Há duas ilusões que costumam prejudicar a atividade
regeneradora dos católicos no Brasil.
Consiste uma delas em ver destroçadas todas as
energias da Igreja. Admiti-se - porque a fé manda que se admita - que a Igreja
é indestrutível. Mas vê-se a realidade com óculos de tal maneira negros que a
retina não se impressiona com as nuvens róseas que prenunciam uma radiosa
restauração. Tudo lhe parece cor de breu. O menor vulto toma proporções de
fantasma. O zumbir de um inseto como o roçar de uma folha pelo chão, parece
prenúncio seguro da perseguição. E, para a Igreja ameaçada, só haveria uma
tática a seguir: calar, e calar ainda, até que chegassem os esbirros que a
conduziriam ao suplício. Ou implorar de certas forças meramente políticas a
salvação, agradecendo-lhe tímida e respeitosamente um novo salvador que lhe
quisesse impingir como moderno Constantino.
A esses pessimistas, nada temos a responder. A
Providência se incumbiu de lhes abrir os olhos com o mais esplêndido
desmentido.
Quem refletir um pouco sobre a Concentração
Nacional não pode negar que ela é obra de Deus. As idéias modernas tendem para
o desregramento completo dos costumes, para a negação total de Deus, para a
destruição completa de todos os torreões que ainda se conservam de pé na frágil
muralha da civilização ocidental. Há muitos anos que o Brasil não estava
habituado a ver uma falange de moços ajoelhar-se virilmente no confessionário
ou na mesa da Comunhão. Dos raros elementos que ainda se conservavam
integralmente fiéis à Igreja, alguns morriam dizimados pela velhice, outros fraqueavam diante da pestilência do ambiente. Tudo
prenunciava uma morte próxima. Foi então que, quando menos se esperava, um magnifico
sopro de moços suscitou no Brasil inteiro, no Centro como no Norte, no Norte
como no Sul, falanges inteiras de moços que, resolvidos a instaurar no Brasil a
paz de Cristo no Reino de Cristo, proclamavam bem alto sua resolução de morrer
pela Igreja.
Esse fenômeno não é efêmero. Ele não representa
apenas o entusiasmo fugidio que a linguagem popular costuma comparar com tanta
propriedade ao fogo de palha. Dez anos inteiros de expansão mariana,
sempre vigorosa, sempre ascendente, sempre mais admirável, acabam de comprovar
que, em São Paulo como nos outros Estados, o entusiasmo mariano não se apaga
nem com o sopro do carnaval, nem com o abafador da indiferença dos cépticos,
nem com a garoa impertinente do sarcasmo dos incréus.
Se procurarmos explicação humana para o
desenvolvimento pasmoso do movimento mariano, não a encontraremos. Ela
constitui um fenômeno superior às obras dos homens. Nela só se pode ver como
origem o dedo de Deus.
Deus provou, com as falanges de Maria, que se é
possível que Ele queira castigar o Brasil com uma perseguição, não permitirá
que ela triunfe afinal. Porque Ele mesmo chamou, recrutou e disciplinou os
soldados marianos que a Igreja chamará a postos no
dia da grande peleja.
* * *
Apesar do que ficou dito, e que se dirige especialmente
aos pessimistas, poder-se-á verificar que não somos dos que crêem na estranha
invulnerabilidade que certos otimistas atribuem ao Brasil.
Não podemos, não queremos e não devemos ser dos que
afirmam que o Brasil está vacinado contra o comunismo. Afirmar que o Brasil não pode ser comunista, ou
protestante, ou nazista, é afirmar de certa forma que o Brasil é impecável e que
está imune contra a heresia, que pode deixar trabalhar a vontade os obreiros do
mal, porque ele resistirá sem o menor esforço, sem a menor diligência, sem o
menor trabalho, a qualquer pressão de forças internacionais. Em outros termos,
ele pode deixar de “vigiar e orar para não entrar em tentação”. É impecável e,
como tal, invulnerável.
