"Folha de S. Paulo", 26 de setembro de 1979
Sobre a palavrota-palavrão
Alguém me perguntou se sou um homem de direita. De boca cheia, e euforicamente, respondi que "sim". Ao fazê-lo, eu já aguardava a perguntinha que viria em seguida, concisa e venenosa: "De extrema-direita, então?" O pobre papalvo que a formulava imaginava-se esperto. Como se esperteza e insídia fossem sinônimos. "Leia meu próximo artigo na "Folha"- retruquei-lhe. E com isto fui esperto e insidioso. Esperto, porque ganhei um leitor para o monótono comentário que aí vai. E insidioso, porque a curiosidade dele o levará a ler de ponta a ponta esta monotonia.
No estranho vocabulário que vai sendo forjado no linguajar político de nossos dias, na palavra "extremo"- como acontece a tantas outras – se colam artificialmente sentidos múltiplos, confusos, e até contraditórios. Antes de esclarecer esses sentidos, é-me impossível responder a tal perguntinha pseudo-esperta.
O grosso da opinião nacional é confortável e indolentemente centrista. Precisamente entre os centristas e, melhor ainda, entre os mais confortáveis e indolentes dentre eles, é que a palavra "extremo" se apresenta opalescente, irisada e vária.
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Toda essa confusão resulta da focalização estrábica acerca de um tema simples. Apresento-o de modo esquemático.
1º) A operação mental do cientista consiste em adquirir e definir para si verdades básicas que, em rigor de lógica, lhe merecem todo assentimento. A partir dessas verdades, e sempre em rigor de lógica, vai ele construindo conclusões. Cada nova conclusão constitui nova vitória da ciência. E a glória do labor do cientista consiste em caminhar nas vias da lógica até à última conclusão legitimamente dedutível da verdade inicial. Nesta nobre trajetória, ao extremo do caminho corresponde o extremo da glória;
2o) Esse procedimento intelectual está na própria natureza da mente humana, e vale para qualquer tema de que esta cogite. Dada a falibilidade do homem, convém, quanto possível, conferir com os dados da experiência as sucessivas etapas da caminhada intelectual. Porém, quando não seja isto possível, o homem não deve renunciar à procura do ponto terminal de seu pensamento. Pois se for de lince seu olhar, pode o homem caminhar logicamente muito além das matérias experimentalmente testáveis. A não ser assim, o que seria por exemplo da filosofia ou da teologia?
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Tudo isto posto, o homem que, na marcha compassada e firme de seu processo lógico, chegue às últimas conseqüências das verdades iniciais que conhece, merece pelo menos respeito. O caminhar do espírito se parece com o do corpo. É saudável, belo e nobre quando se dirige retamente ao ponto terminal. É enfermiço, deselegante e sem varonia quando hesita, titubeia e se perde nos descaminhos e dédalos da dúvida.
Admitindo embora estes princípios de senso comum como válidos para todos os domínios do pensamento, os centristas, quanto mais langorosos e confortáveis, tanto mais são propensos a abrir exceção no tocante aos espíritos afeitos à reflexão política ou sócio-econômica. Tais centristas podem maravilhar-se com um físico ou matemático que chega às extremas conseqüências das verdades iniciais que conhece. Mas ao pensador político, por exemplo, entendem que tal não é lícito. E se este age como o cientista e chega às últimas conseqüências de seu pensar, o centrista o qualifica desde logo de extremista.
Há mais. Sobre esta contradição do centrista langoroso e confortável se acavala logo outra. O pensador político ou interessado em matéria sócio-econômica, assim tachado de extremista , é desde logo suspeito de visar a ditadura por meio da violência. E portanto um criminoso. Pelo menos em estado potencial.
E, por esta forma, segundo certo gênero de centristas, a coerência pode ser para uns o caminho da glória. E, para outros o caminho do crime.
Assim – comento de minha parte – se em qualquer terreno, de coerência em coerência se chega ao ápice da verdade, de incoerência em incoerência se chega ao báratro do disparate.
Ei-lo. Para os mais confortáveis e langorosos dentre os centristas, se abre aqui uma bifurcação absolutamente arbitrária.
Em presença de um direitista inteiramente coerente, tais centristas pensam logo em violência, em campo de concentração e, em genocídio. Mas em presença de um esquerdista inteiramente coerente – de um comunista, por exemplo – os centristas de que falo distinguem. Se se trata de um comunista unicamente afeito a estudos e à mera difusão doutrinária e pacífica de suas convicções, consideram-no um cidadão irrepreensível, digno de respeito e quiçá até de simpatia. Olhando-o, ninguém pensa na prisão da Lubianca, nem nos campos de concentração da Sibéria, nem nos hospitais de tortura neuropsíquica, nem ainda na cortina de ferro. Para todos os efeitos, o comunista pacífico não é sentido como um extremista por tais "homens de centro". Para eles, o esquerdista só é extremista quando assalta, seqüestra e rouba.
Em suma, dois pesos e duas medidas. Quando ruma para a direita, a coerência é tida como levando necessariamente ao crime. E quando ruma para a esquerda, ela é vista como perfeitamente distinguível do crime, ao qual só "per accidens" ela pode levar.
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Agora cabe-me responder se sou um homem de direita. Pura e simplesmente eu o sou. Mas reivindico para mim, com a maior força – a força da lógica – o direito de chegar às últimas e mais altas conseqüências doutrinárias dos princípios que professo, sem que ninguém me tache de propugnador de violências que nunca justifiquei, nem estimulei, nem pratiquei.
E digo isto fitando o homenzinho da pergunta insidiosa e os centristas confortáveis e langorosos de que é um espécime, afirmando-lhes ainda: enquanto homem em ordem com todas as leis divinas e humanas, e com todas as exigências da lógica, sou mesmo, e a cem por cento, um homem da direita.
De extrema-direita? Deixo desdenhosamente rolando no chão a palavrota "extremo", que para muitos soa quase como um palavrão.
Reivindicando minha autenticidade e minha integridade em matéria de direita, questiono a autenticidade e a integridade do meu homenzinho e a de seus congêneres em matéria de centro. Se o centro é, por definição, a eqüidistância entre dois extremos, com que direito se classificam eles de centristas, apesar de serem tão ilógica e agressivamente contrários ao direitista não violento, e tão afavelmente respeitadores do esquerdista não violento?
Parece-me que, definindo-me, eu os defino. Ou por outra, em vista de minha definição, eles se definem a si próprios: centristas, não são.
O que serão? Digam-no eles, com a mesma franqueza com que acabo de dizer o que sou.
De minha parte, vejo-os como genuínos, mas encabulados e disfarçados, esquerdistas.