Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

A Pax Clementina
Episódio trágico da guerra entre a ortodoxia e o jansenismo

no século XVII

 

 

 

 

Catolicismo Nº 26 - Fevereiro de 1953

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As fraudes dos jansenistas no pontificado de Clemente IX (20-6-1667 a 9-12-1669) tiveram por fruto a “paz” a que deram o nome do Papa: Pax Clementina. 

Em números anteriores (de agosto e setembro de 1952) "CATOLICISMO" resumiu um estudo do historiador Appolis sobre a questão jansenista na França de Luiz XV. Esse estudo punha em evidência o papel preponderante que tiveram na difusão da heresia os Bispos "moderados", a terceira força, média entre os intransigentes defensores da Bula "Unigenitus" de Clemente XI, e os "zelosos" e "edificantes" Prelados que, pura e simplesmente, recusavam a aceitação da sentença papal. Essa publicação provocou da parte de nossos leitores uma consulta sobre outro ponto da história da mesma heresia: a chamada "Pax Clementina". Como julgar essa espécie de trégua entre a ortodoxia e o cisma? - é o que desejam saber.

Por se tratar de assunto que pede desenvolvimento maior, achamos mais conveniente dar resposta em artigo, e não em "Correspondência", seção de espaço limitado.

Jansenismo e Protestantismo

O Jansenismo começou por ter pena dos protestantes: afinal, não eram tão maus assim! E, em muitos casos, não deixavam de ter lá sua razão!

Não queriam os jansenistas a heresia declarada, mas simpatizavam com ela. Na realidade, carrearam para dentro da cidadela da Fé a alma protestante, o espírito de heresia. Como os protestantes dos primeiros tempos, não se diziam contrários à Igreja, mas gostariam de que Ela fosse de outra maneira; mais ou menos como se dá hoje em dia com certos católicos maçons que se sentem injuriados quando se duvida de sua disciplina em relação à Igreja, mas não toleram os Padres. Assim os jansenistas: queriam a Igreja; lamentavam que Roma A tivesse desviado de Seu espírito autêntico! Queriam a Revelação; aborreciam o Magistério!

Conservando-se no seio da Igreja, os jansenistas nela alimentaram o tumor da heresia. Pois não há erro mais fundamental em matéria de Fé do que a rejeição do Magistério eclesiástico. Na base de todo ato de fé, está, com efeito, o Magistério infalível, de maneira que quem não sofre este Magistério, termina seguindo sua razão, seu alvedrio.

Nisto é propriamente que consiste a heresia, na rejeição do Magistério eclesiástico. Pode ela apresentar-se de modos variados - ora ferindo este, ora negando aquele dogma - no fundo, seu espírito é sempre o mesmo: seguir cada qual seus pendores, suas simpatias, em lugar de submeter humildemente sua razão à Igreja de Deus.

Não admira que, dentro da Igreja, tenha o Jansenismo dado origem àquilo que, em escala maior, registra a história do Protestantismo. Este, como é sabido, degenerou numa infinidade de seitas, como conseqüência lógica do livre exame. Na Igreja fundou o Jansenismo o que se costuma chamar de "Liberalismo católico", esse "opinionismo", ou liberdade para cada um de pensar como quer, pois tudo são opiniões e, diante da opinião, todo mundo é livre. 

