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Plinio Corrêa de Oliveira
O Castelo de Chambord e a teoria do maravilhoso
"Santo do Dia" – 25 de maio 1967 |
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A D V E R T Ê N C I A O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor. Infelizmente não se conseguiu a fotografia original que serviu de base à exposição, assim postamos várias fotos do castelo, de diversos ângulos, para facilitar a compreensão das explicações de detalhes do mesmo. Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:
Visita do Prof. Plinio ao Castelo de Chambord em 14 de outubro de 1988 Uma vez que falamos do senso do maravilhoso, vamos fazer hoje um como que "Santo do Dia" sui generis. Os Srs. se lembram que foi resultado de uma visita minha a Minas Gerais, e de um trabalho que chamávamos lá no grupo de Minas de “europeização”, que nasceu a idéia de comentar uma vez por mês uma obra-prima na linha de “Ambientes, Costumes e Civilizações”, mas com um ponto de atenção especial, obra-prima da civilização cristã. [Para revigorar] esse senso do maravilhoso, eu quero fazer [algumas conferências comentando] alguns “Ambientes e Costumes” mostrando o maravilhoso de várias obras-primas da civilização européia, que despertem em nós o gosto do maravilhoso. É isto o que eu chamo “europeização”: a inalação do gosto do maravilhoso do europeu, para sabermos depois criar e aproveitar o nosso maravilhoso brasileiro. É para isso que se fazem essas exposições.
Então, eu tomo aqui uma fotografia do Castelo de Chambord, uma das coisas maravilhosas da Europa. A arte da fotografia mostra a apetência que o fotógrafo tem pelo maravilhoso, um fotógrafo muitas vezes comercial que tem apetência pelo maravilhoso, porque o povo europeu gosta da fotografia que apresente o maravilhoso, notem bem isto. Eu não entendo de fotografia, mas quando eu vejo uma fotografia bem tirada me regala examinar o talento do fotógrafo, numa coisa que é a seguinte: exatamente o formar o quadro, se ele soube escolher bem a delimitação do campo, de maneira que a coisa a ser fotografada fica o melhor possível dentro do campo que foi atingido. O fotógrafo soube instalar este castelo, que é uma verdadeira maravilha, ele tirou uma fotografia que deve ter sido tirada, me parece, que de avião, muito do alto em todo caso — "X" está fazendo sinal de que esta fotografia é de avião. Os Srs. vêem que ele teve o critério de instalar o castelo entre um fundo que se perde no infinito e que é um fundo de floresta - depois, se minha vista não me trai, há um pouco de serras no fundo, mas é uma coisa que se confunde com o céu. E depois, aqui muito arborizado e escuro, com uma parte aqui da frente que é o contrário. Enquanto ali é a natureza no que ela tem de ainda vivo e não ajardinado, aqui os Srs. tem a natureza no que ela tem de penteado, e penteado à la francesa: é uma relva, uma relva lisa, de um verde que é o verde europeu, da tal grama que dá trabalho - não é qualquer grama que a gente enfia dentro do chão e dá gramado — mas é um verde estudado para dar grama esmeralda, não é o verde de preguiçoso, não é verde de vagabundo, mas é verde de quem gosta de um verde bonito. É um verde lindíssimo.
E aqui os Srs. encontram, então, um tabuleiro reto, ou plano, com uma estrada retíssima, larga. Podia parecer muita chata essa parte de frente; ela faz um contraste agradável com a parte do fundo, porque enquanto a parte do fundo é meio selvagem digamos, silvestre pelo menos, a parte de frente, pelo contrário, é inteiramente ajardinada. É a fantasia e a ordem que se contrastam, tendo no meio o admirável castelo. A idéia de ordem é acentuada por esta estrada, essa entrada por esse outro caminho. Nessa entrada e por essa primeira parte de edifício ou de construção do castelo, que é uma parte baixa, reta, chata e com apenas uma portazinha de entrada, que dá acesso ao pátio interior. Mas, para a parte de ordem não ficar por demais rígida, o próprio jardineiro ou organizador do jardim soube fazer a coisa muito bem. Os Srs. tem aqui essa linha curva que forma como que uma moldura para o castelo, uma moldura para o quadro, e que se abre numa bonita alameda, reta de novo. Essa curva quebra o que haveria por demais chato, por demais retilíneo no panorama. E aqui, uma estradazinha faz outra curva, que é uma curva divergente desta e que dá uma certa nota de fantasia. Aqui os Srs. tem uma espécie de praçazinha. Os Srs. imaginem como seria feio esse conjunto se não houvesse essa espécie de estrela; imaginem que fosse linha reta chegando até o castelo e os Srs. verão como ficaria feio. E, para os Srs. poderem perceber a beleza de tudo isso, a razão de ser de tudo isso, os Srs. imaginem que nesse jardim não houvesse essas duas estradinhas, esses dois caminhozinhos, ficaria feio também, porque ficaria muito monótono o acesso ao castelo. Se não houvesse essas linhas curvas, tanta linha reta ficaria medonha; mas tudo isso forma um conjunto muito bonito, porque é uma verdadeira dupla moldura ao castelo.
