O escândalo que acaba de dar-se na Igreja Anglicana
com o epílogo das aventuras de Eduardo de Windsor é apenas um fruto
do próprio livre-exame que está na origem do
Protestantismo. E o sucedido no Castelo de Cande não
é senão uma nova edição da mesma causa que levou Henrique VIII a separar-se de
Roma.
O artigo 25 da confissão de fé anglicana admite
apenas dois sacramentos: o Batismo e a Ceia do Senhor. A Confirmação, a
Penitência, a Ordem, o Matrimônio e a Extrema-Unção
não são sacramentos, mas estados de vida nos quais Deus dá ao homem graças
especiais.
Dissentiram, porém os anglicanos dessa concepção
particularmente no que se refere ao sacramento do matrimônio. De uma maneira
geral, nos séculos passados, a Igreja Anglicana não aceitou o
divórcio com direito a novo casamento durante a vida de ambos os cônjuges,
considerando os teólogos o matrimônio como um Sacramento. O Estado aceitava a
legislação canônica da Igreja Anglicana. A ficção da identidade entre o cidadão
e o anglicano tornava a coisa muito natural.
Em 1857, o Estado abolia a jurisdição matrimonial
dos tribunais eclesiásticos, substituídos por um tribunal civil e admitiu o
divórcio com direito a novo casamento, obrigando a Igreja Anglicana a
efetuá-los. Desde então muitos pastores aceitaram o divórcio, pois “a lei do país deve ser colocada acima dos
escrúpulos religiosos”. E desde então os divórcios se multiplicaram na
Inglaterra.
A Igreja Anglicana não ratificou oficialmente a
legislação civil do divórcio mas aos poucos se adaptou a ela de tal maneira que
sua conduta eqüivale a uma renúncia de princípio. Essa adaptação chegou a tal
ponto que na Conferência de Lambeth em 1908, os bispos
anglicanos concluíram que não há uma “interpretação
absoluta” (sic) sobre as palavras de Nosso Senhor
e por isso a Igreja não deveria “negar os
sacramentos ou outros privilégios aos que, com a aprovação civil, estão casados
dessa maneira”.
Como se pode depreender de uma reunião de
protestantes, houve os que não aceitaram as decisões da comissão de bispos e
outros que as acharam ainda pouco avançadas. E no presente a grande massa
dos anglicanos entende que o vínculo matrimonial é indissolúvel apenas no
sentido de que não deveria ser dissolvido!...
Eduardo VIII era o chefe da
Igreja Anglicana e pretendeu casar-se com uma divorciada. A crise interna da
Igreja surgiu muito mais grave, pois era o próprio chefe que estava em jogo.
Aparentemente venceu o lado melhor, pois Eduardo VIII se sentiu na necessidade
de abdicar e abandonar a chefia da igreja inglesa. A luta, porém, continuou e
não poucos elementos da Igreja Anglicana se solidarizaram com Eduardo de Windsor reconhecendo-lhe o direito de unir-se a uma
divorciada. E sem atenção à autoridade anglicana, um pastor veio à França
celebrar-lhe o matrimonio!...
Diante da confusão reinante no seio da Igreja
Anglicana, a Igreja Católica se apresentou homogênea e firme em sua doutrina. O
arcebispo de Westminster ordenou que o “Clero e os fiéis oferecessem suas orações
pelo rei e pelo país, a fim de que a lei de Deus prevalecesse para felicidade
de todos os interessados”.
O arcebispo de Merlbourne falou mais
diretamente:
“Quanto à
crise constitucional, a Igreja Católica fica exatamente o que ela era no tempo
de Henrique VIII. Ela não aprova o divórcio, nem o novo casamento de pessoas
divorciadas”.
A Igreja Católica fez notar, sem hesitação e sem
reservas, a sua posição bem conhecida, sem com isto, porém desobrigar os seus
fiéis da lealdade ao rei, pois a posição deste não depende de “respeitabilidade” de seu caráter
particular.
A Igreja Anglicana, incapaz de disciplinar os seus
membros, mesmo os mais graduados, diante da liberdade de exame, se desmorona fragorosamente. Enquanto isso sucede, a Igreja Católica se
eleva pela rigidez de sua doutrina e de seus princípios. Não admira, pois, que
as melhores inteligências da Inglaterra e a grande massa do povo britânico se
voltem para ela.