22 de outubro de 1983 — Sábado
Conferência
de abertura do Congresso de
Correspondentes e Esclarecedores
(sem revisão do Autor)
Reverendíssimos Srs.
Sacerdotes, minhas Senhoras, meus Srs., ou melhor, prezados sócios,
correspondentes e esclarecedores da TFP, das várias TFPs do mundo, eu vos saúdo
muito cordialmente.
Inicio esta exposição ao som
da música lindíssima que o cortejo que acaba de desaparecer cantava no seu ato
final: "Exurge, Domine, noli
tardare; - Senhor, levantai-Vos
e não tardeis mais! Senhor, levantai-Vos!...” Deus
parece, em certas ocasiões, estar dormindo. “Não tardeis!”
Nós temos a impressão,
tantas vezes, que Deus Nosso Senhor está tardando. Há quinhentos anos vem-se
adensando sobre o Ocidente a terrível crise em cujo ponto mais doloroso,
sensível e perigoso nós nos encontramos no momento presente. Deus, por certo,
não dormiu. Mas quantas e quantas vezes dormiram os filhos da Luz. E porque
eles dormiram, apesar de reações valorosas, apesar de lances heróicos, apesar
de dias de glória, a Revolução gnóstica e
igualitária, começada há 500 anos atrás, foi-se desenvolvendo, ganhando
extensão, ganhando profundidade, ocupando não só todas as terras, mas
estendendo-se a todos os domínios da vida humana, pior ainda, a todos os
recônditos da mentalidade humana e chegando ao auge em que nós nos encontramos
no momento presente.
Esta Revolução é bem o
grande adversário, o maior adversário com que a Igreja e a Civilização Cristã
tenham tido que contar ao longo de sua história duas vezes milenar. E não há o
menor exagero em afirmar que as próprias perseguições desenvolvidas pelos
imperadores romanos não tiveram nem a crueldade, nem a gravidade da perseguição,
em tantos de seus aspectos incruenta, dos dias que correm.
Os Srs., podem considerar
este quadro: através das janelas que temos diante de nós, um pacífico e
aprazível jardim; um salão muito considerável que está repleto de filhos da
Luz, desejosos da derrota da Revolução; nós, de todos os lados, afluímos com
liberdade, reunimo-nos com liberdade e proclamamos com liberdade nossos
argumentos e nossa Fé e, entretanto, nós podemos dizer que a nossa situação é
pior que a dos católicos no tempo das Catacumbas. Pior: em virtude de uma
porção de circunstâncias que não vem ao caso enumerar no momento presente, mas
que se resumem no seguinte ponto: em todos os lados, é começar pelo teto... É, olhai
para o teto do salão onde estamos reunidos, que foi o único salão que
conseguimos encontrar na imensa São Paulo dos dias de hoje. Nesse teto se
instila de algum modo a mentalidade da Revolução. Ela nos assedia, ela nos
seduz, ela nos espreita em todos os momentos; ela arrasta a todos os momentos
até mesmo aqueles que nos são mais caros.
Esta Revolução, que é
proteiforme, que toma os mais variados aspectos, esta Revolução constitui um
todo só e é contra este todo que um outro todo faz a Contra-Revolução. Este
todo é a Revolução gnóstica e igualitária, a respeito
da qual me parece importante que nós façamos algumas considerações hoje, para
nós termos bem em mente o que ela é, como ela se desenvolveu e até onde ela
chegou. Haverá um momento de nossas reflexões em que nós nos perguntaremos:
"Está bom, quando ela morrerá?..." Já não é o tema da presente
exposição.
Nós devemos na reunião de
hoje tratar de descrever no que consiste a Revolução. Para nós termos bem idéia
daquilo que ela é, nós devemos remontar à ordem de coisas que ela encontrou,
ver as transformações que ela operou nesta ordem de coisas de maneira a chegar
à ordem de coisas onde nós estamos. Pela obra dela se conhece o espírito dela.
E assim, eu vos convido a
passar, em mente, para aquela época em que a Idade Média vicejava na Europa,
aquela época tão malsinada da qual, entretanto, o Papa de gloriosa recordação,
Leão XIII, numa de suas encíclicas, teve a famosa dissertação: "Tempo
houve em que...” que vai ser lida para os Srs. neste momento.
"Tempo houve em
que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da
sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os
costumas dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil.
Então, a religião
instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que
lhe é devido, em toda parte era florescente, graças aos favores dos Príncipes e
à proteção legitima dos Magistrados.
Então, o Sacerdócio e
o Império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela permuta
amistosa de bons ofícios.
Organizada assim, a
sociedade civil deu frutos superiores a toda expectativa, cuja memória subsiste
e subsistirá, consignada como está em numerosos documentos que artifício algum
dos adversários poderá corromper ou obscurecer."
Encíclica "Immortale Dei", Leão XIII.
Os Srs. acabam de ouvir,
portanto, palavras de Leão XIII a respeito dessa Idade Média tão malsinada, de
como o Papa, voltando-se para trás - e ele falava no século XIX, quando a obra
revolucionária já estava tão adiantada, ele falava como prisioneiro da
Revolução dentro do Palácio do Vaticano, junto Basílica
de São Pedro - nesta época, ele considerava essa Idade Média.
Nessa Idade Média a
sociedade estava organizada segundo um princípio que hoje parece moderníssimo,
mas que, como tantas e tantas coisas modernas, não é senão uma coisa antiga a
que se procurou dar um aspecto moderno para valorizar a Revolução. A sociedade
era organizada segundo um princípio que se aceita hoje para muitos efeitos
técnicos e burocráticos, mas que não se aceita de nenhum modo para efeitos sócio-econômicos. A sociedade era organizada segundo o princípio
da especialização das funções. O corpo social, como todo corpo, tem órgãos
próprios; esses órgãos realizam cada qual uma tarefa própria; e é da harmonia
desses órgãos e da harmonia dessas tarefas que resulta o bem do corpo humano,
ou o bem do ser humano.
Assim também com a sociedade
medieval: havia três grandes órgãos especiais da sociedade. Esses órgãos eram:
o Clero, a Nobreza e o Povo. O modo pelo qual se entrelaçavam esses organismos,
nós o podemos ver um pouquinho expressos por este quadro negro, onde os Srs. têm
a organização social posta sobretudo no clero. Depois, eu lhes direi alguma
coisa a respeito da organização da nobreza e da organização do povo, de maneira
que os Srs. possam ter uma idéia de conjunto da sociedade medieval.
Por que razão o clero era a primeira
das classes sociais?
O sacerdote é o pontífice; a
plenitude do sacerdócio tem o bispo, os padres participam do sacerdócio; eles
são, também, verdadeiramente sacerdotes, eles são "pontifex".
"Pontifex'' é aquele que faz ponte. Eles têm a
excelsa missão de serem a ponte entre Deus e os homens.
Como a sociedade vive
sobretudo para dar glória a Deus e para, a seu modo, ministerialmente,
facilitar a salvação das almas, a classe que leva a Deus, a classe que realiza
a mais importante obra na salvação dos homens é, naturalmente, a primeira
classe social.
Podemos dizer que estes que
constituem a primeira classe social, que são o "sal da terra e a luz do
mundo", tem a missão da prece. Eles têm a palavra de Deus junto aos
homens. Eles são os que celebram o sacrifício. Eles são os que se sacrificam,
vivendo exclusivamente para o bem da Igreja e para o bem da Civilização Cristã,
sem tomar em consideração suas vantagens pessoais. Nessas condições, nós
compreendemos que eles têm uma missão de inteira doação ao bem comum, temporal
secundariamente, eterno primordialmente, e por causa disso na sociedade eles
são os primeiros. Os primeiros, aos quais, por causa deste princípio da
especialização das funções, incumbam grandes deveres e incumbem também nobres
direitos.
Quais são as incumbências do
sacerdote, além das incumbências religiosas de que eu acabo de falar?
Na sociedade temporal, na
sociedade humana, o clero da Idade Média exercia duas funções principais.
O ensino. Não apenas o
ensino da Religião, mas o ensino tomado como um todo, esse ensino estava a
cargo dos sacerdotes. Quer dizer, era a Igreja que fundara, que promovera e que
dirigia a quase totalidade das universidades. Quando Ela não dirigia, Ela
supervisionava para manter a universidade nos trilhos da ortodoxia e da
Civilização Cristã. De outro lado, a Igreja não tinha apenas a universidade,
mas tinha também o ensino primário. O ensino secundário haveria de nascer muito
depois, pelo século XVI. De alto a baixo do ensino, a Igreja é que tinha a
incumbência. O Estado não gastava coisa alguma com isso. Todo o gasto era pago
pela Igreja, pelas instituições especialmente constituídas para isso e por
aqueles que estudavam. Mas o ensino gratuito era larguíssimo e tendia a se
generalizar na Idade Média. De maneira que o ônus principal da função de
ensinar era da Igreja.
