À procura de almas com alma

 

 

Excertos do pensamento de

 

Plinio Corrêa de Oliveira

 

recolhidos por Leo Daniele

 

SEGUNDA SÉRIE

 

 

Edições Brasil de Amanhã

São Paulo, 1998

 

 

[Clique para ler: o Cap. I; o cap. VI; o cap. VII, secção 1]

 

 

Capítulo VII

 

Secção segunda

 

NÓS

 

Um mosaico, uma música

 

A mais alta finalidade das criaturas contingentes é representar a Deus.

Para isso, é preciso que se apóiem umas nas outras a fim de formarem um todo, porque, caso contrário, elas não representam a Ele.

São como as peças de um mosaico que representam uma cena.

Ou as peças do mosaico estão articuladas entre si, ou são meros caquinhos de esmalte ou de vidro.

É o reconhecimento harmônico da insuficiência e da complementaridade que acaba de nos dar a semelhança com Deus.

Das forças da natureza, a que melhor representa essa consonância é a atração mútua dos corpos, vencendo distâncias fabulosas para manter em ordem o que antipaticamente se chama de "mecânica celeste", e que é a harmonia celeste, a sinfonia celeste.

A sinfonia celeste tem ademais o encanto do fortuito: corpos celestes que vêm não se sabe de onde, vão para onde não se sabe, e atravessam espaços  ordenados sem atrapalhar nada nem colidir com nada, como que violando todas as  regras.

 

 

Cada homem  é como a matriz de uma música

 

O homem, por definição, é um participante da arte. Assim como se diz que o homem é um animal político, se poderia dizer que o homem é um animal artístico, musical e poético2.

O que há de harmonioso fora do homem pode ser visto como um prolongamento do que há internamente nele3.

Por isso, cada homem é como a matriz de uma música.

 

 

As relações humanas têm muito de sinfonias

 

É como a harmonia musical.

O em relação ao mi tem qualquer coisa de afim e qualquer coisa de não afim. Da composição entre o afim e não-afim é que resulta a harmonia.

O universo musical tem uma especial beleza que corresponde a cada nota.

Contudo, é mais bonito haver sete notas do que apenas uma.

Mas é ainda mais bonito que se possa fazer uma música e um jogo entre essas sete notas.

Tenho então três gamas de beleza. E são essas três gamas que fazem a beleza do universo musical.

Com as cores dá-se o mesmo.

Há três formas de beleza: a de uma cor; a que decorre de haver várias cores; e a beleza especial que vem da combinação das cores entre si.

 

 

Robinson precisava de "Sexta-Feira"

 

Suponhamos que Robinson Crusoé4 fosse um artista fantástico, diante do qual o índio Sexta-Feira se extasiasse.  No dia em que Sexta-Feira morresse e ele percebesse que não iria mais cantar para alguém, porque Sexta-Feira não mais existia, nele começaria a definhar algo do talento.

Para esse fato poder-se-iam apresentar inúmeras explicações psicológicas. Sustento que decresceria algo, que é a receptividade, por assim dizer vibrátil, de Sexta-Feira interagindo com ele, e o convidando a produzir. 

 

 

A cortesia,  afinação das relações  humanas

 

Cada pessoa deve ser ela mesma.  Cada um deve respeitar a personalidade do outro, sentir as afinidades e sentir as diferenças.

 

A cortesia é a perfeita afinidade de pessoas perfeitamente distintas umas das outras,

 

é a perfeita relação que passa por cima desse abismo que há de homem para homem,

 

é o laço cheio de respeito, de distinção,  de afeto, que prende pessoas diferentes, e as coloca numa relação como as notas de uma música entre si.

 

Dir-se-ia que as notas de uma música estão em estado de cortesia umas com as outras.

Se as notas do teclado pudessem pensar, soando, elas se amariam.

Uma pessoa passa diante de um piano que está aberto, escorrega e se apóia sobre o piano para não cair. Sai  um som horroroso. Parecido com uma descortesia...

A cortesia é a musicalidade das relações humanas.

