HISTÓRIA DA CIVILIZAÇÃO

 

 

VIII

A CIVILIZAÇÃO NA PRIMITIVA GRÉCIA

 

Os gregos se supunham autóctones, isto é, originários da própria Grécia. Ignorando a história de suas verdadeiras origens, afirmavam eles que o primeiro homem havia sido formado com argila pelo gigante Prometeu, que animou sua criatura com o fogo roubado a Zeus. Indignado, este acorrentou Prometeu no alto do Cáucaso, onde um abutre lhe deveria dilacerar constantemente o flanco. Depois, tentou Zeus aniquilar a obra de Prometeu, destruindo o gênero humano por meio de um dilúvio. Mas Deucalião, filho de Prometeu, conseguiu salvar-se da inundação servindo-se de um barco. Quando as águas baixaram, Deucalião povoou a terra atirando pedras por cima de seu próprio ombro. De cada uma destas pedras nascia um homem. Um destes homens foi Hélen, que teve dois filhos, Doros e Eólos, e dois netos, Íon e Aqueons. Destes descendem os quatro grandes grupos de gregos: dórios, eólios, jônios, e aqueus.

Evidentemente, esta lenda, de caráter exclusivamente mitológico, só oferece interesse histórico por trazer mais uma confirmação à tradição bíblica do dilúvio, tão generalizada nos povos antigos. Mas ela nada nos ensina de positivo sobre as origens do povo grego, que incontestavelmente não é originário da própria Grécia, mas provém de outros povos que se estabeleceram na Grécia, provenientes da Ásia ou, talvez, da própria Europa.

Há certas lendas gregas antiqüíssimas que confirmam a persuasão de que, além dos antepassados dos gregos, a Grécia também teve muito antigamente, como habitantes, colonos procedentes de outros países, pertencentes quiçá a outras raças. Tebas teria como fundador um fenício. Atenas, segundo a tradição, teria sido fundada por um egípcio. Argos também teria sido fundada por um egípcio. E o Peloponeso devia seu nome a outro estrangeiro, Pélops, filho do rei da Lídia, país da Ásia Menor.

Os gregos davam o nome de pelasgos aos primeiros habitantes da Grécia. Certos historiadores afirmam que os helenos — isto é, os gregos — não eram senão uma tribo de pelasgos. Outros, pelo contrário, afirmam que os gregos e pelasgos eram povos diferentes. Segundo certos historiadores, os pelasgos teriam sido celtas ou fenícios. Quanto aos helenos, há quem os suponha provenientes da Ásia e aparentados com os persas, enquanto outros afirmam que eles provêm do norte da Europa, fazendo parte da grande invasão da Europa pelos povos arianos.

Quando estudarmos as crenças e instituições do povo helênico, voltaremos à história primitiva da Grécia. Vejamos agora as civilizações pré-helênicas, de acordo com descobertas recentes.

Civilizações pré-helênicas

Os primeiros povos que habitaram a Grécia construíram cidades circundadas de muros, compostos de enormes blocos de pedra. A mais famosa delas foi Mecenas. Uma das pedras murais encontradas em Mecenas pesa cerca de 120 toneladas. Impressionados pelas proporções destas pedras, que só podiam ser transportadas e utilizadas para construção por um povo de musculatura verdadeiramente descomunal, os gregos afirmavam que tais cidades haviam sido construídas por uma raça de gigantes, os cíclopes.

Exploradas em 1876 por um alemão, Schliemann, estas ruínas permitiram até certo ponto o conhecimento da civilização de Mecenas. A cidade se compunha, como Atenas, de duas partes: 1) a parte alta ou Necrópole, fortificada com dois muros; 2) a cidade baixa, fortificada com um muro só. Nas sepulturas escavadas, foi possível encontrar grande número de diademas, jóias e armas muito ricas, o que leva a crer que tais sepulturas servissem a reis. O estudo do tipo racial dos habitantes de Mecenas foi possível pelo exame de máscaras de ouro com que se recobria o cadáver, e que tomavam exatamente os traços do rosto.

Não se limitando a explorar Mecenas, Schliemann escavou o templo de Vênus em Cítara e o túmulo dos atenienses mortos em Maratona. Sobretudo, dedicou-se à exploração das ruínas de Tróia.

As escavações de Schliemann, bem como outras posteriores, atestam que Mecenas e outras cidades pré-helênicas pertencem a uma civilização chamada miceniana, que floresceu na Grécia Oriental, as ilhas do litoral grego, Creta e parte da Ásia Menor. Os monumentos característicos dessa civilização são muros de grandes proporções, sepulturas com grandes cúpulas, etc. Os muros eram tão grossos que, em certos pontos, chegavam a atingir 14 metros de espessura. Tanto as cidades quanto os monumentos tinham entre si tal semelhança, que atestam uma grande unidade de arte e de cultura.

Além desta civilização pré-helênica, assim chamada por ter precedido a formação da civilização helênica propriamente dita, outras civilizações tiveram influência sobre a Grécia pré-helênica, através de colônias estrangeiras estabelecidas na Grécia. Neste sentido, é de se notar a influência do Egito e da Fenícia na Grécia, influência esta exercida por meio das colônias fenícias, que se encontravam com grande freqüência no litoral grego.

As descobertas relativamente recentes de Schliemann e de outros pesquisadores, tanto na Grécia quanto em Creta, não puderam desvendar inteiramente os mistérios da civilização miceniana, a respeito da qual ainda resta muito a estudar.

História da primitiva Grécia

Entre o período pré-histórico da Grécia e de Roma, e os primeiros acontecimentos propriamente históricos, situa-se um largo trecho de história lendária.

Os gregos se supunham autóctones, isto é, nascidos no próprio solo. Seu orgulho nacional se lisonjeava em repudiar assim qualquer parentesco com os povos antigos. Entretanto, os historiadores modernos rejeitam evidentemente essa hipótese, e adotam opiniões diversas sobre o assunto.

Para alguns, os gregos e romanos descendem de um ramo ariano que, proveniente da Ásia, permaneceu estacionado por muito tempo ao norte do Adriático, de onde se bifurcou invadindo a península Itálica e Grega. Outros supõem que os gregos descendem de populações provenientes da Ásia, quiçá de diversas origens, e que teriam se fundido, constituindo as populações pré-helênicas.

O que é certo é que as narrativas lendárias, principalmente as de Homero, contêm uma importante parcela de verdade ao lado das lendas mitológicas absurdas, o que se prova pelo estudo das recentes descobertas efetuadas sobre isso.

Recentes descobertas - Vieram comprovar em grande parte a veracidade das narrativas clássicas, e ao mesmo tempo a existência, na Grécia e na Ásia Menor, de uma civilização florescentíssima, que sob o ponto de vista cultural fazia prenunciar a civilização helênica, e sob o ponto de vista racial mostrou o estreito parentesco do povo grego com os povos que a fizeram.

Schliemann foi a figura mais notável neste terreno de recentes descobertas históricas. Criado na sua infância com a narrativa das lendas clássicas da Grécia antiga, concebeu ele o projeto de encontrar, quando adulto, as ruínas de Tróia, que se supunham perdidas. Depois de várias vicissitudes, conseguiu construir uma imensa fortuna e rumar para a Ásia Menor. No lugar em que supunha ter existido a antiga Ílion, iniciou as escavações.

Realmente encontrou nesse local as ruínas superpostas de várias cidades, uma das quais, destruída pelo incêndio, parece ter sido a Tróia de Príamo e de Heitor. Dificuldades anteriormente suscitadas pelo governo turco obrigaram-no a abandonar o lugar, depois de pesquisas de um incalculável alcance histórico.

