Plinio Corrêa de Oliveira "Moisés, talvez o maior homem que
tenha existido, pois Jesus Cristo é Deus" (André Frossard)
Exposição de 21 de
outubro de 1971 |
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A D V E
R T Ê N C I A O presente texto é adaptação
de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira
a sócios e cooperadores da TFP, e não foi revisto pelo autor. Se o Prof.
Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se
colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer
discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui
constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de
espírito:
[Leitura e comentários do artigo "Moisés", escrito por André
Frossard, publicado na revista francesa
"Historia" nº 289, de dezembro de 1970] Moisés, talvez o maior homem que tenha
existido, pois Jesus Cristo é Deus. A
entrada já é francesa. Tem aquela síntese que caracteriza o espírito francês.
Eu acho isto simplesmente magnífico! Sua vida pública, iniciada aos oitenta
anos, se desenrola sob um céu tempestuoso, apenas iluminado de longe em longe
pelo interlúdio pastoral de uma doçura sem amanhã. Quer
dizer o seguinte: é uma vida de tragédias, com alguns episódios dulcíssimos,
mas que dão logo depois noutra tragédia. É terrível a vida dele! Mas
também os Srs. vão ver como ele foi glorificado! Como caíram mil à esquerda
dele e dez mil à direita. O fim de Moisés é uma verdadeira beleza. Ele fez de Israel um povo e uma religião
em marcha, perfilado ao redor de sua lei, como um exército ao redor de sua
bandeira. Não
sei se os Srs. percebem como está bem expressa a obra dele. Quer dizer,
aqueles judeus que viviam no Egito eram um mundaréu
de escravos, sem direitos, sem constituição, sem nada. Era um segmento
racial. Ele transformou esse magma étnico num povo, e ele fez desse povo uma
religião em marcha. Porque, realmente, a religião deles tomou outra consistência,
outra amplitude, outro porte ao longo desses quarenta anos de peregrinação no
deserto, que parecem quarenta anos inúteis, mas que foram quarenta anos em
que eles se prepararam para ocupar a
terra prometida. A
existência deles transcorria em um itinerário cheio de voltas, de dobras e
de surpresas, como seria o de algum caprichoso rio chinês. E seguia,
seguia, seguia... Não havia meio de entrarem na terra prometida. Mas, com uma
síntese toda francesa, esse escritor vai expondo já o que aconteceu. Ou
seja, durante os quarenta anos de espera, eles se transformaram num povo e
depois numa religião em marcha, "perfilado ao redor de sua lei, como um
exército ao redor de sua bandeira". Quando eles entraram na terra de
Israel, eles já estavam completamente estruturados para ser o grande povo que
eles foram depois. * Quarenta anos de luta de
Moisés prepararam os judeus para entrarem na terra prometida Os Srs. vêem, portanto, aqueles
quarenta anos de “rio chinês”, que foram os quarenta anos de luta de Moisés,
como maturaram algo... quando ninguém imaginava que
estivesse maturando qualquer coisa. É
para os Srs. verem, meus caros, que no “rio chinês” há muita coisa de
fecundo. A eloqüência prodigiosa desse homem que
gaguejava encheu o Antigo Testamento de sua sonoridade de bronze, cuja
grandeza wagneriana rola eternamente suas vagas possantes sob os céus pacíficos
do Evangelho. É
fenomenal, não é? Eu acho que dispensa qualquer comentário. O “céu pacífico
do Evangelho” e a “vaga possante da voz desse gago” - porque Moisés de fato
era gago -, desse gago de grande eloqüência! Ele nasceu sob o signo da primeira
perseguição anti-semítica registrada na História, numa data que se hesita
ainda em fixar entre os séculos XV e XIII antes da era cristã. Roma não era
senão um débil ondulado de colinas desertas à beira do Tibre.
E a Acrópole, um terraço desnudo, uma espécie de escabelo avançado do mar,
para uma representação de gênio que ainda não começara. A civilização seguia dois rios: o Nilo e
o Eufrates. E começava a enxertar alguns frutos
promissores numa ilha do Mediterrâneo, Creta, plataforma inicial das artes, das
leis e das técnicas do mundo ocidental. Vejam
numa palavra só como o papel de Creta está bem definido. E passa para frente. O Egito oferecia, então, o modelo
acabado dessas sociedades antigas, onde se encontravam harmoniosamente
combinadas, para a frágil felicidade de uma elite, uma alta inteligência
religiosa dirigida para a magia, o mais extremado refinamento dos sentidos e
mais refulgente dureza de costumes políticos. As magníficas estátuas dos
túmulos do Nilo exprimem com perfeição essa mistura de espiritualidade
superior, de rigor e de sensualidade. Perfeitamente
descrito! Porque tem qualquer coisa de espiritualidade ocultística,
de um lado. E, de outro, o que tem de rigor e o que tem de sensualidade!
Qualquer daquelas figuras está perfeitamente descrita nesse tríptico. Eretas, braços colados ao longo do
corpo, elas avançam um pé como os granadeiros ingleses nas paradas. E, sob a
cabeleira em forma de crina estilizada, o rosto ergue, na noite, seus traços
geométricos de astro iluminado pelo estranho sorriso da morte. Eu
não tenho direito de comentar... * "E subiu ao trono do
Egito um rei que não conhecera José" Os judeus foram atraídos ininterruptamente
para o Egito pela esperança segura que lhes dava o poder de José, filho de Jacob e de Raquel. José tornara-se, pela lucidez de seu
gênio, o primeiro-ministro do reino. Receberam boas terras no país de Gessen, entre o delta do Nilo e os lagos Armers, onde atualmente passa o canal de Suez, calma
província a uma distância razoável do poder central. Em algumas gerações, o país foi inundado
por esses protegidos de José, multiplicados pela felicidade, até o dia - diz
a Escritura - em que subiu ao trono do Egito um rei que não conhecera José. Essas
expressões da Escritura são de uma poesia linda! É o Espírito Santo que fala.