É claro que se compreende
que isto seja assim. Não só por uma razão histórica - porque depois das
invasões dos bárbaros a Igreja foi quem começou a reerguer o teor da
civilização, difundindo o ensino por toda parte - mas porque qualquer matéria
que se ensine pode ter uma relação próxima ou remota com a religião. E como
acima de tudo convém que o ensino conduza as almas a uma conceituação
límpida e exata da única religião verdadeira - a Católica, Apostólica, Romana -
era excelente que em mãos da Igreja estivesse o ensino.
Tarefa gloriosa à qual se
ligava também, para a Igreja, outra tarefa insigne e tão própria das mãos de
Mãe da Igreja: a Igreja era também aquela que promovia as obras de Caridade.
Não se conta habitualmente
que nesse mundo antigo - mundo grego, mundo romano, mundo egípcio, mundo persa,
mundo chinês tão elogiados pelos historiadores - não havia obras de caridade e
não havia hospitais. A medicina era uma espécie de curandeirismo
um pouco experimental, mas muito feita de superstições e que não tinha
consistência nenhuma. Foi exatamente nos fins dos tempos antigos, quando a
Igreja já tinha saído das Catacumbas e já iluminava todo o Império Romano, que
começaram a aparecer os primeiros hospitais, fundados por católicos com intuito
de recolher os pobres doentes que jaziam por um lado e por outro e dos quais
tanta gente se afastava, para que eles tivessem algum tratamento. Como, depois,
no hospital, a observação das doenças começou a tomar corpo, os primeiríssimos
e remotos elementos da medicina sistemática começaram a nascer. O uso da água
para lavar as feridas, este uso foi conhecido nos hospitais, foi um
conhecimento adquirido nos hospitais católicos. Assim como os hospitais, outras
obras de caridade impulsionadas pela Igreja encheram a Europa de ponta a ponta,
desde a Rússia – eu quase diria desde os Urais até ao litoral Atlântico de
Portugal – toda a Europa se encheu de obras de caridade. Sempre ou fundadas ou
estimuladas ou bafejadas ou abençoadas e propulsionadas pela Igreja Católica.
Razão pela qual a Igreja tinha sobre si outro encargo, que era o encargo da
Saúde Pública.
Nós vemos, assim, que o
orçamento de dois pesados ministérios das nações modernas, o Ministério da
Educação e o Ministério da Saúde Pública - mais do que o orçamento, os
cuidados, os encargos, a preocupação, a responsabilidade, a vigilância - tudo
isto estava pesando sabre a Igreja.
É claro que a Igreja, que
acrescentava às outras esta tarefa que a levava à cabeceira dos doentes até o
momento em que o moribundo, tendo recebido a Extrema Unção, entregava a sua
alma a Deus, e desempenhando tão importantes funções, a Igreja haveria de ter
também os seus privilégios. Privilégios que não se devem ver como um pagamento
da sociedade a Ela. Se fosse uma retribuição, seria uma retribuição justa, mas
era muito mais do que esse pagamento. Era algo que estava na natureza sacral da
Igreja.
Assim, por exemplo, os
sacerdotes, por serem da primeira classe social, por serem clérigos sagrados pela
Igreja, gozavam do chamado privilégio do fôro. Quer
dizer, o sacerdote só poderia ser julgado por um tribunal eclesiástico e mesmo
quando um tribunal eclesiástico condenasse o sacerdote à prisão, ele não iria
para a prisão comum. Ele ia para a prisão da autoridade eclesiástica, chamada
aljube, para que aquele que foi separado pela vocação de Deus da massa dos
homens e entregue à Igreja, este estivesse nas mãos da Igreja até no momento
tristíssimo em que ele devesse defender a sua inocência, até no momento mais
triste ainda em que sua inocência fosse demonstrada pela própria Igreja como
não mais existindo, no momento da pena, ainda era a mão da Igreja que o
castigava, porque só Ela está à altura dessa excelsa missão de castigar aquele
que é o pontífice de Deus.
O Sacerdote era protegido
não só contra os abusos do braço secular, contra os abusos do Estado, por essa
forma, mas a lei o protegia também contra os atentados do crime. Um criminoso
que cometesse um crime contra um sacerdote não cometia apenas o crime de
homicídio ou o crime de lesar o físico de alguém, mas ele cometia o crime de
sacrilégio. Porque a pessoa do sacerdote é sagrada e atentar contra ela era
sacrilégio, é enquanto tal o processo, não porque o sacerdote fosse réu, mas
porque o sacerdote era vítima, passava para a Igreja e era o tribunal
eclesiástico que ia julgar o réu, para ter a garantia de que o réu seria
punido, por respeito devido à autoridade excelsa que ele tinha atacado.
O Sacerdote gozava da
isenção do serviço militar. Isenção essa que decorre do princípio "a
Igreja tem horror ao sangue". Isenção tão legítima que até nos Estados
modernos, dos mais leigos, se dispensa o sacerdote do serviço militar. Ele não
combatia. Mas, apesar disso, o papel militar do sacerdote era um papel insigne.
Todos se lembram da famosa batalha de Belgrado, no século XV, que quebrou o
ímpeto dos maometanos que avançavam pelos Balcãs, e em que São Fidélis de Sigmaringen era o
frade franciscano que dirigia o serviço espiritual da
batalha. Ele de tal maneira percorreu, durante todo o tempo, as fileiras dos
cristãos, com o Crucifixo alto e pregando para que atacassem, para que
lutassem, para que batalhassem que, depois de ganha a batalha, quando todos
estavam como que pasmos porque um exército menor esmagara o poderio de Maomé que avançava naquelas regiões, o general vencedor ia
receber a homenagem das tropas e chamou o humilde frade franciscano,
pediu para ele se colocar a seu lado e disse: "Não foi um que ganhou a
batalha, fomos dois: eu como general e ele como capelão. Honra a ele também!"
Mais ainda: não se pense que
essa abstenção da Igreja ao sangue derramado importa em imaginar, no perfil
moral dEla, uma nota daquilo que hoje veio a se chamar, por uma corruptela da
palavra "paz", o "pacifismo". A Igreja em face de seus
inimigos, em face dos maometanos, em face dos hereges, que procuravam
levantar-se para derrubar a obra dEla, para derrubar a Civilização Cristã, a
Igreja fez mais do que inspirar santos capelães, que eram o móvel do que hoje
se diria a "guerra psicológica" contra os maometanos ou os hereges. A
Igreja suscitou, Ela mesma, Ordens de Cavalaria de leigos. Leigos que faziam os
três votos: castidade, pobreza e obediência e que eram, portanto, verdadeiros
frades que, não sendo sacerdotes, derramavam o sangue, O grande São Bernardo, o
Doutor Melífluo, que compôs a "Salve Regina", esta oração que é toda
mel, que compôs o "Memorare", esta oração
que é também toda mel, fundou talvez a mais insigne das ordens de Cavalaria - a
Ordem dos Templários - que teve por regra a Regra dada por ele. Essa Regra
continha como um dos artigos o seguinte voto terrível e admirável: o templário
não recua nunca, quaisquer que sejam as circunstâncias; se ele recua, ele peca;
é se ele peca e morre, ele vai para o inferno, caso não tenha o ato de
contrição perfeito e não tenha um padre para lhe dar a absolvição. Esse voto,
no qual o homem se coloca entre a morte e o inferno é o que eu conheço de mais
heróico na história da alma humana. Esse voto é o que fez o guerreiro perfeito,
porque é perfeito guerreiro aquele que não recua nunca.
Esta classe sacerdotal, de
tal papel na História do ocidente, era organizada hierarquicamente, como os Srs.
podem ver por essa projeção no quadro negro, que dá aos Srs. a idéia da
Hierarquia eclesiástica como ela aparece ao olhar do comum dos fiéis. Não é o
quadro exato da Hierarquia, no seu sentido jurídico - eu vou analisar este
sentido daqui a pouco - mas é o quadro exato da Hierarquia no seu sentido de
honras. Depois, nós analisaremos o sentido jurídico.