Realizou ainda pesquisas em Creta e Mecenas. A civilização cretense revelou-se extraordinariamente desenvolvida, e, como a situação geográfica da ilha fazia prever, bastante cosmopolita, pela variedade de traços de civilizações alienígenas que nela se podem notar.

Mecenas revelou ser uma civilização muito próxima da de Tróia e Creta. Impressionou fortemente o tamanho das pedras de seus muros, uma das quais é mais pesada do que uma locomotiva. Muitos autores vêem neste fato uma relação com a antiga lenda da existência de um povo de gigantes na Grécia. Estes estudos referentes a Tróia, Creta e Mecenas revelaram a existência, na Grécia continental, nas ilhas e na Ásia Menor, de uma civilização chamada pré-helênica, pelo fato de conter em germe os principais elementos da civilização helênica que dela brotou.

Civilização helênica - A civilização helênica teve como centros principais as cidades de Atenas. Tebas e Esparta, que exerceram alternadamente a hegemonia sobre a Grécia. Esta última era politicamente organizada sob a forma de pequenos municípios absolutamente independentes uns dos outros, e ligados entre si por alianças (anfictionias). Essas anfictionias eram vastas federações de povos, ligados pelo culto de certas divindades comuns a todos eles, em honra das quais eles celebravam periodicamente seus jogos atléticos.

As cidades gregas praticavam em geral o comércio marítimo, e daí proveio a fundação, nos mais variados pontos do litoral mediterrâneo, de cidades de população inteiramente grega, chamadas colônias. Estas eram absolutamente independentes da metrópole, sob o ponto de vista político, mas tinham de adorar os deuses da metrópole, aos quais enviavam tributos periódicos, e em certos casos lhe deviam assistência militar. Eles tinham colônias fortificadas na Magna Grécia, na Ásia Menor e na Sicília.

Civilização em Atenas - Enquanto Esparta nos apresenta uma organização social caracterizada pela absorção de quase todos os direitos individuais em benefício do Estado, pelo cultivo exclusivo das virtudes militares e da cultura física, com prejuízo da formação intelectual e com inteiro sacrifício do espírito de liberdade e de independência individual, Atenas se distinguiu pelo cultivo de todas as virtudes cívicas, com prejuízo de um certo senso de disciplina que Esparta teve em excesso. Amigo da cultura intelectual, das artes e da liberdade, o Estado ateniense foi sacrificado e absorvido pelos interesses individuais e soçobrou na anarquia, que foi o excesso oposto a Esparta.

Atenas procurou realizar o ideal de uma democracia moderna de feitio liberal. Depois de várias revoluções que destruíram a velha aristocracia ali existente, fixou-se a democracia popular nas suas linhas características. Os cidadãos, todos livres e iguais, e em número de cerca de 15.000, elegiam periodicamente 6.000 funcionários públicos, todos eles temporários. Nenhuma função podia ser vitalícia ou hereditária, e nenhum cidadão podia acumular mais de uma função pública.

Todos os assuntos de importância eram tratados em grandes assembléias convocadas quase diariamente, nas quais tomavam parte todos os cidadãos. Anunciada a discussão de um assunto, dava-se a palavra aos oradores, que sustentavam prolixamente seus pontos de vista. Por fim passava-se à votação. Assim os atenienses pretendiam realizar o ideal de um governo perfeitamente popular.

Falseamento da democracia - Por dois motivos a democracia ateniense não mereceu este nome: 1) em primeiro lugar pela concepção especial que em Atenas se atribuía à palavra "povo"; 2) em segundo lugar porque as instituições democráticas sofreram a corrupção a que facilmente as democracias se prestam.

A palavra "povo" designa, na linguagem corrente, a totalidade dos habitantes de um lugar; ou, em sentido mais restrito, as classes mais inferiores da população. Quer em um sentido, quer no outro, o povo em Atenas não governava. O direito de voto era atribuído exclusivamente a uma pequena minoria, e os escravos, duas ou três vezes mais numerosos do que os homens livres, ficavam trabalhando o dia inteiro, enquanto os atenienses faziam política e ouviam discursos.

Por outro lado, as instituições democráticas não tardaram em se falsear. O ateniense era apaixonado pela retórica, e os oradores mais eloqüentes arrastavam consigo a maioria dos votos. Assim, a direção da cidade pertencia aos oradores, e indiretamente aos homens suficientemente ricos para comprar os oradores, tendo-se dado até o caso de governos estrangeiros subornarem certos oradores.

Características da civilização grega - Colocada entre a Europa e a Ásia, a Grécia representa uma fusão do espírito oriental com o ocidental. O espírito oriental é espontaneamente especulativo, mas a preponderância da fantasia nos orientais conduz a especulação para rumos inconsistentes, em que ela se transforma em estéril divagação.

Essa preponderância da imaginação se reflete vivamente na arte oriental. Muito requintados e exigentes em matéria de luxo e conforto, os orientais dão às suas obras o cunho de sonhos irreais, que jamais foram inteiramente executados nem sequer pelo mais fantasioso dos potentados. Daí, em geral, a idéia fixa da riqueza de detalhes nos ornatos, na indumentária ou nos motivos de decoração dos edifícios. Daí também a preocupação de fazer sempre coisas grandes. Os gregos, continuando os estetas, imprimiram a todas as suas obras um cunho artístico inconfundível; e continuando os especulativos, deram à filosofia um desenvolvimento que os levou às mais altas culminâncias da metafísica.

Entretanto, as características do espírito ocidental já transpareciam claramente na civilização grega. O espírito ocidental se caracteriza pela preponderância da razão sobre a imaginação, e por isso mesmo as atividades especulativas, por ele empreendidas, são mais positivas e também mais para a conquista da verdade, sem digressões interiores agradáveis à imaginação, mas inaceitáveis pela razão.

É dentro desta linha que o espírito grego engendrou suas produções artísticas mais características, em lugar de conceber sonhos estéticos mais próprios de lendas ou contos de Mil e Uma Noites. Inteiramente em base real, os monumentos da arte grega indicam um espírito claro e positivo, que admira na natureza tudo quanto ela tem de belo, sem procurar, entretanto, evadir-se para uma ordem irreal de coisas. Esse caráter positivo explica também a sobriedade da arte grega, muito mais preocupada com a harmonia de detalhes do que com a riqueza do detalhe.

Civilização Helênica

Para compreendermos o desenvolvimento da civilização helênica, o espírito de suas instituições e de sua vida política, é indispensável fazer-se um estudo sobre as mais antigas crenças dos gregos. Estudadas essas crenças, veremos qual foi a repercussão que elas tiveram sobre o desenvolvimento da sociedade grega, e acompanharemos este desenvolvimento desde os mais remotos até os últimos períodos da história da Grécia.

Como, entretanto, os gregos e os romanos têm um estreitíssimo parentesco racial, e como as crenças primitivas, idênticas em ambos os povos, produziram efeitos sobre a formação e evolução das instituições políticas e sociais, tornaremos este estudo extensivo a Roma e às cidades italianas ligadas racialmente à Grécia. Portanto, sempre que descrevermos crenças e acontecimentos sem mencionar os lugares, dever-se-á entender que falamos indistintamente da Itália e da Grécia.

Se alguns dos senhores quiser adquirir, do assunto de que vou tratar, conhecimentos mais exatos, aconselho vivamente a que leiam o magnífico livro de Fustel de Coulanges, "La Cité Antique", que está traduzido para o português.