Os srs. estão entendendo do que se trata, não é? Um rei que não conhecera
José. Quer dizer, se tivesse conhecido José, tal era José, que a perseguição
aos judeus era impossível. Mas
a grande desgraça é que esse rei não conhecera José. E então o povo estava
desesperado. Pode-se fazer de um José qualquer maior elogio do que esse?
Nessa só frase: "não conheceu
José"... Mas aqui já não é o talento, é o gênio! Já não é o gênio, é a
inspiração! Sobe para outros páramos. E que começou a lançar um olhar
descontente sobre essa população exótica, cuja massa crescente ameaçava pouco
a pouco o recenseamento. Então começaram as desditas de Israel.
As lanças egípcias voltaram subitamente suas pontas contra aqueles que até
então protegiam. O sol de Gessen, que se deitara
sobre uma paisagem idílica, se levanta sobre um campo de concentração. Trabalhos se sucedem a trabalhos, sob o
sibilar das matracas. Um povo, outrora orgulhoso e altivo, olha estupefato os
seus pulsos acorrentados. E, em milhares de peitos descarnados pelas galés,
forma-se e sobe o soluço do exílio. Eles
começam então a notar que estão exilados. Com os maus tratos é que eles tomam
a noção de que eles estão exilados. Mas isso podia ser dito de um modo mais
bonito? "Forma-se e sobe o soluço do exílio"... Do trabalho forçado ao massacre mais ou
menos disfarçado, o processo de perseguição racial não varia muito através
dos tempos. Inicialmente, teme-se o crescimento rápido de uma população
minoritária, da qual se finge esperar as piores traições. Depois, dela se
tiram sucessivamente todos os direitos, para reduzi-la ao cativeiro
preventivo. Assim fez o rei que não havia conhecido José, temendo, dizia ele,
que em caso de guerra os judeus se aliassem aos inimigos do Egito. * “A grandeza de um reino era
igual a seu peso em monumentos capazes de resistir à conjuração permanente da
areia e dos ventos". Depois de se privar os cidadãos
de sua liberdade, em geral se percebe que eles podem fornecer uma mão-de-obra
das mais vantajosas. Os trabalhos forçados seguem de perto a degradação
civil: os judeus foram obrigados a cozer tijolos, trabalho sem fim num país
em luta constante contra as invasões do deserto. E no qual a grandeza de um
reino era igual a seu peso em monumentos capazes de resistir à conjuração
permanente da areia e dos ventos. É
um escritor de mão cheia! "A conjuração permanente da areia e dos
ventos"... Israel mergulhou no trabalho. E não se
pode dizer que tenha engordado, entre o calor dos fornos e o calor do sol... Eu
queria atrair aqui a atenção dos srs. Não é só sobre Moisés, mas é sobre o
espírito francês. Com que síntese luminosa esse homem deu a interpretação
dele das perseguições aos judeus no nazismo! Porque o método nazista é
exatamente esse. Foi assim que se desenvolveu. E ele, "en passant", dá isto com
mais riqueza, com mais suco, com mais interesse, de um modo mais atraente do
que qualquer articulista de qualquer jornal. Essas
coisas Deus deu a quem quis. Está acabado. E a nós cabe - filhos que somos da
admiração - de admirar também o que não é nosso. Não só admirar o que é
nosso, mas o que não é nosso. Mas os homens têm ao menos uma diferença
com os animais selvagens: o cativeiro não lhes tira a coragem de se
reproduzirem. Israel prisioneiro proliferava sempre. E o Faraó iniciou então
a segunda fase de seu trabalho: o massacre dissimulado. Chamadas ao palácio, as parteiras foram
convidadas a matar todos os recém-nascidos meninos. Elas se esquivaram da
missão com uma desculpa hábil: as mulheres judias - dizem - são mais fortes
que as egípcias, e não teremos tempo suficiente para chegar antes que elas
tenham dado à luz. * "Israel, extenuado em sua
miséria, recebeu a ordem oficial: todos os meninos recém-nascidos deverão ser
lançados ao rio. Moisés é um deles" O crime não podendo ser cometido
em segredo, o Faraó decide decretar a sua obrigatoriedade. Israel, extenuado
em sua miséria, recebeu a ordem oficial: todos os meninos recém-nascidos
deverão ser lançados ao rio. Moisés é um deles. Está
introduzida a história de Moisés. Há mais arte do que isto?... Sua mãe o havia ocultado por três meses.