Os Srs. vêem no ápice o
Papa, que é o Soberano Pontífice, o Rei, o Pai da Santa Igreja de Deus. Logo
abaixo do Papa, participando dos poderes dele, neste sentido de que são
conselheiros dele e que o ajudam a governar a Igreja Universal, os Srs. encontram
os cardeais, que constituem a Cúria Romana. Os cardeais que, mesmo quando
cardeais de outras dioceses distantes, são convocados para de vez em quando ir
a Roma ajudar o Papa com seus conselhos; é o famoso Sacro Colégio, representado
por esses três chapéus que os Srs. vêem ali com várias fileiras de borlas.
Dessas borlas nós falaremos daqui a pouco. Abaixo desses chapéus, os Srs.
encontram outros chapéus que representam os arcebispos e depois os bispos; e
depois, os Srs. encontram os sacerdotes. Nas fileiras dos sacerdotes mesmo, os Srs.,
podem distinguir como honraria os monsenhores, os cônegos e os simples
sacerdotes. Mesmo entre os monsenhores, os Srs. encontram cinco graus de monsenhores,
que não dá para representar aí. Mesmo entre os cônegos, os Srs. encontram os
cônegos catedráticos e os cônegos honorários. De maneira que a Santa Igreja é
toda Ela distribuída como uma espécie de escala de honrarias, que corresponde a
uma escala de governo.
Qual é a escala de governo?
A Igreja tem uma tríplice
missão: Ela ensina, Ela governa, Ela santifica. Ela ensina a doutrina revelada;
Ela governa o povo fiel em ordem à salvação; Ela santifica pela promoção da
piedade e sobretudo pela distribuição dos Sacramentos. Esta a Igreja com estas
três missões, que se exercem através dessa Hierarquia pelos graus instituídos
por Nosso Senhor Jesus Cristo, por aqueles graus que são os fundamentos da
Hierarquia, hoje em dia: o Papa, os Bispos e os Sacerdotes.
A Igreja, ao longo dos
séculos, movida por esse espírito hierárquico que é o dEla, porque é o espírito
de Nosso Senhor Jesus Cristo, Ela pôs "nuances"
dentro dessa Hierarquia. Então, Ela estabeleceu os Cardeais, habitualmente
Bispos, mas dos quais, outrora, alguns foram leigos; ainda recentemente, alguns
eram padres. Depois, entre os Bispos, Ela estabeleceu uma categoria, a dos
Arcebispos, depois a dos Bispos. Depois, outras categorias entre os Sacerdotes,
de maneira que nessa Hierarquia fundamental de três graus, em que a plenitude
do sacerdócio é a do Bispo, em que a plenitude do governo é a do Papa e,
localmente, é a do Bispo; depois, é a do Pároco. Nesta Hierarquia, os Srs. têm
uma série de honrarias para o clero secular que assim se distribuem.
Interessante é notar que –
amiga dos símbolos e amiga da hierarquia nos símbolos – a Igreja adotou para os
Cardeais esse imenso chapéu vermelho com uma série de borlas, com 4 filas de
borlas; depois, para os Bispos, uma fila a menos, 3 filas de borlas; para os
Padres, 2 filas de borlas. Para exprimir, por si, a gradação. O chapéu era o
símbolo - como para o rei a coroa - para o padre, de seu poder e de sua
influência.
Mais ali ao lado, os Srs.
têm o clero regular. O Clero Regular é formado pelos que pertencem a ordens
religiosas; hoje se estabelece, geralmente, assim: um superior geral, superior
provincial, superior local e os simples religiosos. De maneira tal que ainda no
Clero Regular, os Srs. tem ainda todas essas gradações. Os Srs. têm, por essa
forma, uma classe social eminentemente hierárquica.
Esta hierarquia será o modelo
inspirador, na aparência - na realidade não foi isso - da ordem social que nós
vamos examinar daqui a pouco e que vai ser projetada para os Srs., dentro de
poucos instantes.
Como é essa Hierarquia na
ordem secular?
Assim como a Igreja se
compõe de duas classes: uma é o Clero e a outra são os leigos. O Clero ensina,
governa, santifica; os leigos são governados, ensinados, santificados. O Clero
existe para o bem comum. E cada um na Igreja existe para dar a sua colaboração
ao bem comum, mas existe, sobretudo, para a sua própria santificação. Assim
também, na ordem temporal, nós encontramos uma classe que existe para o bem
comum. Esta classe tem uma morfologia e uma gênese toda especial, que eu daqui
a pouco vou descrever. Esta classe, porque vive para o bem comum e não vive só
para os seus interesses nem principalmente para os seus interesses, esta classe
será a segunda classe social. Esta classe é a nobreza.
Qual é a origem da nobreza
européia? Qual é a origem do feudalismo, dentro do qual a nobreza européia se estruturou?
A origem da nobreza européia
é desconcertante, porque ela resultou do ataque dos adversários. Muitas vezes o
mal, querendo fazer o mal, sem suspeitar faz o bem. Uma coisa que tem todos os
aspectos de ter sido tramada nos primeiros séculos da Idade Média pelo demônio,
esta coisa levou a florescer na Idade Média, pela pressão das circunstâncias,
um regime todo "sui generis"
e que teve na Europa mais expansão do que no Japão ou no Egito antigos, onde em
certos períodos existiram.
Qual foi a pressão dos
acontecimentos adversos?
Carlos Magno, Carlos o
Grande - em certas dioceses da Europa se diz Carlos o Santo - acabava de
morrer. O cetro do grande imperador derivava para filhos incompetentes, de espírito
curto e inteiramente incapazes de carregar a responsabilidade do imenso império
cristão, que a Santa Sé constituíra na fronte augusta de Carlos Magno. De outro
lado, nos últimos anos já de Carlos Magno, começaram as invasões de novos
bárbaros. Não mais os bárbaros que haviam destroçado o Império Romano, mas
outros bárbaros, talvez mais ferozes. Os normandos
que, vindos pelo Mar do Norte, das regiões geladas do Norte da Europa, se
puseram a atacar, em seus belos barcos de proas curvas e cantando canções de
lança na mão, se puseram a atacar as populações cristãs dos bordos do Mar do
Norte, dos bordos do Báltico, dos bordos do Atlântico, penetravam pelos rios
adentro cantando, descendo, matando, saqueando, pilhando, de tal maneira que o
império de Carlos Magno cambaleava, no momento em que o grande imperador
morreu. Além disso, da longínqua Hungria, uma nova invasão de bárbaros, talvez,
descendentes dos hunos de Átila, também entrava pela
Suíça, pelo Sul da Alemanha, pelo Norte da Itália, penetrava também na Gália,
depois tendia a penetrar na Espanha e Portugal; era a invasão dos húngaros.
Esses húngaros terríveis abalavam o mesmo império que Carlos Magno constituíra
e que os normandos sacudiam. Como se não bastasse, as
águas da tribulação se despejaram sobre o império do grande Carlos e seus
descendentes imbecis se revelaram incapazes de as conter. Com efeito, os
sarracenos, desembarcados no litoral mediterrâneo sul, da França e da Itália,
mas muito notadamente da Espanha - onde constituíram reinos florescentes - e de
Portugal, transpuseram os Pirineus e atacando a
Gália, como se dizia naquele tempo, a França. Os sarracenos também praticavam
as suas invasões devastadoras e essas invasões, no conjunto, ameaçavam derrubar
completamente o Império.
Mas havia alguma coisa que
era a condição de salvação do império. As populações atacadas sabiam que elas,
na medida em que fossem dominadas, seriam colocadas nesta alternativa: ou crer
ou morrer. Alguém dirá: "Bela alternativa. Prefiro morrer!" Frase
linda de dizer... menos fácil de cumprir. Mas, sobretudo, que não tranqüilizava
os pobres irmãos nossos da Fé, naquele tempo, por um ponto: é que os sarracenos
não matavam as crianças. Eles conservavam as crianças e educavam as crianças na
religião falsa. De maneira que o pai que morria mártir, a mãe que morria
mártir, via antes de morrer seu filhinho, sua filhinha que ia ser sarraceno, que ia ser pagão normando ou pagão húngaro. Era cruel!... Então, com este
ímpeto de resistência, com esse ímpeto de ofensiva que só a Fé dá, quando o
homem sente que os grandes ideais, os supremos ideais estão em jogo, em que a
salvação eterna dele e dos seus está em jogo, por toda a Europa populações
urbanas e camponesas passaram a resistir.
Não havia mais, naquele
tempo, as autoridades municipais ou, nos campos, as autoridades locais. Tinham
que resistir. Quais eram as autoridades locais no campo? Eram os fazendeiros.
