19 de maio de 1983
Mensagem para os Correspondentes
Esclarecedores da TFP norte-americana
Meus caros sócios, cooperadores e correspondentes da
TFP norte-americana.
Eu vos sei reunidos em Nova Iorque para tratar de
vários assuntos concernentes à Tradição, Família e Propriedade na imensa nação
norte-americana, e por esta ocasião não queria deixar de vos apresentar antes
de tudo as saudações de minha simpatia e de minha estima profunda.
Eu estou muito contente com o desenvolvimento que a
TFP está tendo nos Estados Unidos e acho que ainda muito mais se pode esperar
desse desenvolvimento, com a proteção de Nossa Senhora, nos dias que vão se
aproximando.
Com efeito, as circunstâncias da TFP são tais que ela
só tem a lucrar com a definição das posições e dos campos. É no terreno das
ambigüidades, das molezas e das indiferenças que não há clima, não há recuo
ótico para que ela seja vista adequadamente. Mas, pelo contrário, na medida em
que as circunstâncias se vão tornando difíceis e caminham até para o trágico,
no momento em que se percebem os passos de Deus, nas vias da História, que se
aproximam e que fazem sentir aos homens que a hora das grandes decisões e das
grandes deliberações dEle chegou, é neste momento, meus caros, que as almas
mais facilmente se voltam para aquilo que é de Deus. E portanto para esta TFP
que eu tenho certeza que a Providência Divina suscitou, a rogos de Maria, para
o serviço da Igreja e da Cristandade, na época difícil em que estamos vivendo.
Para fazer apanhar num só golpe de vista a situação da
TFP, talvez uma metáfora lhes seja útil, e com esta metáfora vai minha
contribuição para o acerto e brilho da semana de estudos que está sendo
inaugurada.
Nós poderíamos imaginar uma situação assim: uma rainha
de uma formosura incomparável, de uma majestade maior ou igual, proporcionada à
sua formosura, de uma bondade proporcionada à sua majestade e à sua formosura.
Esta rainha governa pacificamente sobre povos inteiros que se inclinam
encantados e reverentes diante dos acenos de seu cetro de mãe.
De repente, no meio desses povos se levanta o inimicus homo,
percebe-se que é a mesma serpente maldita que uma vez no Paraíso causou a perda
dos homens, essa mesma serpente começa a se movimentar no meio das massas e das
multidões. E a rainha se sente mal à vontade para governar estes ou aqueles
setores de seu imenso império.
Com o curso dos tempos, as partes do império fiéis a
ela vão se reduzindo, e ela acaba reduzida à presença no seu próprio palácio. O
inimigo vai penetrando, o descontentamento vai tocando por toda parte, e acaba
sendo que no próprio palácio ele penetra. E penetrando no palácio, penetra por
fim até na sala do trono. A hora da tragédia chegou. A rainha está de pé,
majestosa. Ela cinge sua coroa, tem na mão o cetro, o manto real lhe desce dos
ombros até os pés, ela cintila de jóias, mas cintila sobretudo de grandeza, de
majestade, de implícitas promessas de bondade. Mas ela enfrenta o adversário
que avança.
A sua sala está cheia de cortesãos. Infelizmente estes
cortesãos não correspondem à expectativa da rainha. Ela esperava que ao menos
desse punhado de fiéis que, refluindo de todas as partes da terra, se agrupou
em torno dela, ao menos desses partisse o brado da fidelidade perfeita e
começasse uma reação indispensável diante de um tão grande descalabro. Mas
infelizmente isso não se dá. Na imensa sala do trono, onde todos estão, o
alarido do adversário se faz ouvir. Arrebentam-se as portas e o adversário
entra. E os cortesãos da rainha que deveriam jogar-se entre ela e o adversário,
estão de braços cruzados.
Uns por medo, outros por sono, outros porque querem um
lugar na ordem de coisas que o adversário maldito vai implantar e por causa
disso não se interessam pela rainha. O adversário ousa mais, aproxima-se.
Depois ousa mais ainda, cerca a rainha com cordas, prende-a e ela está imóvel,
pronta para ser arrastada. Seu olhar implora aos cortesãos que pouco ou nada
fazem em favor dela, que apenas dão alguns soluços de tristeza inútil ou
esboçam algum gesto de protesto mole ou nada fazem. Ela implora a eles que
tenham coragem, que andem, que se pronunciem, que se declarem. Pelo olhar, já
estando com a boca vedada e não podendo falar, pelo olhar ela lhes diz tudo
isso.