Espírito Fraudulento

Para conservar-se, apesar de tudo isso, no grêmio da Igreja, adotaram os jansenistas o método da chicana. Aliás, é uma das características desta seita a prodigiosa fecundidade de seu cinismo. Produziu ela todas as fraudes que se foram tornando oportunas no decurso de sua longa existência, a fim de evitar quanto possível as penas da Igreja. Começou com o "comma pianum" dos baianistas [seguidores de Miguel Baio, o qual teve 79 proposições de seus escritos condenadas em 1567 pelo Papa São Pio V, n.d.c.], precursores que lhe transmitiram, com a heresia, o espírito fraudulento. Dos muitos documentos eclesiásticos com que foram condenados, os jansenistas não rejeitaram abertamente nenhum, nem houve um só que aceitassem com inteira, sincera e absoluta submissão. Ora era a obediência externa, um silêncio obsequioso, explicado de maneira suficientemente astuta para que se percebesse sua velada perseverança no mesmo erro; ora eram as preocupações de paz: em nome da caridade, no interesse da união dos espíritos, desejavam que se lançasse o silêncio sobre os pontos mais vivos das acusações que lhes faziam os ortodoxos, o que queria dizer, campo mais livre para a difusão de seu sistema; ora procuravam extenuar o vigor e a eficácia das condenações pontifícias por meio das distinções a que submetiam irreverentemente os documentos da Santa Sé; ora, com a veemência, a intriga, ou a sátira, tentavam estraçalhar os escritores e homens de ação que eram baluartes da ortodoxia; ora buscavam atrair a simpatia dos melhores pelo zelo ardente que afetavam no amanho da vinha do Senhor; por vezes, aparentavam inocência e ingenuidade: como?! tais erros?! mas nunca os vimos professados! e era um meio de desfigurar a importância da controvérsia atirando sobre seus adversários a pecha de caluniadores.

Todos estes ardis e outros mais tinham um só fim: inutilizar todo o esforço do Magistério para conservar a integridade da Fé no seio da Igreja.

A chamada "Pax Clementina" é um dos episódios dessa luta pertinaz da heterodoxia jansenista para se manter dentro da Igreja. Ocorreu na segunda metade do século XVII, sob o pontificado de Clemente IX, e teve como protagonistas o Núncio em Paris, Mons. Nicolau Bargellini, o ministro de Luiz XIV, Lionne, e os Bispos de Alet, Bauvais, Angers e Pamiers, especialmente o primeiro, Mons. Pavillon. 

         

À esquerda, Hugues de Lionne (1611-1671), ministro de Luiz XIV e à direita, Mons. Nicolas Pavillon (1597-1677), bispo de Alet. Ambos, protagonistas da “pax Clementina”

A Distinção entre o Direito e o Fato

O Jansenismo já havia sido condenado pelos Papas Urbano VIII, Inocêncio X e Alexandre VII, sem que se lograsse a submissão completa dos hereges ou seu lançamento fora da Igreja.

Inocêncio X condenara, através da bula "Cum occasione" de 9 de junho de 1653, as cinco proposições que a Assembléia Geral do Clero francês lhe apresentara como contendo os principais pontos da doutrina sustentada no "Augustinus" de Jansênio.

Para salvar seu mestre e sua doutrina, excogitaram então os fautores da heresia a famosa distinção entre a questão de fato e a questão de direito. Quanto ao direito de resolver se as cinco proposições eram heréticas - o Papa tinha plena autoridade, era infalível; mas quanto ao fato - decidir se tais proposições eram sustentadas no livro de Jansênio, e nele tinham sentido heterodoxo - o Papa não gozava de infalibilidade, e não podia exigir submissão interna.

Não é preciso dizer que, a ser admitida, esta distinção tirava todo o vigor à condenação pontifícia. Pois poderiam os jansenistas simular aceitar as decisões de Roma e, ao mesmo tempo, continuar a seguir os ensinamentos de Jansênio. Para fechar esta escapatória Inocêncio X, em breve de 29 de setembro de 1654, declarou "ter condenado nas cinco proposições a doutrina de Cornélio Jansênio contida em seu livro intitulado Augustinus".

Como, não obstante, os jansenistas continuassem fazendo largo uso do mesmo subterfúgio, Alexandre VII, a pedido de Luiz XIV, em 15 de fevereiro de 1665 enviou à França uma constituição que obrigava os Bispos e clérigos a aceitar um formulário anti-jansenista, no qual o signatário declarava admitir as constituições que antes já haviam condenado o Jansenismo, explicitamente rejeitava as cinco proposições e reconhecia que eram de Jansênio e se encontravam no seu "Augustinus".