Primeira moldura, eu repito, a moldura elegante do jardim; segunda moldura, a moldura fantasiosa de uma natureza silvestre. Os Srs. estão vendo aqui, criado, percebido pelo fotógrafo, um modo de apanhar as condições de maravilhoso do conjunto. E dentro disso fica o castelo maravilhoso. O que esse castelo, um castelo real, o castelo de Chambord, da Renascença, o que é que esse castelo tem de maravilhoso? Se os Srs. procurarem definir o que ele tem de maravilhoso, os Srs. perceberão que ele tem três ordens de maravilhoso diversas. O primeiro plano é este edifício aqui, que eu já comentei e que nós vamos examinar mais um pouquinho. O segundo plano é esta parte aqui, que é o corpo do castelo propriamente dito, e que tem sua beleza própria. Agora, o terceiro plano é o telhado do castelo, que tem sua beleza própria também. São três formas de beleza características. Qual é o mais cômodo? É a gente começar por analisar esta parte. Qual é a beleza desta parte? A beleza desta parte consiste na regularidade da linha. Os Srs. tem um corpo central flanqueado por duas torres maciças, pesadas, quase que se diria exageradamente pesadas. Se os Srs. imaginassem essas duas torres uma junto da outra, dava um monstro, dava um silo de guardar trigo. Mas, assim separadas, por uma fachada cheia de janelas, até uns arcos vazios, os Srs. tem então uma coisa muito forte, muito consistente, mas cujo lado maciço que facilmente poderia dar em maçudo, é temperado com a presença delicada desse corpo de edifício cheio de janelas. As janelas arejam, dão o contraste entre o forte e o delicado. E o forte e delicado dentro de algo muito simétrico, muito bem arranjado. Depois, como que o mesmo contraste se desdobra. Como o leit motiv de uma música que se abre em comentários colaterais, os Srs. têm aqui ao lado dessa torre um novo corpo de edifício, que suaviza o que essa torre tem de muito maciço. E depois, uma nova torre maciça, esta mais maciça ainda do que a do lado, que põe um ponto final vigoroso. Como uma música que se desdobra em harmonias caprichosas e depois termina forte, dá um ponto vigoroso terminal. E como isto se repete aqui do lado de cá - esta aqui, os ângulos são torreõezinhos com escadas maravilhosos - bem, como isto se repete do lado de cá, os Srs. tem então uma simetria perfeita. Uma metade imita a outra metade. Há uma relação muito bem feita entre o diâmetro das torres e a extensão desses corpos e a altura dos corpos. E depois, esse ponto terminal forte indica muito bem o vigor e a força da realeza, e a solidez e a confiança que a realeza tem em si mesma. Quer dizer que tudo é alígero, leve, fica contido entre duas coisas vigorosas. O maravilhoso mais maravilhoso a meu ver não está nisto, está no telhado. Os Srs. estão vendo o telhado como é cheio de pequenas construções e todas elas se dirigem para o ar, como que num concurso. A gente tem a impressão de que o prédio começa a voar e que várias partes de seu teto começam a subir para o céu, levadas por uma força oposta à força da gravidade. E aí está outro bonito contraste do castelo. Tudo aqui nos fala de solidez na terra, aqui nos fala de leveza que vai para o céu. É um contraste harmonioso, é um contraste cheio de beleza também, e os Srs. vêem então mil torreõezinhos, mil chaminés, que parecem numa espécie de porfia, querendo subir ao céu.