E infelizmente as derrotas da rainha vão se sucedendo
umas às outras, ela está no momento em que ela está para ser arrancada do
trono. Um bandido ata uma corda em torno do pescoço dela e puxa a corda para
ela cair. No momento em que isto se dá, a extrema infâmia do acontecimento
produz também o extremo da indignação de alguns bons. Eles se levantam e
bradam: “Isto não! Isto não havemos de permitir!” e se atiram em defesa da
rainha.
A sua indignação, protegida por Deus, lhes centuplica
as forças, a reação começa. A reação acorda os adormecidos, ela dá coragem aos
medrosos, ela envergonha os oportunistas. Por toda a parte simpatias vão
nascendo e uma grande contra-ofensiva se esboça. Antes do sol se pôr, há de
novo paz e ordem no palácio da Rainha. Ela, encantada ao ver que filhos fiéis a
salvaram na hora do perigo extremo, lhes distribui com uma bondade materna que
não se pode ter uma idéia adequada a não ser vendo a cena, lhes distribui
recompensas mais esplêndidas do que eles jamais sonharam.
E é nesta atmosfera que a noite desce e com a noite a
paz sobre o palácio da rainha. No dia seguinte outras batalhas começarão e
começa a reconquista do reino. A ordem de coisas, o Reino de Maria se
reiniciará. Mas então com que glória, com que esplendor, porque a rainha no
momento extremo – já que foi ela a grande vencedora –, no momento extremo, a rainha, por um olhar a
alguns últimos fiéis, venceu todos os seus adversários, em todo seu reino
revoltado.
Meus caros, a metáfora tem a sua aplicação. Ao longo do
processo revolucionário que começou com o Protestantismo, passou da esfera
religiosa para a política com a Revolução Francesa; da esfera política
contaminou a esfera econômica social é a 3ª Revolução que é a revolução
comunista. E vai passando de todos os modos para a 4ª esfera, que é a esfera de
todos os imponderáveis da vida, esfera de todos os imponderáveis do homem. A
Revolução que poderíamos chamar autogestionária,
poderíamos chamar a Revolução ecológica, poderíamos chamar talvez – e de
preferência – a Revolução dos bruxedos e do demônio, a Revolução hippie e punk, esta Revolução está invadindo a terra, e dos
últimos restos da glória de Maria pela terra quase nada existe.
Existem alguns fiéis daqui, de lá e de acolá. Vários
deles estão nessa verdadeira sala do trono de Maria que é a TFP e ali estão
vendo a Rainha que está sendo ultrajada. Mas o olhar dEla, aflito, régio,
maternal, cheio de promessas, mas faiscando ameaças contra o adversário –
promessas para os filhos e faíscas de ameaça para os adversários – nesta hora
extrema, tocou-nos a nós. E nós nos levantamos e começamos a luta, e essa luta
é a luta da TFP por toda a terra.
Aquela frase da Escritura que Santo Antônio Maria Claret escolheu para o símbolo da sua congregação
religiosa, os Filhos do Imaculado Coração de Maria, aquela frase me vem ao
espírito quando eu falo isso. Ele colocou, ele fez seu escudo de um fundo azul,
que é a cor do Sapiencial e Imaculado Coração de
Maria; sobre esse fundo azul, um coração rubro encimado por uma chama – é o
próprio Coração Imaculado de Maria –, adornado por um cinturão de flores
brancas que representam a virgindade da Virgem Mãe, e uma espada de dor que a transpassa, porque a dor é a glória da Mater Dolorosa, que compartilhou com Nosso Senhor Jesus Cristo a
ação redentora do Calvário. Ela é chamada pelos teólogos a co–redentora
dos homens. Sobre este escudo tão belo há um cavaleiro medieval completamente
armado e que representa São Miguel, e ao pé do escudo essa frase lindíssima: “Filii ejus surrexerunt
et beatissima praedicaverunt.
– Seus filhos se levantaram e A proclamaram muito bem-aventurada”.
É nossa tarefa, meus caros, sermos as pessoas armadas
do pé à cabeça com as armas da fé, com as armas do sobrenatural, com todas as
armas que a justiça e o direito põem ao nosso alcance, armados para nos
levantarmos à face da terra e proclamar Aquela que é muito Bem-Aventurada.
Essa é, meus caros a aurora do Reino de Maria (*).
Com essas palavras eu vos saúdo e peço à Virgem
Santíssima que com todas as graças presida ao vosso simpósio.
(*) A respeito da expressão "Reino de
Maria", vide a obra "Guerreiros
da Virgem – A RÉPLICA DA AUTENTICIDADE – A TFP sem segredos", CAPÍTULO
IX, 1. O Reino de Maria, mais uma noção que a TFP não inventou