A Revolta dos Quatro Bispos

Nicolas Pavillon, Bispo de Alet publicou em 1° de junho de 1665 o Formulário de Alexandre VII, mas de seus súditos só exigiu ato de fé para a questão de direito: na questão de fato, que se contentassem em manter um silêncio obsequioso. Imitaram-no os Bispos de Beauvais, de Angers, e de Pamiers. Persistiam, assim, esses Prelados na revolta contra Roma que já tinham manifestado através de pastorais anteriores à constituição de 15 de fevereiro.

Este último documento pontifício cogitava da punição dos recalcitrantes, mas só depois de processo canônico. Rei e Cúria Romana concordaram quanto à necessidade de agir contra os quatro rebeldes. As suscetibilidades galicanas, porém, com uma série de incidentes, procrastinaram a adoção de quaisquer medidas, até que sobreveio a morte de Alexandre VII e a ascensão ao trono papal de Julio Rospigliosi, que tomou o nome de Clemente IX.

Clemente IX era um Papa que o governo francês, embora sem fundamento, considerava criatura própria. Luiz XIV julgou, pois, oportuno o momento para liquidar com a agitação jansenista no país. Nesse sentido, pediu ao Santo Padre a confirmação dos breves que Alexandre VII publicara contra os quatro rebeldes. Clemente IX prometeu-a, e nomeou uma Comissão para tratar do caso jansenista. Constituíram-na os Cardeais Ginetti, Ottoboni, Borromeo, Albizzi, Chigi, Piccolomini, Rasponi, Rospigliosi, Azzolini e Celsi.

Progressos do Jansenismo

Entretanto, o Jansenismo ganhava terreno em França.

A Duquesa de Longueville, princesa do sangue real, colocara ao serviço da seita o prestígio e a influência de seu nome, bem como a tenacidade e a combatividade que a caracterizavam. Talvez se deva ao seu influxo o fato de dezenove Prelados, tendo à frente o Arcebispo de Sens e o Bispo de Chalons, endereçarem ao Papa uma mensagem francamente favorável aos quatro rebeldes. Documento fraco em si mesmo, contribuiu para piorar a situação, pois na realidade era uma defesa do ponto de vista dos insubmissos. Os jansenistas deram-lhe larga difusão.

Por esse tempo, divulgou-se uma circular endereçada a todo o Episcopado francês em nome dos quatro Prelados rebeldes. É uma carta revolucionária, uma verrina contra o Papa, na qual se afirma que a Santa Sé vilipendiara a dignidade pessoal do Bispo de Alet e seus companheiros e violara, no seu modo de agir contra eles, os princípios mais elementares da equidade natural.

De maneira geral, a situação da causa da ortodoxia não era lisonjeira. Embora a Corte lhes fosse infensa, tinham os jansenistas o apoio dos ministros, de bom número de damas influentes da nobreza e até de princesas da Família real. Alem disso, enfraquecera sensivelmente a reação da Sorbonne contra o Jansenismo; o galicismo dominante dificultava as atitudes decididas em favor da Santa Sé, tanto assim que a censura oficial deixava livre o campo aos escritos jansenistas que incitavam à desobediência a Roma; a dissolução do antigo Conselho de Consciência transferira aos ministros de Estado e às simpatias de certas damas da nobreza a delicadíssima tarefa de indicar os novos Bispos; por fim, não contava a ortodoxia com o apoio dos Religiosos, exceto os Jesuítas.

A Missão de Bargellini

Considerando bem todos estes fatos, Roma achou mais prudente não insistir muito sobre a aplicação literal dos breves anti-jansenistas, mas contentar-se apenas com o estritamente indispensável.

Foi a incumbência que levou a Paris o novo Núncio, Mons. Nicolau Bargellini, homem insignificante, ingênuo e tímido, na apreciação de Pastor (muito famoso historiador, n.d.c.), cuja nomeação fora obtida da Secretaria de Estado por Lionne, então ministro dos Negócios estrangeiros de Luiz XIV.

