Catolicismo Nº 186 - Junho de 1966
AMBIENTES, COSTUMES, CIVILIZAÇÕES
Igualitarismo estúpido
A agência "Nova China" noticiou que 160 mil literatos e artistas chineses trabalharam em fábricas e no campo durante o ano de 1965. O órgão oficial do Partido Comunista daquele país, "Diário do Povo", escreveu a esse respeito que o trabalho físico é o único meio de bolchevizar efetivamente os escritores e artistas.
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Nosso primeiro clichê reproduz uma antiga pintura chinesa,
que nos mostra, em um suave bosque de bambus esguios e delicados, duas jovens
sentadas sobre uma esteira. Rodeadas dos objetos frágeis, leves e de bom gosto
que eram usados habitualmente em todas as classes sociais da velha China —
ventarola, potiche com planta, chaleira, árvore anã — elas conversam na
intimidade de uma inteira consonância de alma e coração. Enquanto desse modo
deixam correr o tempo, distraem-se brincando com três gatinhos. É assim
representado com finura, penetração e sensibilidade, um aspecto da vida
tranqüila e meditativa da China imperial.
Desse estilo brotou, como a flor perfumada nasce da planta, uma das culturas mais subtis, mais requintadas e mais autênticas que a História conhece.
A característica dessa cultura é, sob certo ângulo, a capacidade de engendrar e exprimir determinados matizes dos mais elevados e delicados da mente humana, bem como de discernir e representar análogos matizes existentes nos reinos animal, vegetal e mineral.
Como é óbvio, essa maravilhosa aptidão da China antiga resultava em larga medida de dois fatores: a vida serena que permitia uma longa e meditada observação do homem e das coisas, e a ação de presença dos mil monumentos e objetos de arte daí provenientes, os quais inspiravam possantemente a produção de novas obras-primas.
Em outros termos, o talento, expandindo-se no lazer contemplativo, multiplicava as obras de arte, as quais, numa ação recíproca feliz, por sua vez estimulavam o talento.
Ninguém pode duvidar de que nenhum fator seria mais oposto a uma produção cultural de tal quilate, do que o trabalho físico rude, avassalador e exaustivo, o trabalho de escravos — pois outro nome não merece — executado nas imensas senzalas industriais e agrícolas do mundo comunista.
O
segundo clichê desta página apresenta um dos infelizes condenados a esse tipo
de trabalho. É um camponês a labutar na água e na lama do imenso arrozal de
uma "comuna" próxima de Kwuelin, na parte meridional da China. Como
esperar que suas condições de vida lhe inspirem à mente as concepções
maravilhosas da cultura chinesa, ou preparem suas mãos para as obras
delicadíssimas em que o artesanato chinês se tornou célebre?
Assim, é manifesto que encaminhando para o campo os artistas e literatos, o comunismo, movido pelo mais estúpido igualitarismo, faz uma obra de extinção cultural que, levada às suas ultimas conseqüências, acarretará a barbarização da China.
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Mas, dirá alguém, não têm todos o mesmo direito à cultura? e, se esta não pode ser dada a todos, não é justo que os intelectuais, deixando sua vida de lazeres meditativos, participem efetivamente do trabalho, ajudando a produção material?
A aceitar os princípios contidos nesta pergunta, deveria desaparecer da terra a cultura, para que houvesse maior produção de nabos, tomates e cebolas. E os que assim pensam imaginam que por esta forma a humanidade seria mais feliz.
Pensar assim é incluir-se entre aqueles homens de que fala o Apóstolo, "quorum deus venter est" ( Filip. 3,19 ): que têm por deus o próprio ventre.
Deles disse Claudel que, se pudessem, transformariam as estrelas em batatas para que os homens as comessem.