Catolicismo, N.° 475, Julho
de 1990 (www.catolicismo.com.br)
Uma
revolução igualitária movida pela inveja
REVOLUÇÃO Francesa! O tema ocupou as páginas de nossa
revista, ininterruptamente de maio a dezembro de 1989, e em fevereiro do
presente ano, a
propósito das comemorações do bicentenário daquele trágico evento. Fatos
diversos e centrais do período revolucionário (1789-1815) foram aqui lembrados,
bem como noticiadas as comemorações realizadas no ano passado, sobretudo na
França.
Hoje, apresentamos aos leitores uma análise do que foi
o espírito da Revolução Francesa, e do modo pelo qual foi ela discutida desde
seu desencadear até nossos dias.
O presente trabalho — o qual nos desvenda, em
profundidade, o motor da Revolução Francesa — é o resultado de anotações extraídas
de uma penetrante conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, proferida
para sócios e cooperadores da TFP, em 23 de agosto do ano passado.
* * *
NAS REAÇÕES do público — notadamente o francês — a propósito
das comemorações do bicentenário, pode-se notar um tom geral a respeito da
Revolução Francesa, definidamente discrepante daquilo que se poderia
considerar, até há pouco, como sendo o pseudo-tom geral; ou seja, um tom oficial
que procurava impor-se a todo o mundo, e que se apresentava como aceito por
todos.
Ora, nas matérias sobre a Revolução Francesa
publicadas por nossa revista ao longo destes meses, alguns leitores pouco
familiarizados com o nosso pensamento, talvez tenham tido uma surpresa.
"Então, `Catolicismo' não é incondicional a
favor da Revolução Francesa? Bem, é possível, contra a Revolução, alegar
crimes, desastres, ações infames; mas tudo isso não será secundário em
relação ao grande roteiro central ideológico da Revolução, roteiro que é uma
maravilha? Ou seja, a Revolução não trouxe consigo uma concepção do mundo, do
homem, das coisas, do Estado, da sociedade civil, da economia, da arte, da
cultura, que é uma concepção una e magnífica, que renovou o mundo e o colocou
nas vias em que ele se encontra?"
De fato, respondemos nós, a Revolução trouxe consigo
uma concepção una, pior do que todos os crimes que ela cometeu. Concepção que é
a causa de todos os desastres diante dos quais nós nos encontramos. É o tema
deste artigo.
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Calúnia que se desfaz
"Se o povo não tem pão que coma brioches". Esta frase atribuída à rainha Maria
Antonieta de França, correu o mundo e passou para a História, ao menos para a
que é apresentada por alguns historiadores. Mostraria bem o desprezo com que
no final do Antigo Regime, a soberana francesa considerava a triste situação
do pobre povo faminto. Ou pelo menos seria indicativa de quão alheia estava a
rainha às necessidades desse mesmo povo, a ponto de ignorar que a brioche — feita
de trigo, manteiga e ovos — seria ainda mais dificilmente obtida pelos famintos
do que o simples pão.
Tal frase foi um dos ingredientes apimentados da legenda
negra, que se procurou tecer em torno da desditada
rainha, barbaramente guilhotinada pela Revolução Francesa, em 1793.
Mais recentemente, porém, a biblioteca do Congresso
dos Estados Unidos publicou um livro — “Respectfully
Quoted” (Respeitosamente citados) — que coleciona
citações erroneamente atribuídas a personalidades célebres. Nele se demonstra
que o dito atribuído a Maria Antonieta de fato foi cunhado décadas antes por
uma esquecida dama da corte francesa...
O Revolução, como mentes! Como calunias!
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A
Revolução questionada na França
É muito mais fácil manter uma visão otimista e
glorificante da Revolução Francesa, fora
e longe da França, que dentro dela. Porque sobre o solo francês ainda permanecem, por assim dizer, as
torrentes de sangue derramadas pela Revolução. Nos ecos da vida francesa ainda
como que se ouvem os gemidos, os bramidos, as aclamações, as exclamações, os
protestos, os argumentos de gerações inteiras que se tem sucedido na Franca,
discutindo a Revolução.