Segundo as instruções da Santa Sé, Bargellini deveria procurar a execução do breve contra os quatro Bispos, mas, uma vez que estes se mostrassem sinceramente dispostos a subscrevê-lo, não deveria exigir uma retratação. A aceitação do breve deveria ser sincera, pura e simples, sem qualquer observação que pudesse dar margem a dúvidas.

Em França, porém, já se encaminhava uma conciliação sem levar em conta as intenções de Roma.

A Corte antecipa-se à Cúria

Luiz XIV recusou a carta dos dezenove Bispos. Vialart, Bispo de Châlons, o mais velho deles, manifestou ao Rei o desagrado de todos, e o monarca o encaminhou ao ministro Le Tellier, filo-jansenista. Concordaram o ministro e o Prelado em que da parte de Pavillon e seus três seguidores não tinha havido mais do que imprudência, dando publicidade ao que também outros afirmavam em escritos não destinados à imprensa. O problema consistia, pois, apenas em encontrar uma saída honrosa para ambas as partes - a Corte e os quatro. Le Tellier informou que, satisfeito o Papa, o Rei se acomodaria.

Não foi difícil convencer Mons. Bargellini de que uma solução que restituísse a paz à Igreja na França seria o que de mais honroso se poderia desejar para o Papa e para o Núncio. Passou-se às tratativas nesse sentido, mas no mais absoluto segredo em relação aos Jesuítas e ao Arcebispo de Paris, considerado filo-jesuíta. Essa condição fora imposta por Gondrin, Arcebispo de Sens, e Bargellini teve a ingenuidade de aceitá-la. Ao Mesmo tempo, sem o conhecimento do Núncio, realizavam-se “démarches” [tratativas] junto aos quatro insubmissos para levá-los a uma certa condescendência.

De todos, o que se mostrou mais difícil foi Pavillon. Choiseul de Comminges, encarregado por Vialart desta empresa, explicou a Pavillon que não se tratava - de uma retratação de sua pastoral, senão apenas de subscrever novamente o breve de Alexandre VII, o que poderia ser precedido por uma declaração secreta que explicasse o verdadeiro sentido da subscrição. Depois se escreveria uma carta ao Papa, sem nada de desagradável aos Bispos, tão somente com afirmações genéricas de respeito e submissão. Pavillon, todavia, temia cair em alguma armadilha.

Quando afinal todos, sob as condições referidas, consentiram em subscrever o breve papal, chegou a vez de convencer o Núncio. Encarregou-se de abordá-lo o próprio Lionne, cuja argumentação venceu depressa homem tão tímido.

Bargellini deu contas a Roma do estado da questão: os Bispos subscreverão sinceramente o formulário de Alexandre VII, e enviarão uma carta ao Papa. Sugeria ele, não obstante, que, para melhor ressalvar o prestígio da Santa Sé, isso se fizesse somente depois que a Comissão de Bispos franceses instituída pelo Papa para julgar os quatro rebeldes, os tivesse citado em juízo.

Era precisamente o que os jansenistas e filo-jansenistas queriam evitar. Por isso Le Tellier julgou oportuno apressar a redação da carta de submissão dos Bispos.

"Aceitação sincera, pura e simples do formulário"

Pavillon reservara para si e seus três companheiros a escolha dos termos dessa falaciosa demonstração de obediência. Como porém se achava em Paris o chefe do Partido, M. d'Arnauld, chamado o grande Arnauld, o ministro Le Tellier julgou conveniente servir-se das aptidões excepcionais que ele sempre revelara para redigir documentos passíveis de dupla interpretação. Realmente a carta saiu uma obra prima do gênero: do começo ao fim, era ela um tecido de ambigüidades, de maneira que poderia ser considerada uma verdadeira zombaria lançada à face do Santo Padre, com ares entretanto de respeitosa submissão.