Culto aos mortos — Acreditavam os antigos gregos, e com eles os seus parentes da península itálica, que os mortos, uma vez sepultados, iriam viver debaixo da terra uma vida análoga a esta, que seria igual para os maus e os bons, indistintamente. A felicidade que nela se poderia ter dependia do culto que, aos mortos, prestassem os seus descendentes. Os mortos que recebessem culto de seus descendentes seriam felizes. Os que fossem abandonados por seus descendentes, ou aqueles cuja descendência se extinguisse, seriam eternamente infelizes. Os mortos abandonados pelos respectivos descendentes voltavam à terra sob a forma de fantasmas malignos, para atormentar a progênie infiel.

Quando morria alguém, costumavam os seus descendentes enforcar, sobre a sua sepultura, alguns cavalos e escravos, na esperança de que lhes fossem úteis na vida subterrânea. Nas sepulturas havia um orifício, através do qual eram introduzidos alimentos para os mortos. Junto a elas se realizavam freqüentemente banquetes fúnebres, em que todos os membros da família tomavam uma refeição em comum, associando a esse ágape os mortos, por meio dos alimentos introduzidos na sepultura.

O que este culto tinha de capital, sob o ponto de vista social, era o seu exclusivismo familiar. Os mortos só poderiam ser cultuados pelos seus respectivos descendentes. O culto prestado por alguém a um morto de que não descendia era mal recebido por este, ainda mesmo que o morto estivesse entregue à eterna desgraça pelo abandono dos seus, ou pela extinção de sua descendência.

Outro culto, que era peculiar aos povos que estudamos, era o do fogo sagrado, que consistia na adoração de um fogo que se conservava aceso em um altar, no interior da casa. Este culto recebeu, do culto dos mortos, o exclusivismo familiar. Também o fogo sagrado só poderia ser cultuado pelos membros da família. Dado o caráter familiar deste culto, não tinha ele outro sacerdote senão o chefe de família. Todo chefe de família era sacerdote em sua própria casa. E também não tinha este culto outro santuário que não o lar.

Gens, cúria, tribo — No período que estudamos, os povos de que tratamos viviam em pleno regime patriarcal. Quer isto dizer que a única forma de organização conhecida era a família patriarcal, constituída pelo patriarca e toda a sua progênie. Esta sociedade ou organização tinha, ao mesmo tempo, caráter familiar, econômico, político, militar e religioso. Familiar, porque era uma grande família. Econômico, porque era dentro dessa organização, e sob sua autoridade, que se desenvolvia a vida econômica dos indivíduos. Político, porque cada família era um pequeno reino que declarava a guerra e fazia a paz, condenava ou indultava, e preenchia outras funções que são de caráter político. Militar, porque todos os homens da família constituíam um pequeno exército. E religioso, porque a família era ao mesmo tempo uma pequena igreja, isto é, uma pequena coletividade de fiéis reunida em torno do mesmo culto.

Essa situação correspondia exatamente a uma idéia que era fundamental nessa época: uma organização política deveria ter necessariamente um fundamento religioso. Só em torno de um culto é que se compreendia a agremiação de homens, de sorte a constituir uma unidade política.

O desdobramento natural da organização familiar originou a gens. A gens, assim chamada pelos romanos, era um grupo de famílias que, tendo cada qual o culto de seus próprios antepassados, estavam entretanto ligadas entre si pelo culto de antepassados comuns a todas. Isto é, cada família tinha seus antepassados próprios, aos quais cultuava. Mas, além disto, tinha antepassados que também eram ascendentes de outras famílias. A estes antepassados, cultuava a gens. Como a família, a gens era ao mesmo tempo uma associação religiosa, política, familiar e militar.

Na família, era o chefe de família ao mesmo tempo chefe religioso, político, e militar. Acima dos chefes das famílias que compunham uma gens, havia um chefe de gens, que exercia sua chefia não apenas no sentido religioso, mas também no político e no militar.

Por um desdobramento análogo, as gens se reuniram em cúrias, que eram grupos de gens reunidas em torno de um culto comum, tendo funções, em relação à gens, análogas às que a gens tinha em relação à família. E, pelo mesmo processo, constituíram-se as cúrias em tribos, que eram grupos de cúrias, tendo um chefe. Estas tribos estavam para as cúrias como as cúrias para as gens e as gens para as famílias.

Quando este processo de desenvolvimento já ia bastante adiantado, surgiu uma nova modalidade de religião, que se alastrou pelas penínsulas grega e itálica, desenvolvendo-se ao lado dos cultos dos antepassados e do fogo sagrado, sem, entretanto, destruí-los. Este culto era dos deuses mitológicos, seres pertencentes a uma categoria superior à dos homens, e que os homens veneravam em razão desta superioridade, e não em razão de qualquer parentesco. O culto dos deuses mitológicos já não tinha caráter doméstico, e não era um prolongamento da família. Às vezes esses deuses eram simples mortais, adorados depois da morte por seus grandes feitos. Mas esses mortais já podiam ser adorados por quem não descendia deles.

Não se sabe muito certamente se as cúrias tinham como eixo religioso o culto dos antepassados comuns às gens que as compunham, ou algum herói da região. É certo, porém, que as tribos tinham como fundamento religioso o culto de um deus, e não de um antepassado.

Exclusivismo do novo culto — Por um fenômeno bastante curioso, o culto dos heróis e deuses conservou o exclusivismo familiar do culto dos antepassados. Nas tribos constituídas para o culto de uma dessas divindades, só se admitiam ao culto os membros das cúrias que compunham a tribo, e seus descendentes. Se alguma pessoa alheia a essas cúrias quisesse cultuar a divindade, e tomar parte nas cerimônias religiosas constituídas em sua honra, não seria a isto admitido.

Mas o novo culto já não era tão doméstico, que prescindisse de templos. A religião dos mortos e do fogo sagrado não tinha templo, bastavam-lhe o lar e as sepulturas dos ancestrais. Com o culto mitológico já não era assim. Os deuses precisavam de um templo próprio. Este templo, evidentemente, era o ponto de atração de todas as famílias a ele ligadas. O templo precisava de uma muralha que o protegesse em caso de guerra, e era natural que, atrás desta muralha, se abrigasse também a multidão dos fiéis. Foi então necessário fundar as primeiras cidades.

A fundação da cidade não se dava, como ocorre hoje muito freqüentemente, de modo insensível, gradualmente, sem que os primeiros habitantes do lugar tivessem tido a intenção explícita de fundá-la. A fundação era um ato religioso soleníssimo, e os fundadores tinham a intenção de fundar a cidade, muito explicitamente.

O ritual para a fundação das cidades comportava muitas minúcias, que os senhores não precisam reter. Basta que lhes diga que o fundador abria um sulco, no qual deveriam ser postas as pedras para a muralha, e ele o fazia recitando determinadas orações. O sulco, uma vez traçado, era sagrado e intransponível. Era sacrilégio saltar sobre ele. Por aí os senhores explicam a indignação de Rômulo, e a razão por que chegou a matar seu irmão Remo. Fundada a cidade, estava constituída uma nova unidade política, religiosa e militar: o município.

A aristocracia — Como a gens, a cúria e a tribo, o município tinha seus deuses próprios, que só poderiam ser adorados pelos primeiros munícipes e seus descendentes. Os estrangeiros, isto é, os que não eram nem munícipes contemporâneos da fundação nem descendentes destas, não podiam ser admitidos ao culto dos deuses municipais. Para os gregos e seus parentes itálicos, alguém só podia pertencer a uma religião herdando-a de seus pais. Portanto, os indivíduos que não pertencessem às famílias que fundaram a cidade não podiam herdar de ninguém o direito ao culto municipal. E, portanto, estavam excluídos.

