Folha de S. Paulo, 18 de junho de 1972
Elogiar - essa alegria
A
imprensa nacional publicou há dias, rápidos excertos da alocução do
Cardeal Antônio Caggiano, Arcebispo de Buenos Aires, no Santuário de
Nossa Senhora de Luján, durante a Missa de abertura da recente
assembléia do Episcopado argentino.
Tão
sugestivos me pareceram os textos publicados, que procurei na imprensa
portenha mais amplos dados sobre a homilia do eminente purpurado. Em “La
Nación” de 9 de maio encontrei largas citações da alocução. Muitos dos
tópicos transcritos no grande órgão do país irmão conservam - mesmo
decorrido mais de um mês - uma atualidade flagrante. E, ademais,
apresentam um interesse que não se circunscreve ao território argentino,
pois concernem à crise que desgraçadamente, afeta por toda a terra a
Igreja Católica. Assim, julguei prestar bom serviço a meus leitores,
reproduzindo hoje algumas das observações e reflexões mais relevantes,
expressas por Mons. Antônio Caggiano.
Ainda
que em um ou outro ponto eu tenha - quanto a mim - algumas poucas
reservas a fazer ao texto do ilustre Arcebispo de Buenos Aires, tenho
por certo que, com sua alocução ele prestou um insigne serviço a sua
pátria e a toda a América Latina.
Dizendo-o, experimento uma verdadeira alegria. É a deliciosa alegria de
elogiar. Passo – entre os que não me conhecem na intimidade – por homem
batalhador e afeito à polêmica. A verdade é precisamente o contrário.
Sou cordato a ponto de chegar quase ao fleumático. Alegro-me em
concordar e elogiar. Se entro em tantas controvérsias, não é por gosto,
mas pelo senso do dever. De fato, nos dias em que vivemos, são muito
mais numerosos os temas que obrigam à crítica, do que os que convidam ao
elogio. A ocasião de fazer um elogio sério e sincero raras vezes se
apresenta. Isso torna tanto mais preciosa a alegria de o fazer quando se
dá azo a tal. Nesta alegria há um requinte, quando o elogio tem por
objeto palavras de um alto hierarca da Santa Igreja Católica Apostólica
Romana. Para um filho, nada há de mais grato do que elogiar seu pai. E,
em certo sentido, o católico vê um pai em cada hierarca da Santa Igreja
de Deus.
*
* *
Destaco um primeiro tópico do sermão do Cardeal Caggiano:
“Uma
profunda crise não só de caráter disciplinar, como também doutrinário,
irrompeu no seio da Igreja, com a violência de um vendaval. Já não se
procura utilizar o que, sendo transitório e mutável, deve corresponder
às exigências das transformações humanas, como anelava S. S. João XXIII,
mas a quem, tendo por obsessão a necessidade das reformas de estrutura,
não se detém diante da própria constituição Divina da Igreja, nem de seu
Magistério da verdade revelada. A crise é, pois, também de Fé. Ela é
grave e se estende amplamente. Afeta visivelmente a unidade da Igreja; e
o povo de Deus, que a contempla e a apalpa entristecido, sofre os
impactos do escândalo.
“Em
ambas as ordens, tanto na religiosa como na civil, sofremos e tememos
conseqüências mais graves: sentimos acima de tudo a necessidade de ajuda
de Deus, que hoje humildemente imploramos, pela intercessão de nossa Mãe
do Céu, em seu título de Luján.”
Está
aqui bosquejado uma panorama que tantos não vêem, ou fingem não ver...
*
* *
Depois dessas lúcidas e graves palavras, Mons. Antônio Caggiano aponta o
nexo entre o reformismo religioso e a subversão. Ainda aqui, suas
palavras merecem ser lidas e analisadas com atenção:
“Antes de tudo, nesta hora grave e decisiva, devemos à nação e à opinião
pública, a verdade sobre os perigos que a ameaçam (...).
“A
crise que padecemos é muito grave porque fundamentalmente é uma crise
moral e não se lhe pode dar remédio, nem com decretos nem com
imposições. Os problemas e perigos são múltiplos; porém, entre todos, um
é que se destaca como o mais grave e urgente.
“É
necessário que toda a opinião pública se dê conta do iminente perigo que
nos ameaça, com a substituição de nossas instituições tradicionais,
livres e democráticas, por um governo materialista e totalitário,
marxista e anti-humano. Não é outro o intuito do chamado regime
socialista, com a erradicação total do direito de propriedade privada e
até dos instrumentos de trabalho nas empresas.
“A
guerra psicológica teve o cuidado de esvaziar de seu próprio conteúdo
muitas palavras, dando-lhes outros. Assim conseguiu que enquanto por
detrás da cortina de ferro, o regime inumano que interpôs a mesma
cortina entre irmãos se intitule de “Republicas Socialistas” em nosso
continente muito poucos se alarmam quando parte dos concidadãos intentam
implantar um regime socialista com as características acima
mencionadas”.
O
caráter fundamentalmente moral – e portanto religioso – da questão
social, a gravidade da ameaça comunista, aqui ficam apontadas com mão de
mestre e autoridade de Pastor.
Depois de assinalar que no vocabulário católico e no socialista se
encontram palavras iguais, o prelado mostra como entretanto, a guerra
psicológica procura lançar um véu sobre o fato de que essas palavras
tem, em um e outro vocabulário, sentido diametralmente oposto. E por
esta confusão, tentam os comunistas atrair ardilosamente para seu campo
a opinião católica.
Diz
Mons. Caggiano:
“A
igualdade, a justiça e a solidariedade evangélicas da doutrina social da
Igreja se fundamentam, primeiro, no amor, não no amor humano, como no
amor de caridade, que supõe uma religião teocêntrica.
“Segundo, no livre arbítrio cujas decisões ou determinações individuais
são o que há de mais sagrado na pessoa, e em conseqüência, tão
respeitáveis quanto ela mesma na solidariedade e no respeito da pessoa
humana, cujos direitos estão contidos no cumprimento do mandato novo que
o Senhor deu aos seus discípulos, dizendo-lhes: “Amai-vos uns aos outros
como eu vos amei”.
“É
esta porventura a igualdade, a Justiça e a solidariedade da ideologia do
socialismo da cortina de ferro? Todavia, para opróbrio da civilização,
essa cortina está à vista de todos, mas às futuras gerações custará crer
(...) que existiu a infâmia da cortina de ferro para dividir os irmãos.
O que há por detrás dela a estruturação da vida social segundo critérios
quantitativos, prepotência e arbitrariedade contínuas, e coletivismo
imposto pelo totalitarismo estatal”.
No
contexto geral da alocução de Mons. Antônio Caggiano, o neo-reformísmo
“católico” apresenta dois aspectos, um essencialmente religioso, e outro
sócio-econômico. O primeiro consiste na investida contra os dogmas e a
estrutura da Igreja O segundo importa na arremetida contra as nações do
Ocidente, suas tradições e suas estruturas.
Assim, a grande crise religiosa que afeta a Igreja, ao mesmo tempo põe
em causa a ordem temporal e a civilização. O que - concluo eu - torna
impossível que alguém se alinhe nas fileiras dos demolidores da ordem
eclesiástica, sem ser ipso facto um torcedor (quando não um agente) da
subversão.
É
esta, mais uma importante conclusão diante da qual os dias de hoje não
permitem que se mantenha alguém com os olhos cerrados.