Palácio Mauá, São Paulo, 27 de
novembro de 1976
Comemoração pelos mortos na Intentona de 1935
[Locutor: Falará a seguir o professor Plinio Corrêa de Oliveira,
Presidente do Conselho Nacional da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição,
Família e Propriedade - TFP].
[Aplausos]
Excelentíssimo
Senhor General Navarro, digníssimo presidente desta seção, dignas autoridades
militares e civis, Exmo. Sr. bispo dom Antônio de Castro Mayer, minhas
senhoras, meu senhores.
É um pensamento
especial que me vem ao espírito e que eu tenho que vos comunicar neste momento,
neste momento em que tantas personalidades de importância de São Paulo, um público tão seleto sob a presidência
efetiva de um ilustre General,
participada por uma mesa tão conspícua, tão inteligente, se reúnem para
comemorar os mortos da Intentona de 1935.
1935, há quantos
anos fazem. Estamos em 1976, e sempre a comemoração se repete. Cada vez mais
insistente, cada vez mais marcada, não porque apenas a gratidão cresça com a
noção do serviço prestado pelos heróis que morreram naquela época, e há razões
para que cresça esta gratidão, porque à medida em que o comunismo desenvolve a
sua história sinistra, melhor se compreende contra que mal lutaram os
brasileiros valorosos que naquela ocasião ofereceram sua vida pela pátria e
pela civilização cristã. Então, não é apenas pela gratidão que cresce que esta
cerimônia se marca mais e mais dando no esplendor um tanto tristonho e um tanto
festivo da noite de hoje. Mas é também porque o ataque comunista se torna cada
vez mais insistente.
E porque o
comunismo recorrendo aos meios de guerra revolucionária psicológica,
desconhecidos em 1935, e que chegam nem 1976 ao seu zênite, o comunismo chega a
isso que se poderia chamar uma obra-prima de maledicência, que é o adormecimento
intencional de setores populacionais e imensos, que sem terem a atenção posta
para um perigo que entretanto eles repudiam, entregam o corpo, descansam,
pensam em progresso, sonham com grandeza, se entretém com prazeres. E por isso
não tem a atenção posta para o inimigo soez, para o inimigo ativo, para o
inimigo multiforme que a todo momento cresce, e que a todo momento tenta contra
a pátria um novo ataque, contra a Igreja e a Civilização Cristã uma nova
insídia.
E por isto é que
brasileiros de um espírito patriótico alertado e atualizado, brasileiros
movidos pelo espírito cristão e indissociável de toda verdadeira alma
verdadeiramente brasileira, brasileiros aqui se congregam, se reúnem para
afirmar perante o País que o perigo existe, que é bom pensar nas grandezas do
futuro, que é necessário trabalhar para que o Brasil vá adiante no caminho de
potência emergente que ele vai atingindo neste momento. Mas só sonhar com um
futuro grandioso, trabalhar para realizar e para antecipar este futuro, isto não
basta, é preciso também lutar.
Porque a vida
não é só feita de esperanças, a vida não é só feita de anelos, ela é feita
também de riscos, ela é feita também de aleivosias, ela é feita de perigos.
E ai do varão,
ai do chefe de família, ai do chefe de empresa, ai do chefe civil, militar ou
eclesiástico que não tem os olhos abertos para este aspecto também da
realidade: o inimicus homo de que
nos fala a Escritura, que ronda em torno de cada homem, em torno de cada setor
de atividade social, em torno de cada nação do mundo contemporâneo, pronto para
se atirar sobre ela, no momento em que encontre condições favoráveis para isto.
Nestas
circunstâncias, é bem certo, meus senhores, que é preciso pensar também no
perigo. Mas não me parece que o pensar no perigo e nos prepararmos para ele, o
congregarmos e o concitarmos os nossos concidadãos a lutar contra ele seja em
algo dissociado das nobres preocupações da faina diária e da construção de um
Brasil sempre maior.
Pelo contrário,
professor de História que sou – e habituado desde minha remota juventude a me
debruçar sobre os fatos históricos à procura das leis da História com que Deus
pauta a existência e o porvir dos povos, e neles inscreve os sinais de sua
misericórdia e de sua justiça – professor de História que sou, sempre me
chamou a atenção um fato histórico que tem a sua projeção sobre a realidade
natural até no mundo animal e até no mundo vegetal.
E o que a História
ensina é o seguinte: não é verdade que atinge a grandeza, a grandeza efetiva, a
grandeza durável, a grandeza plena aquele povo que apenas trabalhou para sua
própria grandeza. A verdade é outra: a grandeza é atingida sim pelos povos que
trabalham, a Providência não quer nem abençoa os povos que não trabalham, mas a
grandeza verdadeira se adquire também quando o homem, tomando conhecimento
dessa regra de que ele encontrará o adversário no seu caminho a agredi-lo na
justiça de suas vias e na santidade dos seus propósitos, ele se prepara para
luta, enfrenta a luta, confia na Providência, e vence a luta.
Os povos só
trabalhadores não chegam a ter verdadeira grandeza. Os povos só lutadores não
alcançam a verdadeira grandeza. Os povos que sabem aliar a luta ao trabalho,
fazendo do trabalho uma luta, e da luta um trabalho, entregando-se operosamente à luta e ardorosamente ao trabalho, os povos
que sabem unir estes dois aspectos de sua atividade, estes povos sob o signo da
cruz se tornam verdadeiramente grandes.