Ora, no município, como na tribo, na cúria ou na gens, toda a autoridade era religiosa, e toda a lei tinha cunho religioso. Não podia, portanto, exercer autoridade ou beneficiar-se da lei quem estava fora da religião municipal. Como conseqüência, todos aqueles que não descendessem das famílias fundadoras do município não poderiam ocupar cargos públicos, e não tinham qualquer direito.

Como nos municípios recém-fundados era numerosa a população de foragidos de outros municípios, de aventureiros e de escravos fugitivos, que aí se vinham fixar, e como o número desses elementos ia-se tornando cada vez mais numeroso com o curso do tempo, houve em cada município duas classes: a das famílias fundadoras e a dos estrangeiros. As primeiras podiam participar do governo, e eram protegidas pela lei. Isto tudo porque as primeiras pertenciam à religião municipal, ao contrário das segundas. As famílias privilegiadas constituíam uma aristocracia onipotente ao lado das demais, que formavam a plebe.

Primeira revolução - Todos os municípios greco-italianos eram governados por reis, que eram ao mesmo tempo supremos chefes políticos e religiosos. Ao lado dos reis havia, em geral, um senado, em que tomavam parte os chefes das linhagens nobres. Os plebeus estavam excluídos do governo.

Muito cedo começou a luta entre o senado aristocrático e os reis, querendo cada qual reduzir as prerrogativas do outro. Percebendo os reis que a aristocracia ameaçava cada vez mais suas prerrogativas, resolveram aliar-se à plebe, pleiteando para esta alguns direitos que implicariam em diminuição do poder da nobreza. Esta, não tolerando tal manejo, revoltou-se e destituiu em todos os municípios a realeza, passando a governar por meio dos senados e de funcionários temporários, como foram, em Roma, os cônsules.

A revolução aristocrática e republicana não se operou do mesmo modo em todos os municípios. Em alguns desenvolveu-se, ora à mão armada, ora por meio de lutas meramente políticas. Em outros foi feita à viva força. Em alguns municípios as funções do rei foram abolidas de uma só vez. Em outros as funções do rei iam sendo reduzidas gradualmente, e cada vez mais, a ponto de os reis perderem lentamente todo o poder. Em certos municípios conservou-se a realeza com funções exclusivamente religiosas. Em outros, a família real perdeu até mesmo as funções do sumo pontificado, anexas à realeza.

Segunda revolução - Vencidos os reis, que eram seus mais temíveis adversários, as pequenas aristocracias municipais começaram a governar com mão férrea. Mas diversos fenômenos sociais conspiraram para reduzir seu poderio.

Primeiramente, houve na estrutura da organização aristocrática um abalo, determinado pelas rivalidades entre os chefes das linhagens aristocráticas. Até então, apenas os chefes das linhagens primogênitas podiam ser senadores. Os chefes das linhagens não primogênitas desgostaram-se finalmente com isto, e quiseram participar do senado, o que os primogênitos tiveram de permitir. Mas esse nivelamento das linhagens primogênitas às demais quebrou o rigor da organização aristocrática, e com isto a aristocracia ficou abalada, pelo desmembramento das gens.

Em segundo lugar, deu-se um movimento no sentido de se abolir a clientela. Sem entrar em detalhes sobre o famoso instituto da clientela, o que não seria compatível com as exigências de síntese deste curso de um ano, posso dizer-lhes que o cliente era um plebeu preso a um aristocrata por laços de dependência econômica muito fortes, que implicavam em uma inferioridade social e política muito grande. Este instituto da clientela começou a desagradar à plebe, que reivindicou, com maior ou menor violência, e acabou obtendo a sua supressão.

Estas duas reformas abalaram profundamente a organização aristocrática. A primeira quebrou a coesão das famílias aristocráticas, que era mantida pela rigorosa disciplina que subordinava as numerosas linhagens secundárias às linhagens primogênitas, unidas entre si pelo Senado, do qual participavam. A segunda desligou a plebe de certa vassalagem em que estava em relação à aristocracia, criando-lhes com isto possibilidade de progresso social novo.

É, pois, muito desfalcada de elementos de resistência, que a aristocracia vai enfrentar a 3ª revolução.

Terceira revolução - Esta revolução foi eminentemente democrática, e teve como conseqüência a equiparação dos direitos políticos entre a aristocracia e a plebe. Antes desta revolução, só a aristocracia governava. Na 3ª revolução, ora à mão armada, ora por meios meramente políticos, a plebe começa a exigir o direito de participar dos cargos públicos e do governo do município.

Diversos fatores contribuíram para facilitá-la. Um deles foi o aumento da infantaria como arma de guerra. Até então a cavalaria era privativa dos nobres, e era a principal arma de combate. À vista disto, a plebe era fator de segunda importância em tempo de guerra. Mas, crescendo o valor bélico da infantaria, a plebe cresceu em importância, e seu concurso passou a ser, em certos casos, decisivo para que a aristocracia triunfasse em combate.

Outro fator foi o aparecimento do dinheiro. Em virtude da velha constituição aristocrática, era proibido à plebe adquirir imóveis. Como todas as fortunas eram necessariamente consistentes em imóveis, os plebeus não podiam adquirir fortuna. Quando começou o uso do dinheiro, e com ele o desenvolvimento do comércio e da indústria, os plebeus puderam formar imensos patrimônios, que não eram consistentes em imóveis, e isto principalmente nos municípios em que os nobres consideravam inferior à sua dignidade qualquer atividade de caráter industrial ou comercial.

Ao lado da aristocracia, formou-se pois outra classe, culta, que foi a plebe rica, capaz de lutar contra as antigas linhagens nobres de igual a igual, com todos os recursos da fortuna e da cultura, bem como com o prestígio que uma educação esmerada confere. Sucessivamente os plebeus foram sendo admitidos a penetrar em todos os cargos públicos, até que, finalmente, qualquer distinção entre eles e a aristocracia desapareceu.

Como nas demais revoluções, também nesta os episódios foram muito diversos, nos diferentes municípios, e a luta comportou alternativas de violência e de astúcia política, que a história dos principais municípios greco-itálicos conservou para conhecimento da posteridade. Quando estudarmos Atenas, Esparta e Roma, veremos com mais detalhes esses diversos episódios.

De um modo geral, bastará dizer que o meio de que se serviram os reformadores sociais, para obter o nivelamento entre as duas classes, consistiu em geral, não na supressão imediata das diferenças de classes, mas na criação de classes novas, tendo como critério para a diferenciação entre os cidadãos, não mais a nobreza de sangue, mas o dinheiro. Em outras palavras, substituiu-se a aristocracia pela plutocracia. Finalmente, os nobres se resignavam sem grande oposição a esta reforma, porque, sendo eles grandes proprietários, estavam incluídos na classe mais alta de cidadãos, isto é, a dos mais ricos. Mas mesmo assim as resistências da aristocracia foram muito vivas.

Finalmente, esta diferença de classes de acordo com o dinheiro foi também eliminada, e todos os homens livres passaram a ser iguais em direitos, quer fossem nobres ou plebeus quanto à origem, quer fossem pobres ou ricos.

Quarta revolução - Obtida a nivelação dos direitos políticos, o vírus fatal da ambição e da anarquia haveria de produzir mais uma revolução. Já os reis haviam sido destronados pela nobreza. Já a nobreza havia sido esmagada pela plebe rica. Faltava, para que o caos se tornasse completo, que a plebe pobre se atirasse contra a plebe rica. Foi o que se deu.