Não podendo mais ocultá-lo, ela tomou uma pequena caixa de junco, que ela
revestiu de betume e de piche, como um navio. Aí reclinou a criança sobre um
leito de folhas e, seguida de sua filha, foi depositar a frágil embarcação à
margem do rio, entre os juncos. O destino de Israel flutuava sobre as
águas, protegido da corrente por um fraco leque de caniços. À pequena
distância, a irmã da criança espreitava. E a própria mãe um pouco mais longe,
temerosa de denunciar seu filho com sua presença, mas incapaz de se resignar
a perdê-lo de vista, esperava um milagre. Foi então que apareceu a filha do Faraó,
que viera banhar-se, seguida de suas servas. Tendo se aproximado do rio, ela
percebeu a caixa entre os juncos. Fê-la daí ser retirada, ergueu vivamente a
leve cobertura do junco e descobriu, sobre um leito de folhas, um bebe que
chorava. Enquanto as servas agitadas se
entregavam a falatórios inúteis, a jovem oculta vendo a princesa comovida,
encorajou-se para falar. E se ofereceu com empenho admirável a procurar uma nutriz, que logo foi encontrada: a mãe, ainda muito
pálida, e que foi imediatamente contratada. É
magnífico! Vejam a leveza da narração! Desde logo, a filha do Faraó tratou o
menino como seu filho e lhe deu o nome de Moisés, "porque o tirei das
águas", dizia ela. O nome de Moisés é, com efeito, composto de "moi", que significa água e do final "eses",
salvo. A crítica moderna, que se sentiria menos
moderna se não contradissesse sempre os antigos, preferiu que o nome seja de
origem egípcia: "mosu", que quer dizer
rapaz. Mas a tradição é tenaz. A Bíblia é precisa, e é necessário ter excesso
de conhecimento etimológico para ignorar que o primeiro cuidado das meninas é
de batizar suas bonecas antes de escolher o nome de seus filhos. E que
nenhuma mulher jamais se contentou de designar um filho somente pelo sexo. É
bem verdade. O argumento psicológico é muito bem dado! Assim, o nome de Moisés persiste,
evocando o salvamento do fundador do judaísmo. Aliás, como o próprio fundador
do judaísmo acreditava, não tendo lido os autores modernos. Não
há como um piparote desses: pam! Está por terra o
adversário. E nós chamamos até hoje de Moisés a
esses berços nos quais nossas crianças navegam somente em nuvens de sonhos. Dos oitenta anos que se vão seguir, a
História só reteve dois acontecimentos: um assassinato e um casamento. * Como é possível tornar ameno
um tema tão sério? A coisa amena e séria é mais amena do que a coisa amena e
não séria Eu chamo a atenção dos srs. para
como é possível tornar ameno um tema tão sério. E como a coisa amena e séria
é mais amena do que a coisa amena e não séria. Por onde, quanta amenidade há
no sério! Porque se o ameno mais sério é mais ameno do que o ameno não sério,
então o sério é ameno. Não se escapa disso. Educado pelos melhores mestres, o filho
adotivo da princesa tornou-se personagem de importância, até o dia em que o espírito
de justiça, que a convivência com os grandes do mundo não pudera afastar de
seu coração predestinado, o fez perder, de um só golpe, todas as honras e
privilégios da proteção real. Vendo um dia um egípcio maltratar um
desses hebreus, seus irmãos, que sempre lhe haviam ocultado seus sofrimentos,
Moisés esperou ficar a sós com o que torturava. Matou-o e enterrou-o na
areia. Não havia ninguém nos arredores, e ele acreditou estar seguro. Mas, no dia seguinte, iria medir a
extensão de seu erro. Dois hebreus iniciaram uma discussão diante dele.
Procurando separá-los, o mais agressivo dos dois gritou-lhe: "Quem te
fez juiz? Terás, por acaso, intenção de me assassinar como o fizeste com o
egípcio?" Temendo que o Faraó logo o buscasse para o condenar à morte,
Moisés fugiu para o país de Madian, do outro lado
dos lagos, em algum lugar ao norte das proximidades do Sinai. Bastou
Moisés ver que sua ação foi proclamada por um, para que pudesse ter pensado:
"o Faraó me pega". Então ele já fugiu para longe, quis colocar-se
numa segurança enorme. Moisés, um
herói, sabia amar a segurança. Logo que chegou, aproveitou com ardor
uma terceira ocasião de se meter numa dificuldade, atirando-se de punhos
cerrados sobre alguns pastores rudes, que buscavam impedir que algumas jovens
tirassem água para suas ovelhas. Essas moças eram filhas de Jetro, sacerdote de Madian,
convertido mais tarde ao judaísmo. E entre elas Moisés escolheu sua mulher, Séfora, cujo nome significa "pássaro. Assim, a vida do gigante do Êxodo
começou como um romance da Távola Redonda. O jovem
herói defensor do direito deixa o palácio real, percorre o mundo de lança em
punho, vinga o oprimido, sustenta o fraco, castiga o mau e casa com a
pastora. A gigantesca figura do depositário da Lei, o sublime interlocutor de
Deus, ocultará a nossos olhos essa cavalheiresca entrada em cena. Além do
mais, em lugar da pastora tornar-se princesa, foi o príncipe que se tornou
pastor. Durante muitos anos, Moisés levará, nas
terras de Madian, uma existência obscura, que tudo permite
supor feliz e que faz lembrar, pela humildade de condição e pelo véu de
intimidade que a encobre, a vida oculta de Jesus na oficina de Nazaré. Aqueles
profetas que antecederam a Nosso Senhor, a vida deles prenunciava Nosso Senhor. Não só falavam,
mas a vida prefigurava. * As curiosas concordâncias
entre a vida de Moisés e a de Nosso Senhor Jesus Cristo Pode-se notar curiosas concordâncias,
puramente formais, entre a vida do primeiro profeta de Israel e a do Messias.