Fazendeiros em linguagem brasileira. Por toda parte a realidade é a mesma: é um
homem que tem terras, que contrata pessoas para trabalharem nas suas terras e
que estabelece com essas pessoas um regime de convivência, um regime de
cooperação para produção da terra, que facilmente se transforma num regime
patriarcal e familiar. O proprietário da fazenda resolve fortificar a sua casa
com grandes paliçadas de madeira, atrás das quais ele abriga as famílias dos
trabalhadores manuais e os haveres dos trabalhadores manuais; eles tem gado,
eles têm móveis, eles têm alguns bens, eles têm imagens que prezam, eles têm
instrumentos de produção... Tudo isto, quando se houve falar que o adversário
está longe ainda, começa a ser guardado por detrás das paliçadas de madeira;
faz-se um valo de água em torno dessas paliçadas, põe-se uma tábua para servir
de ponte. Quando o adversário chega, encontra a população ali, disposta a
combater e a lutar.
Os inocentes tem habilidades
maiores do que os homens que são sagazes segundo o mundo. Havia nessa tática
tão primitiva, em que cada qual procurava defender os seus próprios haveres,
sua própria vida, sua própria família, para permanecer fiel na Fé, havia nisso
uma suprema astúcia de guerra. O pensamento deles era: "se eu, no meu
lugar, me defendo, eles aqui não entram. Mas como o meu lugar é pequeno, para
eles não vale a pena tomar o meu lugar, se ficar muito difícil; eles vão para a
frente e me deixam para trás e eu continuo a viver aqui. Então, eles combatiam
e a horda atacava. Quando a horda achava que os defensores do lugar eram muito
fortes, a horda combatia um pouco e ia para a frente. Assim, aos poucos, a
horda ia andando para a frente e deixando para trás toda uma semeadura de
lugares fortificados, que não tinham cedido diante de Satanás.
Esta semeadura haveria de
constituir uma dificuldade para os bárbaros, desde que eles, em determinado
momento, encontrassem um rei forte que os combatesse. Porque cada vez que eles
iam para a frente, eles iam com menos gente e mais cansados, eles iam mais
longe de suas próprias bases de operação. Na hora de voltar eles sabiam que
voltando cansados, aquela gente saía das paliçadas para atacá-los. Muitas vezes
retiradas vergonhosas, muitas vezes entregas.
Por esta forma nasceu o
castelo medieval, nasceu o feudo. De que maneira nasceu o castelo?
Primeiro paliçadas de
madeira em torno de uma simples casa. Mas com o decurso dos tempos, vendo que o
perigo era estável, construções de pedra, tanto mais altas quando se podia,
altas e grandiosas. De repente com torres altas também. E com essas torres para
ver o adversário de longe; pontes levadiças em vez da primitiva prancha, da
primitiva tábua. Todo um sistema de fortificações capaz de conter muito mais
gente, de abrigar populações inteiras. E no centro disso, dois edifícios
principais: a residência do castelão - o proprietário se transformara em chefe
de guerra também e de sua família – e sobretudo a capela, onde o sacerdote
distribuía os sacramentos, rezava Missa e depois ia percorrer o alto das
muralhas para encorajar os guerreiros a lutarem mesmo. Entregar o castelo era
entregar a capela, entregar a capela era entregar a glória de Deus. Isso nunca!
Lutemos!
Esta situação em tempo de
paz derivou para outros encargos. Quando as hordas bárbaras estavam afastadas,
os países cristãos guerrearam entre si... Em razão do pecado original, os
homens de vez em quando se guerrearão, pressionados pelo demônio, entrarão em
luta uns contra os outros. E para mover os povos à guerra, o verdadeiro meio
era que os castelães fizessem eles mesmos a luta pelo
mesmo mecanismo. Se um inimigo invadia o país, o castelão defendia a sua zona,
defendia a sua propriedade, e com isso o inimigo passava adiante. De defesa em
defesa, ele se extenuava e ele podia acabar sendo derrotado.
Os reis começaram a
constituir exércitos mais ou menos regulares.
Qual era a obrigação do rei
em caso de invasão estrangeira? Qual era a obrigação do senhor feudal? Qual era
a obrigação do camponês? Qual era a obrigação do plebeu habitando nas cidades?
A obrigação do rei era de
convocar todas as pessoas do reino, para a guerra. Ele tinha obrigação como
hoje o Ministério da Guerra convoca para a mobilização militar e têm todos
obrigação a ir. A classe militar, que devia derramar o sangue pela pátria, era
a nobreza.
Para isso não havia limite:
a qualquer hora que o rei chamasse, para qualquer lugar para onde o rei
destinasse, os nobres deviam ir combater. Qual era a obrigação da plebe?
A plebe não tinha o serviço
militar obrigatório. A plebe só tinha como obrigação defender a própria zona.
Se ela fosse vencida, entrava; se ela não fosse vencida, o inimigo não entrava;
se a guerra cessasse, ela deixava de combater. Então, o inimigo passando, para
o plebeu era a paz. Porque o plebeu não lutava na guerra. A classe militar era,
exclusivamente, a classe nobre. O rei pagava aos plebeus voluntários que, por
amor à luta, por amor ao soldo, queriam se engajar como soldados. Mas eles
podiam sair do exército. Eles não tinham a obrigação do nobre, que nunca podia
deixar a condição militar e que, até velho, ainda era obrigado a combater. A classe
nobre era a classe batalhadora.
Como a classe nobre cumpriu
esse dever fundamental?
A esse respeito, eu não
conheço historiador que discorde. A nobreza, formada pelo espírito cristão,
compreendia que o ideal da vida não é viver muito tempo, não é viver
agradavelmente, o ideal da vida é viver nobremente. A vida nobre consistia na
vida do sacrifício. O nobre entendia que era linda a vida de um homem que fez
um ato de coragem. O momento alto da vida de um nobre da Idade Média - depois
mudou - não era o baile, não era a festa em que ele se pavoneava com lindos
trajes; o momento alto era o momento em que ele ia correr o risco, em que ele
prostrou o adversário com o risco de sua própria vida, o momento em que ele
raspou na eternidade e, por pouco que fosse, ele era chamado por Deus para adorá-Lo por todo o sempre na mansão celeste.
O nobre levava esta vida
cônscio deste sentido supremo do momento de risco, em que ele realizaria a sua
varonilidade cristã na integridade. Tão cônscio que, nos numerosos casos em que
o nobre perdia um braço, ou perdia uma perna, ou ficava cego, ou ficava doente
para a vida inteira, numa palavra, ele ficava inválido, era recolhido no
castelo de sua família - sobre isto eu falarei daqui a pouco - num aposento
digno, na condição de membro da família e respeitado por todos de tal maneira
que seu próprio desfiguramento era um título para admiração, era um título para
veneração: aquele foi como um homem que nos tempos dos mártires era, por exemplo,
mutilado por uma fera, caía na arena, pensava-se que estava morto e saía. Esse
era venerado pelos antigos católicos.
São Bernardo ensina que o
soldado que morre na guerra por amor à Fé, o soldado que morre na guerra para
cumprir numa guerra sem sentido religioso, cumprir o seu dever religioso de
batalhar, esse pode ser considerado um mártir. O mutilado da guerra era o homem
que carregava uma parte da palma do martírio. Diante dele, todos se inclinavam
reverentes. A honra era o prêmio do nobre. Não o prazer nem a riqueza, mas a
honra. Era a classe da honra, era a classe do sacrifício, era a classe da
honra.
Essa classe desempenhava,
portanto, a custas próprias, a tarefa árdua e também o ônus árduo dos
Ministérios da Guerra, da Marinha e da inexistente Aeronáutica de nosso tempo.
Quer dizer, toda a despesa da guerra era do nobre. Por causa disso, o nobre era
obrigado, quando convocado pelo rei, a trazer alguns de seus vassalos pagos e
armados por ele. O armamento não era do rei, o armamento era do nobre e saía da
propriedade do nobre.
Os Srs. podem imaginar o
momento de emoção, numa guerra, quando o nobre, os seus parentes - a parentela
numerosa, porque as proles eram grandes - e mais alguns homens contratados por
ele partiam para a guerra. Os Srs. podem imaginar a cena: os cavalos ajaezados,
os homens todos com suas armaduras, lanças, espadas, etc., que acabam de sair
da capela e montar a cavalo, acabam de se despedir das famílias e vão
cavalgando pela estrada cheia de poeira, perdem-se no ouro da poeira e no ouro
da legenda, e ficam só as famílias a chorar aqueles que foram. Os Srs. podem
imaginar o respeito que uma coisa dessas trazia. Quando eles voltavam cantando
seus feitos de glória, quando eles voltavam estropiados, mutilados, alegres por
terem podido derramar seu sangue pela causa, pelo cumprimento do dever, os Srs.
podem imaginar como eles eram recebidos.