Mas a vitória está aqui, nesta parte central, bem no meio, e que domina todo o resto do castelo, porque ela é o elemento monárquico do castelo. A afirmação monárquica do castelo está aqui neste alto. É do alto deste ponto que pende toda a nobreza e toda a dignidade do castelo. Algo de delicado, que quase se confunde com o céu, que está bem no centro de todas as simetrias, das leves como das pesadas, que é mais alto do que tudo e que é o ponto em torno do qual o castelo se ordena. Resultado, os Srs. olham o castelo e os Srs. então tem a seguinte sensação: algo que ainda é o reino do comum e do trivial separa o castelo, que é feérico, do resto da existência quotidiana. Entra-se na segunda parte do castelo, já é uma espécie de feeria. Já de longe está insinuado que isto não é vida de todos os dias. Isto é uma [...?] com uma alta virtude, com um grande espírito de fé que habita dentro do reino da corte. Em ultima análise, o Céu dominando a Terra, a Fé dominando a vida terrena, o espírito dominando a matéria e tudo se resolvendo numa ordem única, que aponta para o Céu. É propriamente o maravilhoso expresso no castelo de Chambord. Então, os Srs. tem como o arquiteto teve o senso do maravilhoso; depois os Srs. tem como o fotógrafo soube fotografar admiravelmente o maravilhoso. E os Srs. tem então, como tentativa de explicação, o gosto do maravilhoso, da civilização que criou isto, ao mesmo tempo, do povo que mantém isto na admiração, no entusiasmo, etc., etc. Os Srs. então compreendem porque é que este castelo aqui passou por tantas vicissitudes e não caiu. Este castelo foi castelo real. Depois que a vida política francesa se centralizou em Paris, os reis vieram cada vez menos a este castelo e ele praticamente ficou sem história. De vez em quando morava alguma pessoa, a quem o rei cedia o castelo vitaliciamente para morar durante algum tempo: general vitorioso, algum príncipe da casa real meio aposentado, meio retirado. Mas passou a ser um castelo sem história. Ele viveu assim até a Revolução Francesa, ele transpôs a Revolução Francesa. Durante o reinado de Carlos X, depois da Revolução Francesa, havia uma empresa de demolidores que vendia material de construção. Aliás, era um conjunto de empresas demolidoras que destruíam castelos velhos para [recuperar] materiais de construção. Durante a Revolução Francesa fizeram venda dos bens da coroa, dos bens dos nobres, etc., e este castelo passou para o domínio particular. E o proprietário vendeu o castelo a um demolidor que ia proceder à destruição do castelo. Esses demolidores chamavam-se “La bande noire”, a banda negra. Para salvar o castelo abriu-se uma subscrição em toda a França, e todos os franceses compraram o castelo, por meio de uma subscrição nacional muito cara, para salvá-lo. E o ofertaram ao herdeiro do trono, que era uma criança e usava o titulo de Duque de Bordeaux, e que passou, a partir desse tempo, a chamar-se Conde de Chambord. Quer dizer, houve o concurso de dinheiro de um povo inteiro, no século passado, para salvar esse castelo. Houve praticamente um plebiscito a favor desse castelo no século passado muito tempo depois de decorrida a Revolução Francesa. Um como que plebiscito de amor do povo francês por esse castelo. Isto aqui é propriamente o amor do maravilhoso, sentido não só pelos literatos, pelos artistas, pelas pessoas de alta educação, mas sentido pela massa inteira de um povo. Foi o triunfo do senso do maravilhoso sobre a sovinaria, e glória dos franceses daquele tempo. Ai os Srs. compreendem porque todo mundo vai à Europa... O que é que os Srs. têm aqui? Há no homem, pelo fato de o homem ter sido criado por Deus, para Deus, há no homem uma necessidade de maravilhoso, que é uma expressão de sua necessidade de Deus. O homem procura uma ordem de ser mais alta que ele, e procura o próprio Deus. E então os Srs. vêem os povos do mundo inteiro que vão, desde o Afeganistão até Estocolmo ou até a Guatemala, vão lá para ver uma coisa dessas. Agora os Srs. compreenderão então o que é que eu quero para nós brasileiros. Eu quero para todo o mundo, para o mundo inteiro. É esse senso do maravilhoso que nos faria apreciar melhor nossos panoramas, apreciar as nossas praias - não como elemento de exibição, de nudismos asquerosos - mas da praia pela praia, pela beleza que há na praia em nossos litorais e tanta outra coisa. E construir uma arte que visasse o maravilhoso.
