Plinio Corrêa de Oliveira

Plinio Corrêa de Oliveira

 

Santa Isabel da Hungria:

a constância nas piores desgraças

 

Santo do Dia – 18 de novembro de 1966

( Transcrição e adaptação de gravação magnética de conferência para sócios e cooperadores da TFP, sem revisão do autor )

 

 

Hoje é festa da Dedicação das Basílicas dos Apóstolos São Pedro e São Paulo e amanhã, 19 de novembro, será festa de Santa Isabel da Hungria ( atualmente se celebra em 17 de novembro ). D. Guéranger, no l’Année Liturgique, diz o seguinte a seu respeito:

 

Santa Isabel da Hungria - O Milagre das flores

Santa Isabel da Hungria

( Giovanni di Paolo - c. 1445 )

“Filha de André II, rei da Hungria, Isabel nasceu no ano de 1207. Com a idade de apenas quatro anos, ela foi à corte da Turíngia, onde desposou, em 1221, o Landgrave Luís. Casamento feliz. O príncipe compreendeu admiravelmente a sua ainda tão jovem esposa e lhe deu liberdade de praticar as suas devoções e as suas penitências à vontade. E, ao mesmo tempo, ele abria largamente a sua bolsa à inesgotável caridade da princesa. Esposa e mãe exemplar, Elisabeth se levantava durante a noite e permanecia longas horas em oração”.

“As provações começaram quando da partida do duque Luís para a Cruzada. Não levou muito tempo para que ela tomasse conhecimento de sua morte, no ano de 1227, quando ela tinha, portanto, vinte anos. E o próprio irmão do landgrave, chamado Henrique, deitou imediatamente a mão sobre os estados do defunto. Expulsa de sua residência com suas quatro crianças, da qual a última não tinha senão alguns meses de idade, sem recursos, ela foi obrigada a procurar, em pleno inverno, um agasalho que a crueldade de seu cunhado proibia aos habitantes de lhe fornecer”.

“Ela conheceu então a pior miséria e se sentiu feliz de encontrar um abrigo num estábulo para porcos. Em pouco tempo, porém, a sua fortuna lhe foi restituída, mas ela quis permanecer entre os pobres e foi no meio deles, em uma choupana, que ela morreu, no dia 17 de novembro de 1231, na idade de 24 anos. Quatros anos mais tarde, Gregório IX a canonizava e seu culto se estendeu à toda a Igreja Universal”.

 

 Alguns fatos desta vida são dignos de nota. Ela era filha do rei da Hungria e casou-se com um landgrave alemão, o landgrave da Turíngia. O que era um landgrave? Ao pé da letra, land é terra e grave é o conde. O landgrave é o conde de uma terra. Mas era um grande senhor feudal, uma espécie de príncipe, com o qual ela se casou e ela foi para a corte dele aos quatro anos de idade, porque prevalecia naquele tempo a idéia de que, pelo menos nas altas camadas sociais, era conveniente mandar que as meninas fossem muito cedo para os castelos e as famílias onde deveriam se casar. Porque aí poderiam tomar toda a formação do lugar e assumir inteiramente toda a alma do lugar, embora elas fossem livres de dizer não no momento em que elas fossem maiores e de fato se casassem.

Ela foi para lá e foi muito feliz, com seu esposo, durante o todo o tempo, até o mesmo ir para a Cruzada. Mas acontece que os verdadeiros filhos da luz, os verdadeiros católicos, sempre acumulam em torno de si toda espécie de inimizade. Não existe nenhum verdadeiro católico que não seja perseguido. Nosso Senhor Jesus Cristo já disse isso aos discípulos dEle, que todo autêntico discípulo dEle seria perseguido, como Ele o foi também. E ela tinha contra si toda espécie de odiosidades formadas. Essas odiosidades em geral vinham, muitas vezes, da virtude dela; mas exploravam aspectos da virtude dela que são menos fáceis de compreender por pessoas de mau espírito.

Assim, por exemplo, numa ocasião ela recolheu um leproso que viu passar pelas ruas. Recolheu no castelo dela, levou para dentro do castelo e deitou no próprio leito dela e começou a tratar o leproso como se fosse o próprio Cristo, à vista daquela palavra de Nosso Senhor, de que todos os que são sofredores representam a Ele, Nosso Senhor. E nisso, a sogra, que soube disso, procurou o landgrave. Disse a ele: “Veja o que é sua esposa. Ela está metendo um leproso na sua cama, para depois a doença passar para você quando você for lá. Vá lá e você encontra um leproso deitado na cama”.

