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Plinio Corrêa de Oliveira
São Pio X, a conversão da França e a despretensão
Santo do Dia – 03 de setembro de 1968 ( Transcrição e adaptação de gravação magnética de conferência para sócios e cooperadores da TFP, sem revisão do autor ) |
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Hoje celebra-se a festa de São Pio X, Papa e Confessor. Sua relíquia se venera em nossa capela. [ N.d.C.: no atual calendário litúrgico a festa de São Pio X se comemora em 21 agosto ].
São Pio X, como todo santo, - como todo não, mas como muitas vezes o santo tem - tinha vislumbres proféticos. E há aqui uma frase dele que tem um certo caráter profético que nos faz pensar no Reino de Maria [1]. É verdade que visando uma determinada nação, mas o mundo hoje está de tal maneira que o Reino de Maria não pode vir para uma só nação. Vindo para uma nação, ele tem que vir pelo menos para várias, rumo a tomar conta de todas, de maneira tal que profetizar o Reino de Maria para uma nação é profetizá-lo, de um modo ou de outro, para todas. É bonita essa frase de São Pio X dirigida, no dia 29 de Novembro de 1911, ao povo francês, em um dos documentos dele. Para compreender essa frase é preciso tomar em consideração que o governo de São Pio X foi um governo de duras lutas com a República francesa.
Eu li nas obras, nos Atos Completos de Leão XIII, uma carta dele ao Presidente da República da França dizendo: “Estão previstas propostas, em vias de aprovação, medidas tremendamente contrárias à religião católica, na Câmara Francesa. Esse fato me dói, e mais ainda, me deixa completamente sem jeito. Porque baseei toda minha política religiosa na colaboração com a República francesa. E agora, quando meu pontificado vai chegando ao fim e os dias de minha vida, que também se aproximam de seu termo, o fruto que colho dessa aproximação é uma verdadeira perseguição religiosa” [ O texto é citado de memória; ver citação literal ao lado ]. A isso respondeu o Presidente da República francesa com uma carta glacial: “Santo Padre, recebi vossa carta. Compreendo vossa dor, mas a única resposta que tenho que dar é que eu, como Presidente da República francesa, tenho poderes constitucionais muito limitados. Portanto, não está em meu poder evitar que aconteçam os fatos que Vossa Santidade receia. Queira Vossa Santidade dispor de meu respeito etc.. Assinado, Fulano de Tal”. Não sei qual daqueles revolucionários era presidente da França nesse tempo. Pouco depois subiu ao trono São Pio X, e São Pio X começou com uma política intransigente de defesa dos direitos da Igreja. A França então explodiu numa investida contra a religião. Essa investida, naturalmente, encontrou fiel à Igreja uma parte do povo francês. Mas a França oficial, a França das cúpulas, voltou-se toda ela para a luta contra São Pio X. E mesmo uma grande parte da França dita católica, como Mgr. Louis Duchesne, que era membro da Academia de Letras, e outros, visando uma política de pacificação entre São Pio X e a França, de fato convidavam o Papa a fazer concessões que ele não podia fazer. Foi uma verdadeira miséria! Nessa luta São Pio X teve lances de um heroísmo admirável! Em uma ocasião ele ordenou juntos vários bispos franceses. Era proibido pelas leis francesas sagrar os bispos sem licença do Governo. Mandou-os vir para Roma, sagrou-os ele mesmo na Basílica de São Pedro e investiu-os nas dioceses. Foi nessa ocasião, ou em outra, que ele promulgou uma Encíclica tremenda contra os erros do governo francês. Nesse clima de luta admirável, São Pio X teve essa frase a respeito da França: “Um dia virá - espero que não seja tão longe - no qual a França, como Saulo no caminho de Damasco, cairá rodeada por luz celestial e escutará uma voz: Por quê me persegues? Levanta-te, limpa as tuas manchas, reaviva teus sentimentos e vai-te outra vez, como filha primogênita da Igreja, levar o meu Nome a todos os povos e a todos os reis da terra!" (Alocução consistorial Vi ringrazio de 29 de novembro de 1911, Acta Apostolicae Sedis, Typis Polyglottis Vaticanis, Roma, 1911, p. 657)” Os senhores estão vendo que até a linguagem é interessante. É uma afirmação: “um dia virá”. Depois, uma conjectura e uma incerteza: “espero que não esteja tão longe”. Aí já não fala o homem que afirma, mas é um desejo, é um cálculo de probabilidade. O cálculo de probabilidade os fatos não o confirmaram. Esse documento foi de 1911. Nós estamos em 1968. Portanto, há 57 anos que isso foi previsto e isso não se deu. Entretanto, os senhores estão vendo que esse é o desfecho para a França. Quando Nossa Senhora diz em Fátima “por fim meu Imaculado Coração triunfará”, triunfará no mundo inteiro. E entre outros fatos deverá haver, com a conversão geral das nações, a conversão da França. E a conversão da França nós a vemos aqui predita por São Pio X. Mas vejam bem a coisa: predita como? Saulo, para ter esse raio de luz, precisou cair do cavalo. É bem evidente que a França terá que passar por humilhações sem nome, em que ela não possa deixar de reconhecer que está humilhada ao extremo. E aí, nesse momento, quando a prosápia, quando a pretensão do mundo contemporâneo for destruída, então poderemos ter uma França convertida e uma França