De modo que, para os franceses é muito mais concebível
a Revolução ser
discutida e atacada, do que para populações de países distantes, onde ela pode
ser apresentada folcloricamente como um acontecimento triunfal, à maneira de
um bolo de noiva, todo branco.
A globalidade do povo francês apresenta uma atitude
muito mais questionante em face da Revolução, do que por exemplo o público
brasileiro, ou de qualquer outra parte da Terra.
Como o mundo lucraria em perceber que dentro da
França se acredita menos no mito da Revolução, do que se acredita fora da
França! E compreender assim a grande artimanha levada a cabo por gerações de
revolucionários, para arrastar o mundo — sem análise, curvado diante do fato
consumado — a uma aceitação vil da Revolução Francesa. Aceitação sem discernimento,
sem inteligência e sem coragem.
Na discussão que vem se desenvolvendo na França a
respeito da Revolução de 1789, podemos distinguir duas etapas. A primeira vai
até fins do século passado, quando começou a ser posta em prática uma aliás controvertidíssima política de aproximação dos católicos
com a democracia moderna, conhecida como "Ralliement".
Até o "Ralliement", a idéia era de que altar
e trono constituíam duas vítimas da Revolução, solidárias porque a Revolução
as odiava de um mesmo ódio e queria afogá-las num mesmo sangue. De fato, a
Revolução igualitária de 1789 desencadeou simultaneamente uma perseguição
anti-religiosa e anticlerical e outra antimonárquica e antinobiliárquica. E por
detrás dessa dupla perseguição, havia um único pensamento, que os
revolucionários desejavam impor como molde para as idéias, para a ação e para a
estruturação do mundo inteiro.
Tal pensamento falso baseava-se no seguinte princípio
metafísico: a desigualdade faz sofrer aqueles que estão embaixo. É sempre
penoso para o amor-próprio humano ter superior. E por causa disso, as
organizações anti-igualitárias, hierárquicas de
qualquer ordem, seriam odiosas. Por exemplo, adotada a ótica revolucionária,
torna-se explicável que um trabalhador manual lamente não ser burguês; que um
burguês lamente não ser nobre; que um nobre lamente não ser príncipe; e um príncipe
lamente não ser rei. A natureza humana seria hostil à idéia de ter um superior,
e por causa disso a estrutura hierárquica faria sofrer os homens.
Uma
mentira da Revolução: a cascata de desprezos
Segundo a expressão do Abbé Sieyès — um dos fundadores
do clube dos jacobinos, o mais radicalmente revolucionário — a sociedade
hierárquica anterior à Revolução Francesa constituía uma cascata de desprezos.
Quer dizer, no alto da cascata o rei jorrava o seu desprezo sobre os príncipes
da casa real; os príncipes da casa real o descontavam jorrando seu desprezo
sobre os nobres; os nobres hierarquizados prolongavam essa cascata de
desprezos: o duque desprezava o marquês, o marquês desprezava o conde, o conde
desprezava o visconde, o visconde desprezava o barão, e o barão desprezava o
resto da França!
Chegadas a esse ponto — sempre segundo a idéia do Abbé
Síeyès —, as águas do desprezo ainda não se detinham! No alto da burguesia —
classe que vem depois da nobreza — temos a finança, os altos titulares de
cargos públicos, os grandes proprietários rurais, urbanos, etc., todos
ganhando muito dinheiro. Esses eram desprezados pelo simples barão, mas por
sua vez desprezavam o homem que tem uma fortuna média, o qual desprezava o
homem com pequeno patrimônio. O homem com pequeno patrimônio desprezava o
proletário. Mas, por sua vez, dentro do proletariado podiam-se distinguir duas
camadas: os artesãos mais qualificados ou menos qualificados, que ganham mais
ou que ganham menos.
Mais uma vez a cascata de desprezos se precipitaria
sobre a última classe dos homens, até estalar com toda a força de águas caídas
tão do alto sobre os pobres coitados: os mendigos, os desvalidos, os
radicalmente pobres, dignos eles sim de toda a compaixão humana.