É por pouco disto que os Srs. encontram o charme da Bahia. A Bahia é a Europa do Brasil. Por quê? Porque ali um pouco disso foi feito, naquele casario baiano, nas encostas daquelas montanhas, naquelas igrejas, no cantante que há na Bahia. No baiano, na Bahia, existe exatamente um apelo ao maravilhoso, que já é mais parcimonioso em outros lugares do Brasil. E é tão e tão seco no hirto e dinâmico estado de São Paulo, feito de cimento, pesadão e movimentado ao mesmo tempo. Então, aqui está um primeiro ensaio, não para incutir nos Srs. o gosto do maravilhoso, porque eu sei que ninguém ficaria no Grupo sem ter tido em algum recanto da alma um desejo do maravilhoso, um amor ao maravilhoso. Mas é para que com exemplificações dessas o nosso Movimento faça essa espécie de apostolado do maravilhoso, que é uma das coisas mais sensíveis, por onde mais atrai a opinião publica. (*)
Eu me estendo um pouco, mas é só um minuto a mais. "Y" e eu recebemos há alguns meses atrás a visita de um húngaro chamado "Z". E desenvolvi um pouco na conversa com "Z" essa idéia da falta do maravilhoso que há [hoje em dia]. Ele saiu impressionado, dizendo: “Como é que pode haver um homem que acredita no maravilhoso?” Ele expressava isto elogiosamente, eu não sei se ele não achava isto meio infantil. É o único jeito de nós, em grande estilo, arrastarmos gente moderna e procurarmos preparar as almas é exatamente desfraldando o estandarte do maravilhoso. E é por isso que os nossos estandartes impressionam. Os nossos estandartes dizem algo que os nossos livros não dizem, que nosso fraseado não diz. Não é tema comum de propaganda nosso, mas eles dizem algo que - se todos nós somos comparáveis a este castelo [debaixo de certo ponto de vista,] - eu desejo que o nosso cerimonial diga, que eu desejo que a cerimônia e a cortesia existente entre nós diga, que eu desejo que as nossas sedes digam, [que] é uma coisa que está no conjunto das nossas coisas como esta ponta está no conjunto de Chambord. Quer dizer, é a proclamação da maravilha.
A gente solta um estandarte rubro, mas de um rubro éclatant, de um rubro maravilhoso; com um leão dourado, mas de um ouro primaveril e um leão agressivo como quem defende a causa da maravilha e do maravilhoso contra a trivialidade de nossos dias - solta aquilo na rua e fica dito a uma porção de gente que os nossos livros são isto, em relação à nossa alma e nossa família de almas que é isto; em relação ao nosso desejo de maravilhoso, de sobrenatural, de imponderável, que é isto dentro do conjunto de nossa alma. Aí os Srs. teriam uma teorização do castelo de Chambord, uma apresentação, uma teoria de nosso apostolado, que é exatamente o apostolado do maravilhoso em alguns dos seus aspectos. (**) Esta sede
(***)
tem muito de [brasileiro]. Por exemplo, o empenho que eu tive em ter aqui
essa mesa, mobiliário [de estilo] brasileiro da sala da lareira, o crucifixo de Dr.
Paulo que é uma obra prima de arte nacional ( ver foto ao lado ), foi um empenho
enorme; nosso
altar, as estalas da capela, etc., etc. Mas nós queremos ter muito [disto], para as lufadas do maravilhoso entrarem até aqui a largos haustos. O maravilhoso batizado. Isto não é para sultões nem para odaliscas, nem é para um gozo material da vida, mas é um gozo da vida em que o espírito entra mais do que a matéria. É um gozo cristão da vida. Na aurora de um movimento deplorável da Renascença, os Srs. ainda tem reminiscências da Idade Média que são essas torres e isto, esta linha aqui, que se reduz em última analise a uma ogiva. Este seria, portanto, o objetivo dessas nossas exposições. Vamos ver se nós conseguimos um novo material, para ir alimentando cada mês ou cada dois meses, conforme for possível arranjar, esse nosso gosto do maravilhoso. Se algum dos Srs. tiver alguma pergunta a me fazer a esse respeito, pode fazer que no outro “Santo do Dia”, se Deus quiser, eu respondo.
(*) Aqui o Prof. Plinio se refere aos membros da TFP. Tendo esta se originado, mais recentemente, do “Grupo do Catolicismo”, isto é dos redatores e de todos aqueles que militavam em torno à Revista “Catolicismo”, generalizou-se, na linguagem interna da TFP, referir-se a si mesma como o “Grupo”. (**) Sobre a teoria do "maravilhoso" sugerimos a nossos visitantes a leitura do livro A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do UniversO mais especialmente a segunda parte, A contemplação sacral do universo. (***) O Prof. Plinio se refere à então Sede do Conselho Nacional da TFP situada na Rua Pará, no bairro de Higienópolis, em São Paulo. Posteriormente essa sede foi substituída pela Sede da Rua Maranhão, atual sede do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira. Nossos leitores poderão fazer uma visita virtual a tal sede (como estava decorada até meados de 2004) clicando aqui. Para outros aspectos da referida sede ver aqui ou ainda aqui.
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