O nascimento de ambos é acompanhado ou seguido de um massacre de inocentes,
decretado pelo poder estabelecido. E a precariedade do abrigo: a manjedoura
sobre a qual o Senhor tomou contato com este mundo inóspito lembra o berço de
vime, exposto à piedade dos que passam, sob um reino de um Faraó tomado da
mesma febre de construções que dominará Herodes, o Grande, treze séculos mais
tarde. Na vida de Jesus e na vida de Moisés, um
longo período de silêncio preludia as tempestades da vida pública, ilustrada
inúmeras vezes por prodígios inesperados. Jesus multiplica os pães. E os
flocos de maná caem ante Moisés. Este atravessa o Mar Vermelho a pé enxuto, e
Jesus caminha sobre as águas. Ambos surgem no meio de um povo subjugado, ao
qual eles mostram o caminho da libertação. Ambos dão uma lei ao povo judeu,
ambos se transfiguram no alto de uma montanha. É
magnífico! Mas as verdadeiras concordâncias
místicas escapam à fraqueza de nosso olhar e o paralelismo histórico
limita-se às imagens. O sacrifício pedido à mãe de Moisés, a Mãe de Cristo
dele sentirá todo o horror sobre o rochedo do Calvário. Que
grandeza tem isso?! Nossa Senhora teve que fazer por Nosso Senhor o que fez a
mãe de Moisés: expôs ao perigo, entregou às correntes do Nilo, quer dizer,
entregou à morte. * Uma caminhada que tem refulgente orquestração de heroísmos, de cóleras, de apostasias, de
arrependimentos e de perdões incomensuráveis Jesus deixa livremente a casa de seu pai
adotivo quando Sua hora soou. Moisés é enviado, não sem alguma resistência de
sua parte. Os milagres de Cristo manifestam Sua divindade, os milagres de
Moisés testemunham a onipotência de um Outro. A Lei do Sinai, destinada
unicamente ao povo judeu, distingue-o das outras nações, e lhe imprime um
selo de uma elevação coletiva; a Lei do Evangelho dirige-se a todos os homens
através do povo judeu e dá a cada homem vindo a este mundo o poder
extraordinário de participar da existência de Deus. Para o cristão, a terra prometida é uma
prefiguração do reino dos Céus, e a grande caminhada sangrenta dos hebreus
para Canaã, com sua refulgente orquestração de
heroísmos, de cóleras, de apostasia fenomenais, de
arrependimentos e de perdões incomensuráveis anuncia esta lenta aproximação
da alegria pelo sofrimento e pelo amor, que se chamará vida cristã. Moisés lançou as bases da Bíblia,
formidável trabalho de embasamento sobre o qual repousa para sempre a
continuidade dos textos sagrados. Jesus nada escreveu, mas quando o último
profeta colocou seu último vitral na noite da espera, ele fez entrar Sua luz
no edifício. A
imagem é para lá de linda! Depois de São João Batista ter posto o último vitral,
raia o Sol da Justiça e entra por todos os vitrais, e se vê que é Jesus! Lorsque que le dernier prophète a
posé son dernier vitrail dans la nuit de l'attente, il a fait entrer Sa
lumière dans l'édifice. Foi no sul do país de Madian, no maciço de Sinai, que Deus se revelou pela
primeira vez ao pastor Moisés, através do crepitar de uma sarça que ardia,
mas cujos ramos não se consumiam no ardor das chamas. Aproximando-se para ver
esse prodígio, Moisés ouviu uma voz que o chamava do meio da sarça, como uma
mãe chama seu filho: Moisés, Moisés... Que
linda interpretação dessa voz, não é? Tem-se impressão, à primeira vista, que
é uma voz que devia meter medo. Ele interpreta como a mãe que chama o filho:
“Moisés, Moisés...” A voz que chamara Moisés o encarregou de
obter do Faraó a liberdade dos hebreus. O tempo de sua escravidão havia
acabado e soara para eles a hora de empreender, sob a liderança do profeta, a
grande viagem para a terra prometida, para esse país de Canaã,
“onde corriam o leite e o mel”. Mas o missionário resiste à sua vocação.
Sua humildade apresenta ao Eterno toda uma série de argumentos, dos quais o
mais tocante surge como um refrão: ele gagueja. Quem escutará um líder
atingido por uma tal enfermidade? Não sou um homem de palavra fácil;
enviai qualquer outro, eu Vos suplico. Minha língua sempre me embaraçou, e
não somente agora por causa da emoção que sinto diante de Vós. Que
beleza! Ou seja, ele tri-gaguejou diante de Deus. * O gago será profeta e um tal
profeta, dirá o Deuteronômio, que jamais haverá
outro igual em Israel: o único que Deus escolheu face a face Senhor, enviareis assim mesmo um
gago como profeta? Sim, exatamente. O gago será profeta e um tal profeta, dirá o Deuteronômio, que jamais haverá outro igual em Israel... Que
elogio, hein? Que coisa fabulosa! ...igual a este que Deus, em Seu amor,
escolheu face a face. É uma
outra linda noção: é a do único profeta que Deus escolheu face a face. Deus
apareceu a ele e conversou com ele e escolheu. É uma coisa belíssima! Ladeado por seu irmão Aarão, munido de poderes sobrenaturais simbolizados por
um bastão, Moisés foi pedir a liberdade de Israel ao Faraó, que respondeu por
um acréscimo de maldades: o Estado não iria mais
fornecer a palha necessária à fabricação dos tijolos, mas os judeus,
ameaçados de uma intensificação de brutalidades,
deveriam entregar todos os dias a mesma quantidade estabelecida. Dez vezes Moisés pronuncia diante do
trono uma exortação: “deixai, deixai ir o meu povo”, seguida cada vez por um
prodígio, imitado, aliás, todas as ocasiões, com sucesso, pelos eminentes
feiticeiros da coroa, hábeis em práticas mágicas e finos conhecedores em
matéria de encantamentos. Os
Srs. estão vendo a coisa linda: ele vai com Aarão,
para Aarão falar por ele, porque Aarão é a palavra e Moisés é a presença. E aí os Srs.