Mas se isto é assim, é natural que também seja vista
como uma cascata de desprezos a hierarquia da Igreja Católica. Então, de Papa
para Cardeais, de Cardeais para Arcebispos, de Arcebispos para Bispos, de
Bispos para Monsenhores, de Monsenhores para Cônegos, de Cônegos para simples
padres, a cascata de desprezos castiga! E depois cai com todo o vigor sobre a
plebe eclesiástica, que são os leigos.
Essa cascata de desprezos existiria porque a sociedade
estava baseada na desigualdade.
Então, segundo essa visão deturpada dos fatos, era preciso
fazer uma Revolução a partir da idéia de que toda a desigualdade é um mal e um
roubo, e estabelecer de fato no mundo a igualdade completa.
Era essa a sede do homem revolucionário, afinal
liberto de superioridades, de obediências, de
autoridades... Essa idéia tem qualquer coisa do absoluto, do frenesi
categórico de quem procura a possibilidade do seu defeito se satisfazer
inteiramente, absolutamente, no extremo.
Por
detrás do igualitarismo, a inveja
O defeito, no caso, é a inveja. Ou seja, toda a ralé
moral dos invejosos, dos que não admitem que outrem tenha mais ou seja mais,
daqueles a quem dói que alguém seja mais do que eles — ainda que seja mais
inteligente, ou então fisicamente mais forte — toda esta ralé moral encontra
neste mito da igualdade uma espécie de abolição do sofrimento que lhe trazem
suas más inclinações. Assim como suprime sua sede quem bebe água, assim também
suprimiria a tortura invejosa dessa desigualdade quem bebesse as águas da
igualdade.
A aceitar tal posição, o grande primeiro
revolucionário foi Lúcifer, que se doeu diante da
suprema desigualdade de Deus, e quis estabelecer a igualdade no Céu. Nessa
perspectiva, a primeira Revolução não foi a francesa nem sequer foi humana:
foi angélica. E povoou o inferno! É a conclusão inevitável.
A inveja, como os demais vícios, tem qualquer coisa de
insaciável. E quando se encontra afinal atendida, ela provoca esgares de
contentamento. contorções de alegria, de que o homem poucas vezes tem noção,
porque há um certo pudor do invejoso em declarar-se inteiramente invejoso.
Para fazer tal declaração, ele teria de reconhecer sobre si uma
superioridade. E já isso ele não quer.
Mas, em geral, as paixões humanas desordenadas tendem
para um certo paroxismo, um certo frenesi, no qual os homens imaginam encontrar
uma delícia. A embriaguez, por exemplo, é assim. O bêbado bebe, bebe, bebe, e é
experimentando a náusea, praticando atitudes ridículas como jogar-se no chão,
é nesse horror que ele encontra um estado de plena satisfação do seu desejo do
álcool. Os efeitos do álcool são para ele como que um falso céu — o céu do
inferno, se quiserem. Mas são para ele um falso céu.
Um frenesi desse tipo, o contra-ideal
da igualdade produz em todos os invejosos do mundo. Esse desejo frenético da
igualdade, existente nos invejosos, é semelhante à vontade do bêbado de
ingerir álcool, ou do drogado de tomar a droga, ou do homem sensual de
praticar a impureza. São coisas do mesmo gênero.
É uma apetência subconsciente, ou conforme o caso
consciente, desse estado de plenitude exasperada, de plenitude furibunda da
satisfação da inveja: nisto consiste o motor do espírito revolucionário.
Os
dois partidos
E a Revolução Francesa só matou, só queimou, só
incendiou, só profanou, só blasfemou, só praticou todos os horrores que fez,
porque o revolucionário sentia nisso o gozo que Satanás imaginava ter, se com
a sua revolução angélica pudesse derrubar a Deus. Então, dentro do seu delírio
psicótico, ele teria querido calcar Deus aos pés. E é só no momento em que, se
possível fosse, Satanás sentisse que debaixo de seus pés imundos — antropomorficamente falando — se contorcia e morria a
Verdade absoluta, o Bem absoluto, o Belo absoluto, é que ele teria dado a
gargalhada que seria o gozo frenético de sua vida: "Ah, ah!! Morreu afinal aquele que era mais do que eu!"
