6. “Servitudo
ex caritate”: obedecer para
ser livre
A consagração a Maria, sob várias formas, é considerada parte essencial do
carisma, não só dos montfortianos, como dos maristas, dos claretianos e de
várias outras instituições religiosas (58). Constitui ela, por outro lado,
costume de muitas associações, como a "Legião de Maria", a
"Milícia da Imaculada", o "Apostolado Mundial de Fátima", a
associação "Maria Rainha dos Corações" e as próprias Congregações
Marianas. "Com a eleição ao Pontificado de João Paulo II e os seus actos
repetidos de consagração das Igrejas singulares e do mundo inteiro (1981, 1982,
1984) –observa o Padre monfortino Stefano
De Flores– a consagração/entrega a Maria torna-se tema teológico sem
fronteiras" (59).
(58) Sobre a relação
entre a consagração a Maria de São Luís Maria Grignion de Montfort e a de São Maximiliano Kolbe, cfr. Padre
António M. DI MONDA O.F.M. Conv., "La consacrazione a Maria", Milizia
dell'Immacolata, Nápoles, 1968.
(59) Stefano DE FLORES S.M.M.,
"Maria nella teologia contemporanea", Centro "Madre della
Chiesa", Roma, 1987, p. 314-315. Cfr. também A. RIVERA, "Boletín
bibliográfico de la consagración
a la Virgen", in Ephemerides Mariologicae, vol. 34 (1984), pp. 125-133.
Apesar de incluída desde sempre na tradição da Igreja, a consagração a
Maria sofreu, porém, incompreensões de vários géneros. Na oposição a esta
consagração confluem dois tipos de críticas: a primeira refere-se ao seu própro objecto, a Santíssima Virgem, à qual se prestaria um
indébito culto de "latria" (60); a segunda crítica diz respeito ao
modo de fazer a consagração, que na perspectiva montfortina
é concebida como uma "escravidão" a Nossa Senhora.
(60) "Uma consagração
propriamente dita –objecta por exemplo o teólogo progressista Juan Alfaro– não se faz senão a
uma Pessoa divina porque a consagração é um acto de latria, cujo termo final
apenas pode ser Deus" (J. ALFARO, "Il cristocentrismo della consacrazione a Maria nella congregazione mariana", Stella Matutina, Roma, 1962, p. 21).
O primeiro ponto foi refutado com clareza pelo próprio São Luís Maria de
Montfort: se todas as devoções devem tender para Cristo como fim e centro de
tudo, pois "de outra forma seriam enganosas" (61), é evidente,
explica, que também a consagração a Maria não pode ter outro fim senão Cristo.
"Portanto –diz Montfort– se estabelecemos a sólida devoção à Santíssima
Virgem, é só para estabelecer mais perfeitamente a devoção dirigida a Jesus Cristo"
(62). Não se trata, portanto, de culto de "latria", mas de legítimo
culto de "hiperdulia". "A teologia–com efeito– diz-nos que
devemos ter por Maria não somente um culto de dulia, como o que é devido aos
Santos, mas de hiperdulia, que vem imediatamente antes do culto de latria,
reservado a Deus e à divina Humanidade do Salvador" (63).
(61) S. L. M. GRIGNION DE
MONTFORT, "Tratado da Verdadeira Devoção", cit., n° 61.
(62) Ibid., n° 62.
(63) R.
GARRIGOU-LAGRANGE O.P., "Vita spirituale", cit., p. 254.
Mas é sobretudo o segundo ponto, relativo à ideia de "escravidão"
(64), que choca a sensibilidade moderna, porque exprime uma relação de
dependência e de submissão como súbdito que é antitética
à ideia de "libertação" e autodeterminação, a qual constitui o leitmotiv da mentalidade progressista (65). O homem moderno
não pode imaginar que exista alguém que deseje encontrar a própria liberdade na
dependência de outro. "Já ninguém quer ser escravo, nem sequer escravo de
amor" (66), objecta um conhecido teólogo progressista.
(64) A doutrina da Igreja
sobre a escravidão está expressa na frase de São Paulo: "Já não existe
diferença entre o judeu e o grego, o escravo e o homem livre, o homem e a
mulher; sois um em Jesus Cristo" (Ad Galatas, III, 28). "A casa de cada homem é uma cidade
–acrescenta São João Crisóstomo– e, nela, há uma hierarquia: o marido tem poder
sobre a mulher, a mulher sobre os escravos, os escravos sobre as suas esposas,
os homens e as mulheres sobre os seus próprios filhos" (in Epistula ad
Ephesios, cit. in Paul
ALLARD, "Les esclaves chrétiens depuis les premiers temps
de l'Eglise jusqu'à la fin de la
dominatian romaine en Occident", Didier et C., Paris, 1876, p. 279.