percebem bem como a presença é mais do que a palavra. Porque Deus reservou
para seu profeta a presença e deu ao outro a incumbência de falar. Vai
munido com uma vara. Os Srs. devem imaginar o palácio do Faraó, Moisés
entrando, tomado de coragem - embora ele fosse um criminoso diante da lei do
Egito -, anuncia ao Faraó qual era a
vontade de Deus. E essa luta entre os Anjos que praticavam milagres por ordem
de Deus e os demônios que imitavam os prodígios de Moisés. Quer dizer, cada
milagre que um Anjo fazia, um demônio fazia um milagre igual, por meio dos
sacerdotes egípcios. * Nove vezes, o Faraó
atemorizado prometeu pôr fim ao cativeiro de Israel, e nove vezes não cumpriu
sua palavra Nove vezes, o Faraó atemorizado
prometeu pôr fim ao cativeiro de Israel, e nove vezes não cumpriu sua
palavra, após ter obtido do profeta que fossem anulados os efeitos
calamitosos de seu bastão. Assim, primeiro as águas do Egito se
mudaram em sangue; segundo, uma invasão de rãs cobriu o país e se espalhou
por casas e palácios, até sobre o leito de sua Majestade. Terceiro, tocada pelo bastão do profeta,
a poeira do solo se transforma em nuvem de mosquitos. Os mágicos então
chamados, que haviam obtido êxito contra os dois casos anteriores,
fracassaram agora; e dizem ao Faraó: “É o dedo de Deus”. Mas o Faraó não
acredita. Quarto, turbilhões de moscas atacam os
egípcios e poupam os hebreus. Quinto, uma peste faz perecer o rebanho
egípcio. Quer
dizer, esse Faraó é "n-a-n-e" até o
último grau! [nota: a respeito do significado do neologismo n-a-n-e aplicado a certo gênero de indiferentes, vide o
artigo na “Folha de S. Paulo” intitulado Os ene-a-ene-é, de 5-4-1970] É um prodígio de
"n-a-n-e"! Pode-se imaginar o que era o
orgulho de um Faraó! Sexto, a população é subitamente coberta
de úlceras. Os feiticeiros do governo, que aliás estavam afastados do caso há
vários dias, abandonam tudo e vão se tratar também. Sétimo, cai granizo a ponto de destruir
um cavalo de bronze. Oitavo, um dilúvio de gafanhotos se
abate sobre o território e devora tudo o que o granizo não destruiu. Nono, três dias de trevas intermináveis
encerram o Egito na noite e na imobilidade dos túmulos. Para
o Faraó continuar indiferente, é o mais prodigioso "n-a-n-e"
de todos os tempos! É bom os Srs.
notarem isto: os inimigos da causa católica são sempre assim. E os Srs. não
devem imaginar que se um santo fosse comparecer diante de um Brezenev ou de qualquer outro, que obteria resultados
muito diferentes. Vale a pena dizer que o racionalismo ateu e seu neto adulterino, o racionalismo clerical, não tem nenhuma dificuldade em
atribuir uma explicação natural a cada um desses milagres, como a todos
outros que Moisés realizara de então em diante. Nada de mais comum, dizem eles, que uma
invasão de mosquitos, de gafanhotos ou de rãs num país quente e pantanoso. Os
orientais são freqüentemente atingidos por úlceras e cobertos de moscas, e
seus animais morrem constantemente de peste etc. Quanto às famosas trevas, se não se
tratar de um eclipse do sol, será um efeito da areia, que o vento do deserto
levanta muitas vezes e em nuvens tão espessas que obscurecem a luz do dia. O que há de mais fácil para se organizar
do que viagens de gafanhotos e encontros de rãs? Ora, os egípcios praticavam
a astrologia há séculos. As medidas das pirâmides são resultados de cálculos
astronômicos extraordinariamente precisos. E era, provavelmente, muito
difícil fazê-los aceitar um eclipse do sol por uma miragem. Da mesma forma
que tentar fazer o diretor do observatório hoje em dia acreditar que há um
homem em Vênus. Mas o racionalismo integral não
desdenha refutar a hipótese do milagre por hipóteses miraculosas... É
sempre a pirueta francesa: pam-pam-pam! Passa para
frente. Quando o Mar Vermelho se abrir diante
dos hebreus e se fechar sobre seus perseguidores, isto será uma iniciativa do
vento do leste ou do mistral... É melhor fechar a Bíblia, do que lê-la com
tal estado de espírito. Está
aí uma grande verdade. * A décima praga do Egito, a que
foi decisiva, foi também aí a mais dolorosa: todos os primogênitos morreram
numa noite. Arrancada ao sobrenatural que a
guia, sustenta e produz de maneira visível ou invisível, a história do povo
judeu perde todo sentido e o livro que a conta não é mais do que um galho
morto caído do arbusto. A décima praga do Egito, a que foi
decisiva, foi também aí a mais dolorosa: todos os primogênitos morreram numa
noite. E o Faraó, vencido, concedeu
“passagem” (Páscoa, segundo o hebreu) ao povo de Moisés. Essa noite os judeus
a passaram de pé, “os rins cingidos, as sandálias nos pés, o bastão de viagem
na mão”, comendo com pressa e com temor o cordeiro que ele havia ordenado a
cada família que imolasse, prontos para partir ao primeiro sinal. Tal é a
origem da Páscoa judaica, celebrada todos os anos em memória da saída do
Egito. E
que é, depois, a Ressurreição de Nosso Senhor, que é também passagem da morte
para a vida, portanto Páscoa. Por isso se diz a Páscoa da Ressurreição. Antes da aurora, grandes colunas de povo
se puseram em marcha, sob o olhar fúnebre dos egípcios, que na porta de suas
casas enlutadas apressavam-se em lhes dar passagem. Fora da cidade de Ramsés, todas as colunas se uniram, formando ao redor de