Entrementes Bargellini era informado de que Roma se satisfazia com [o] compromisso, desde que a aceitação do Formulário fosse sincera. Quando, pois, lhe foi apresentada a minuta da carta, na qual pôde introduzir algumas modificações, e se capacitou de que obteria a assinatura dos quatro Bispos revoltosos assegurou por seu turno que Clemente IX ficaria satisfeito, e, sem autorização prévia, subscreveu a minuta em nome do Papa (fato que aos próprios jansenistas encheu de espanto).

Tudo parecia composto e arranjado, quando surge a perturbar essa negociação levada a efeito com tanto cuidado, segredo e malícia, a teimosia de Pavillon. Nada no mundo parecia capaz de extorquir do Bispo de Alet sua assinatura à minuta que lhe apresentavam. Nem mesmo a palavra do Arcebispo Gondrin que lhe mostrava como esse compromisso concedia de fato plena liberdade aos "assim chamados" jansenistas e constituía o mais grave golpe no "partido jesuíta". Enfim, depois de um mês de resistência pertinaz, Pavillon assinou a carta ao Papa.

Com isso, Bargellini encheu-se de alegria, declarou que o processo dos rebeldes estava acabado, e dissolveu a Comissão pontifícia incumbida de julgá-los. Logo, porém, começa a ter seus escrúpulos. Não enviou o original da carta a Roma, a fim de que o Papa tivesse liberdade de recusá-la. Numa discussão que teve com Gondrin e Vialart, chegou mesmo a cortar a carta de alto a baixo com uma faca. Infelizmente tais escrúpulos e dúvidas de consciência depressa se desvaneceram, tranqüilizando-se inteiramente o Núncio com as promessas de seus amigos filo-jansenistas.

Os quatro Bispos deram então execução ao que haviam prometido, com lealdade bem jansenista. Antes da subscrição do Formulário convocaram sínodos mais ou menos clandestinos, o comparecimento de reduzido número de clérigos, e fizeram uma declaração, que deveria permanecer secreta, na qual cada um deles afirmava em suma três coisas: que condenava as cinco proposições fulminadas por Inocêncio X; que mantinha a doutrina de S. Agostinho e S. Tomás sobre a graça eficaz por si mesma; que se obrigava, com relação à "questão de fato", apenas a uma submissão de reverência.

Roma ainda nada havia decidido, e já se embandeiravam os jansenistas para celebrar a festa da reconciliação. Arnauld, antes proscrito e errando de esconderijo em esconderijo, era recebido pelo Núncio e pelo Rei, e de ambos ouvia conselhos para melhor uso de seu talento no futuro. Por outro lado, tal foi a quantidade de felicitações apresentadas a Bargellini que este de novo começou a temer; e quando recebeu congratulações de praticamente todas as Ordens e Congregações Religiosas com casa em Paris, excetuados os Jesuítas, veio-lhe ao espírito a dúvida: talvez tivesse o Jansenismo deitado raízes mais fortes do que ele imaginava. Assim, o Núncio ficou profundamente receoso de ter traído sua missão encerrando uma questão importantíssima com ganho de causa para os inimigos da ortodoxia.

Dúvidas de Roma

Em Roma, além da carta dos quatro Bispos, chegaram outras demonstrações de que estes haviam subscrito o Formulário sem reserva alguma e com toda a sinceridade, e se tornado modelos de obediência. Nada disso, porém, conseguia dissipar as dúvidas da Comissão Cardinalícia. A carta dos Bispos fora enviada apenas em cópia, não havia documento algum que pudesse servir de testemunho certo de que os quatros rebeldes haviam aceito sinceramente o Formulário. Além do mais, o Cardeal Rospigliosi recebeu um despacho em que Lionne insinuava com suficiente clareza, que Bargellini havia ultrapassado as instruções recebidas da Santa Sé, mas que já não era possível a esta voltar atrás. Talvez, prosseguia o ministro, fosse oportuno o Papa responder aos quatro, a fim de não parecer que não tinha ficado satisfeito; que Sua Santidade ordenasse o mais absoluto silêncio sobre toda a questão para impedir novas polêmicas; que não fosse divulgada a famigerada carta de submissão.