E para não
retardar estas palavras, para não as alongar por demais, eu lembro apenas um
fato histórico, um fato histórico que estarrece todos aqueles que se preocupam
com os anais do passado.
Fim do século
XV, termina uma era histórica, abre-se outra era histórica, uma potência surge
no firmamento do mundo e ali vai brilhar como um sol de primeira grandeza
durante muito tempo, até esta potência poderá dizer, comparando-se aos astros,
que nos seus limites o sol jamais se porá: é a Espanha.
A Espanha que ao
mesmo tempo expulsa o mouro de Granada, impõe seu domínio sobre o norte da
África revoltado, manda Cristóvão Colombo descobrir a América e funda assim o
maior império colonial até então conhecido. A Espanha realiza estas três
atividades ao mesmo tempo, gloriosamente e serenamente – eu
quase diria nobre e elegantemente. Sob o sorriso feminino, materno e régio de
Isabel de Castela.
Qual é a razão
pela qual um tão forte esforço é realizado e levado à vitória por um povo quase
que ao mesmo tempo vencendo em três frentes? Este povo tinha atrás de si
séculos de tranqüilidade, séculos de paz? Este povo tinha 800 anos de luta
contra a moirama invasora. E porque eles não quiseram dobrar os joelhos diante
da religião que sabiam falsa, porque não quiseram deixar a fidelidade a Jesus
Cristo que reconheciam como Deus verdadeiro, resignaram-se a oito séculos que temperaram
o seu caráter, oito séculos de luta. Da luta emergiram gigantes para o
trabalho, meteram-se na faina da produção e da população, encheram a América
com a sua descendência, a África com o terror das suas armas, a Europa com o
esplendor do seu nome. Os gênios floresceram, os talentos brilharam, os grandes
santos iluminaram a Igreja, a Contra-Reforma foi impulsionada pela Espanha como
potência de primeira ordem, atrás disso estavam oito séculos de lutadores.
As intempéries,
as dificuldades, quanto maiores tanto mais preparam uma nação para sua
grandeza, quando ela é grande ao enfrentá-las.
E é nisto que eu
penso, Exmo. Sr. General, dignas autoridades militares e civis, Exmo. Sr. Bispo,
minhas senhoras e meu senhores, é nisto que eu penso diante do desafio
comunista.
Churchill disse
uma vez, falando dos agressores nazistas, que os que defenderam o mundo contra
eles mereceram a gratidão universal porque “nunca tantos ficaram a dever a tão
poucos”. Pensando no comunismo, eu diria, nesta imensa empresa de agressão
mundial que é o comunismo internacional, eu diria nunca tantos desejaram tanto
mal, um mal tão profundo, desejaram a aplicação de um programa tão errado,
proclamaram a ruína de verdades tão fundamentais e tão patentes quanto faz o
comunismo internacional.
Mas, ó revide,
os povos que saibam dizer não a todos estes erros, os povos que saibam
enfrentar todas estas ameaças, que saibam ser grandes pela alma sobrepondo os
ardis da guerra revolucionária, da guerra psicológica revolucionária, e ao
mesmo tempo lutando se for preciso com a efusão de seu sangue, estes povos
crescerão na própria medida da imensidade do perigo.
Perigo imenso
por causa do poder do comunismo, perigo imenso por causa da imensidade da
malícia e dos erros que o comunismo contém.
E então eu penso
no nosso Brasil, no nosso Brasil de
proporções continentais, habitado por um povo que é bem verdade que a imigração
tornou heterogêneo, mas que vai se amalgamando numa superior unidade de
espírito onde a inteligência, a sutileza, a capacidade de trabalho, o desejo de
progredir se afirmam dia a dia mais, eu penso neste país e neste povo, e penso
comigo: quando o Brasil enfrentar este inimigo à altura dele só não, mas muito
maior do que ele, de maneira a contribuir eficazmente com todos os povos da
terra que queiram reagir para que este inimigo seja prostrado por terra, então,
qual será a grandeza de nosso Brasil? Ninguém poderá dizê-lo.
Ele terá a
grandeza de alma proporcionada ao vigor da luta, que no terreno psicológico
como no terreno material, as circunstâncias tenham imposto, e ele saiba travar.
Ele terá ao mesmo tempo a grandeza de seu território, a grandeza de sua
riqueza, ele será um povo de lutadores que saberá, como nunca, trabalhar. E
será um povo de trabalhadores que soube provar que é formidável na luta.
Sobre ele,
eterno, imutável, brilhará o Cruzeiro do Sul que já Pedro Alvares Cabral viu
quando as naus com o signo de Cristo vieram aportar em nosso território. E o
Brasil de hoje voltando o olhar para o Brasil de ontem, e voltando o olhar
enlevado para o Brasil de amanhã, o Brasil de hoje, creio eu, que na afirmação
uníssona de todos os nossos corações, o Brasil poderá afirmar: vivemos dias
amargos, mas pela graça de Deus soubemos ser grandes à altura de nosso povo, de
nosso território, à altura do sinal da Cruz que está esculpido no céu. Assim
seja.
[Aplausos]