Era natural que esses mais
instruídos, mais dotados de fortuna, com mais prestígio que vem da própria
condição de proprietário, eles houvessem de substituir as autoridades civis. No
tempo das invasões bárbaras, as autoridades civis nomeadas pelo rei, a
burocracia real sumiu. Os proprietários começaram a exercer a função de
burocratas. Então, o nobre, ao mesmo tempo que guerreiro enquanto o castelo era
sitiado, era juiz, era governador, era prefeito daquela zona de sua propriedade
- e também gratuitamente. De maneira que outras importantes funções públicas o
nobre exercia sem nenhuma remuneração. Alguém dirá: "Mas Dr. Plinio, não é
gostoso ser prefeito? Ser juiz? Sentar-se e ficar julgando aquele, aquele
outro? Ser um homem superior, não era uma vantagem? O Sr. apresenta isso como
um sacrifício?" Eu digo: "Vá propor a um juiz de hoje que, pelo gosto
de julgar, trabalhe sem ganhar. Vá propor a qualquer prefeito, a qualquer
vereador de hoje trabalhar sem ganhar, pelo gosto de mandar..." Os Srs.
encontrarão poucos, muito poucos, se é que encontrarão... Porque isso é gostoso
nos primeiros minutos, nos primeiros dez minutos, a gente olha e decide.
Depois, quando começa a coisa ficar cacete... A prova e contraprova, a ameaça
de vingança e quantas coisas há... Entra dia, sai dia, aquele chora-chora, aquela denúncia falsa ou denúncia
verdadeira... Não há quem aguente, a não ser mediante
um interesse.
Há muitos que pensam, hoje,
que a posição do proprietário rural é muito menos boa que a de um nobre no
tempo do feudalismo. É uma ilusão! Os Srs. proponham aos proprietários rurais
de hoje o seguinte negócio: eles não são obrigados a pagar impostos - os nobres
não os pagavam -, em compensação, só eles guerreiam e o resto do país fica em
paz... Os Srs. acham que haveria muitos
fazendeiros que gostariam disso? Além disso, eles, gratuitamente, são prefeitos
e juizes do lugar. Os Srs. acham que muitos haveriam de querer isso? Ou eles
prefeririam mil vezes a condição de proprietários de hoje em dia? A condição de
proprietário de hoje melhorou. A condição do proprietário da Idade Média era
embebida do princípio cristão de que "ter" obriga em
"fazer", "ter" obriga em "dar". Eles davam a sua
própria vida, eles davam o seu trabalho, eles davam tudo para governar o
próprio feudo.
Esses feudos assim
constituídos eram baseados em dois princípios: no princípio da hereditariedade
- do qual nós falaremos daqui a pouco - e no princípio da subsidiariedade.
Qual é o princípio da
hereditariedade?
É um princípio contra o qual
muito se tem falado hoje em dia. Porque um homem trabalha, ele tem dinheiro -
isto se compreende -, o dinheiro é o prêmio de seu trabalho; mas que um homem
tenha o prêmio do trabalho do pai e herde sem ter trabalhado, isso não, é uma
injustiça. Mesmo muitos dos que são partidários da propriedade privada ainda
acham que não deveria ser hereditária. Daí, na maior parte dos países de hoje,
uma tendência a ir corroendo a herança de maneira tal que, praticamente, cada
vez se herde menos. O grande filhão que herda de todo
mundo é o Estado. Essa disposição provém da idéia errada de que a herança é
injusta. A herança e a hereditariedade das funções têm um grande e misterioso papel, que é
baseado no princípio da hereditariedade biológica, da continuidade da educação
e da missão de uma verdadeira elite.
Hereditariedade biológica:
para ser uma linhagem de guerreiros é altamente conveniente que vários
ancestrais tenham sido guerreiros. Parece que algo se transmite misteriosamente
através dessa linhagem, de tal maneira que o filho e neto de guerreiro acaba,
ele mesmo, sendo um privilegiado guerreiro. Nós sabemos, por exemplo, nos
exércitos modernos: o exército alemão - infelizmente mal usado pelo tirano neo-pagão que foi Hitler, pelo socialista totalitário que
foi Hitler - o exército alemão do qual o mínimo que se pode dizer é que era um
dos maiores exércitos da terra, o exército alemão tinha como espinha dorsal de
resistência uma classe hereditária, era a dos nobres da Pomerânia,
os Junkers, que desde o tempo das Cruzadas forneciam
oficiais ao exército alemão. Havia alguma coisa na contextura deles, alguma
coisa no temperamento, alguma coisa no feitio de espírito, que vinha de uma
misteriosa hereditariedade biológica que não se pode definir nem afirmar, mas
que a experiência mostra que existe, que vinha numa continuidade de educação:
séculos e séculos em que todos eram educados nesta idéia da suprema beleza do
sacrifício pela pátria e por uma causa elevada; séculos e séculos disso faziam
com que os primeiros reflexos da criança fossem preparados para a guerra.
Nasciam daí linhagens de guerreiros que eram preparados longamente para isto e
que eram os guerreiros dos melhores da Europa.
De outro lado, também é
preciso dizer que o mesmo princípio da hereditariedade da educação, da
continuidade da educação é de uma misteriosa hereditariedade psicobiológica, se se pudesse
exprimir assim, a Idade Média utilizava pela potência da organização da família
para outras finalidades. Assim, por exemplo, na plebe havia muitas famílias,
mas numerosas, que davam origem a verdadeiras dinastias de artesãos ou de
trabalhadores manuais, que de século em século faziam o mesmo "métier" e que, por causa disso, ficavam cada vez mais
aptos a esse "métier".
Fato famoso e conhecido é o
de maître Pinaut, no tempo de Luiz XIV. Era o mais antigo lenhador da
França e se podia demonstrar que a sua família era mais antiga em ser lenhadora
do que a família do rei era antiga em ser rei. Ele descendia dos primeiros
lenhadores do tempo de Carlos Magno. Podia demonstrar. Todos os anos o rei
mandava um piquete de cavalaria levar a ele uma "écharpe"
de honra, para ele comparecer nas assembléias dos lenhadores como patriarca dos
lenhadoras da França. E no tempo de Luiz XIV, dada essa ancestralidade
que torna nobres os ofícios mais humildes, ele mandou oferecer a sublimação
dessa estirpe, mandou oferecer ao maître Pinaut o título de Barão. Maître Pinaut mandou dizer: "Eu prefiro ser o mais antigo dos
1enhadores a ser o mais novo dos barões. Muito obrigado." Havia dinastias
de relojoeiros, dinastias de artistas, dinastias de iluminuristas.
As dinastias se multiplicavam por todo o corpo social, aproveitando essa
pujança do princípio da hereditariedade.
O que deve achar um católico
do princípio da hereditariedade? Nós podemos ouvir a asse respeito belas
instruções de Pio XII.
"Desta grande e
misteriosa coisa que é a hereditariedade, que é viver e passar através de una
estirpe, perpetuando-se de geração em geração, de um vivo acervo de bens
materiais e espirituais, a continuidade de um mesmo tipo físico e moral,
conservando-se de pai para filho, a tradição que une através dos séculos os
membros de uma mesma família, desta hereditariedade, dizemos, se pode sem
dúvida entrever a verdadeira natureza sob o aspecto material. Mas pode-se
também e deve-se considerar essa realidade de tão grande importância na
plenitude de sua verdade humana e sobrenatural. Não se negará certamente o fato
de um substrato material à transmissão dos caracteres hereditários. Para
estranhar isso, precisaríamos esquecer a união intima de nossa alma com nosso
corpo e em quão larga medida as nossas mesmas atividades mais espirituais
dependem de nosso temperamento. Por isso, a moral cristã não deixa de lembrar
aos pais as grandes responsabilidades que lhes cabem a este respeito. Mas o que
mais vale é a hereditariedade espiritual transmitida não tanto por estes
misteriosos liames da geração material, mas com a ação permanente daquele
ambiente privilegiado que constitui a família com a lenta e profunda formação
das almas na atmosfera de um lar rico em altas tradições intelectuais, morais e
sobrenaturais e sobretudo cristãs entre
aqueles que moram numa mesma casa, influência essa cujos benéficos efeitos se
prolongam muito além dos anos da infância e da juventude até ao fim de uma
longa vida, naquelas almas eleitas que saibam bem fundir em si mesmas os
tesouros de uma preciosa hereditariedade com o contributo de suas próprias
qualidades e experiências. Tal é o patrimônio mais que todos precioso que,
iluminado por firme Fé, vivificado por forte e fiel prática da vida cristã em
todas as suas evidências, ele guardará, aprimorará e enriquecerá as almas de
vossos filhos" (Pio XII, Discurso ao Patriciado e à Nobreza Romana).
