Poucos contrastes há tão frisantes em São Paulo –
onde, entretanto eles não faltam, e de toda ordem – do que entre a Avenida Tiradentes e o Convento da Luz, com o Museu de Arte Sacra, que lhe ficam exatamente à
margem. Um longo muro, que toma talvez mais de meio quarteirão, separa os dois
mundos. Do lado de fora, a avenida, com seu movimento emaranhado e ruidoso,
complicado ainda pelas máquinas superpotentes
destinadas à construção do metrô. Muro adentro, quase a mesma atmosfera de há
duzentos anos atrás: a tranqüilidade, a meditação, a oração e o bom gosto ali
deitaram raízes e vêm florescendo há tanto tempo, que chegaram a impregnar de
uma vez para sempre a atmosfera de um aroma espiritual sutil e envolvente. Tal
envolvimento começa sem que a pessoa se dê conta, desde o momento em que
transpõe o largo portão em cuja grade se lê a data de 1870. Penetra-se desta
maneira em um jardim de uma despretensão, uma singeleza e uma calma
desconcertante. E a não se visitar o lindo museu, caminha-se diretamente para a
Igreja. A esta se acede por um átrio calçado de um venerável granito desgastado
pelos passos de gerações e gerações de fiéis. Logo em seguida, uma alta porta
ouro e branco, em estilo barroco, sólida e sisuda como se fosse a própria face
da Meditação, apaga no espírito de quem entra a recordação de toda tralha que
ficou a mexer-se e a febricitar pela rua. Entra-se no
templo. E tudo é sorriso. Aquele sorriso leve, nobre e superiormente sério que
constitui um dos encantos de nossa arte colonial. Alta cúpula, proporções
graciosas, altares e imagens cheias de mimo e dignidade. A atenção se fixa, por
fim, no presbitério.
Do
alto do retábulo, uma imagem da Imaculada Conceição, na penumbra, faz descer de
seu nicho sucessivos e ininterruptos eflúvios de meiguice materna,
condescendência e esperança de socorro.
Um pouco aquém um tabernáculo, de linhas imponentes como
se fora um palácio luisquatorzeano. No chão, uma lápide
de mármore assinala dormir ali seu repouso final Frei Antônio de Sant’ana Galvão, o franciscano fundador da
Casa. Como elogio póstumo só estas palavras simples e supremas: “animam suam in manibus suis semper
tenens, placide obdormivit in Domino die 23 decembris. Anno 1822”.
– Ter sempre em mãos a própria alma para a governar continuamente!... Que
elogio! Quanto isto vale mais do que dirigir um avião superpotente,
um país inteiro, ou até um banco (uso aqui a escala de valores característica
de certa mentalidade supermoderna). A memória de Frei
Galvão resistem à poeira destes 150
anos. Continuamente por ali passam pessoas de todas as idades e classes
sociais, pedindo graças de toda ordem. E são
atendidas. Daqui a 150 anos quem freqüentará as sepulturas dos homens superpotentes, para quem sobem hoje tantos aplausos e
tantas petições... nem sempre atendidas?
Enquanto
os olhos estão postos no Sacrário, onde – segundo indica uma lamparina rubra
como se fosse um rubi – está realmente presente o Rei dos Reis e Senhor dos
Exércitos, e o espírito vagueia por temas desta índole, ouve-se
inesperadamente, a certas horas do dia, um conjunto de vozes femininas, de uma
pureza que os anos não fanam, a recitarem, em rectus tonus, salmos, antífonas e lições. Só
então se percebe que, nos fundos da Igreja, uma imensa treliça
oculta a olhares profanos esposas de Cristo, cujas faces uma rigorosa clausura
impede de serem vistas. Ali passam, há mais de 150 anos, sucessivas gerações de
freiras Concepcionistas, apartadas das coisas do
mundo, mas voltadas à oração e à expiação, para que Deus perdoe e regenere este
mesmo mundo.
Do
grau desse distanciamento das coisas terrenas, um simples fato – verdadeiro fioretti - pode dar adequada idéia. Contou-me
certa vez o grande Arcebispo paulista, D. Duarte Leopoldo, o caso de uma religiosa que entrara
em clausura, em remotos tempos em que São Paulo ainda não conhecia estradas de
ferro. Quando então apareceram os primeiros trens, seus apitos, rasgando os ares
pacatos da urbe de então, chegavam aos ouvidos das religiosas. Como podia
entretanto vê-los a velha freira, já que a clausura lhe proibia olhar pelas
janelas? Comovido pela observância da religiosa, D. Duarte lhe deu licença
para, por uma vez, uma só vez, postar-se à janela quando passasse um comboio.
Mas a freira pediu licença para recusar a regalia. Queria morrer sem ver o
trem, para com esta mortificação sofrer ainda mais pelos pecados do mundo. Não
tardou muito que “animam suas in manibus suis
semper tenens”,
partisse para contemplar a glória celeste, ao lado do Fundador.
Alguns
há a quem a narração deste pequeno fato terá asfixiado. Recomendo-lhes que não
leiam meu próximo artigo; não o entenderiam. Os outros, a quem tenha deleitado
com um pouco de ar puro, talvez gostem de conhecer o que narrarei sobre a
fundadora dessa colmeia de anjos, Madre Helena Maria do Espírito Santo.