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Plinio Corrêa de Oliveira
São Francisco Xavier repreende o Rei de Portugal por não punir seus ministros que procedem mal na Índia
Santo do Dia, 2 de dezembro de 1966 |
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A D V E R T Ê N C I
A O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de
conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da
TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor. Se o
Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre
nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial
disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da
Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como
homenagem a tão belo e constante estado de
espírito: “Católico
apostólico romano, o autor deste texto
se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja.
Se, no entanto, por lapso, algo nele ocorra que não esteja
conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”. As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui
empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em
seu livro "Revolução
e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº
100 de
"Catolicismo", em abril de 1959.
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Hoje estamos na novena de Nossa Senhora da Conceição, amanhã continua a mesma novena, e nós temos a festa de São Francisco Xavier. Confessor, nascido de nobre família, apóstolo das Índias e do Japão, Padroeiro especial de todas as missões. Século XVI. Na biografia de São Francisco Xavier de Daurignac, encontra-se o seguinte trecho de uma carta a D. João III, rei de Portugal, escrita pelo santo: “Senhor, deveis temer que quando Deus citar Vossa Alteza a comparecer perante Si, o que acontecerá infalivelmente e talvez em um momento em que menos espereis, e quando não haja razões ou esperança de declinar aquele tribunal, deveis temer, grande príncipe, que aquele Juiz, irritado, vos dirija essas terríveis palavras de acusação: Por que não tendes procedido com rigor contra vossos ministros, contra os vossos vassalos que nas Índias conspiravam contra Mim, e não receavam declarar-se em estado de rebelião? Por que razão a vossa severidade não pode feri-los senão quando eles eram negligentes na arrecadação dos impostos e na administração das vossas finanças? “Senhor, ignoro que valor poderão ter as vossas escusas quando responderdes: Senhor, eu escrevia todos os anos para aqueles países e todos os anos recomendava o maior zelo, os maiores trabalhos pela Vossa glória e pelo literal cumprimento de Vossos preceitos. Não vos responderá então Deus: Pois bem, mas vós deixáveis impunes todos aqueles que se mostravam indiferentes a essas ordens”.
Dom João III, Rei de Portugal (1502-1557)
É um belíssimo trecho de carta. Realmente, o que se estava dando, como os Srs. acabam de ver, era isso: o rei de Portugal possuía importantes terras na Índia, em direção a Macau e próximo da China, e ele recomendava, em cartas anuais, que os seus servidores, naquelas regiões, fizessem tudo para promover a fé. Entretanto, São Francisco Xavier, que exercia ali seu apostolado, verificava que isso não ocorria e que aqueles homens até conspiravam para impedir que a fé católica se desenvolvesse. Era, muito provavelmente, cúpula podre opondo uma ação subreptícia, oculta, por debaixo do pano, aos desígnios do rei de Portugal. Então, São Francisco Xavier escreve a ele e diz a ele: Vós mandais cartas para aquela gente, mas por que vós não punis aquela gente? Não basta mandar, mas é preciso punir quem desobedece, porque a simples ordem desacompanhada de punição é uma veleidade sem valor, que não pode ser alegada perante Deus como cumprimento de dever. Vós tínheis a obrigação de, sendo desobedecido, punir. Tanto mais quanto no que diz respeito a arrecadamento dos impostos, quando não andam bem, vós punis. Se vós punis em matéria de imposto e não punis em matéria de religião, é – em última análise – porque amais mais os impostos do que a religião. É o que está insinuado na carta e, aliás, é o que está na evidência dos fatos. E acrescenta: Quando Deus vos chamar, o que é que deveis alegar? Lembrai-vos que Deus vos pode chamar de um momento para outro; e logo de uma vez em condições tais, que não tenhais esperança, nem possibilidade alguma de conservar a vossa vida. Realmente, uma doença tão grave, um ferimento tão grave, um atentado, um desastre, uma coisa qualquer, que não haja mais possibilidade de viver. O rei vê que vai morrer, daqui a pouco comparecerá perante Deus. O que dizer a Deus a respeito do uso que ele fez do seu poder? O uso do poder deve ser antes para a fé, do que para o dinheiro. E não há efetivo uso do poder da parte de quem apenas manda e depois não pune a quem desobedece. Esses são os dois grandes princípios que estão subjacentes na carta, em virtude dos quais o santo se dirige assim ao rei. Observem os Srs. com que liberdade um grande santo se dirige a um grande rei, a um dos potentados da terra naquele tempo e como o desempenho do mandato apostólico leva a pessoa a ter uma franqueza, a ter um denodo que antigamente tinha um lindo nome. Quando se referia a essa franqueza desabrida utilizada pelos que falavam em nome de Deus, dizia-se a “franqueza apostólica”. É a franqueza do apóstolo, a franqueza de quem representa a Deus e tem o direito de falar assim. E, portanto, tem o direito de dizer as coisas mais desagradáveis e tem o direito de ser ouvido. E fazendo uso disso, São Francisco Xavier falava ao rei e obtinha provavelmente ao menos alguma inflexão na linha de conduta real. Mas ainda que não obtivesse, não vem ao caso. As brasas estavam acesas sobre a cabeça do rei e quando ele morresse, teria que prestar contas a Deus. Os Srs. vêem como tudo isso é lógico, como tudo isso é belo... como tudo isso está envelhecido! Envelhecido não por uma senectude, por uma velhice intrínseca, não porque em si mesmas essas coisas tenham envelhecido. Mas é porque os homens decaíram de tal maneira que não aceitam esses princípios e não querem mais ouvir essa linguagem. E afirmam caluniosamente que é desalmado, que é sem caridade, que é sem espírito católico quem fala assim. Ora, aqui está a linguagem de um dos maiores santos da Igreja Católica que foi – sem dúvida – São Francisco Xavier. Esta era a linguagem dos santos e não essa linguagem adocicada de ecumenismo falso, de irenismo, de quantas outras coisas que assim haja.
Corpo de São Francisco Xavier, venerado em Goa (Índia)
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