Nessa musicalidade cada um exprime sua personalidade apoiado pelo outro. E todos crescem, todos brilham, cada um com a luz de sua personalidade própria.

O panteísmo, como quer despersonalizar os indivíduos, quer uma organização social em que os indivíduos fiquem reduzidos a números.

Cada um é um número para o outro. Para fazer isso, é preciso que a cortesia morra, porque a cortesia é o contrário: nasce da harmonia das coisas diferentes.

A Revolução, acabando com as diferenças, acaba com a cortesia. E fica apenas essa correção fria que se tem para com um companheiro casual de viagem.

O outro não é um irmão, mas um concorrente. Em face do Estado, um contribuinte.O comunismo puro é a pura falta de cortesia. Basta ver as caras de Breznev, Podgorny, etc. Quando estão em seu natural, mostram  uma fisionomia sombria. Se número pudesse ter cara seria aquilo.

 

 

A conversa

 

A conversa é uma das artes mais importantes da vida humana.

Passar a vida sem conversar, é fazer como um viajante que viaja sem olhar o panorama.

Conversando bem, tornamos agradável o nosso convívio e atraente o ambiente onde estamos.

Os antigos encontravam a razão de ser de sua vida em um convívio dos espíritos, e por isso aprimoravam muito a conversa, que se tornou uma verdadeira arte.

A concepção que havia antigamente é que se devia trabalhar durante o dia, para à noite estar sossegado, conversar e tratar de assuntos variados.

A arte da conversa foi levada ao seu apogeu na França no século XVIII.

Nunca se conversou tanto, nunca se conversou tão bem.

Hoje em dia, simplesmente não se sabe mais conversar. Ou a conversa é uma série de sordícies e de imoralidades, ou um conjunto de casinhos completamente sem importância. Não é raro dois ou três ficarem mudos juntos. Não se tem o que dizer, então fica-se mudo.

 

 

O deleite da boa conversa

 

A boa conversa é como salada de frutas. Ninguém imagina uma salada de frutas em que, numa bandeja grande, estão separadas as frutas por vários setores. O excelente da conversa é quando cada colherada traz  um sabor próprio, uma surpresa diferente.

Tem-se a sensação da variedade dentro da continuidade do pensamento, e a variedade consola da monotonia causada pela continuidade.

Sentir  nascer no espírito do interlocutor um deleite irmão do nosso deleite constitui um dos grandes prazeres da conversa.

É como alguém que convida um amigo para jantar, e sente prazer em ver que ele está gostando do jantar que lhe oferecemos.

Apreciamos o jantar que estamos ofertando, mas gostamos também de ver que o outro o está apreciando.

Uma conversa sem ditos de espírito é como uma comida sem sal. Pode estar bem feita, com boa matéria-prima, mas não tem graça.

Algo que belisca é necessário. A conversa não deve ser  toda de beliscões, mas deve conter  sal.

 

 

Harmonizando os instrumentos

 

A conversa leve e amena, realizada quase ao acaso nos momentos vagos, pode conter profunda seriedade, o que a distingue da prosa ociosa, que por sua própria natureza é frívola e superficial.

Quando um violinista toca uma música, deve entrar algo de espontâneo, algo que ele sente e lhe agrada por algum lado. Mas se se deixar levar exclusivamente pelo sentimento, e não puser em prática as regras específicas da arte de tocar o seu instrumento, vai produzir uma barafunda de sons que não tem valor algum.

Conjugando o sentimento espontâneo dele com a arte de traduzi-lo em sons, de acordo com uma partitura e algumas regras, ele executará verdadeiramente boa música. O mesmo acontece com a arte de conversar.

O bom interlocutor deve ter o dom da comunicatividade, que supõe ter certo interesse pelo outro.

Não apenas para saber o que ele pensa, mas também para entender como é que pensa. Como é a pessoa dele, a mentalidade dele.

Acha interessante que o outro seja de um determinado modo, e tem certa afinidade com a maneira de ele ser.