Moisés e de Aarão um mar imenso. Que
majestade de cena! Eles passaram a noite inteira acordados e na madrugada -
para os egípcios os verem sair - eles foram saindo. E os egípcios esmagados,
humilhados por um poder sobrenatural, deixaram sair esses homens que eram
para eles animais de carga. Depois de já terem perdido o rebanho, perdiam uma
escravaria sem fim. Era uma depauperação medonha
para o Egito. Todos quietos e os judeus passando... * Todo prestígio é
insignificante quando se trata de fazer o bem A vitória aos olhos do Egito,
desse Moisés que tinha produzido esses fatos! Os Srs. podem imaginar o
prestigio, aos olhos dos judeus, de Moisés. Os Srs. vão ver como todo prestígio
é insignificante... Quando se trata de fazer o mal é fácil. Quando se trata
de fazer o bem é zero, não há prestígio por nada. Seiscentos mil homens, diz a Escritura,
sem contar as mulheres, crianças e todo um amálgama de imigrantes suspeitos que
se haviam unido ao grupo, todos iam se lançar a pé pelos perigos do deserto,
enquanto atrás deles enfraquecia-se lentamente um surdo rumor de desespero. Esta viagem, este purgatório entre o
inferno dos tijolos e as desejáveis delícias de Canaã,
durará quarenta anos; mais ou menos o tempo necessário, observam os
comentaristas, para que uma geração parta e outra surja. Também
é terrível, não é? Quer dizer, poucos dos que começaram, chegaram. Em lugar de empreender o caminho direto
do litoral, barrado pelos filisteus gigantes, armados até os dentes e cujo
aspecto atemorizador seria capaz de levar a expedição a voltar-se rapidamente
para a segurança da prisão, tentou-se um longo trecho arenoso do lado do Mar
Vermelho. Mas o inferno, que uma mão poderosa havia
entreaberto, já lamenta ter deixado escapar a sua presa. A lembrança das nove
provações divinas apagou-se. Ainda não se acabou de chorar as vítimas da
décima prova, e os corações humanizados um instante pela dor novamente
esfriam em cálculos políticos. O Faraó, que começa a reagir, bate na
testa considerando-se um grande tolo e percebe na volta de caminho
empreendida por Moisés uma ótima ocasião para recuperar a sua mão de obra
gratuita. Logo reunidos, os carros e cavalos se lançam para deter os hebreus
acuados pelo mar e reconduzi-los aos fornos e aos tijolos, vazios desde sua
partida. * "Israel ouviu de repente
o ruído surdo do exército lançado ao seu alcance. E pela primeira vez o povo
apavorado se volta contra Moisés" Israel, precedido por uma coluna
de nuvem, escura de dia, brilhante à noite, que lhe indica o caminho, ouviu
de repente o ruído surdo do exército lançado ao seu alcance. A nuvem de pó
que se elevava no horizonte trazia-lhe a morte, e pela primeira vez o povo
apavorado se volta contra Moisés. Ou
seja, em vez de confiar, reclama... Não havia suficientes cemitérios no Egito
para que nos conduzisses aqui tão longe para morrer? Não te dizíamos com
razão, quando falavas de liberdade, que a servidão vale mais do que esse fim
miserável no deserto? Aqui
transparece que Moisés teve que vencer resistências para convencê-los a sair
e que eles não quiseram ouvir a palavra de Moisés, enviado por Deus. E que
eles entraram, portanto, com uma alma minguada para dentro do deserto. E que
assim que se apresentou uma ocasião para uma infidelidade, eles praticaram. Os
Srs. vêem a ingratidão. O normal seria dizer a Moisés: "Tu que provaste
que és enviado de Deus, por favor, agora reza conosco e salva-nos!" Não.
Recriminações: "Nós é que tínhamos razão e não você! Nós vamos nos
entregar". Os
Srs. vejam uma espécie de aversão de Deus, chegando ao ponto de querer voltar
ao cativeiro. Em vez de solução confiante, tão suave, tão doce, não. É a
solução da desconfiança e a vontade de voltar para o cativeiro. Preferir
os egípcios a Moisés não é mesma coisa que preferir Barrabás
a preferir Jesus? E isto não fazem só os judeus, hein?!
Faz todo mundo que se deixa tentar na Fé ou numa virtude que é o corolário da
virtude da Fé, que é a virtude da Confiança. * Deus disse a Moisés:
"Ergue teu bastão, estende a tua mão sobre o mar e divide as
águas!" O mar muito próximo lhes impedia
até mesmo a esperança da fuga e a cavalaria começava a galopar contra os
fugitivos, quando Deus disse a Moisés: "Ergue teu bastão, estende a tua
mão sobre o mar e divide as águas! Os
Srs. compreendem que Fé Moisés precisava ter, não é? Porque ele estava
liquidado! A noite havia caído. Os esquadrões
egípcios deixavam descansar suas montarias, esperando organizar, no dia seguinte,
a volta dos cativos. Moisés levantou seu bastão, estendeu sua mão sobre o
mar, e um pouco antes da aurora, todo o povo havia passado para a outra
margem, entre duas muralhas líquidas erguidas à direita e à esquerda pelo
vento leste racionalista! O exército egípcio lançou-se em sua
perseguição, mas os carros muito pesados afundaram, os animais assustados
semearam a desordem na cavalaria. E enquanto no meio do alarido e dos gritos
da artilharia meio encoberta pela terra, os soldados desmontados chafurdavam
sob o ventre de seus cavalos, o mar, libertado pela mão de Moisés, se
despenhava sobre o campo de manobra e se encontrava consigo mesmo, nivelando
suas ondas sobre o exército submerso. * "Do outro lado do Mar era
