Catolicismo, N.° 464, agosto de 1989 (www.catolicismo.com.br)

 

Na sessão promovida pela TFP, a 9 de junho último, no auditório do Hotel Mofarrej, em São Paulo, após a conferência do Cel. Samuel T. Dickens [destacado piloto da Força Aérea norte-americana durante as guerras da Coréia e do Vietnã, condecorado duas vezes por sua participação em 233 missões de combate, ex-comandante da Base da NATO na Espanha e dedicado ao estudo e à ação ideológica contra o comunismo], o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira dirigiu aos presentes palavras de encerramento. Depois de elogiar a exposição do ilustre visitante, o Prof. Plinio analisou com particular brilho e clarividência a mentalidade centrista de nossos dias. Seguem os principais tópicos dessa exposição, com ligeiras adaptações de linguagem. Os subtítulos são da redação.  

 

O centro, a onça e o cordeiro

 

No tabuleiro político tanto da América Central quanto da América do Sul, nota-se esta constante: uma direita que deseja uma repressão anticomunista; um centro que não quer com empenho coisa algu­ma; e uma esquerda que deseja uma colaboração com o socialismo e com o comunismo. Colaboração essa ten­dente a se transformar numa aliança, depois numa imitação e por fim nu­ma capitulação. Esta é a marcha da esquerda.

 

Um pêndulo viciado pelo sentimentalismo

Mas o elemento decisivo aí é o cen­tro. Esse centro decisivo, cujo apoio deve ser disputado igualmente pela di­reita e pela esquerda, inclina-se freqüen­temente para a esquerda, muito mais do que para a direita.

O centro normalmente seria como um pêndulo entre a direita e a esquer­da. Mas na realidade trata-se de um pêndulo rachado, que funciona mal: quando vai para a esquerda ele sobe muito, quando se inclina para a direi­ta, faz apenas uma pequena oscilação. É um pêndulo viciado.

Nessa psicologia centrista, que dá à minoria irremediavelmente mino­ritária do comunismo, um apoio e uma força que ela naturalmente não teria, figura entretanto a idéia de que os comunistas são os maus e os con­servadores os bons. Por que os centris­tas não se inclinam então para os con­servadores?

Porque, segundo a mentalidade cen­trista, sempre que um indivíduo é mau, ele o é sem culpa própria, por­que não teve apoio, não foi bem trata­do; ele é mau porque não encontrou carinho, não encontrou ajuda, não en­controu pessoas que lhe explicassem o equívoco em que está.

São mentalidades sentimentais, que por sentimentalismo não querem reco­nhecer a existência do mal no mundo. Para esses, a solução é encher os maus de agrados, de carinho, provar-lhes de todas as maneiras possíveis que eles têm a colaboração daqueles a quem querem atacar. Aí então os maus fica­rão desarmados pela força de doçura do bem. E o perigo desaparecerá.

Tal é o artifício de guerra psicológica revolucionária empregado no mun­do inteiro, para fazer com que os da direita sejam sistematicamente vistos com desconfiança, e os da esquerda com confiança; e assim as maiorias centris­tas girem para a esquerda.

 

Agradar para não lutar

Daí decorre um fato extraordinaria­mente extravagante. Nós, que somos os homens da ordem, que andamos es­crupulosamente dentro da lei, que te­mos o desejo de tratar cordial e amisto­samente todo mundo que nos dê garan­tias de não estar do lado mau — mas que na defesa da boa ordem atacamos o comunismo, que é o inimigo irreme­diável e fundamental da boa ordem —, nós passamos por ser os intratáveis.

E os da esquerda, que têm campos de concentração, prisões políticas, que matam, que confiscam, que dissolvem as famílias e fazem toda espécie de mal, a esses é preciso agradar, pois, estão equivocados...

Desmontar esse estado de espírito centrista é um dos objetivos essenciais da TFP. E ao longo de todas as suas campanhas, a TFP dirige-se cordial­mente ao centro e diz: "Os esquerdis­tas estão destruindo a vocês! Eles estão confiscando suas propriedades! Vamos lutar juntos contra esse confisco".