Quando isto se dá dos dois lados, a conversa sai espontânea, natural, e pode durar horas.

Fazendo isso por amor ao próximo, estamos cumprindo o segundo Mandamento em importância: "... e ao próximo como a si mesmo".

Numa alternação agradável entre silêncio e troca de idéias, de impressões, de recordações, passeia-se através de vários assuntos, como se pode passear por um jardim onde se encontram flores variadas, animais interessantes, pássaros multicoloridos.

Quando percebemos que os interlocutores apreciam o tema de que estamos tratando, ocorre fenômeno semelhante ao da ressonância dos cristais, que vibram na mesma freqüência do cristal que produziu um som.

 

Quando quero reter

por mais tempo um visitante,

falo sobre ele. Mas quando

quero que se vá embora,

falo sobre mim

(dito de um francês)

 

 

O melhor calmante

 

Há, na conversa, um momento em que um determinado ponto toca a todos, e que todos discernem as almas dos outros enquanto tocadas naquele ponto. Então a conversa sobe como uma chama!

É muito curioso que esse tipo de conversa é mais calmante do que qualquer remédio que se tome...

A conversa é, propriamente, um comentário cheio de amor. Um discernimento que leva ao louvor e, portanto, também ao vitupério.

A conversa é um dos modos em que se realiza o “ut mentes nostras ad caelestia desideria erigas, te rogamus, audi nos”5.

O desejo das coisas celestes,  nesta terra, se alimenta na boa conversa.

Quem se reúne a outros, para conversarem com espírito elevado, executa a ordem dada por Nosso Senhor Jesus Cristo: “Onde houver dois ou três de vós reunidos em meu nome, Eu estarei no meio deles”6.

 

 

A amizade

 

Não podemos imaginar o gênero humano sem amizades.

Seria conceber um gênero inumano.

O homem é feito de tal maneira que, quando está alegre e comunica sua alegria, ele dobra essa alegria; quando está triste e comunica sua tristeza, ele divide essa tristeza.

O ver­da­dei­ro sen­ti­do da amizade é o encontro de almas no fun­do mais me­ta­fí­si­co** e re­li­gio­so de si  mes­mas;  as coi­sas repercutem sobre elas do mes­mo mo­do,  e se dá en­tre e­las al­go que é uma co­mo que jun­ção, uma co­mo que fu­são.

Realiza-se aque­la ex­pres­são da Es­cri­tu­ra: um a­mi­go que ama o ou­tro como sua pró­pria al­ma7. O pa­pel da amizade é es­se.

A idéia cavalheiresca de amizade, de outrora, morreu! Hoje em dia quase só existe a conivência.

De lealdade, por exemplo, nem se pode mais falar, de tal maneira ela é transacta. Está morta.

Entretanto, é uma condição sem a qual o trato humano fica abaixo da crítica.

Em cada povo há certo modo de ter  amizade, que inspira e condiciona até o fundo as instituições e o viver da nação: seus modos de fazer, seus hábitos, etc.

Não se conhece a fundo a história de uma nação sem conhecer como nela se põem as amizades e inimizades. É só atentando para esse aspecto que, por exemplo, se compreendem completamente os Estados Unidos.

A verdadeira amizade  resulta de afinidades profundas e da necessidade de estabelecer um convívio que não é o de qualquer homem com qualquer outro, mas é deste homem com alguém, em virtude das peculiaridades que ambos possuem, e que  fazem com que se compreendam e se queiram mais definidamente.

 

 

Como os pares de Carlos Magno

 

 O tipo de amizade de alto quilate, que honra o homem, é a amizade que ligava Carlos Magno aos seus pares.

Todos eles eram feitos para uma mesma missão, e eram complementares uns dos outros. Cada um sentia que a presença do outro na execução da própria obra era indispensável. A colaboração, compreendida assim, gera um querer bem e uma semelhança benfazeja.

Quando A vê que B fez certa coisa, é como se ele próprio tivesse feito. Não é, portanto, uma mera cooperação, mas um “sentir com”, que resulta em  amizade.

