira às Ursulinas jansenistas a recepção dos Sacramentos, sucede Choiseul Beaupré; em Mirepoix, Mons. Ch. Jo. de Quiperan de Beaujeu, sobrinho do outro Quiperan de Beaujeu já tido como cripto-jansenista, substitui ao Teatino Mons. Boyer, ardoroso "constitucionário", chamado para preceptor do Delfim; em Soissons, Mons. Fitz-James é o sucessor mediato de Mons. Languet de Gergy, outro ardente adepto da "Unigenitus".

Para que se aquilate o grau de ortodoxia destes elementos - e não foram os únicos; são apenas exemplos - basta lembrar que Fleury teve que vencer escrúpulos de consciência na nomeação de alguns deles, como Souillac, Bispo de Lodève, sobre quem pesavam suspeitas não infundadas de heresia.

É bem possível que esses rumores acerca da ortodoxia dos adeptos da paz a qualquer preço tenha sido uma das razões que lhes mereceram o apoio do Cardeal Ministro. Tornando-se o grande protetor desses Prelados tinha Fleury certeza de que, em qualquer eventualidade, a ele recorreriam, o que lhe dava praticamente a direção de toda a Igreja de França. E foi precisamente o que ocorreu.

Quando o Jansenismo derivou para os feitos miraculosos, ou mirabolantes, as convulsões, as curas, etc., todos estes Bispos abafaram os fatos, evitando qualquer ruído, seguindo docilmente as intenções de inteira calmaria do Cardeal.

A terceira força teve um momento de pânico quando, pelo falecimento do Cardeal Fleury (1743), substituiu-o na tarefa de propor à Santa Sé, em nome do Rei, os candidatos ao episcopado, o mesmo Mons. Boyer afastado de Mirepoix pelas suas idéias ardorosamente favoráveis à bula "Unigenitus". E não tivesse Mons. Boyer morrido em 1755, em breve teria a Igreja de França ficado livre de "apelantes" e intermediários, com um Episcopado inteiramente dócil às instruções de Roma. Infelizmente seus dois sucessores, primeiro o Cardeal de La Rochefoucauld, falecido em 1757, e depois Mons. Jarente de la Bruyère, Bispo de Orléans, retomaram a política de Fleury, e se tornaram responsáveis pela nomeação de muitos Prelados da terceira força.

Os cripto-jansenistas aparentam devoção e zelo apostólico

Quão útil fosse à causa jansenista este partido intermediário, é patente a quem considera as possibilidades excepcionais que tinham os Prelados a ele filiados de difundir toda uma mentalidade de inação diante do erro e da heresia: possibilidades aumentadas pelo teor de vida destes Bispos, de exterior austero, zeloso e pio, que ainda mais os recomendava.

Todos eles apresentam, de fato, caracteres mais ou menos comuns. Se nem todos são Oratorianos (a Congregação do Oratório, do Cardeal de Berulle, foi um grande baluarte do Jansenismo), quase todos fizeram seus estudos em institutos confiados aos Oratorianos. Outros são ex-alunos dos Doutrinários.

Esta origem, que poderia fazê-los suspeitos, era contrabalançada por outras qualidades capazes de influenciar poderosamente o espírito do povo. Em geral tinham alto conceito de seus deveres episcopais. Escrupulosos observadores da lei de residência, assíduos e infatigáveis nas visitas pastorais, jamais deixavam de instruir o povo em sermões e catequeses. Mons. Souillac, em 29 de novembro de 1735, permanece no púlpito durante duas horas e um quarto para encerrar a missão de Lodève.

Outro aspecto próprio a atrair a veneração do povo, eram as práticas de caridade. Mons. La Chatre, Mons. Souillac, Mons. Beauteville e Mons. Bazin de Bezons constituem herdeiros de seus bens os hospitais das respectivas sedes episcopais.

Em matéria pecuniária, mostram-se absolutamente desinteressados. Renunciam a outros benefícios, para se contentarem exclusivamente com as entradas das próprias cúrias. Severos consigo, são igualmente com o povo. Appolis taxa-os de rigoristas. O Cabido da Catedral de Alès, anunciando aos fiéis a morte de Mons. de Beauteville, salienta que "ele tinha uma opinião muito severa sobre os deveres do homem com relação a Deus, e julgava que o caminho do Céu é estreito e difícil". Mons. Souillac, nos quatro primeiros anos de seu episcopado, recusa-se a conferir ordens sacras pelo temor de enganar-se na escolha dos candidatos. Bazin de Bezons prepara-se para as ordenações com jejuns, mortificasses e orações instantes. Este mesmo Prelado é o terror de seu Clero pelo excessivo rigor nas visitas pastorais. Esta severidade é geral entre os Bispos da corrente intermédia. Levanta-se também contra os desmandos de Luiz XV, mesmo em publicações destinadas à divulgação, como instruções pastorais.

Veremos no próximo número como esses Prelados prestaram auxílio e concurso inestimável à seita jansenista.


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