Plinio Corrêa de Oliveira

AMBIENTES, COSTUMES, CIVILIZAÇÕES

 

A ERA DA TÉCNICA E A DA "DOUCEUR DE VIVRE"

 

"Catolicismo" Nº 29 - Maio de 1953

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Transeuntes numa cidade de nossos dias. Fotografia de um grupo de populares que esperam a permissão de passar numa esquina de Louisville, EEUU. Grupos como estes se vêm em todo o mundo contemporâneo: pessoas dos sois sexos, das mais variadas idades e condições sociais, formando aglomerados maiores ou menores, à espera de um sinal luminoso, de um veículo, da abertura de uma repartição ou escritório, etc. Em suma, é um dos aspectos mais comuns da vida quotidiana.

Por isto, a fotografia se presta a uma pergunta: neste quadro, do qual tão freqüentemente nós mesmos fazemos parte, qual a atmosfera moral? Há despreocupação, bem estar, alegria: há, em uma palavra, aquilo que Talleyrand chamava a "douceur de vivre"?

A resposta é forçosamente negativa. Dir-se-ia que cada um traz dentro de si um horizonte de brumas pesadas e cor de chumbo. Ninguém presta atenção no vizinho, ou em qualquer coisa que lhe esteja diante dos olhos. Todos - até crianças - fitam preocupadamente um ponto que está pairando menos no ar do que na mente de cada qual. São os problemas da vida quotidiana incerta, dura, difícil, que as condições do mundo contemporâneo impõem a cada um. Por isto, a atitude psíquica de quase todos é de quem está andando de encontro a um problema. E, com efeito, o que não é problema em nossos dias?

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A vida moderna é sombria e nervosa. Seus prazeres são desordenados, frenéticos, fatigantes e fugazes. São em via de regra momentos passageiros numa existência feita de luta áspera, de preocupação constante, de uma tensão que sentimos até dormindo. Entretanto, o homem parece não ter sido jamais tão sôfrego de prazeres. Como explicar isto?

Pode-se dizer da alegria o que S. Bernardo dizia da glória, que é como uma sombra: se corremos atrás dela, foge-nos; e se dela fugimos, corre-nos atrás. Não há verdadeira alegria a não ser em Nosso Senhor Jesus Cristo, isto é, à sombra da Cruz. Quanto mais o homem é mortificado, tanto mais alegre. Quanto mais procura os prazeres, tanto mais é triste.

Por isto, nos séculos de apogeu da civilização cristã, ele era alegre: basta pensar na Idade Média. E quanto mais se vai "descatolicizando", tanto mais vai ficando tristonho.

De geração em geração, esta mudança vai se acentuando. O homem do século XIX, por exemplo, não tinha mais a deliciosa "douceur de vivre" do homem do século XVIII. Entretanto, como era ainda mais rico em paz e bem estar interior que o de hoje!

Quantos de nossos leitores se lembrarão da fartura, da tranqüilidade, da cordialidade de relações, da amenidade de vida que caracterizava o ambiente brasileiro ainda há vinte anos atrás. Carestia, inflação, filas, crise, quem falava nisto? E assim mesmo os velhos diziam que por volta de 1890 tudo era melhor!

Banalidade, dirá algum leitor. Todos os velhos julgam melhores os tempos de sua mocidade. E por isto o passado parece sempre melhor do que o presente.

Este fenômeno existe sem dúvida. Mas quanta superficialidade há em reduzir tudo a esta ilusão ótica.Neste sentido, a fotografia traz um concurso decisivo para a elucidação do assunto. Há inúmeras fotografias de populares de há cinqüenta anos atrás. A diferença entre seu estado de espírito e o nosso é chocante.

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Tomemos - de uma volumosa coleção - apenas um exemplo. Em Paris, por volta de 1900, proprietários e garçons de um pequeno restaurant que fornece ostras aguardam a chegada dos primeiros fregueses. Todos são calmos, sadios, normais. Os rostos estão desanuviados. Não há outros problemas para resolver senão os de uma rotina diária leve. Mas trata-se de gente integrada habitualmente em um ambiente de trabalho e vida de família, sem sonhar com grandezas alucinantes, nem prazeres extasiantes, nem catástrofes aterrorizantes; sem correr a 150 à hora pelas estradas, sem fazer filas, sem temer a falência para o dia seguinte, nem um desastre de automóvel para daí a 15 minutos. Temperança, sobriedade, normalidade, paz, equilíbrio, valores de alma inestimáveis que o neopaganismo está acabando da eliminar da face da terra!