Os Srs., viram, portanto, um
Papa, um Papa recente que afirma a validade de tudo isto, a justiça de tudo
isto e vai mais longe: diz que toda esta força da hereditariedade é um precioso
elemento para a vida social, é um dos mais preciosos elementos da vida social.
É exatamente este elemento, como daqui a alguns minutos nós veremos, que a
Revolução jogou por terra.
De que maneira era
organizada esta classe?
Esta classe era
organizada... Aqui entra o quadro esquemático da organização da nobreza.
De outro lado, paralelo,
parecido com o quadro do clero, os Srs. têm o quadro da nobreza, encimado por
uma coroa real que está colocada abaixo do nível da tiara, porque o Papa é a
suprema figura da Cristandade e abaixo dele estão os reis.
A primeira coroa de cima é a
coroa do Sacro Império Romano-Alemão: era o maior
monarca da Cristandade, que tinha uma preeminência sobre todos os monarcas da
Europa; embaixo, os Srs. têm o rei; embaixo do rei, os Srs. têm duques,
marqueses, condes, viscondes e barões. Cada qual com suas coroas, com as
insígnias próprias.
De que maneira é que a rede
de castelães veio a dar nesta hierarquia?
As estradas eram ruins, as
comunicações eram difíceis. Para chegar a falar com o rei e tomar diretrizes
era impossível. Muitas vezes, o fato era urgente. Então, os nobres foram se
agrupando. Se os Srs. quiserem, os barões, esquematizando - não se passou
esquematicamente, mas eu vou esquematizar - se agrupavam e escolhiam um deles
que era o visconde, que era aquele que os dirigia, fazendo as vezes do rei.
Mas, por sua vez, os viscondes de uma região se sentiam sem um poder central e
constituíam-se em torno de um conde. Os condes de uma região se constituíam em
torno de um marquês. E os marqueses de uma região em torno de um duque. Assim
se formava uma pirâmide de nobres, obedecendo uns aos outros e constituindo a
hierarquia feudal da sociedade. Esta hierarquia era, como os Srs. viram há
pouco, muito parecida com a hierarquia eclesiástica. Não foi inspirada pela
hierarquia eclesiástica, mas de tal maneira a hierarquia corresponde à ordem
profunda das coisas, que Nosso Senhor Jesus Cristo deu alguns elementos
fundamentais dela quando a instituiu. A Igreja teceu toda a sua hierarquia.
Depois veio o Estado e, levado pelas circunstâncias, teceu uma hierarquia
análoga. Hierarquia eclesiástica, hierarquia civil, política, a da nobreza.
Esta hierarquia era inferior
à da Igreja, porque o Papa era reputado como tendo um poder que era
representado num emblema que até há muito pouco tempo, até as reformas
conciliares e os pontificados recentes, foi usado: o emblema das duplas chaves
de curo e de prata. Nosso Senhor disse a São Pedro: "Eu te darei as chaves
do Reino dos Céus: o que ligares na terra será ligado no Céu, o que desligares
na terra será desligado no Céu".
As chaves são portanto duas,
pelo menos duas. Que chaves? Os teólogos e juristas medievais diziam que eram
duas chaves: uma chave pela qual o Papa governava a Igreja; outra chave era
aquela pela qual ele não governava a sociedade temporal, enquanto temporal, mas
ele tinha o poder de declarar nulas as leis que fossem contra os princípios da
Igreja. Enquanto tal, ele tinha um poder indireto sobre a sociedade temporal,
"ratione peccati".
Tudo o que o Estado fizesse que era pecado, o Papa podia anular. Se um rei
recalcitrasse, o Papa podia depor o rei. E várias vezes o Papa declarou
interditos e depôs reis. O poder do Papa era o poder supremo. O poder do Papa
era de tal maneira supremo que há iluminuras medievais representando uma missa
hipotética realizada na Catedral do Papa em Roma, São João de Latrão, com os seguintes coroinhas: imperador do Sacro
Império, rei da França, rei da Espanha, etc.... Esta
é a boa ordem das coisas.
Um princípio que assegurava
a continuidade da nobreza é um outro princípio detestado pela Revolução em
nossos dias: é o princípio da primogenitura.
Eles partiam da idéia de que
o primogênito representa e por assim dizer desdobra mais os pais do que os
outros filhos. De tal maneira que ele é o continuador
do nome, ele é o continuador da estirpe. Por causa
disso, para ele deve ir o grosso da fortuna. Então, quando, quer na nobreza
quer na plebe, morre o pai, não se faz a partilha igual de hoje em dia. Mas
faz-se uma partilha pela qual o grosso da fortuna fica reunido na mão de um, e
os outros têm algumas partes para irem tentar a vida.
Qual era o resultado disso?
O primogênito ficava um senhor importante; se era plebeu, dotado de dinheiro,
dotado de recursos materiais; se era nobre, dotado de poder político, prestígio
social e de algum dinheiro também. Esse primogênito tinha a obrigação de
atender e de socorrer as necessidades de todos aqueles que descendiam da outra
estirpe originária, os quais formavam parentelas
enormes. De maneira que naqueles vastos castelos, muitas vezes semi-habitados, apenas aparecia um parente e pedia
hospedagem, hospedava-se com os seus para a vida inteira... Desde que ele
justificasse a sua inação, era ali amparado e tratado com honra. O dinheiro, a
fortuna do primogênito era o instituto de aposentadoria e pensão dos ramos mais
novos. Mas, quando alguém é moço, ninguém quer viver só de aposentadoria e
pensão quando é capaz de criar. Então, os ramos segundos da nobreza eram
votados à aventura e à guerra. Quer dizer, esperava-se deles que tentassem
coisas fabulosas para fundar um patrimônio que, então, era deles. E eles
constituíam uma outra família nobre. Daí o fato de nós encontrarmos tantos
nobres arriscando a vida nas primeiras fileiras e fazendo aventuras nas
navegações, nas conquistas e em tudo mais, aventuras de toda ordem. Eles eram
regiamente aquinhoados pelo rei e fundavam suas próprias estirpes. Era um
estímulo para que o nobre como diplomata, como político, como intelectual, como
guerreiro, em todos os ramos de atividade que lhes estivessem abertos, o nobre
fosse dos primeiros, porque assim ele saía dessa situação da penumbra e ele
mesmo brilharia como seus antepassados. Era, portanto, tudo calculado para
aproveitar das famílias de elite do país todo o possível em benefício do país.
É o momento de nós dizermos
uma palavra a respeito da plebe. O que dizer a respeito da plebe? O que era o
plebeu? Quem era plebeu?
Era todo mundo. A exceção
era ser clérigo e ser nobre, guerreiro. A massa da população era plebéia. Mas a
palavra plebeu não tinha nenhum sentido pejorativo. Dizer que é plebeu, é
dizer, aqui, no Brasil, que eu sou brasileiro. A condição normal do brasileiro
é ser plebeu, como do francês, do espanhol, do norte-americano é ser plebeu, do
canadense é ser plebeu. A massa dos homens constitui a plebe. Não é vergonha, é
idêntico a ser homem. Homem é plebeu, nobre é exceção, clérigo é exceção.
O que é que faz o plebeu? O
plebeu não precisa lutar. Ele precisa rezar, é verdade, mas ele não precisa
consagrar a sua vida à Igreja. O que é que ele faz? O seu tempo lhe sobra para
si. Ele ganha dinheiro. É a classe incumbida da produção econômica. Por causa
disso, os plebeus têm um privilégio: só eles podem ser trabalhadores manuais. O
nobre que seja trabalhador manual perde a condição de nobre, porque foi fazer
concorrência para o plebeu. Se eles é que cuidam das profissões verdadeiramente
lucrativas, só eles podem ser comerciantes, só eles podem ter indústrias. Por
que? Porque isto é para os que ganham dinheiro. Então, as grandes fortunas são
daqueles que vivem para si e que fazem a prosperidade do país. Eles se
enriquecem a si mesmos e a suas famílias. Depois, pelas sobras do que eles têm,
eles enriquecem a sociedade. Por esta forma nós temos uma classe econômica.