Estabelecido o regime democrático nos municípios greco-latinos, a oligarquia tomou tal força, que os plebeus tiveram o desejo de despojá-la ao mesmo tempo de preeminência política e de sua riqueza. Ocorreram então sangrentíssimas revoluções dos pobres contra os ricos, que se caracterizaram por episódios verdadeiramente abomináveis, em que nem os velhos, nem as crianças, nem a tradição, nem o pudor, nem a nobreza, eram respeitados. Em quase todas as cidades greco-latinas esta luta se verificou, e só cessou sob o jugo das armas romanas, que restauraram a paz social.

É nessa fase da história greco-latina que se deve situar o aparecimento da tirania. Esta palavra não tinha então o sentido pejorativo que hoje se lhe dá. A plebe, sentindo que não poderia conservar seu poder sem um governo forte, capaz de sufocar qualquer veleidade de restauração aristocrática, restaurou por toda parte a monarquia. Não lhe era lícito, entretanto, restaurar a realeza, pois que, a este título, era essencial o cunho religioso que a velha religião aristocrática não lhe daria. Foi então necessário fazer uma monarquia em que o monarca não tivesse o nome de rei. Esses reis sem coroa foram os tiranos. Homens pertencentes, em geral, às mais baixas camadas populares, eram eles freqüentemente aventureiros sem o menor valor intelectual e moral, que sabiam adular habilmente as mais vis paixões populares, sacrificando sem piedade, à ira da plebe, as famílias aristocráticas.

O regime da tirania assinala o fim desta evolução. Quando a Grécia chegou a submeter-se aos tiranos, estava preparada para perder a independência. E as tropas romanas sobrevieram prontamente para lha roubar.

Esparta

Esparta, situada na península do Peloponeso, foi uma cidade onde floresceu uma rígida civilização aristocrática e militar. Os espartanos eram gregos pertencentes a tribos dórias, que, rechaçados do norte da Grécia por uma invasão tessalônica, se atiraram sobre a península do Peloponeso, onde submeteram à sua dominação uma região que estava em poder dos aqueus. Muito menos numerosos que os povos por eles submetidos, os espartanos se viram na contingência de conservar uma organização militar, para não serem expulsos do país conquistado. Essa obrigação teve como corolário outra: absorvidos os espartanos pelo serviço militar, tiveram de obrigar os vencidos a praticar a agricultura em seu proveito.

Classes sociais - As classes sociais eram três:

1) a primeira era a aristocracia, composta de eupátridas, isto é, dos invasores. Compunha-se de cerca de 9.000 homens. Essa aristocracia tinha todos os direitos;

2) em segundo lugar vinham os periecos, habitantes dos arredores, que pareciam descender dos antigos ocupantes da região montanhosa e marítima da Lacônia. Eram cerca de 30.000, e habitavam cerca de 100 aldeias nas quais tinham uma administração livre. Cultivavam a terra, praticavam o comércio, a indústria e a navegação, sendo proibidas aos eupátridas essas ocupações. Não tinham direitos políticos;

3) finalmente vinham os ilotas, descendentes dos habitantes do vale. Eles eram meio livres e meio escravos, e não habitavam aldeias, mas cabanas isoladas, construídas sobre terras por eles cultivadas. Não eram proprietários, mas servos da gleba, isto é, não podiam vender essas terras. Não tinham o direito de combater, nem de cantar canções guerreiras. Conta-se que eram embriagados, para as jovens verem. Eram muito numerosos, e por isto eram mortos em caçadas anuais chamadas cryotas. Havia para eles penas de morte muito numerosas, quando por exemplo saíam de casa depois de posto o sol.

A aristocracia militar, governada por dois reis, oprimiu também o Peloponeso, que dominou em grande parte de seu território. As leis de Licurgo tendiam a estabelecer com toda a firmeza a preponderância dessa aristocracia. Os dois reis se tornaram, de muito poderosos que eram, meras figuras de proa. O senado é que governava, e só se compunha de nobres. Uma assembléia em que tomavam parte todos os membros, embora fosse chamada assembléia do povo, era convocada mensalmente para aprovar ou rejeitar as leis do senado. Éforos eram magistrados eleitos para 5 anos, que fiscalizavam os reis e outros funcionários do Estado. Para unificar essa aristocracia houve, em teoria, uma igualdade absoluta de fortuna entre eles. Mas essa igualdade não existiu de fato, porque houve uma aristocracia rica e outra pobre.

A educação - A educação tendia a formar soldados. Pouco se importavam com a cultura intelectual. Destinado a ser soldado, o espartano recebia, desde a mais tenra infância, uma educação que o predispunha a brilhar na prática de todas as virtudes militares. Apenas nascido, era submetido a um exame dos anciãos da tribo, que verificavam se sua compleição era normal. Em caso contrário, atiravam-no do alto do monte Taígeto, causando-lhe assim a morte, porque não parecia útil para a pátria a vida de um cidadão fisicamente disforme, e por isto inapto para a carreira das armas. Como os senhores vêem, não são novas as teorias racistas sobre seleção.

Restituídas às mães as crianças sadias, sua educação se caracterizava pelo mais inflexível rigor. Não podiam as crianças ser agasalhadas, e eram obrigadas a se nutrir pelos alimentos compatíveis com sua idade, quer lhe parecessem agradáveis, quer não. Aos sete anos o menino era incorporado a uma pequena milícia infantil, de cunho militar, na qual os comandantes eram alunos que se tinham destacado pela inteligência ou pela força. Além do exercício das armas, aprendiam os alunos a famosa dança pírrica, de caráter guerreiro. Também era muito desenvolvido o atletismo. Mas a educação intelectual era desleixada, considerando os espartanos supérfluo para os militares o cultivo do espírito.

Era proibido aos meninos queixarem-se do frio, do calor, da fome, da sede, da fadiga ou da dor. Usavam em seus trajes, constantemente, tecidos da mesma qualidade, quer no inverno quer no verão. Era-lhes vedado lavar-se e perfumar-se, exceto nos dias de grande festa. Sua alimentação era deficiente, e eles eram obrigados a roubar para viver. Aquele que se deixasse surpreender em flagrante delito de roubo era, no entanto, punido inexoravelmente. Anualmente havia um concurso junto ao altar de Artemis. Os concorrentes eram submetidos a uma prova de resistência tremenda: expostos aos açoites, deveriam resistir o mais possível à dor. Seria vencedor aquele que se queixasse por último. Houve concorrentes que morreram de dor durante a prova.

A vida dos adultos também era austeríssima. Diariamente deviam comparecer a exercícios militares, comportando corridas, saltos e manejo de armas. À mesa eram muito soberbos. Freqüentemente os homens eram obrigados a tomar parte em certas refeições públicas, próprias à aristocracia, refeições estas onde a alimentação era muito simples, e onde os homens se reuniam em grupos de 15. Conquanto não fossem quotidianas, tais refeições eram freqüentes o bastante para se tornarem extremamente importunas. Entretanto, nem mesmo os reis estavam dispensados de comparecer a elas.

O laconismo - Uma tal educação e um tal modo de vida tornavam os espíritos rígidos, severos e pouco loquazes. Os espartanos eram muito amantes da concisão. Por isto, chamou-se de laconismo — de "Lacônia", região espartana — a sobriedade e a concisão no falar.

As mulheres - Conquanto dedicadas exclusivamente à vida da família, também tinham uma formação mental característica. Seus hábitos eram muito viris, em comparação aos das demais mulheres da Grécia. Entravam nos esportes, por isto eram alvo da ironia de toda a Grécia.