Esse estado de espírito diabólico é tão real que, bons
teólogos o afirmam, se fosse dado ao demônio sair do inferno, ir para o Céu,
pedir perdão por seus pecados, e reintegrar-se no Céu, na felicidade eterna,
ele não quereria!
O demônio é apresentado acorrentado no inferno, e é
verdade, mas apenas num sentido da palavra. Porque se lhe oferecessem o Céu,
ele não o desejaria. Ele não quer contemplar a Deus no seu verum
absoluto, no seu bonum absoluto, no seu pulchrum absoluto, porque isto é mais do que ele. E
ele prefere ser um revoltado, eternamente desgraçado, mas blasfemando sempre,
do que calcar em si seus sentimentos de inveja e penetrar na felicidade
eterna.
Para compreendermos o fio condutor da Revolução
Francesa — vinda ela mesma do Protestantismo, Humanismo, Renascença, como
largamente se demonstra no livro "Revolução e Contra-Revolução" — é
preciso compreender esta sede ilimitada de igualdade absoluta, que é o motor
da Revolução universal, e que a levou por estas e aquelas maneiras a produzir
estas e aquelas convulsões. E a chegar, portanto, aos extremos que nós
conhecemos, documentados em artigos anteriores de "Catolicismo".
Então, se a pergunta é: Você é a favor ou contra a
Revolução Francesa? A resposta deve ser: — Você é do partido da inveja ou do
partido da hierarquia? Hierarquia ordenada, hierarquia harmônica, hierarquia
magnífica, mas hierarquia, e que não seria ordem nem seria harmonia, nem teria
magnificência, se não fosse hierarquia. Esta é a verdadeira pergunta de fundo.
Após
o "Ralliement", o esquecimento
Isso se entendia muito bem até a época em que se
iniciou a política do "Ralliement", cujos perniciosos efeitos se
fizeram sentir não só na França, mas no mundo inteiro.
Até então, a luta conduzida pelos
contra-revolucionários era em favor do altar e do trono (*).
Tratava-se de um amor à hierarquia, combatido pelos
partidários da inveja, que viam em toda desigualdade social uma cascata de
desprezos.
A partir do "Ralliement", esse pomo de
discórdia foi sendo gradualmente esquecido pelos polemistas católicos. Não
sabendo então como definir sua própria posição em face do "Ralliement",
muitos católicos fiéis começaram a atacar a Revolução em pontos secundários:
matou muita gente, gastou muito dinheiro, e outras coisas do gênero.
São pontos que têm sua importância e seu interesse,
mas são de um interesse secundário.
Esta é a evolução que houve do tempo do
"Ralliement" aos nossos dias. Essa cegueira foi se tornando cada vez mais
espessa com o correr dos tempos, em virtude de fatos e de circunstâncias que
seria longo enumerar. De modo que o homem, hoje, quando objeta contra a
Revolução Francesa, habitualmente o faz por razões secundárias, embora
importantes. A questão nevrálgica ficou esquecida.
No
pensamento de fundo, permanece a objeção central
De outro lado, entretanto, há o seguinte. Por mais
que se queira esconder, a propósito da Revolução Francesa, esta nota
igualitária fundamental — que não é só uma nota da Revolução Francesa, é a
própria Revolução Francesa, o próprio espírito dela é esse — de algum modo ela
transparece. Assim, em vários dos atuais objetantes contra a Revolução Francesa
percebe-se que, embora não cheguem a explicitar a grande questão fundamental,
entretanto eles a têm no fundo da cabeça. Apresentam reservas e levantam
dúvidas em relação à Revolução no que concerne aos morticínios, ao dinheiro
gasto, etc., mas, de fato, eles não gostam dela principalmente por outra razão!
Eles têm implícito em sua mente um pensamento que fica
por detrás daquilo que disseram, um pensamento de fundo: o horror ao
igualitarismo invejoso da Revolução, que eles sentem e já não sabem exprimir,
ou pelo menos não ousam atacar de frente, porque percebem a explosão. Saem
assim à procura de razões secundárias para criticar uma Revolução que eles
gostariam de combater a outro título e de outro jeito.