Essa classe econômica paga os impostos, pois se a correia tem que sair do
couro, o imposto tem que sair de quem produz o dinheiro. É natural.
Evidentemente, os ricos pagavam mais do que pagavam os pobres.
Nós temos uma série de
privilégios para os plebeus. Eu já mencionei alguns: só eles exerciam essas
profissões. Havia as corporações de Artes e Ofícios, que abrangiam os patrões e
operários das empresas, os protegiam, tinham caixa de aposentadoria e pensão,
tinham capelas, tinham uma série de foros próprios para serem julgados, etc.
Nós tínhamos por esta forma uma plebe em franco desenvolvimento se nós a
compararmos com o começo da Idade Média.
No começo da Idade Média,
triste herança dos romanos, nós conhecíamos os escravos. O escravo é aquele que
vive para o bem de um outro e não para o bem próprio. O escravo ficava,
portanto, vivendo para o bem de seu senhor.
A Igreja, ao longo da Idade
Média, fez a grande libertação da escravidão que houve em todos os séculos.
Nunca os escravos tinham sido libertados. Só então o foram e pela primeira vez.
Os escravos foram sendo transformados aos poucos em semi-escravos:
servos da gleba, que podiam ter as suas propriedades, podiam ter as suas famílias,
mas não podiam afastar-se da gleba da terra onde viviam. Depois, esta servidão
foi abolida também e, quando a Idade Média termina, a Europa quase inteira já
não tem servos da gleba, tem homens livres. Isto foi o que a Idade Média fez
pelo homem não nobre nem clérigo. Acabou com a escravidão. Ela teve o
trabalhador manual, ela fez o burguês, ela teve a sociedade contemporânea.
Este quadro, como os Srs.
viram, é baseado todo na especialização de funções. Rezar, formar o povo e
manter a caridade; batalhar, governar e administrar; produzir economicamente
nas cidades, esta era a tríplice distribuição. Pelo jogo das hereditariedades, as famílias ficavam séculos na mesma
condição, exceto quando aparecia algum grande gênio que se destacava e podia ir
num só salto para o alto da nobreza. Mas isto eram as exceções. Normalmente nao havia esses saltos.
A base de tudo isso, o que
era?
A família monogâmica - não havia o divórcio - e indissolúvel. Os
tribunais para dispor sobre os assuntos ligados à paternidade legítima e
ilegítima e a indissolubilidade do vínculo eram os tribunais eclesiásticos,
para que tudo se passasse com uma sacral e santa seriedade.
Este sistema, que fazia da
sociedade um organismo justo, se bem que não igualitário, diferenciado, se bem
que moderadamente diferenciado, contra esta sociedade atirou-se a Revolução.
De que maneira ela se atirou? Ela se atirou da
seguinte forma: ela nasceu no século XV, com um empalidecimento
do amor a Deus e do amor às coisas eternas, pela preocupação das coisas terrenas.
Nas cortes dos reis, nas cortes dos nobres, o gosto pelo prazer se generalizou,
e com o gosto do prazer, o senso do dever enfraqueceu. Com a generalização do
gosto pelo prazer, o enfraquecimento dos desejos dos bens eternos pela cobiça
dos bens desta terra, começaram a nascer no homem duas apetências especialmente
malditas. E elas foram a fonte da Revolução. O homem que vive para o prazer
vive para a sensualidade.
De todos os prazeres que o homem carnal pode
ter, nenhum é mais torrencial, nenhum o domina mais tiranicamente do que o
prazer do sexo. Razão pela qual esse prazer facilmente se transforma para o
homem numa obsessão. Essa obsessão leva o homem facilmente ao abandono da
Religião ou à subestima da Religião. Porque dois Mandamentos da Lei de Deus
moderam, jugulam esse prazer e o contêm nos limites definidos da fidelidade
conjugal e do dever de procriar a prole: é o Mandamento "não pecarás
contra a castidade" e o Mandamento "não desejarás a mulher do
próximo". É claro que uma Religião que tão firmemente reivindica os
direitos da pureza não pode deixar de ir afastando de si aqueles que se mantêm
na impureza. Mas a impureza é terrível. A menor concessão que se lhe faça gera
tumultos de apetências ainda muito maiores. A humanidade foi conhecendo a vergonhosa
decadência dos costumes, moderada na aparência apenas, no fim da Idade Média,
para ir tomando, ao longo dos tempos modernos, um caráter de transbordamento cada vez mais definido. A tal ponto que em
muitos países, a partir do século XVI, já não se tolerava a indissolubilidade
do vínculo conjugal. E mesmo depois do século XIX começa essa indissolubilidade
a não ser tolerada também nos países católicos, e hoje a indissolubilidade do
vinculo conjugal é negada por quase todas as legislações contemporâneas. Mais
ainda, mesmo quando os nubentes adquirem o compromisso da indissolubilidade no
casamento sacramental - único existente para os católicos - eles, de fato,
tantas e tantas vezes violam a fidelidade conjugal sem nenhuma recriminação da
opinião pública, que considera isto cada vez mais tolerável. Quer dizer, a
imoralidade entrou como una enxurrada. E como uma enxurrada ela foi trazendo
também cada vez mais uma dúvida, um senso crítico em relação à Religião.
Por que senso crítico?
Explica-se: a Religião impondo
aquilo de que o homem não gosta, o homem é levado a questionar o que ela faz
bem de impor. É levado, portanto, a perguntar se é esta a interpretação
verdadeira desses dois mandamentos, se não haverá um jeito de torcer esses dois
mandamentos, pelo qual o homem possa estabelecer o divórcio e até o amor livre.
Essa dúvida gera no homem uma dúvida total, geral, global: o que é que na
Religião Católica será verdadeiro ou será falso?
Mas essa dúvida, por sua
vez, gera uma outra dúvida mais profunda: a Religião será verdadeira?
Nós temos aí o começo das
Revoluções.
A primeira Revolução, a
Revolução Protestante. O que foi a Revolução Protestante?
Foi o brado de
inconformidade de um frade agostiniano sensual,
Lutero, que agora vai ser elogiado e glorificado como um êmulo dos Padres da
Igreja neste centenário dele, que para vergonha nossa se celebrará. Lutero
afirma-se contra o celibato eclesiástico: liberdade para todos os padres
desejosos de sensualidade, liberdade para todas as freiras desejosas de
sensualidade. Padre Leonel Franca, no livro de ouro dele "A Igreja, a
Reforma e a Civilização", documenta a existência de tantas freiras
apóstatas, no tempo de Lutero, que se chegou a constituir um mercado de freiras
para se venderem como prostitutas... Era a liberdade que elas assim
reivindicavam. Ele proclama a dissolubilidade do
vínculo conjugal e estabelece na seita luterana por ele fundada a possibilidade
do divórcio como uma coisa corrente e comum. Mais ainda, o Pe. Leonel Franca dá
a demonstração de dois casos de príncipes alemães que exigiram dele outra
coisa: que permitisse dois casamentos ao mesmo tempo para eles; ante a ameaça
dos príncipes alemães de perseguirem o protestantismo se ele não concordasse,
ele concordou, porque ele não tinha vocação para mártir. O resultado é: até a
poligamia começou a entrar, a maré de sensualidade que começou a penetrar na
Europa e que só não penetrou inteiramente nos países católicos.
Ao lado disso vinha,
naturalmente, o livre exame: "Vamos questionar a interpretação desses
mandamentos. Vamos questionar a interpretação de toda a religião. Por que a
Igreja é infalível? E por que essa infalibilidade reside no Papa? Por que eu,
Lutero, não interpreto a Bíblia como quero e outro não a interpreta como
quiser?" O livre exame é o resultado psicológico forçoso dessa situação. É
até certo ponto um resultado lógico.
O livre exame nasceu de
causas muito mais profundas. Ele nasceu do orgulho humano. É dolorido ao homem
tomar um livro e interpretar de um jeito e depois aceitar outra interpretação,
porque um hierarca lhe diz: "Eu tenho o poder de
interpretar. A minha interpretação é verdadeira e a sua é falsa."