o deserto. Um solo árido, onde os sofrimentos da sede e da fome levantaram
contra Moisés novos tumultos, acalmados por novos milagres" Do outro lado do Mar Vermelho
era o deserto. Um solo árido, semeado de uma vegetação mirrada, onde os
sofrimentos da sede e da fome levantaram contra Moisés novos tumultos,
acalmados por novos milagres. Os
Srs. vêem como é que é o homem. É assim toda criatura humana. Não adianta vir
com deblaterações contra os judeus, porque assim é
toda criatura humana. Recebe favores de Deus, e pela primeira vez em que ele
estiver acuado, diz: "Olha lá! Agora chegou a vez! Vai acontecer o que
eu estava prevendo..." O profeta de desgraças sempre errado. Água jorrou do rochedo tocado pelo
bastão do Profeta. E uma manhã, a multidão dos famintos percebeu, ao redor do
campo, uma geada insólita: o maná, semelhante ao grão de coriandro,
branco e de um sabor agradável de mel. Este alimento, que Davi chamará “o pão
dos Anjos”, nunca mais faltará no decorrer da viagem. Era recolhido todas as
manhãs bem cedo, porque ele derretia ao sol. E sempre se encontrava numa
quantidade tal que cada um recebia a exata medida de suas necessidades, exceto
na véspera de sábado, quando caía dupla quantia, de modo que se podia cozê-lo
para o dia seguinte. Fora desse dia excepcional, não era aconselhável se
fazer provisão de maná. Refeita, a coluna se pôs em marcha,
varreu um exército de agressores beduínos, num combate onde se distinguiu um
jovem capitão de nome Josué. E chegou-se assim, três meses após a saída do
Egito, ante uma impressionante massa de enormes blocos vermelhos e azuis
empilhados em desordem até o céu: o Sinai. É o
Sinai. Que linda descrição do Sinai! * Sobre o Sinai, rodeado de
tempestades, Moisés recebe as tábuas da Lei, escritas pelo dedo de Deus Desde o dia em que Moisés ouvira
a voz que o chamava através da sarça, o extraordinário colóquio nunca mais
cessara. O Eterno, diz a Escritura, falava a Moisés “como um amigo fala a seu
amigo”. Não
é uma beleza?! Ele lhe havia revelado o Seu nome:
"Eu sou Aquele que é". Também,
o resto não é nome... “Eu sou Aquele que é”... ... Em hebreu Yaveh,
de onde um erro de vogais fez Jehovah, fórmula -se se pode respeitosamente dizer - de uma tal
incandescência metafísica. É
verdade. ...que após três mil anos, filósofos
judeus e cristãos se aquecem ainda neste sol. Sobre o Sinai, rodeado de tempestades,
Moisés recebe as tábuas da Lei, escritas pelo dedo de Deus, e todo um
conjunto de prescrições rituais, jurídicas e morais, regularizando o
contrato, a aliança do Eterno e do povo que Ele havia escolhido. Não se pode só falar de monoteísmo, mas
de monolitismo: um só Deus, ao qual um só povo está
unido por uma lei de fidelidade a um só amor. O resto é mansidão. Que
coisa estupenda, mas estupenda! O Eterno, vosso Deus, não faz acepção de
pessoas, nada cede aos presentes, ouve o órfão e a viúva, ama o estrangeiro e
lhe assegura o pão e o vestido. Amai portanto o estrangeiro, vós que fostes
estrangeiros no país do Egito!... Quando colheres no teu campo, se esqueceste
um grão, não voltes para pegá-lo. Ele será para o estrangeiro, para o órfão e
para a viúva, a fim de que o Senhor te abençoe em todos os teus trabalhos. Na colheita de tuas oliveiras, não
respigues tudo: o que restar será para o estrangeiro, a viúva e o órfão. Na
vindima, não colhas tudo: que haja algo para o estrangeiro, para o órfão e a
viúva. Tu te lembrarás que foste escravo no país egípcio: é por isso que te
ordeno de agires assim. * A predestinação não exclui a
liberdade: o povo eleito dispensa sua aptidão para o divino, entregando-se a
uma espécie de chantagem com a idolatria A consagração do povo judeu data
do Sinai, fazendo dele uma espécie de povo-sacerdote.
Mas a predestinação não exclui a liberdade, e se verá mais de uma vez o povo
eleito dispensar sua aptidão para o divino, para se entregar a uma espécie de
chantagem com a idolatria. Realista como todos os místicos, ele se apressou
em colher os frutos de sua eleição. Isto
é terrível, hein?! Todo místico é realista. Isto é
muito verdade. A mística não seria nada se não houvesse um grande realismo no
místico. Então seria uma fantasia... Mas o lado horroroso da coisa é a
venalidade. Os Srs. estão vendo aqui a luz primordial e o pecado capital. A
mística e o suborno, a venda. O contraste horroroso. De fato, a primeira cabeça que Moisés
percebeu, ao descer pela última vez do Sinai, foi a cabeça de um bezerro de
ouro brilhando ao sol, bem firme sobre suas quatro patas, representando ao
mesmo tempo a continuidade dos maus hábitos adquiridos no Egito, um grande
desejo popular de imobilismo religioso, junto a um grande apetite de carne,
encorajado pela teoria viciosa que incita os impacientes a se servirem dos
falsos deuses para obrigar o verdadeiro Deus a aparecer. Ou
seja, eles achavam que Deus estava omisso e então quiseram obrigar a Deus a
aparecer. E para isto se prostituíram com o bezerro de ouro. Seria mais ou
menos como uma esposa que quer obter dinheiro de seu marido e ameaça
adulterar caso ele não dê dinheiro. * A cólera de Moisés foi
terrível. Quebrou ao pé da montanha as Tábuas da Lei, e caiu como um raio
sobre o bezerro da apostasia e o reduziu a poeira, que fez os adoradores
engolir A cólera de Moisés foi terrível.