Interpretadas assim as atuais objeções à Revolução
Francesa, poder-se-ia dizer que pelo menos um bom número delas representa uma
tendência de espírito que é a mesma de antes do "Railiement", e que
não cessou. E nesse sentido é altamente alentador o sopro anti-Revolução que
se nota em certos setores da França e do mundo.
Os
flagelados de alma
Ouve-se falar muito hoje em dia dos crimes cometidos
pelo comunismo e pela Revolução Francesa. Fala-se porém somente dos crimes
cometidos contra os corpos, porque a nossa época é materialista, e tende a só
tomar em consideração o que é matéria. Não se toma em consideração que, assim
como há flagelados, ou podem haver flagelados de corpo, porque receberam
açoites, existem os flagelados de alma.
Um indivíduo pode não ter no corpo nenhuma doença, e
nenhuma marca de maus tratos, estar em condições físicas perfeitas, mas ter
uma alma flagelada. E a alma de um homem é flagelada, entre outras coisas,
quando ele tenta dizer algo e não consegue por ter sido objeto de artifícios
didáticos, pedagógicos, propagandísticos, os quais não lhe permitam a
formulação do próprio pensamento. Ele se sente em desacordo com toda uma
ordem de coisas, mas nem o sabe dizer. Por efeito de uma manipulação — que não
há exagero em chamar de diabólica — foram torcidas as noções e as palavras, de
maneira tal que muitos não encontram sequer o vocabulário necessário para a
expressão de seu mal-estar. E assim carregam durante vinte, trinta, cinqüenta,
oitenta anos de vida ou mais, essa incógnita que se move dentro deles, e que
lhes dá um mal estar enorme! Esses são os grandes flagelados do mundo de
hoje. Mas, deles, os atuais partidários da Revolução não falam.
Se soubermos dar voz a esses flagelados de alma,
teremos feito um apostolado contra-revolucionário de primeira grandeza.
__________
(*) Como aliás, simetricamente, a luta conduzida pelos
revolucionários se efetuava em oposição ao altar e ao trono.
A razão desse fato notório era profunda. A Revolução,
essencialmente igualitária, afirmava — e seus continuadores
contemporâneos igualmente o dizem — que toda e qualquer desigualdade é injusta,
e, pelo fato de ser desigualdade, deve suscitar merecida revolta da parle dos
que estão "de baixo". Levado esse principio a suas últimas
conseqüências, importa ele em uma solidariedade com o "non serviam" de Satanás e dos anjos rebeldes. E para
os que, como tantos revolucionários, não crêem em Deus, tal principio acarreta
uma oposição categórica e radical a toda forma de religião e de culto. E o
mesmo princípio provoca análoga oposição a qualquer desigualdade nas estruturas
eclesiásticas e notadamente na Santa Igreja, cuja autoridade suprema e
monárquica é o Papa, cujos príncipes espirituais são os Bispos e cuja elite é
formada pelo Clero. Na Igreja, a plebe é constituída pelo laicato, tal não
pode deixar de indignar um adversário coerente de todas as desigualdades.
O mesmo homem anti-igualitário, que preza a hierarquia
existente no Poder espiritual, tem análogos reflexos se posto em presença da
ordem monárquica como habitualmente ela existia na Europa. Ou seja, de
monarquias apoiadas, no campo político-social, por aristocracias, as quais
tinham preeminência sobre os vários segmentos — também desiguais — da classe popular.
Da postura de pensamento e de temperamento dos
revolucionários radicais nascia naturalmente um ataque simultâneo, inspirado
por análogas razões, contra o Altar e o Trono. Nada mais justo e natural do que
a frente única de uns e de outros contra o adversário comum, odiento e
empreendedor.
Tudo isso não impede que — não por influência dos
torpes princípios igualitários acima enunciados, mas por motivos inteiramente
concretos, circunstanciais e políticos — determinado povo, ao constituir-se,
prefira para si qualquer das três formas de governo (monarquia, aristocracia
e democracia) ou uma forma de governo eclética abrangendo elementos típicos de
cada uma dessas formas. Pois, em si mesma, nenhuma delas transgride a ordem
natural e os Mandamentos da Lei de Deus.