Concluamos
a história de Madre Helena. Em meio às austeridades que praticava no Recolhimento de Santa Teresa,
notáveis aparições favoreciam sua alma. Em uma destas, manifestou-se-lhe o
Senhor “como Bom Pastor, rodeado de muitas ovelhas, uma nos ombros, outras nos
braços, outras procurando subir-lhe pelo corpo, e disse-lhe: “Eis aqui estas
minhas ovelhas que procuram um aprisco (...) e não encontram, pois vós, podendo,
não quereis subministrar-lhes um, fundando um convento em cumprimento de minha
vontade” (“Frei Galvão, bandeirante de Cristo” – Editora
Vozes, 1954, p. 53). Com essas palavras de afetuosa intimidade, Nosso Senhor
pedia à Irmã Helena que fundasse um convento. Em outros termos, pedia-lhe o
impossível.
Com
efeito, desde 1764, o ímpio Marquês de Pombal, ministro do
Rei D. José I, proibira a
fundação de novos conventos em terras da Coroa portuguesa.
A
quem obedecer? Ao poder civil, perseguidor do estado religioso? Ou à vontade de
Deus? – Em princípio, a dúvida não era possível. Cumpria à Irmã Helena mover-se
para a fundação do convento. A Providência saberia vencer os obstáculos.
Neste
sentido, a Irmã Helena, cuja sabedoria era “mais divina do que humana” (ibid.,
p. 54) soube acionar três varões ilustres da São Paulo de então. Um era seu
confessor, o franciscano Frei Antônio de Sant’ana Galvão, já então merecidamente tido em conta de santo, na cidade. O outro
era o Cônego Antônio de Toledo Lara, Governador do
Bispado “sede vacante”, e o terceiro o Governador da Capitania de São Paulo, o
fidalgo D. Luís Antônio de Sousa Botelho e Mourão.
Para
fundar-se um convento contrariamente à lei vigente, era necessária expressa
permissão do Rei. Pedi-la importaria em provocar uma recusa. Resolveram, então,
a irmã Helena e os três egrégios personagens, que em sua correspondência com o
Governo, D. Luís Antônio simplesmente noticiasse sua intenção de fundar tal
convento. Se não ocorresse expressa proibição, entenderia ele – com santo ardil
e coragem – que estava dada uma permissão tácita. E com isto cumpriria a
vontade divina, lançando a fundação.
De
fato, o Governo não reagiu. E assim, ao romper o dia 2 de fevereiro de 1774, um
séquito de altos personagens do local se deteve, no maior segredo, às portas do
Recolhimento de Santa Teresa. Compunham-no o
governador da Capitania, o Governador do Bispado, Frei Galvão
e outras personalidades. A Regente do Recolhimento entregou as Irmãs Helena e
Ana da Conceição à ilustre comitiva. As religiosas entraram em duas
cadeirinhas, e lá se foi o cortejo a cavalo, até a capela da Luz, onde elas
iniciaram a vida contemplativa, vindo a professar na Ordem das Concepcionistas Franciscanas: hábito azul e
branco, em louvor da Imaculada Conceição.
Na
mesma capela da Luz, instituiu o fidalgo D. Luís Antônio uma Associação de
grande função social, que só se extinguiu por fins do século passado: a
benemérita Irmandade da Nobreza, destinada a congregar, sob o manto da Virgem
as pessoas da aristocracia paulista.
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Estava
posta em terra a semente. Cumpria regá-la. E isto, em termos de Fé, só se faz
pela aceitação generosa da dor.
A
pobreza se fez sentir logo: “Muitas vezes nem água para beber se tinha;
andava-se mastigando alguma coisa azeda para mitigar a sede”. Havia dias que
nada se tinha para comer; e dávamos graças a Deus o dia em que no jantar podia-se
fazer um mingau de tapioca” (ibid., p. 74). A religiosa que conta isto
acrescenta: “e ficávamos muito alegres e satisfeitas com a Divina Providência,
que era toda a nossa consolação e alegria” (ibid., p. 74). Quanto às celas,
eram “muito pequenas, sem soalho e sem forro e ainda poucas. Havia Irmãs que
moravam em celas feitas com taquaras ou com esteiras”. Os calçados eram de
panos velhos. E assim por diante.
Queria
Maria Santíssima, padroeira da nova Casa, dar-lhe uma solidez que desafiasse os
séculos. Por isso, dispensou-lhe, além da
pobreza, mais dois tratamentos incomparáveis para as coisas católicas
verdadeiramente duráveis: uma catástrofe e um tufão. A catástrofe foi a morte
de Madre Helena, ocorrida em
odor de santidade a 23 de fevereiro de 1775. O tufão foi a resistência –
sublime por sua energia e por sua humildade – oposta pelas freiras, a uma
iníqua ordem de fechar o convento, proveniente ao mesmo tempo da Coroa e do
Bispo. Mas esta já não é a história de Madre Helena. Termino, pois, aqui, esta
série. Da resistência catacumbal das santas freiras,
falarei em outra ocasião.