É certo que a
concentração Mariana que ora se realiza poderá
confirmar ilusões de muita gente. Vendo a enorme massa humana constituída pelos
congregados, muita gente otimista dirá de si para si que perigo comunista ou o
perigo nazista está muito longe do Brasil. (...)
A Providência colocou,
entretanto, em nossas mãos um documento magnífico para provar a inanidade
dessas ilusões. É um artigo de S. Ema o Sr. Cardeal Arcebispo de
Toledo e Primaz da Espanha, Goma Y Thomaz, sobre as causas que levaram a Espanha ao abismo do
comunismo.
A enumeração é longa. Mas vale a pena ser lida.
1) A existência de grandes setores da opinião
pública afastados da Igreja;
2) A corrupção do pensamento pelo abuso da
liberdade da cátedra, da tribuna e da estampa; a farsa do parlamentarismo e a
mentira do sufrágio.
3) A corrupção dos costumes provocada pelas idéias
modernas em lares de todas as condições sociais.
4) A redução do proletariado à condição de vida tão
duras, que seus ouvidos se abrem facilmente aos pregadores de idéias
subversivas;
5) A formação defeituosíssima
da consciência popular sobre os problemas da vida social e os deveres que dela
decorrem;
6) A absoluta ausência da formação de uma
consciência nacional.
7) O esquecimento das tradições históricas da
Espanha;
8) O prurido, já velho de dois séculos, de
copiar-se servilmente o que vem do estrangeiro, nas letras, nas leis e nos
costumes;
9) Egoísmo e rivalidades que colocam em antagonismo
os homens de valor, e abrem acesso ao poder para ambiciosos sem talento e sem
energia.
10) A incompreensão dos problemas reais do momento,
enquanto a atenção dos governantes se fixa em questões de segunda ordem.
11) A conseqüente detenção do poder por elementos
débeis, idealmente talhados para serem transformados em mercenários de forças
internacionais.
12) A falta de uma autoridade política capaz de se
fazer respeitar.
13) A inconstância das situações políticas;
14) O sentido plebeu da democracia espanhola, que
mantinha afastadas da prática da política as classes mais cultas do país.
* * *
Quem não vê, por esta simples enumeração, que o Brasil
possui todos ou quase todos os sintomas que levaram ao atual colapso a catolicíssima Espanha? Quem não percebe que temos todas as
causas que produziram como efeito o comunismo na pátria de Santo Inácio?
Qual é o cego que ainda se recuse a ver? Ou o surdo
que ainda se recuse a ouvir?
* * *
Se uma das grandes causas do comunismo na Espanha foi o otimismo dos
que deveriam enfrentá-lo, uma das grandes causas da perseguição religiosa que
sofre a Alemanha é o pessimismo dos
que deveriam ter evitado o advento de Hitler.
Houve quem, na Alemanha, duvidasse da eficiência da
Igreja como meio de combate ao comunismo e elemento de defesa da civilização.
Houve quem - é horrível dizê-lo mas foi nas próprias fileiras católicas -
achasse que só Hitler poderia salvar a Alemanha do comunismo, e que a Cruz que
fez recuar Átila e deu o triunfo a Constantino, seria impotente perante Lenin e sua “camorra” (...).
Por isto, nervosamente, atabalhoadamente,
freneticamente, houve católicos que se ligaram aos protestantes, aos ateus, aos
socialistas que trabalhavam com Hitler, para estabelecer uma frente única
anticomunista.
Abriu-se o redil para que lobos e ovelhas lutassem
contra os novos bárbaros. Os lobos atacaram os cordeiros. E se não fosse o bom
Pastor cujo Vigário reside em Roma, a estas horas o rebanho teria sido
dizimado...
* * *
E aos otimistas dizemos: pelas entranhas de Cristo,
nós vos pedimos que trabalheis. Inscrevei-vos nas fileiras da Ação Católica.
Lutai pelo Cristo nas fileiras dos soldados da Igreja. E não permitais que, no
dia do Juízo Final, o Juiz Supremo vos compare aos cães mudos de que fala o
profeta.