O resultado é um sorrisão de tan­tos proprietários: "Nãããoo! Vamos ad­mitir a Reforma Agrária em algo, assim eles ficam satisfeitos e não vão exigir uma Reforma Agrária total". Nós dize­mos: "Vamos impedir qualquer Refor­ma socialista". "Não! O senhor não entendeu. Eles querem a Reforma Ur­bana? Façamos uma parte do que eles querem, e eles ficarão com o apetite saciado e não farão o resto". Quanto à Reforma Empresarial, é a mesmíssi­ma coisa.

E assim, na malfadada política do ceder para não perder, do agradar pa­ra não lutar, nós vamos entregando os pontos, os pontos, e os pontos.

E eu aproveito a oportunidade da excelente exposição, tão sintomática, que o Cel. Dickens fez aqui, para por em realce a importância desse aspecto da questão.  E, em conseqüência, inci­tar os senhores a que cada um — na sua vida particular, nas suas famílias, nos seus locais de trabalho, em todas as formas de relações que tenham — aproveite a ocasião para expor isto, para manifestar isto, porque esta é a grande torção das mentalidades na qual nós nos encontramos hoje em dia.

 

Uma parábola explicativa

Uma notícia publicada hoje por um quotidiano é muito significativa do que eu acabo de dizer. Os trabalha­dores e os proprietários de zonas on­de ainda existem onças, estão vendo os seus rebanhos dizimados por elas, e não têm defesa, porque a legislação não lhes permite matá-las. Estão ali criando o rebanho; está ali a onça que quer comer o rebanho, e assim roubar o trabalho do homem; e este não po­de matar a onça. E o mesmo sentimen­tal que tem pena da onça, vê com má vontade o homem que cria o cordeiro para matá-lo. E acontece que a onça acaba tendo tanta liberdade, que está ameaçando a vida dos cordeiros e dos homens.

Quem forma uma idéia otimista e sentimental da onça; quem protege a onça e não se lembra de proteger aque­le que têm o direito de ser protegido — que é antes de tudo o homem — acaba criando a seguinte situação: as onças devoram os cordeiros — é o ca­so concreto —, mas os donos do reba­nho não podem defender os cordeiros matando a onça.

Ora, isto é uma imagem expressi­va da política do centro em relação à direita e à esquerda.

Não se tem o direito, pensam os centristas, de ter uma política forte com os comunistas. É preciso poupá-los, é preciso conservá-los etc. Os co­munistas pulam para agredir...: "Ah! pobre onça... Deixe que ela mate a fome e ela não comerá mais cordei­ros". Mas a fome dela é eterna! En­quanto houver onças, elas vão comer cordeiros.

E o resultado é que as onças ficam ganhando a partida e os cordeiros apa­nham. E não há meio de ensinar isto aos centristas. Nós falamos, nós repeti­mos, e os cordeiros tomam sempre a mesma atitude, quase se diria intencio­nalmente imbecil. E esta imbecilidade é o principal apoio dos políticos esquer­distas que desenvolvem o programa de ação de que o Cel. Dickens acaba de falar.

Tal situação existe, analogamente, em todos e em cada um dos países da América do Sul, e a meu ver existe pe­lo mundo inteiro. Este é um ponto de luta contínua da TFP, para esclarecer o público.

E nós devemos sair daqui com a convicção exata, viva, tornada mais tô­nica por estes exemplos, de que ou fa­zemos a grande luta contra o comunis­mo consistir não só em apontar os ma­les deste, mas em mostrar aos centris­tas a imbecilidade do caminho em que andam — ou mostramos a estes que eles sacrificam os cordeiros em favor das onças — ou nós não teremos fei­to nada de realmente eficaz contra o comunismo.

Esta é, minhas senhoras e meus se­nhores, Altezas Imperiais e Reais, es­ta é a grande lição desta noite.