que seja o Reino de Maria. Eu usei a palavra pretensão e usei de propósito. Quanto mais analiso a história e a vida do Grupo e dos ultramontanos [2] de que tenho notícia e que não pertenceram ao Grupo [3], mais chego a essa convicção: a pretensão é a grande tentação do ultramontano! O que vem a ser a pretensão? É o indivíduo pretender atribuir todas as suas qualidades exclusivamente a si, não querendo atribuí-las à Graça, não querendo ver nelas um dom sobrenatural ao qual a vontade humana tem que corresponder. Eu chamo de pretensão outra coisa também: é o indivíduo querer extasiar suas qualidades reais e inautênticas, também falsas, diante dos outros, querendo mostrar que é algo que de fato não é. Os senhores me dirão: “Dr. Plinio, isso parece heresia branca [4] da mais pura. A gente vê tantos problemas, falta de energia, isso, aquilo e aquilo outro e o senhor vem falar de pretensão?” Eu repito o que disse uma tarde, conversando com um número pequeno de amigos aqui na nossa sede: combatamos a pretensão com toda a nossa alma e o resto nos será dado de acréscimo. É preciso ser despretensioso, não querer bancar nunca, não querer ter saliência nunca. Estar normal e natural no seu lugar e, na dúvida, preferindo até se apagar entre os ultramontanos. Lá fora, entramos em luta contra o adversário, é preciso desfraldar o estandarte de Maria e a coisa é outra. Mas, aqui dentro, assim. E eu vos direi: dai-me uma alma despretensiosa e vos darei uma alma que está na via de resolver todos os seus problemas. Dai-me uma alma pretensiosa: todos os conselhos que lhe forem dados não surtirão resultado enquanto a propensão estiver em jogo. De maneira que aqui está uma reflexão que diz respeito à França, mas que se aplica a nós. E se aplica a todo mundo. Combater a fundo a pretensão é criar as condições para resolver os problemas espirituais insolúveis. Inclusive, meus caros, o problema da pontualidade. Eu sei que os impontuais não estão aqui. Até na pontualidade que queiramos ter, procuremos ser despretensiosos, teremos a pontualidade. Com isso vamos encerrar. Que Nosso Senhor nos ajude planalto acima! (**) Para mais informação sobre a luta de São Pio X contra o modernismo sugerimos a nossos visitantes a leitura dos seguintes artigos: Catolicismo Nº 81 - Setembro de 1957 - O cinqüentenário da Pascendi Catolicismo Nº 82 - Outubro de 1957 - "Por orgulho, repelem toda ... Catolicismo Nº 83 - Novembro de 1957 - Revivem nos modernistas o ...
[1] São Luís Maria Grignion de Montfort (1673-1716) em seu Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem prevê a implantação na Terra de uma era “em que almas respirarão Maria como o corpo respira o ar”, e em que inúmeras pessoas “tornar-se-ão cópias vivas de Maria” (Cap. VI, art. V). A essa era ele chama Reino de Maria. Essa profecia se entronca organicamente com a de Nossa Senhora em Fátima. Com efeito, depois de prever várias calamidades para o mundo, Ela afirmou: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”.
[2] O movimento ultramontano do séc. XIX, aqui referido pelo Autor, defendia firmemente as posições do Papado contra a corrente liberal, a qual procurava não só inovar em matéria de liberdade religiosa como também se insurgia contra as orientações tradicionais da Igreja Católica. O termo Ultramontano tem ainda um significado mais amplo. Para explicá-lo, apresentamos a seguir excertos mais importantes do verbete ultramontanismo, que figura na Enciclopedia Cattolica, Tomo XII, col.724, Cidade do Vaticano, 1954: "Palavra de significado genérico e impreciso, criada e usada além dos Alpes (França, Alemanha, Inglaterra, Países Baixos) para designar, mais do que uma verdadeira corrente de pensamento, a adesão às orientações e à posição da Igreja Romana em suas relações teológicas e jurisdicionais, ou ainda em seus interesses políticos. "Eram, portanto, denominados ultramontanos nos mencionados países, os escritores, homens políticos, personagens eclesiásticos católicos que seguiam tal linha de conduta e naturalmente todos os italianos fiéis aos ensinamentos da Santa Sé. "Começou-se a chamar ultramontanos os leigos ou religiosos que sustentavam na Alemanha o partido do Papa Gregório VII durante a luta pelas investiduras [séc. XI]. No século XVIII, foram chamados com a mesma denominação, na França, pelos jansenistas e regalistas, os juristas e os teólogos que combateram suas doutrinas.... A palavra continuou a ser usada durante o século XIX por todos os liberais e acatólicos que no campo religioso seguiram teorias novas e mantiveram um relacionamento prático vexatório em seus contactos com o catolicismo".
[3] Aqui o Prof. Plinio se refere aos membros da TFP. Tendo esta se originado, mais recentemente, do “Grupo do Catolicismo”, isto é dos redatores e de todos aqueles que militavam em torno à Revista “Catolicismo”, generalizou-se, na linguagem interna da TFP, referir-se a si mesma como o “Grupo”.
[4] Com a expressão "heresia branca", o Prof. Plinio designa uma atitude sentimental que se manifesta sobretudo em certo tipo de piedade adocicada e uma posição doutrinal relativista que procura justificar-se sob o pretexto de uma pretensa "caridade" para com o próximo. |
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