Reunida para tomar conhecimento das relações e documentos recebidos, a Comissão Cardinalícia resolveu: 1) pedir o original da carta dirigida pelos quatro Bispos ao Papa, bem como as cartas dos mesmos ao Núncio; 2) que este enviasse a Roma um documento autentico da aceitação do Formulário por parte dos quatro, o qual servisse de testemunho para o futuro; 3) que Bargellini atendesse ao pedido de silêncio que fizera o ministro. Clemente IX, por sua vez, respondeu a Luiz XIV congratulando-se pela adesão sincera e incondicionada de Pavillon e seus companheiros ao breve de Alexandre VII e exortando o Rei a interpor sua autoridade, caso fosse necessário algum complemento.

A publicação desta resposta desagradou os jansenistas.

E mais ainda uma ordenação do Conselho real de 23 de outubro de 1668, na qual se dizia que o Papa estava satisfeito pela obediência prestada pelos quatro Bispos às constituições de Inocêncio X e Alexandre VII; e que, como sua Santidade o exortava a combater com a autoridade real as discórdias conexas com a condenação do livro de Jansênio, o Rei mandava que se observassem as citadas constituições e proibia aos vários partidos aplicar aos adversários as expressões "herético",  "jansenista", ou publicar escritos sobre a controvérsia, ou ainda fazer alusões ofensivas contra os que haviam subscrito o Formulário.

Novas Mistificações Jansenistas

Lionne, no entanto, tinha como espinha atravessada na garganta, a obrigação de conseguir os documentos autênticos da sincera adesão dos Bispos ao Formulário. Nem se poderia pensar em abordar Mons. Pavillon para obter uma coisa destas. Mas Lionne encontrou outra saída. Entre seus papéis encontrou umas folhas em branco com a assinatura dos quatro rebeldes. Não pestanejou: ele mesmo redigiu nessas folhas uma declaração de aceitação sincera e leal, "em conformidade com a carta", do Formulário anti-jansenista. Depois, prevendo futuras complicações, em despacho a Roma, exortou o Cardeal Rospigliosi a que não publicasse estas declarações e esclareceu que a clausura "em conformidade com a carta" não continha nenhuma restrição, pois visava apenas relacionar um documento com o outro. Na resposta aos Bispos, acrescenta o ministro, fale o Papa de aceitação "sincera", não porém "incondicional" porque se trata de pessoas difíceis, sobretudo Pavillon, e qualquer excitação de suscetibilidades poderia destruir uma obra construída com enorme trabalho.

Os boatos, porém, e mesmo certos documentos, como o de alguns Cônegos de Pamiers, certificavam Roma de que a aceitação do Formulário não tinha sido sincera mas, muito pelo contrário, condicionada. A Comissão Cardinalícia pediu, pois, a Bargellini que providenciasse os documentos necessários para dissipar quaisquer dúvidas. As declarações enviadas por Lionne não bastavam.

Lionne conseguiu ainda uma vez um testemunho de Vialart sobre a sinceridade dos quatro rebeldes, que era, como os demais, um tecido de ambigüidades. Não obstante, o novo documento do Bispo de Chalons valorizou-se muito porque obteve também a assinatura de Arnauld, que, para o efeito que se tinha em vista, pesava mais do que a dos quatro rebeldes juntos. Encaminhando a Roma esta declaração de Vialart, Lionne salientou que no pé em que estavam as coisas, a não aceitação da carta de submissão dos quatro Prelados poderia conduzir a um Concílio Nacional de orientação galicana. Por sua vez o Bispo Harlay assegurava a Roma que jamais os jansenistas tinham chegado a tão imensas concessões.

A Paz e seus amargos frutos

Foi instruída por esses documentos que a Comissão Cardinalícia se reuniu para responder ao quesito: cumpriram os quatro Bispos o seu dever? Questão espinhosa; de fato só teve duas respostas negativas, dos Cardeais Albizzi e Celsi. Os demais, com uma ou outra observação, foram de opinião que se expedisse um breve para declarar que Nicolas Pavillon e seus companheiros haviam assinado o Formulário sem acréscimos ou restrições.