Caracterizavam-se as mulheres por um extraordinário heroísmo, que as levava a enfrentar com serenidade até mesmo os sofrimentos a que o coração feminino é mais sensível. Por exemplo, é célebre o caso de uma mãe que, ao ter conhecimento da morte de seus cinco filhos, que estavam na guerra, disse simplesmente: "Tanto melhor, demos graças aos deuses". Outra espartana matou com suas próprias mãos um filho que fugiu do campo de batalha. É o heroísmo praticado em toda a sua extensão, mas levado a um exagero que o tornava anti-natural e monstruoso.

Valor militar de Esparta - É curioso acentuar que essa educação não fez dos espartanos os soldados mais gloriosos da Grécia. Atrofiando o espírito em benefício do corpo, e comprimindo a livre expansão das personalidades em sua disciplina militar inexorável, os espartanos foram, sem dúvida, soldados heróicos, mas em compensação foram falhos de iniciativa e de talento militar. Os grandes generais atenienses foram muito mais úteis à Grécia, pela lucidez e audácia de seus espíritos e pelo vigor de sua execução, do que os soldados espartanos. Demonstrou-se isto com toda clareza na guerra contra os persas.

Sendo a perfeição militar o fito de toda a organização política e social, e de toda a pedagogia espartana, pode-se dizer, pois, que Esparta fracassou, sempre que quis exagerar o conceito de heroísmo e de disciplina, transformando o homem, ser inteligente e livre, em massa bruta e autômato.

Escultura - Além de Fídias, autor da famosa estátua de Atena, no Pártenon, convém mencionar Míron, que esculpiu o Discóbolo, e Praxíteles que esculpiu Hermo. O construtor do Pártenon foi o grande Ictino. Galímaco construiu o Erectéion.

Pintura - Também atingiu grande perfeição. Os gregos pintavam, em geral, a fresco, isto é, diretamente sobre muros ou paredes, e não sobre telas. Da pintura grega, conhecemos principalmente os vasos e outros pequenos objetos. Denotam a perfeição de estilo artístico, peculiar aos gregos.

Literatura - Além dos grandes oradores gregos, entre os quais Demóstenes brilhou de modo inconfundível, a literatura teve em Atenas admiráveis cultores. Para citar apenas os nomes do século de Péricles, bastaria lembrar Ésquilo, Sófocles e Eurípedes na tragédia, Aristófanes como poeta cômico, Heródoto, Tucídides e Xenofonte como historiadores. Deixo de mencionar os filósofos, que serão estudados na cadeira de História da Filosofia.

Como se vê por esta enumeração, que contém nomes exponenciais nas artes e nas letras, que se impuseram à admiração do mundo inteiro, Atenas foi a "escola da Grécia", e nela floresceu de modo admirável o espírito helênico, no que ele tem de mais característico e mais elevado, tornando imortal a pátria do grande Homero.

Invasões e migrações na Grécia primitiva

Achava-se que os gregos eram autóctones, porém tal não acontecera. Em verdade a raça dos gregos partira da Ásia, pertencendo à grande família ariana. Os primeiros habitantes do país foram os pelasgos, que ergueram as mais antigas cidades. São chamados também pré-helênicos, isto é, anteriores aos helenos. Não só teriam povoado a parte continental, mas ainda as ilhas vizinhas e a costa ocidental da Ásia Menor, o que deu origem aos três principais focos da civilização pré-helênica: no continente, em Creta e em Tróia.

Os pelagianos, antes agricultores e pastores, não falavam o grego e sofreram a influência civilizadora dos egípcios e fenícios. A tradição atribui a fundação de Atenas ao egípcio Cécrope, e a de Tebas ao fenício Cadmus, que teria levado o alfabeto à Grécia. Conta-se que Cadmus tinha partido da Fenícia, sua terra, em busca de sua irmã Europa, raptada por Zeus metamorfoseado em touro; e fixou-se na Grécia por ordem do oráculo de Delfos.

Cerca de 1.400 a.C. apareceram na Grécia os helenos, povo de língua grega. A princípio foram os aqueus, e depois os eólios vindos do sul da Rússia, que entraram no país pela Tessália e pelo Épiro. Os aqueus foram até Creta, cujo poder destruíram, e com os eólios firmaram-se na maior parte do continente. Mais tarde, chegando às costas da Ásia Menor, venceram a resistência de Tróia. Erguendo fortificações em Tirinto e Mecenas, os aqueus dominaram grande parte da Grécia e propagaram a civilização cretense, que haviam adotado.

Os aqueus, como se deduz dos poemas homéricos, foram os que tiveram a preponderância durante os tempos heróicos, e dominaram no Peloponeso. Os eólios povoaram o centro e oeste da Grécia; os jônios viveram a princípio no Prindo e em Maupacta, ao norte, donde mais tarde saíram para se fixar ao sul do Peloponeso.

Descendo das montanhas do norte da Tessália, os dórios, ora pacífica ora violentamente, foram invadindo a Grécia, estabelecendo-se primeiramente no Peloponeso. Essa invasão determinou uma grande migração dos antigos habitantes do país e a fundação de colônias nas costas da Ásia Menor e ilhas próximas.

Dentre as tribos helênicas, foram os dórios e jônios os que mais se destacaram, pela sua civilização e pelo papel que desempenharam na história da Grécia. O dórios, com a emigração que efetuaram (para o sul), provocaram a rivalidade com os jônios, vindo daí os deslocamentos da população, e conseqüentemente a fundação de colônias. Datam daí a fundação de muitas colônias gregas no Mediterrâneo, a expansão helênica pela Ásia Menor, por outras ilhas da Europa, etc.

A invasão dórica, que causou a rivalidade entre dórios e jônios, deu à Grécia dois aspectos distintos: 1) os dórios, habitantes das montanhas, preocupando-se com o físico e com o lado material; 2) os jônios, habitantes da cidade, preocupavam-se com as artes. Aos jônios devemos os grandes legados da civilização grega, ocupando eles assim um papel de relevo na História da humanidade. Aos dórios cabe apenas a lembrança de um povo forte, corajoso e belicoso por natureza.

Colônias

Na Grécia antiga não se entendia por colônia apenas os domínios sobre outros povos. Colônia grega era um núcleo de população e civilização, fundada e organizada pelos próprios gregos. As colônias tinham com a metrópole apenas relações amistosas, não lhe devendo obediência alguma. Politicamente a colônia era completamente independente da metrópole, podendo até mesmo guerrear entre si, o que geralmente não se dava, por estarem todas unidas por um grande laço: a religião e a cultura.

A fundação de uma colônia era em geral feita por um chefe, quase sempre homem de prestígio pelo seu destaque social. O fogo sagrado era levado da metrópole para a colônia. A fundação era um ato religioso, e portanto consultava-se sempre o oráculo de Delfos, antes da fundação de uma colônia, para saber onde ela deveria ser instituída.

O colono grego era em geral homem pobre ou de situação política inferior. A primeira expansão grega foi de agricultores.

Causas da colonização grega

Várias causas influíram nas migrações na Grécia, tais como a invasão dos helenos, super-população, perseguições políticas, etc. A superpopulação foi um fator importante. Embora a Grécia possuísse terrenos bastantes, e capazes de fornecer a manutenção de seu povo, não eram eles cultivados. Também não é de menor importância o fator político nas migrações: o partido derrotado sempre se retirava, ora forçado ora de espontânea vontade.

