Não adianta fazer literatura e encobrir, com flores
de retórica, uma bela verdade que não é fácil fazer retiro espiritual.
Na maioria dos casos, o retiro espiritual é um
ajuste de contas de alguém consigo mesmo. Quando se calam na alma as
preocupações mundanas, a consciência fala alto. E nem sempre o seu veredictum é dos
mais satisfatórios.
Fazer um retiro espiritual é pôr toda a vida,
minuciosamente esquadrinhada, em paralelo com as grandes verdades do Catolicismo...
nossos hábitos, nossas opiniões, nossas atividades, são passados pelo crivo.
Mesmo as almas mais piedosas e mais perfeitas encontram freqüentemente, em tais
exames, pequenas falhas a corrigir, pequenos defeitos a retificar, pequenos
hábitos a reformar. E o resultado de todo o retiro bem feito é sempre uma série
de restrições mais ou menos dolorosas — conforme o caso — a fazer às nossas
falhas morais.
Em salões imensos, a mocidade mariana
ouve atenta o pregador, enquanto estruge pelas ruas o
carnaval. Os temas das pregações são, em geral, a morte, o pecado, o juízo, o
amor de Deus pelos homens, e outras verdades fundamentais da doutrina Católica.
Freqüentemente, as palavras caem na alma como gotas de fogo. Os olhares se
tornam pensativos, os semblantes carregados. Enquanto tudo sorri em torno dela,
a mocidade mariana pensa... E pensar custa muito a
tanta gente!
Enquanto isto, a mocidade não católica se
diverte... Um processo diametralmente oposto se verifica em sua alma. O
silêncio se faz para a consciência, e todos os sentidos são escancarados aos
prazeres da vida, ao bulício doido do carnaval.
O que pensa o mundo dessas duas falanges de moços?
Despreza a primeira e estimula a segunda.
Quanta Congregação Mariana
desprovida de tudo quanto é necessário ao seu normal funcionamento! Sem sede,
sem material de escritório, sem dinheiro para as mais elementares despesas, os
seus membros vão, não obstante, caminhando para a frente, na cruzada da marianização do Brasil, entre os risos de uns, o ódio de
outros, e a simpatia de poucos. As Congregações procuram trabalhar pela
grandeza do Brasil. Sua máxima é o espezinhamento do
egoísmo, para a grandeza da Igreja e da Pátria. Qual, no entanto, o braço amigo
que, fora dos arraiais católicos, se lhe estende para auxiliá-la em tão nobre
luta? Nenhum.
Pelo contrário, os clubes carnavalescos recebem
todo o amparo. As subvenções, gordíssimas, dão para custear a construção de
duas ou três sedes de Congregação. À sua passagem, cordões de grilos se
alinham, para deixar livre transito à procissão do rei Momo. Enquanto não há
uma única praça pública em São Paulo que tenha um monumento relacionado com
assuntos religiosos (exceção feita ao monumento a Santo Antônio), Momo já tem
seu lugar de honra marcado, na praça Antônio Prado. E ai de quem procurar
destroná-lo!
Quanto à imprensa quotidiana, exceto algum protesto
— não raramente eloqüente — das seções religiosas, nada se lê contra o
Carnaval. Nada se lê também sobre os retiros espirituais. E, por outro lado, o
menor clube carnavalesco da várzea encontra acolhida fervorosa nas colunas dos
grandes diários.
Por que isto? Por que alcança Momo tanta simpatia
enquanto uma frieza glacial acolhe tantas vezes a atividade mariana?
É porque não temos um meio de atingir o grande
público, mostrando-lhe a verdade com palavras amorosas e persuasivas.
Para prová-lo, basta que façamos a seguinte
reflexão: se existisse o rádio católico, teria tido tanto êxito o carnaval?
Se tivéssemos imprensa católica, seriam tantos os
sequazes de momo?
Evidentemente não.
Não culpemos o grande público. Ele não tem, em
geral, quem lhe faça ver a verdade a respeito de uns tantos pontos desfigurados
pela imprensa diária, entre os quais o carnaval.
Se os bons fossem melhores, os maus não seriam tão
maus. Se os filhos da luz fossem mais dedicados aos interesses da Santa Igreja,
se eles amassem mais entranhadamente a verdade
religiosa que professam, certamente já teríamos um grande jornal católico, e o
rádio católico já seria uma realidade.