Ora, ao lado da
sensualidade, companheiro necessário da sensualidade, começou a entrar na
Europa do fim da Idade Média o orgulho. Cada um querendo ser mais do que o
outro para gozar a vida na terra. Um dos deleites da vida na terra é,
evidentemente, o orgulho. Mas o orgulho leva à contestação da autoridade. E
Lutero contestou a autoridade no campo religioso. Ele foi o autor de una imensa
Revolução religiosa, que contestou a infalibilidade da Igreja, contestou o
poder dos Papas; algumas seitas protestantes - a dele não - contestaram a
existência de bispos: não deve haver bispos; e outras seitas protestantes na
Escócia, na Morávia, etc. contestaram até a
existência de padres: dentro da Igreja todos somos iguais.
Vê-se então, no terreno
religioso, uma Revolução igualitária absoluta, revolução igualitária esta que
marca o sentido de outras Revoluções que haveriam de vir.
Lutero, século XVI. A
insídia, a revolta de Lutero, foi combatida pelo Concilio de Trento e pela
Contra-Reforma. Nos países em que o Protestantismo não entrou, os defeitos
morais do protestantismo, aos poucos, entraram. A sensualidade entrou nas
cortes: os reis começaram a ter suas concubinas oficiais, recebidas pela
nobreza; os reis foram imitados pelos grandes nobres; estes pelos pequenos
nobres; e os burgueses começaram a imitar os nobres. Luiz XIV, certa vez,
viajou pelo interior da França, tendo no carro a rainha legítima, Maria Teresa d’Áustria, mais duas concubinas. O povo, à beira da
estrada, se ajoelhava para ver passar o rei "e as três rainhas", de
tal maneira se deformava a opinião pública a esse respeito. As cortes deixaram
de ser o sacrário da virtude, como o foram no tempo de São Fernando de Castela,
de São Luiz de França, de Santo Henrique da Alemanha, para ser a fonte do
escândalo. De outro lado, todo mundo quis derrubar todo mundo. Quer dizer, os
reis negaram a autoridade do imperador; os nobres, depois de duramente
amarrados pelo absolutismo real, começaram a afrouxar a autoridade dos reis; os
plebeus se perguntaram por que respeitar os nobres. As classes sociais
começaram a se diluir, a estremecer, veio a II Revolução: a Revolução Francesa.
A Revolução Francesa fez no
campo civil aquilo que Lutero fez no campo religioso. Lutero contestou o chefe
supremo da Igreja, o Papa, a Revolução Francesa cortou a cabeça do Rei. Lutero
contestou a aristocracia da Igreja, ou seja o clero. A Revolução negou e
decapitou boa parte da aristocracia da terra, para ficar apenas a plebe. Então,
nasceu uma sociedade igualitária em tudo, sem especialização de funções nem
mais nada, e apenas com esta diferença: a diferença do dinheiro.
Haveria de nascer uma
terceira Revolução. Porque a impureza se tornou ainda maior, porque o orgulho
se tornou ainda pior, os trabalhadores manuais se perguntaram: se não há mais
padres, não há mais reis, não há mais nobres, por que há patrões? Acabemos com
isso: veio o comunismo. O brado de Marx foi esse, foi a transferência da
Revolução Francesa para o campo sócio-econômico. E no campo sócio-econômico, o
comunismo.
Agora, nós estamos na
passagem da III para a IV Revolução. O comunismo? - começam a perguntar os
"hippies". O comunismo? - perguntou a
Sorbonne. O comunismo? - pergunta a revolução autogestionária,
no poder na França com Mitterrand desde as últimas eleições. O comunismo, por
que? Não há razão. O comunismo russo e o domínio do Estado sobre todos. Nós
vamos acabar com o Estado. Não queremos mais Estado, porque não queremos
governo. É a anarquia que Carlos Marx previa como fim da evolução que a
humanidade deveria ter. Ele queria a anarquia final: nenhum poder, nenhum
sacerdócio, nenhuma realeza, nenhuma nobreza, nenhuma classe mais elevada,
nenhum privilégio do intelectual sobre o manual... raso tudo e sem nenhuma
autoridade.
Nós nos deparamos com este
quadro e vemos que a IV Revolução, vence por todo lado. A todo momento há algum
indício de que ela entra: o nudismo é IV Revolução, o hippismo
é IV Revolução, Sorbonne foi IV Revolução, autogestão é IV Revolução. Por toda
parte, o mundo vai caminhando para a IV Revolução.
Diante desta última
Revolução ciclópica nós somos chamados a nos
perguntar: "Mas o que é isto?", a correr os olhos por toda a História
e a chegar para além da História dos homens, na História dos Anjos, para ver se
algo se encontra de semelhante. E, afinal, o nosso olhar inquiridor e fatigado
se depara diante de um quadro ainda mais terrível e que o estarrece: é a
Revolução no Céu.
Deus, no mais alto dos Céus;
as hierarquias dos Anjos estabelecidas com seus coros em ordem e aclamando a
Deus; há um Anjo, e da mais alta hierarquia, que se levanta e brada: "Eu
não servirei:" E segundo parece, uma terça parte dos anjos se levanta
dizendo: "Nós não serviremos!" Mas houve a Contra-Revolução e São
Miguel bradou: "Quem como Deus?" Diz então a Escritura que fez-se nos
Céus uma grande guerra e que Satanás e seus sequazes foram jogados no inferno,
aonde persistem até agora.
Não é bem verdade que a Revolução
assim descrita, pelo simples fato de ser descrita e de ser comparada com esta
Revolução maldita e primeva, se mostra uma repetição no cenário terreno,
daquela I Revolução? Não é bem verdade que a Revolução que nos conduz à
destruição de toda a autoridade e de todo o liame social é obra direta daquele
que gritou uma vez: "Non serviam!"?
Por que razão é que ele
gritou "non serviam"? Deus revelou aos
Anjos a Encarnação do Verbo e lhes fez entender que eles teriam que adorar o Homem-Deus, lhes fez entender que por cima deles seria
colocada Maria Santíssima, a Mãe Imaculada desse Homem-Deus,
e que eles, puros espíritos, não só teriam que presenciar aquilo que poderia
ferir o orgulho deles - nunca a dignidade deles, mas o orgulho deles - que era
de Deus não se unir hipostaticamente a um Anjo, mas
unir-se hipostaticamente a um ser de uma índole
inferior, como homens. Isso já espezinhava os maus. Mas os espezinhava ainda
mais eles terem de tomar como Rainha, não o Homem-Deus,
mas a pura criatura que é Nossa Senhora. É de se admitir que eles estalaram e
que estalaram por causa disso. O Reino de Nossa Senhora no Céu os terá,
possivelmente - suponho eu - indignado mais ainda do que o Reino do Homem-Deus. É a pura criatura dominando a eles. "Non serviam" foi um "non
serviam" contra o Homem-Deus que haveria de
nascer e contra a Virgem mil vezes bendita da qual esse homem-Deus
haveria de nascer.
A Contra-Revolução celeste -
"Quis ut Deus?" - equivale
a dizer que Deus tem o poder de fazer isto. Ele é único e tem esse direito.
Fez, nós aceitamos, proclamamos o Filho de Deus Unigênito, encarnado Homem;
proclamamos Nossa Senhora nossa Rainha.
Haverá, haverá - pergunto eu
- também neste século nosso, uma Contra-Revolução? Haverá quem brade contra
esta Revolução "Quis ut Deus?" Haverá quem
se ufane de inclinar a cabeça diante de Nosso Senhor Jesus Cristo, Homem-Deus, como fizemos há pouco, aqui, cantando o
"Credo", quando todos nos inclinamos, à moda de São Luis, rei de França, no "Homo
factus est"? Haverá
quem incline a cabeça diante da Virgem bendita e imaculada? Estes são aqueles
que devem fazer a Contra-Revolução.
A TFP não chama a si isto
que não é privilégio de ninguém, mas ela quer ser uma Contra-Revolução em pleno
andamento, uma Contra-Revolução cuja finalidade é a implantação, na terra, do
Reino de Maria –– modo super-quintessenciado de
implantar o Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo. Porque Nosso Senhor só é plena
e inteiramente Rei, na medida em que Nossa Senhora é Rainha. Para isto a TFP
foi fundada, para isto ela atravessou dificuldades mil, para isto ela se
estendeu penosa e dificilmente ao longo da terra por 15 nações; para isto ela
quer estender-se para todas as nações da terra, ela quer estender-se para além
da cortina de ferro em condições renovadas e talvez diversas, estabelecer,
entretanto, uma ordem de coisas terrena que seja de acordo com os princípios da
Hierarquia, da Pureza, comandadas, bafejadas, inspiradas pela Fé.
E por isso: Por Maria!
[Brado: Tradição, Família, Propriedade!
(três vezes). Brasil! Brasil! Brasil!]