A colonização grega era um fenômeno quase ininterrupto, sendo que entretanto havia épocas em que tal fenômeno se dava com maior intensidade. A colonização se dá a princípio, quase in totum, na Ásia Menor. Os eólios, vindos da Baviera, se estabeleceram na ilha de Lesbos, fundando a Eólia. Os jônicos se estabeleceram na Ásia Menor, fundando aí muitas cidades: Éfeso, Esmirna, Foceia e Mileto; 300 feitorias nas costas do Ponto Euxino; nas ilhas do Mar Egeu, Chios e Samos.

Os dórios estabeleceram-se ao sul da Jônia, na Itália, que denominavam a Magna Grécia; e na Sicília, onde suas colônias de Tarento, Síbaris, Regium, Agrigento e Siracusa tornaram-se as mais ricas e ilustradas. Alcançaram o Egito e Chipre, e mais tarde as costas de Macedônia e da Trácia, ao sul da Gália (Massilia = Marselha), a Espanha (Sagunto), o norte da África (Cirene, Barca e Náucratis).

Devemos salientar que as colônias por vezes influíram na civilização da metrópole, e contribuíram assim no desenvolvimento intelectual da própria Grécia.

Cécrope {E. - atlicnar

Dánao {E. - vinha

{ . - navegação

Cadmus {F. - Orientação - Tebas

{ . - Alfabeto

{ . - (filhas assassinas)

Pélops { . - (trigo) (Peloponeso)

(filho de Táutalo)

A filosofia grega

A filosofia grega, que atesta com altivez o elevado grau de cultura que atingira a civilização grega, pode ser dividida em três períodos distintos, que são: pré-socrático, socrático e pós-socrático.

Período pré-socrático - O primeiro destes períodos compreende todos os filósofos até Sócrates. Reúne em si várias escolas, tendo como principais as seguintes: jônica, sofística, itálica e outras.

Escola jônica - Materialista, teve como principal vulto Tales de Mileto. Distinguiu-se pelo estudo da natureza. Cultivou a geometria e a astronomia, e pode ser considerado como o fundador da física do Ocidente. Foi o primeiro dos gregos que prognosticou os eclipses do sol e da lua. Percorreu a Ásia, a Fenícia, o Egito e Creta. Adquiriu relações com os homens mais distintos daqueles países, particularmente com os sacerdotes, que eram naqueles tempos os depositários da ciência. Na opinião de Tales, o princípio material das coisas é a água; porém a produção não pertence a ela, mas a Deus, mente ou espírito que a fecunda. Seria injusto, portanto, considerá-lo ateu. Admitiu a simplicidade e a imortalidade da alma.

Contemporâneo de Tales foi Ferecides, filósofo sírio, do qual diz Cícero que foi o primeiro que sustentou por escrito a imortalidade da alma. Ferecides foi um dos primeiros escritores de filosofia; mas Tales pode ser considerado como o primeiro fundador de uma escola filosófica.

Anaximandro, discípulo de Tales, pôs a origem das coisas no caos, confusa mistura de todos os elementos. Tudo sai do caos e tudo volve a ele, por um eterno movimento de composição e decomposição. Longe de fazer progredir a doutrina do mestre, desfigurou-a. Já não vemos a ação de uma inteligência que fecunda e ordena o caos, mas um movimento cego. Em vez da inteligência suprema, como ensinou Tales, admite Anaximandro uma inumerável série de deuses que nascem e morrem. Assim, aplainava por um lado o caminho do ateísmo, e por outro lado o do politeísmo.

Anaxímenes - Seu sistema se parece com o de seu mestre Anaximandro, é nova corrupção do de Tales: tudo nasce do ar e tudo volve para ele; tudo se faz pela condensação e dilatação do mesmo elemento; a diferença entre os sólidos e os líquidos não reconhece outra coisa; se a condensação é muita, temos as pedras, os metais, etc; e se a dilatação chega ao mais alto grau, temos o fogo. Diógenes de Apolônia seguia as doutrinas de seu mestre Anaxímenes. Atribui ao ar a plenitude do ser, supondo-o causa de tudo, inclusive da alma humana.

Anaxágoras de Clazomenes - Não seguiu as pegadas do mestre Anaxímenes. Admitiu dois princípios: o espírito e a matéria. Desta formava-se o mundo físico, mas aquele é que dispõe e ordena. O mundo não é filho do acaso, nem de uma força cega, mas obra do poder e da sabedoria de uma força infinita: "Omnium rerum descriptionem et modum, mentis infinitae vi et ratione designari et confici voluit" - diz Cícero (De Natura Deorum - livro 1).

Sofistas - O gosto filosófico propagado pelas escolas da Jônia e da Itália, e o progresso na prática de discutir, que se elevava à sua verdadeira arte na dialética de Zenão, produziram naturalmente o espírito da disputa. O que antes era investigação séria, acompanhada do amor da verdade, foi-se convertendo em verdade pueril, e com objeto de especulação. Apareceram então os sofistas, que se compraziam em discutir de improviso sobre todas as matérias, sustentando o pró e o contra em todas as questões. Este jogo de engenho trouxe por um lado o descrédito da filosofia, e por outro deu maior amplitude ao ceticismo, fazendo dele uma verdadeira escola. Quem se acostuma, ainda que brincando, a sustentar o pró e o contra de tudo, corre o perigo de vir a duvidar de tudo. Da mesma forma que se acostumam a balançar-se, vêm por fim a contrair a necessidade do balanceio.

Entre os sofistas e céticos se destaca Protágoras de Abdera, que sustentava não haver verdade absoluta, que tudo é relativo, e que o conhecimento é só de aparências, e não de realidade; e, portanto, que o homem é a medida de todas as causas. O ceticismo de Protágoras liga-se com as suas doutrinas ideológicas, que eram sensualistas. "A teoria da verdade relativa conduz à falsidade absoluta".

Escola italiana ou pitagórica - O fundador desta escola foi Pitágoras, que nasceu na ilha de Samos pelos anos 560 a.C. Conheceu sucessivamente Ferecides, Tales e Anaximandro. Percorreu a Fenícia e o Egito, onde aprendeu a astronomia e a geometria, iniciando-se ao mesmo tempo nos mistérios religiosos, pela comunicação com os sacerdotes. Passou depois à Caldéia e à Pérsia, onde se aperfeiçoou na aritmética e na música. Depois de ter percorrido a Grécia, fixou-se na Itália, em Crotona (Grande Grécia), onde começou a ensinar.

Entre os discípulos de Pitágoras havia duas classes: iniciados e públicos. Os iniciados formavam uma espécie de comunidade religiosa, pois tinham vida comum. Eram sujeitos a muitas provas, findas as quais eram levados à presença do mestre, para receber a doutrina misteriosa. Isto produzia grande efeito no espírito dos discípulos. Por isto olhavam o mestre como uma espécie de divindade. É bem conhecida a fórmula dos pitagóricos: "O mestre o disse". Os discípulos públicos recebiam um ensino comum. Eram em maior número, e não eram instruídos nos mistérios da escola.

Nas doutrinas de Pitágoras encontra-se a dupla feição das escolas em que se havia formado: 1) elevação, espírito místico e simbólico dos orientais; 2) caráter simultaneamente belo e positivo que distingue os gregos.

O filósofo de Samos admitia uma grande unidade da qual dimana o mundo, e considerava o mundo como um conjunto de outras unidades subalternas. Dava grande importância ao número, e afirmava que a nossa alma é um número.