Por exemplo, Nosso Senhor tinha com Lázaro, Maria e Marta uma amizade de convívio enorme. Por quê? Porque Ele se  deleitava com a companhia desses  três.

O instinto de sociabilidade pede na sua excelência que se esteja relacionado de maneira estreita com algumas pessoas.

Por natureza, são poucas as amizades assim. Mas por isso também devem ser  muito avidamente cultivadas, soignées8,  porque valem muito.

 

 

O amor conjugal — divórcio e  sentimentalismo

 

Quem vê passar, em seu carro de cor risonha, o jovem – ou a jovem – desta era de lepidez, esporte e vitaminas, não achará que estamos a léguas do sentimentalismo?

O jovem é robusto, alegre, parece bem instalado na vida, cheio de senso prático e do desejo de vencer.

A jovem é desembaraçada, empreendedora, utilitária, muitas vezes ardida. Também ela está alegre, sente-se bem, e quer “aproveitar” a existência.

Que há nela de comum com a dama de gênero lacrimejante que comovia nossos avós?

Mas , a despeito de todo o utilitarismo, o terreno reservado ao sentimento continua muito considerável.

E, se analisarmos este “sentimento”, veremos que ele não é senão uma adaptação muito superficial dos velhos temas sentimentais.

A questão da estabilidade do convívio conjugal depende de saber até que ponto o interesse ou o sentimentalismo podem levar os cônjuges a se suportar mutuamente.

O sentimentalismo é essencialmente frívolo.  Ele  não perdoa trivialidades. De sorte que — para ir à carne viva da realidade é preciso exemplificar — um modo ridículo de roncar durante o sono, o mau hálito, qualquer outra pequena miséria humana enfim, pode matar inapelavelmente um sentimento romântico que resistiria às mais graves razões de queixa.

Ora, a vida quotidiana é um tecido de trivialidades, e não há pessoa que no convívio íntimo não as tenha mais ou menos difíceis de suportar.

E como o sentimentalismo, por essência e por definição, é todo feito de ilusões, de afetos descontrolados e hipotéticos,  por pessoas que só se- riam possíveis no mundo das quimeras, a conseqüência é que em pouco tempo os sentimentos, que eram a única base psicológica da estabilidade do convívio conjugal, se desfazem.

Uma pessoa nestas condições não desce ao fundo das coisas, não percebe o que há de substancialmente irrealizável em seus anelos, e julga pura e simplesmente que se enganou.

Entende ela, pois, que ainda pode encontrar em outrem a felicidade que o casamento não lhe deu.

De onde o divórcio lhe parecer  absolutamente tão necessário quanto o ar, o pão ou a água.

Em  última  análise, sentimentalismo  é  apenas  egoísmo.

O sentimental  não procura senão sua própria felicidade, e só concebe o amor na medida em  que o “outro” seja instrumento adequado a torná-lo feliz.

Sobre o egoísmo nada se constrói... a família, menos ainda do que qualquer coisa.

É preciso pois mostrar a substancial diferença que vai da caridade cristã,  toda feita de sobrenatural, de bom senso, de equilíbrio de alma, de triunfo sobre os desregramentos da imaginação e dos sentidos, toda feita de piedade e de ascese enfim, para o amor sensual, egoístico, feito de descontroles, de sentimentalismo romântico ainda tão em voga.

 

Enquanto a concepção

sentimental influenciar

implícita ou explicitamente

a mentalidade dos nubentes,

todo o casamento

será precário.

 

 

Pois terá sido construído sobre o terreno essencialmente pegajoso, movediço, vulcânico, do egoísmo humano.   

 

 

O amor materno, sublimidade do gênero humano

 

Na ordem pessoal, a Providência dispôs uma afinidade e uma amizade de convívio que, salvo as exceções, é maior do que todas as outras: é entre filho e mãe.

Esta afinidade entre a mãe e o filho não tem seu símile em nada, a não ser no arquétipo*, que são as relações de Nosso Senhor com Nossa Senhora.