(65) Sobre a escravidão e a moral cristã: Pietro PALAZZINI, verbete "Schiavitù", in EC, vol. XI (1953), col. 58; Viktor CATHREIN S.J., "Moralphilosophie", Herder, Friburgo, 1899 (2 vol.), vol. II, pp. 435-448.
(66) Edward H. SCHILLEBEECKX, "Maria Madre della Redenzione",
tr. it. Ed.
Paoline, Catânia, 1965, p.
142.
Entretanto os Santos e os Papas, que desde o século IX até aos nossos dias,
tomaram nos actos oficiais o título de Servus servorum Dei (67), sentiam-se honrados em consagrar-se como
escravos a Jesus Cristo, à Santíssima Virgem e até ao próximo (68). "O
Senhor fez-me escravo do povo de Hipona",
escrevia Santo Agostinho (69), enquanto São João Crisóstomo afirmava: "Se
aquele que está na forma de Deus se aniquilou a si mesmo tomando a forma do
escravo para salvar os escravos, quem se deve admirar que eu, que sou somente
um escravo, me faça escravo dos meus companheiros de escravidão?" (70)
(67) A. Pietro FRUTAZ, "Servus Servorum Dei", in EC,
vol. XI (1953), col. 420-422. São Gregório
Magno foi o primeiro Papa a fazer largo uso deste título (cfr. Paolo DIACONO, "Vita S. Gregorii", in PL, vol. 75,
p. 87).
(68) S.
L. M. GRIGNION DE MONFORT, "Tratado da Verdadeira Devoção", cit., n°
135, mas também "Imitação de Cristo", livro III, cap. X.
(69) P. ALLARD,`"Les
esclaves chrétiens", cit., p. 242.
(70)
S. João CRISÓSTOMO, De mutatione nominum, Homilia II, 1, 1 cit. in
P. ALLARD, pp. 242.243. Segundo
o Padre Garrigou-Lagrange, "se há no mundo
escravos do respeito humano, da ambição, do dinheiro e de outras paixões ainda
mais vergonhosas, felizmente existem também escravos da palavra dada, da
consciência e do dever. A santa escravidão pertence a esta última classe. Temos
aqui uma metáfora viva que se contrapõe à escravidão do pecado" (R.
GARRIGOU-LAGRANGE O.P., "La Mère du Sauveur et nôtre
vie intérieure", Editions du Cerf,
Paris, 1975, apêndice IV).
Plínio Corrêa de Oliveira, numa série de artigos para o grande público,
estampados na Folha de S. Paulo, tratou do problema com a clareza costumeira,
reconduzindo os termos "escravidão" e "liberdade" ao seu
autêntico significado (71):
(71) O ensinamento de
Plínio Corrêa de Oliveira reflecte o de Leão XIII, na Encíclica Libertas de 20
de Junho de 1888 (in , vol. VI, "La pace interna delle nazioni", cit., pp. 143-176) e antecipa o de João
Paulo II, na Encíclica Veritatis Splendor
de 6 de Agosto de 1993.
"Do homem cumpridor das suas obrigações dizia-se outrora que era
`escravo do dever'. De facto, era um homem situado no ápice da sua liberdade,
que entendia por um acto todo pessoal quais as vias que devia trilhar,
deliberava com varonil vigor trilhá-las, e vencia o assalto das paixões
desordenadas que tentavam cegá-lo, amolecer-lhe a vontade e vedar-lhe assim o
caminho livremente escolhido. O homem que, alcançada esta suprema vitória,
prosseguia com passo firme para o rumo devido, era livre.
"`Escravo' era, pelo contrário, aquele que se deixava arrastar pelas
paixões desregradas para um rumo que a sua razão não aprovava, nem a vontade
preferia. A estes genuínos vencidos se chamava `escravos do vício'. Tinha-se
libertado' por escravidão ao vício do sadio império da razão.
"Hoje, tudo se inverteu. Como tipo de homem ‘livre’ temos o hippie de flor em punho, a deambular sem eira nem beira, ou
o hippie que, de bomba na mão, espalha o terror a seu
bel-prazer. Pelo contrário, é tido por atado, por homem não livre, quem vive na
obediência das leis de Deus e dos homens.
"Na perspectiva actual, é ‘livre’ o homem a quem a lei faculta comprar
as drogas que queira, usá-las como entenda, e por fim... escravizar-se a elas.
E é tirânica, escravizante, a lei que impede o homem
de escravizar-se à droga.
"Sempre nesta estrábica perspectiva feita de inversão de valores, é escravizante o voto religioso mediante o qual, em plena
consciência e liberdade, o frade se entrega, com renúncia de qualquer recuo, ao
serviço abnegado dos mais altos ideais cristãos. Para proteger contra a tirania
da sua própria fraqueza essa livre deliberação, o frade sujeita-se, nesse acto,
à autoridade de superiores vigilantes. Quem assim se vincula para se conservar
livre das suas más paixões está sujeito hoje a ser qualificado de vil escravo.