No modo como explicava a formação do mundo, deixa-se ver o caráter simbólico de suas expressões. Diziam que a grande Mônada ou unidade tinha produzido o número binário, depois formou-se o ternário, continuando por uma série de unidades e números sucessivos até chegar ao conjunto de unidades que constituem o universo.

Acreditavam na transmigração das almas, na qual reconheciam duas partes: inferior e superior, isto é, paixão e razão. Aquela deve ser dirigida e governada por esta, de cuja harmonia resulta a virtude.

Ao lado da escola pitagórica nasceu na Itália a eleática (cidade Eléia). Dividiu-se em dois ramos: panteísta e atomístico. O erro panteísta proveio da exageração da idéia da unidade; o atomístico, da estreiteza de idéias sobre a experiência da multiplicidade. Ambas tiraram algo da escola pitagórica: a panteísta, o número, a unidade; a atomística, o número, a multiplicidade. Com a combinação e harmonia destas coisas, teriam evitado o erro.

Período socrático - Foi este segundo período, sem dúvida alguma, o de maior brilho em toda a filosofia grega, e reúne os três maiores pensadores gregos: Sócrates, Platão e Aristóteles.

Ao contrário do primeiro período, os filósofos da época de Sócrates já deixavam de parte o conhecimento da natureza das coisas, para penetrarem nos estudos da alma humana. Foi a reação contra os frutos do espírito sofista, que ia desfigurando a filosofia de maneira lamentável. Os que zombavam da religião e da moral encontraram um freio na doutrina de Sócrates.

Sócrates ensinava a imortalidade da alma e a existência de um ser supremo. Tinha a doutrina de Sócrates um fundo de moral, pretendendo o grande filósofo grego aliar o culto do belo ao culto do bem, aliando a moral à religião.

Após Sócrates vem Platão, que foi o maior discípulo do grande filósofo. Sua fama foi tal, que pode ser atestada com o dito de Túlio: "Se os deuses quisessem falar a linguagem dos homens, empregariam a de Platão". Não foi ele, porém, apenas um discípulo de Sócrates. Mais que isto, foi um apaixonado de sua teoria, e pode-se afirmar que nem antes nem depois de Platão a filosofia assumiu tanto brilho. Na filosofia de Platão nota-se uma mescla de filosofia, ciência e poesia, de onde justamente a dificuldade de se compreender Platão. A sua escola chamou-se Academia, porque ensinava no jardim de um cidadão chamado Academus. As suas discussões eram em diálogo, à imitação de Sócrates. Há dificuldade de conhecer muitas vezes a sua verdadeira opinião, pois não se alcança facilmente se certa doutrina é dele ou dos personagens, que introduz a falar.

Logo após Platão vem Aristóteles, que cria a escola peripatética. Nota-se em Aristóteles, como grande mérito seu, a criação de uma nova ciência: a lógica, que é a ciência que ensina a pensar com correção. Dividiu a filosofia em todos os departamentos que hoje ela contém, com exceção da lógica comparada.

Período pós-socrático - É o terceiro e último período da filosofia grega, e surge na ocasião em que a Grécia começa a sofrer a influência oriental. Notam-se neste período três filósofos: Zenão, Epicuro e Pirro.

Zenão funda a escola estóica. Segundo a sua teoria, só é bom a virtude, e mau só o vício. A virtude é a felicidade, e o vício a desdita. Procurava combater as paixões humanas, aceitando a derrota e justificando o suicídio.

Epicuro considera o prazer como critério das nossas ações. Sua filosofia teve muitos sequazes. Nada mais natural: é cômoda. O mérito deste filósofo é escasso. Se se tivesse dirigido ao entendimento, não teria sido capaz de fundar uma escola. Seguiu Demócrito na teoria dos átomos ou corpuscular; mas, querendo melhorá-la, estropiou-a: "Ut ea quae corrigere vult, mihi quidem deprovare videatur" (Cícero). Sua escola chamou-se epicurista.

Pirro - Quem julgaria que o ceticismo pudesse nascer de uma idéia virtuosa? Mas este é o modo como Pirro de Eléia foi arrastado a um extremo dão deplorável. Acham-se na sua doutrina as duas máximas de Sócrates: 1) a virtude é o supremo bem; 2) só sei que nada sei. Mas Pirro insistiu muito na última. Tratou de a defender com a sua dialética, sem advertir que, minando toda a verdade, minava toda a virtude, pois que a verdade também é uma grande virtude.

A filosofia grega penetrou em Roma, fazendo-se sentir principalmente a influência de Zenão (estoicismo). Após várias transformações, a filosofia grega é transmitida à Europa, tornando-se a fonte principal da filosofia européia.

A arte grega

No que diz respeito às artes, a Grécia sobrepujou todos os povos. Rápido e extraordinário foi o progresso artístico dos helenos, que veio a culminar ao tempo de Péricles. A esta época de culminância da arte grega dá-se o nome de século de Péricles. As três artes que mais sobressaíram e mais brilho alcançaram entre os gregos foram: a arquitetura, a escultura e a pintura. Na arquitetura notam-se três principais estilos entre os gregos: O dórico, o jônico e o coríntio (característicos pela forma das colunas e capitéis).

Estilo dórico - É o mais antigo e o mais simples. Caracteriza-se pela coluna grave, sustentando um capitel severo e sem ornamentações.

Estilo jônico - Nasce do dórico. Caracteriza-se pelo capitel gracioso, com as suas volutas (ornatos em forma de espiral).

Estilo coríntio - Já possui uma ornamentação muito maior, com o seu capitel com palmas de acantes. Marca o fausto que se apodera dos costumes gregos.

Ao mesmo tempo que a arquitetura, floresceram a escultura e a pintura.

Na escultura podem ser assinaladas quatro épocas, correspondentes aos quatro estilos que se notam. A primeira época é anterior a Fídias. Nota-se nela a grande preocupação com os ornatos, e também a influência oriental. Com o progresso notável da escultura da 1ª fase, chega-se à segunda, onde nascem as maravilhas de Fídias, Praxíteles e Policleto, os quais vão dar um novo aspecto à escultura, unindo o belo ao sublime. As obras mais célebres de Fídias são as estátuas de Apolo, Diana e Minerva, e a estátua em ouro e marfim de Júpiter. De Policleto há a colossal estátua de Juno. Devemos salientar ainda Atenodoro, autor do grupo "Laocoonte".

A pintura também se desenvolveu bastante na civilização grega, muito embora fosse menos cultivada que a arquitetura e a escultura. A pintura elevou-se bastante no século de Péricles. Entre os pintores nota-se Parrásio, admirável pela perfeição dos contornos e pela distribuição da beleza feminina.

Se bem que em menor proporção e menor desenvolvimento, os gregos também cultivaram a música.

Resumo:

Arquitetura:

Dórica - Mais simples e mais antiga - coluna grave com capitel severo - Templo de Minerva e o Panteon.

Jônica - Coluna mais elegante, com mais ornamentações, capitel com volutas - Templo [Missos?].

Coríntia - Com a coluna muito ornada, capitel com folhas de acanto - Torre dos Ventos.

Escultura:

Primeira época - Anterior a Fídias - A arte se ressente da influência oriental, e por isso mesmo cuida-se mais de ornamentação que propriamente da forma. A forma em geral torna-se grosseira, ao passo que muito delicada é a ornamentação.

Segunda época - Aparecem as maravilhas de Fídias e Policleto. De Fídias: estátuas de bronze de Apolo, Minerva e Diana; estátua de marfim e ouro de Júpiter. De Policleto, a colossal estátua de Juno.

Terceira época - Começada por Praxíteles.

Quarta época - Atenedoro, com o grupo do "Laocoonte".