Este é o arquétipo* e o sonho de  todo católico em matéria de amizade.

A mãe ama seu filho quando é bom.

Não o ama, porém, só por ser bom. Ama-o ainda quando mau.

Ama-o simplesmente por ser seu filho, carne de sua carne e sangue de seu sangue.

Ama-o generosamente, e até sem nenhuma retribuição.

Ama-o no berço, quando ainda não tem capacidade de merecer o amor que lhe é dado.

Ama-o ao longo da existência, ainda que ele suba ao fastígio da felicidade ou da glória, ou role pelos abismos do infortúnio e até do crime.

É seu filho, e está tudo dito.

Sabemos que a bênção da mãe é preciosa condição para que a prece do filho seja ouvida, sua alma seja rija e generosa, seu trabalho seja honesto e fecundo, seu lar seja puro e feliz, suas lutas sejam nobres e meritórias, suas venturas honradas, e seus infortúnios dignificantes.

Agradeço a Nossa Senhora, e quão comovidamente,  haver-me feito nascer de Dona Lucília.

Eu a venerei e amei em todo limite do que era possível, e depois de sua morte não houve dia em que não a recordasse com saudades indizíveis.

Também à alma dela peço que me assista até o último momento com sua bondade inefável.

Espero encontrá-la no Céu, na coorte luminosa das almas que amaram mais especialmente Nossa Senhora9.

 

Foram 60 anos de um convívio contínuo que era um céu sem nuvens, em que tudo não era de minha parte senão admiração  para com ela, condescendência de parte dela para comigo, respeito de um e outro,  dedicação, carinho, carinho, carinho.

Um entender-se de sedosidade em sedosidade, de harmonia em harmonia, de carinho aveludado em carinho aveludado.

O afeto de mamãe era envolvente e estável. Às vezes eu despertava à noite e notava sua presença ao lado de minha cabeceira, acariciando-me e fazendo Sinais-da-Cruz em minha testa antes de ela ir recolher-se. Era como um bálsamo perfumado e suavizante que me fazia um grande bem. Nunca diminuía, quaisquer que fossem o dia, a hora, as circunstâncias, suas condições de saúde.

Eu sentia poder contar com ela até o fim, fizesse o que fizesse.

Ela dava muito valor ao fato de as pessoas lhe quererem bem; mas, se não lhe quisessem, sua atitude era a mesma. Nunca guardava ressentimento de ninguém.

Ela [era] a dignidade sem fortuna, a doçura sem covardia, a intransigência sem hirtez, a nobreza sem arrogância.

Seu olhar refletia o brilho suave de todas as lágrimas que chorou.

Eu percebia que a fonte de seu modo de ser estava em sua devoção ao Sagrado Coração de Jesus, por meio de Nossa Senhora.

 

 

Almas-planeta, almas-satélite

 

Na gravitação,  os satélites são sustentados em seu movimento pela ação do planeta. Coisa análoga se dá com as pessoas: a alma-planeta é uma espécie de posto emissor de segurança, que sustenta o “satélite”.

Quando a Humanidade entrou  na noite da incerteza, os mil jogos das almas-planeta sustentaram nas certezas as  almas-satélite10, ou seja, os espíritos inseguros.

Os espíritos mais elevados devem ser para os inferiores a resposta a uma pergunta, que é “a” pergunta da vida deles. Devem ser aquilo que preencha um vazio que existe na alma deles.

Vê-se, por aí, que o maior crime que se pode cometer contra uma civilização é a supressão das superioridades, de maneira que as almas fiquem nessa orfandade, péssima e terrível, de não terem quem apareça e preencha o horizonte de suas vidas.

O espírito-planeta é o ponto “panoramático” da vida do satélite, ou seja,  o ponto a partir de onde ele percebe melhor o panorama da vida.  E que explica até o fundo as perguntas sem cujas respostas o viver não tem sentido.

 

 

Um momento sagrado

 

Poderíamos imaginar um rapaz do tempo de Carlos Magno,  que tenha o desejo de ser cavaleiro, mas sem a noção do que é exatamente a cavalaria.