Como se o superior lhe impusesse um jugo que cerceasse a sua vontade... quando,
pelo contrário, o superior serve de corrimão para as almas elevadas que
aspiram, livre e intrepidamente –sem ceder à perigosa vertigem das alturas–
subir até cima as escadarias dos supremos ideais.
"Em suma, para uns é livre quem, com a razão obnubilada
e a vontade quebrada, impelido pela loucura dos sentidos, tem a faculdade de
deslizar voluptuosamente no tobogã dos maus costumes.
E é `escravo' aquele que serve à própria razão, vence com força de vontade as
próprias paixões, obedece às leis divinas e humanas, e põe em prática a ordem.
"Sobretudo é escravo, nessa perspectiva, aquele que, para mais
inteiramente garantir a sua liberdade, opta livremente por submeter-se a
autoridades que o guiem para onde ele quer chegar. Até lá nos leva a atmosfera
actual, impregnada de freudismo!" (72).
(72) Plínio CORRÊA DE
OLIVEIRA, "Obedecer
para ser livre", in Folha de S. Paulo,
20 de Setembro de 1980.
Em que sentido se pode ligar a palavra "amor" a
"escravidão", sendo que esta última parece contradizer a primeira
enquanto odiosa imposição de uma vontade sobre a outra?
"Amor em sã filosofia, –explica ainda Plínio Corrêa de Oliveira– é o
acto pelo qual a vontade quer livremente alguma coisa. Assim, também na
linguagem corrente, `querer' e `amar' são palavras utilizáveis no mesmo
sentido. 'Escravidão de amor' é o nobre auge do acto pelo qual alguém se dá
livremente a um ideal, a uma causa. Ou, por vezes, se vincula a outrem.
"O afecto sagrado e os deveres do matrimónio têm qualquer coisa que
vincula, que liga, que enobrece. Em espanhol, às algemas chama-se `esposas'. A
metáfora faz-nos sorrir. E aos divorcistas pode
arrepiar. Pois alude à indissolubilidade. Em português falamos dos `vínculos'
do matrimónio.
"Mais vinculante do que o estado de casado é
o do Sacerdote. E, em certo sentido, mais ainda é o dos religiosos. Quanto mais
alto é o estado livremente escolhido, tanto mais forte o vínculo, e tanto mais
autêntica a liberdade” (73).
(73) Plínio CORRÊA DE
OLIVEIRA, ibid. "Chamando todos os homens aos píncaros da `escravidão de
amor', São Luis Maria Grignion de Montfort fá-lo em
termos tão prudentes, que deixam livre campo para importantes matizes. A sua
`escravidão de amor', tão cheia de significado especial para as pessoas ligadas
por voto ao estado religioso, pode igualmente ser praticada por Sacerdotes seculares
e por leigos. Pois, ao contrário dos votos religiosos, que obrigam durante
certo tempo ou durante vida inteira, o `escravo de amor' pode deixar a qualquer
momento essa elevadíssima condição, sem ipso facto
cometer pecado. E enquanto o religioso que desobedece à sua regra incorre em
pecado, o leigo `escravo de amor' não comete pecado algum pelo simples facto de
contraditar de algum modo a generosidade total do dom que fez. Isto posto, o
leigo mantém-se nesta condição de escravo por um acto livre implícita ou explícitamente repetido cada dia. Ou melhor, a cada
instante." (ibid.).
Recorda Plínio Corrêa de Oliveira que a consagração de São Luís Maria
Grignion de Montfort possui uma admirável radicalidade. Ela sacrifica não
apenas os bens materiais do homem, mas também o mérito das suas boas obras e
orações, a sua vida, o seu corpo e a sua alma. Ela não possui limites, porque o
escravo, por definição, nada tem de seu, pertence completamente ao senhor.
Nossa Senhora, em troca, obtém para o seu "escravo de amor" especiais
graças divinas que iluminam a sua inteligência e robustecem a sua vontade.
"Em troca dessa consagração, Nossa Senhora actua no interior do seu
escravo de modo maravilhoso, estabelecendo com ele uma união inefável.
"Os frutos dessa união aparecerão nos Apóstolos dos Últimos Tempos,
cujo perfil moral é traçado por São Luiz Maria com linhas de fogo na sua Oração
Abrasada. Usa para isso uma linguagem de grandeza apocalíptica, na qual parece
reviver todo o fogo de um Baptista, todo o clamor de um Evangelista, todo o
zelo de um Paulo de Tarso. Os varões portentosos que lutarão contra o demónio
pelo Reino de Maria, conduzindo gloriosamente até ao fim dos tempos a luta
contra o demónio, o mundo e a carne, São Luis
descreve-os desde já como magníficos modelos que convidam à perfeita escravidão
a Nossa Senhora a todos aqueles que, nos nossos tenebrosos dias, lutam nas
fileiras da Contra-Revolução." (74).
(74) Plínio CORRÊA DE
OLIVEIRA, Prólogo à edição argentina de "Revolución"
cit. p. 34.