Quando a minuta desse breve foi submetida à aprovação dos Cardeais, Albizzi ainda uma vez insistiu sobre seu voto. Queria ele que se publicasse uma nova constituição reproduzindo as condenações de Inocêncio X e Alexandre VII. Ponderou todos os argumentos que punham em evidência a deslealdade dos quatro Bispos, e terminou seu parecer com estas memoráveis palavras: "Rogo que se dê ao Papa leitura integral deste meu parecer; estarei então tranqüilo por ter cumprido o dever que me incumbe como Cardeal da Santa Igreja. E penso que Sua Santidade poderia, até certo ponto, ter maior confiança em mim do que em outros, porque toda a questão jansenista passou por minhas mãos nas suas origens e no seu desenvolvimento, e não posso suportar que se queira dar a entender ao mundo que esta heresia está aniquilada, quando ela se mostra, no seu suposto aniquilamento, mais rejuvenescida do que nunca".

Tinha razão Albizzi. Aos altissonantes elogios que os jansenistas teceram ao breve da pacificação, contrapunha-se a mais profunda consternação dos bons, objeto das zombarias dos hereges triunfantes. "A benevolência com o filho pródigo, dizia então o Bispo de Lombez, não deve vir a ser nociva para o irmão mais velho que jamais abandonou o Pai". E outros, como o Bispo de Abelly de Rodez, pediam à Santa Sé informações mais particulares sobre a paz, visto que corria de boca em boca que o Papa havia aprovado a atitude dos Bispos rebeldes e abrogado as constituições de seus Predecessores. A todos esses pedidos Clemente IX respondia confirmando as decisões de Inocêncio X e Alexandre VII, e jamais dispensou a assinatura do Formulário anti-jansenista. Mas, na atmosfera de paz criada e mantida pelo governo real, os jansenistas triunfaram. Com grande pesar do Soberano Pontífice, tiveram a audácia de apelidar de "Pax Clementina" o término da questão, como se fora um tratado de paz entre duas potências iguais e soberanas. No mesmo sentido cunharam uma medalha com a inscrição "Graça e paz de Deus" e "Como lembrança do restabelecimento da paz na Igreja".

"A tranqüilidade, portanto - como bem nota Pastor -, era aparente e enganosa. Foi precisamente então que se consolidou o apego à seita, graças às concessões obtidas". Em uma relação do estado religioso deste tempo lêem-se as seguintes observações: "Levantaram-se dúvidas sobre as decisões de Alexandre VII, e propagou-se a idéia de que o jansenismo não passava de imaginação dos Jesuítas, e se no começo fora alguma coisa, já não o era mais, e seria mesmo totalmente destruído pelo tempo desde que sobre ele se fizesse completo silêncio. Graças a este silêncio, porém, o Jansenismo vive, toma vigor e cresce dia a dia."

Aliás, o comentário que da chamada "Pax Clementina" faziam os jansenistas dizia bastante da sua audácia e de sua liberdade de movimentos: "Sem que movêssemos uma palha, ontem à noite nos deitamos hereges e excomungados, e hoje nos levantamos novamente católicos".

Toda esta dolorosa história mostra como não se deve jamais confiar nos inimigos da Fé e da Santa Igreja. Mostra também que, sem espírito de luta e de intransigência, facilmente o homem cede nos princípios ainda que com gravíssimo prejuízo para as almas. No fundo, Bargellini traiu sua missão porque preferiu as facilidades no trato com o governo francês às instruções que recebia de Roma. Nada, de resto, lucrou com isso, pois afastado da Nunciatura de Paris foi por algum tempo vice-legado em Avinhão, para depois passar nada menos de vinte e cinco anos sem honras, sem cargos e votado ao desprezo pelos próprios jansenistas. Sua obra, porém, ficou, para grave dano da Igreja.

Impressionante exemplo de quanto pode ser funesto o oportunismo e o exagerado espírito de acomodação.

Nota: Os negritos são deste site.


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