Está cavalgando pelas montanhas. Numa volta de caminho, ele vê passar, ao longe, Carlos Magno e seus cavaleiros.

Entusiasmado, ele vai correndo e presta ao imperador uma homenagem.  Pede licença para entrar naquela coorte.

Este é um momento sagrado!  É o momento em que aparece, de repente, o que lhe é mais semelhante — abstração feita da Igreja —  mais adequado, que lhe explica a vida, e por onde ele encontra o caminho para Deus.

É como que um encontro com Deus.

Nesse momento, coloca-se em ordem o que, dentro de si, estava bramindo e gemendo sem poder se explicitar.

Nesse encontro, ele “vê” Deus, por uma espécie de semelhança que passará a orientar e a explicar a vida dele até o fundo.

Estabelece-se um comércio com Deus, que é um comércio com o que a alma tem de mais delicado, e ao mesmo tempo de mais forte.  De maneira que, nesse comércio, todas as ternuras e também todos os vigores se instalam naturalmente.

Um cavaleiro assim seria capaz de confessar os seus pecados para um homem desses, embora sabendo que não se trata de receber uma absolvição. Um ato de suma intimidade, e ao mesmo tempo de suma ternura.

 

 

A alegria de ser pequeno e a de mandar

 

Não devemos entender que a alegria de servir e de ser pequeno exclua a alegria de mandar ou de ser algo. E, conforme o caso, a alegria de mandar supremamente e de ser algo em grau supremo.

Por exemplo, um padre pode ter alegria de ser promovido a Bispo?

Se for por se ver libertado da condição  de ser pequeno e de servir, está mal feito.

De outro lado, a condição de Bispo dá ao homem algo a mais na relação com Deus. Essa condição é, para ele, honrosa e nobilitante em si.

Se é tão honroso servir a Deus, mais honroso é mandar em nome de Deus.

Portanto, há uma alegria de mandar.

 

 

Notas:

 

(*) Arquétipo: Tipo é o “modelo ideal reunindo em si os caracteres essenciais de certa espécie de objetos, em seu mais alto grau de perfeição”. Arquétipo é o “tipo supremo, de que os objetos dos quais  temos a experiência não são senão cópias; protótipo, padrão, original, modelo, paradigma” (Paul Foulquié, “Dictionnaire de la Langue Philosophique”, P. U. F., Paris, 1962).

(**) Metafísica: como substantivo, é a parte da Filosofia que estuda o ser enquanto ser.  O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira muitas vezes utilizava o adjetivo metafísico-a  em seu sentido etimológico, isto é, aquilo que vai além do físico.

 

 

 

2. “Todo homem, participante da Humanidade, participa, pois, por natureza ao mesmo tempo da ciência e da arte das proporções musicais, poéticas, verbais” (De Bruyne, “L’esthétique du Moyen Age, p. 184).

 3. “A música (...) nada faz senão traduzir e prolongar a harmonia psíquica e fisiológica do homem” (Ibid. p. 64).

4. Referência ao conhecidíssimo romance de Daniel Defoe (1719), do qual Robinson Crusoé é ao mesmo tempo o título e o principal personagem. Trata-se da narração das aventuras de um homem que, atirado a uma ilha deserta, encontra entretanto meios de se bastar a si próprio e mesmo de criar um bem-estar relativo. Sobretudo depois de encontrar o índio Sexta-Feira, que se transforma em uma espécie de servidor, admirador e discípulo.

5. Para que eleveis nossas mentes aos desejos celestes, nós Vos rogamos, ouvi-nos (da Ladainha das Rogações).

6. Mt. XVIII, 20.

7. Cf. I Re. XVIII, 1, XX, 17.

8. Do francês. Tratado com cuidado, com esmero.

9. Estes quatro últimos parágrafos foram extraídos do testamento deixado pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira.

10. Ver a respeito Pe. Ramière S.J., “El Reino de Jesucristo en la Historia”, mimeografado, p. 38.