Ele foi e encontrou o leproso deitado na cama. Então, ele arrancou o lençol e disse: “O que é isso? O que significa esse homem deitado nesse leito?” Ela disse: “Meu esposo, este homem é Nosso Senhor Jesus Cristo”. No momento em que ela disse isso, deu-se o milagre e o duque viu, na pessoa do leproso, visível e sensivelmente, a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. E ele sentiu um cheiro admirável de rosas que se exalava da pessoa do leproso. Então, ele ficou profundamente impressionado e a sogra perdeu a partida.

O duque era muito bom homem, mas ele morreu e a perseguição se desencadeou em cima dela. A perseguição se desencadeou de um modo trágico. Os senhores vêem, ela que era a duquesa do lugar e filha de rei, teve que morar num estábulo de porcos. Quer dizer, foi a pior das perseguições. E uma coisa tremenda, que nos faz ver bem qual é a realidade das misérias humanas, é a seguinte: muitas vezes eram pessoas que tinham sido cumuladas por ela com toda espécie de liberalidades que se manifestavam frias a seu respeito na hora de perseguição. Em vez de ir ao encontro dela, se afastavam, mantinham distância e na hora da perseguição, se afirmavam frias em relação a ela.

Houve uma famosa noite em que ela foi a um convento. Foi muito bem recebida no convento, mas depois teve que se retirar, porque o cunhado estava se aproximando para persegui-la. Então ela saiu dessa abadia, onde tinha mandado cantar um Te Deum para dar graças a Deus pelos sofrimentos pelos quais estava passando, e caiu uma chuva medonha em cima dela e dos filhos. E chuva de inverno europeu. Os senhores não podem ter idéia do que é, porque chove água gelada, para não dizer que chove gelo. É uma coisa tremenda ! E ela no mato, sofrendo aquilo tudo.

Nesse momento ela teve até um momento de desfalecimento e parece que lhe passaram pela cabeça umas dúvidas quanto à fé, a respeito das quais não se sabe bem qual foi o grau de consentimento dela. Ela se penitenciou a vida inteira disso - para os senhores verem como o homem é fraco -, mas a Providência a perdoou e ela, afinal de contas, levou anos de penitência e chegou até a mais alta santidade. Os senhores vêem isso pelo fato de que a fortuna lhe foi restituída e, entretanto, ela não quis mais voltar para as regalias antigas: ela quis passar o resto de sua vida entre os pobres.

O diretor espiritual dela era um capuchinho chamado Conrado, que a submetia a grandes provações. Mas a Escritura diz: repreende o sábio e ele te amará. Quer dizer, quando o homem é sábio, ele gosta de ser repreendido. Quando ele não gosta de ser repreendido, ele tem a adquirir no caminho a sabedoria. Ela era sábia e gostava dessa direção espiritual, por certo muito pouco modern style, por certo muito pouco aggiornata.

Mas era tal a consciência que tinham os habitantes da Turíngia do papel desse homem na santificação dela, que em honra dela mandaram construir um monumento a ele. Os senhores estão vendo por aí, a profundidade de conceito que eles tinham disso.

Para terminar, para os senhores verem como a Revolução extingue, ou tenta extinguir as coisas mais gloriosas e mais admiráveis, uma das cenas mais famosas da pseudo-reforma protestante foi a declaração da reforma, creio que na Turíngia. O landgrave protestante chegando à porta da igreja, diante de um povo incontável, abre o esquife de Santa Isabel da Hungria, ou o relicário onde ela está, e faz o vento soprar em cima. E o vento espalha por todos os lados as cinzas de Santa Isabel da Hungria. Isto é o protestantismo. Bem, ele era descendente dela, e fazia isso na qualidade de descendente dela. Os senhores vejam até onde podem chegar as coisas e qual a miséria da vida humana.

Nós temos alguma coisa a pensar a respeito de Santa Isabel da Hungria? Certamente. Nós devemos ver nessa santa a constância nas piores desgraças. Há duas formas de constância na desgraça. Há uma forma de constância na desgraça que é a pessoa agüentar a desgraça quando ela acontece. Mas há uma outra forma de constância quando a pessoa prevê a desgraça, é capaz de antevê-la e é capaz de a fitar com olhos calmos, é capaz de oferecer o sacrifício que vai ter, ou que vai fazer, a Nossa Senhora; é capaz de fazer a oração de Nosso Senhor no Horto das Oliveiras: “Meu pai, se for possível, afaste-se de mim esse cálice. Mas se não for, seja feita a Vossa vontade e não a minha”.

Isto é a vida de Santa Isabel da Hungria e é isto que nós devemos ter diante de nós. É a calma, a resignação de ver as desgraças pelas quais devemos passar e a constância do decurso dessas desgraças, o que não se pode conseguir, a não ser seguindo o exemplo adorável de Nosso Senhor Jesus Cristo. E esse exemplo é, na hora da aflição, de orar. Orar e vigiar para não cair em tentação. É isto que nós devemos fazer, por meio da prece onipotente de Nossa Senhora.

 

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