Ele quebrou ao pé da montanha as Tábuas que traziam os Mandamentos divinos, e
caiu como um raio sobre o bezerro da apostasia e o reduziu a poeira, que fez
os adoradores engolir. Enquanto isto, Aarão,
infeliz como as pedras, de ter auxiliado por fraqueza o crime de Israel... Quer
dizer, até Aarão ajudou. Aquele que era o
porta-voz, hein?! ...pedia perdão como uma criança que é surpreendida
com o dedo mergulhado no doce: "Não compreendo. Tu não estavas. Eles me
trouxeram ouro. Eu lancei nessa grande vasilha e daí saiu este bezerro”. Os quarenta anos de êxodo que se
seguiram ao episódio do Sinai serão feitos dos mesmos combates contra o
desânimo, das mesmas adorações indignas perdoadas pela intercessão do
Profeta, e das mesmas voltas violentas à santidade da Lei, tesouro supremo
encerrado em sua arca de madeira e dirigida, de etapa em etapa, para as
terras longínquas da felicidade. Apesar de sua estupenda familiaridade
com o Céu, Moisés experimentou um momento de dúvida: nas terras ressecadas de
Meriba, ante as tribos ameaçadoras que reclamavam
água, Moisés, sob as ordens de Deus, tocou um rochedo com seu bastão para
dele fazer jorrar uma fonte. Entretanto, em lugar de dar um só golpe, ele
bateu duas vezes. Durante um instante imperceptível sua Fé cambaleou. E esse
desfalecimento público, mal observado, lhe fechou a entrada da Terra
Prometida. Tivesse
Nossa Senhora nascido... Esta, contudo, pertenceria ainda por
muito tempo ao domínio da esperança. Ainda por trinta anos se esperou sob as
palmeiras do oásis de Cádiz. A mão de Israel,
descarnada pelos tormentos do deserto, se crispou nesse bosque verdejante e
se recusou a abandoná-lo. Talvez aproveitando essa demora
prolongada é que Moisés tenha escrito os textos sagrados que a tradição lhe
atribui e que formam a maior parte dos cinco primeiros livros do Antigo
Testamento ou Pentateuco. Os dias de Cádiz
são ilustrados com batalhas defensivas contra os beduínos, incursões
deploráveis entre as populações vizinhas e raros reconhecimentos para os
lados de Canaã, de onde os exploradores vinham com
amostras de produtos agrícolas tão atraentes, que já começavam a dividir as
terras desse país abençoado antes de nelas terem colocado os pés. * Chefe de estado, juiz das doze
tribos, patriarca, legislador e general, sem nada perder de sua humildade
profunda Moisés era chefe de estado, juiz
das doze tribos, patriarca, legislador e general, sem nada perder de sua
humildade profunda, que estava na raiz de todas as suas virtudes, e à qual a
própria Escritura renderá homenagem após a sua morte. Sob sua autoridade benfazeja, a multidão
reunida às portas do Egito se organizou e, de lutas morais em batalhas
sucessivas, tornou-se uma nação constituída, rejuvenescida pelas novas
gerações do Êxodo, que se arrancou das fascinações de Cádiz
e depositou um dia a Arca Santa no cimo do monte Nebo,
para um minuto de contemplação inesquecível. Foi um povo forte, enfim, que chegou à
extremidade do planalto da Transjordânia, olhando
para essa terra onde Moisés não entrará. Ele tinha 120 anos. Sua missão estava
cumprida. Ele atingia o fim de sua viagem terrena. “Sua vista não se tinha
enfraquecido, suas forças estavam intactas”. E, entretanto, ele sabia que não iria
longe. A dúvida de Meriba o deteve na soleira de Canaã. Mas não são os bens deste mundo que foram
prometidos ao Profeta, e a amizade de Deus se reservava o direito de o
consolar em sua justiça. Então, enquanto Israel aturdido lançava
seus olhares em direção à planície de Jericó,
Moisés, o servidor de Yaveh, morreu no país de Moab, segundo a vontade do Eterno. E foi enterrado no
vale. Ninguém até agora descobriu o seu túmulo. Os
séculos passam, o túmulo de Moisés está intacto. Ninguém descobriu. Os Srs.
já podem imaginar como vai ser linda a ressurreição de Moisés no dia do
Juízo! O ambiente de hoje em dia é tão penetrado de igualitarismo que
pensa-se que todas as ressurreições são iguais. Não é verdade. Todas serão
esplêndidas para os eleitos! Serão horríveis para os outros, como o despertar
de um frenético. Mas,
assim como haverá ressurreições desigualmente hediondas, haverá ressurreições
desigualmente lindas! Ver-se-á a ressurreição lindíssima de Moisés, com uma
coorte de Anjos e com tudo e tudo e tudo e tudo, não é verdade? Talvez ele
seja o único a ressuscitar naquele deserto. É uma coisa maravilhosa! Talvez
seja o primeiro a ressuscitar dentre os homens... * Toda a força de Moisés lhe
vinha de sua Fé em Deus, a qual sua humildade fazia brilhar. Este
conquistador era suave e este chefe era mais humilde que o mais humilde de
seus companheiros Na planície de Moab,
os filhos de Israel choraram Moisés durante trinta dias, antes de caminharem
para o Jordão, luto e alegria misturados em seus corações. Sem dúvida, a
possante beleza desse caráter, o extraordinário gesto de energia que exige o
governo de um povo fugitivo entre os terrores e os sofrimentos do deserto,
sugeriram aos historiadores e a Sir Winston
Churchill retratos de um Moisés como chefe
de guerra e como ditador inspirado. Mas toda a força de Moisés lhe vinha de
sua Fé em Deus, a qual sua humildade fazia brilhar. Não foi um déspota
esclarecido nem um general infalível que Israel chorou nas portas de Canaã. Este conquistador era suave e este chefe era mais
humilde que o mais humilde de seus companheiros de caminho. Em meio ao brilho fulgurante das armas e
até sob a tempestade dos anátemas, sua vida tremulou ao sopro de uma imensa
ternura vinda de outro lugar. Os homens reconhecerão este mesmo acento nas
palavras de um Outro, o próprio amor desprezado expirando na Cruz sobre uma
colina de Jerusalém. Não se poderia dizer mais de um
homem! Está tudo dito, tudo feito. |