Subordinado ao título acima, vem sendo feita pelo “Estado de São Paulo” uma vigorosa
campanha em prol da preservação do patrimônio histórico de nossa Terra.
A campanha, como todos se lembrarão, foi lançada
por um artigo do Sr. Paulo Duarte em que relatava as
observações que tiveram a oportunidade de fazer nas Igrejas de São Miguel e Itapecirica, cujo estado de conservação deixava muito a
desejar.
A esse artigo, seguiu-se uma verdadeira avalanche
de cartas todas elas publicadas no “Estado
de São Paulo” sob a mesma epígrafe “Contra
o Vandalismo e o Extermínio”. Entre as principais missivas, destaca-se um
ofício do Instituto Histórico e Geográfico do Estado, um artigo do ilustre
historiador Afonso de Taunay e uma carta do
vereador Antônio Vicente de Azevedo. Também o “artista”
Oswaldo de Andrade se manifestou a
este respeito. E tudo indica que vai continuar a correr por mais alguns dias
essa torrente epistolar.
Esses os fatos. Vamos, agora, ao comentário.
Preliminarmente, é necessário afirmar que todos os
católicos de São Paulo, desde o Ex.mo Rev.mo Sr. Arcebispo Metropolitano até o
último dos fiéis da mais remota das paróquias da arquidiocese, consideram com
simpatia viva e carinhosa qualquer esforço que se faça pela preservação do
patrimônio histórico e artístico de São Paulo, máxime
quando estão em jogo os últimos e poucos vestígios que nos sobram de nosso
passado religioso.
Sem estarmos autorizados a falar em nome de quem
quer que seja, podemos adiantar que as Autoridades Eclesiásticas sempre
estiveram, estão, e continuarão sempre a estar dispostas a cooperar com todos os
esforços que apareçam para conservar nossas relíquias históricas.
Não se trata aí de uma simples afirmação. Os fatos
estão bem à vista de todos, a atestar o que dizemos. Os próprios missivistas
que tem enviado seu apoio ao Sr. Paulo Duarte, confirmam-nos implicitamente ao
enumerar os monumentos de nosso passado que ainda restam incólumes. Quais são
eles? Igrejas, e só Igrejas. Onde estão os edifícios públicos de São Paulo de
outrora, que o Estado deveria ter conservado? Com exceção da cadeia velha,
transformada, não sem certa ironia, em Câmara dos Deputados, e do feíssimo “Palácio da Cidade”, de que o Governo se
retirou, e que está entregue a repartições públicas de segunda importância, que
nos resta? Sobretudo que resta, em matéria de edifícios públicos, do velho São
Paulo colonial? Nada.
Isto quanto ao Estado. E os particulares? Foram
eles porventura mais zelosos de nossas tradições? Infelizmente, não. Qual é a
família paulista tradicional, que conservou intacto algum solar dos tempos
idos? Onde, em São Paulo, pode-se ter o gosto de contemplar, com suas paredes e
mobiliário intactos, um daqueles velhos casarões em cujas salas imensas, nos
grandes dias de festa, se reunia a aristocracia rural paulista? Tudo caiu, tudo
ruiu, tudo desapareceu. Apenas restam, na Rua Brigadeiro Tobias
ou adjacências, alguns velhos casarões do período do Império entregues a
repartições públicas, ou profanados pela presença de pensões de segunda classe.
Quanto a nosso elemento tradicional, às famílias da “vieille roche”
paulistana, emigraram quase todas para bairros modernos, como Angélica, Higienópolis ou Jardim América, deixando às moscas seus
antigos casarões, e substituindo-as por “bungalows” de inspiração americana, ou habitações
modernistas.
Não queremos, com isto, lançar censuras contra o Estado ou os remanescentes
da nossa velha aristocracia rural, pelo simples e estúpido prazer de censurar.
Nem o Estado nem nossas antigas famílias, diga-se a verdade, são muito culpadas
desse desdém pelo nosso passado. Sua deplorabilíssima
indiferença em relação a nosso passado era fruto de um estado de espírito muito
generalizado na época. Fatores excessivamente complexos e excessivamente subtis
para serem analisados neste artigo contribuíram para isto. O abandono de nossas
tradições e de nossos monumentos históricos foi um crime. Mas nem todos os que
dele são culpados foram criminosos. Para julgar os homens é preciso situá-los
em seu tempo.
Enquanto, de um modo geral, e salvas raríssimas exceções, todo o mundo, em São Paulo, destruía o
passado para sobre ele construir o presente, o que fez a Igreja? Conservou, ela
só, abandonada aos seus próprios recursos, que são muitíssimo mais escassos do
que em geral se supõe, quase todos os monumentos que nos restam do passado.
Não contente em conservar os edifícios, a Cúria
Metropolitana fez mais. Sob a alta e esclarecida orientação do Ex.mo Rev.mo Sr.
Arcebispo Metropolitano, que é conhecidamente um
apaixonado de nosso passado e um historiador de valor, reuniu-se na Cúria um
magnífico museu de objetos antigos, junto ao qual se encontra, admiravelmente
fichado e catalogado, um dos arquivos mais ricos do Brasil. Embora o Museu
Paulista tenha à sua testa um grande historiador, como é o Sr. Afonso de Taunay, cujo zelo sem reservas por nosso passado ninguém ignora,
não foi possível ao Estado reunir ali objetos nem mais curiosos nem mais
numerosos em matéria de História pátria do que os que se encontram no magnífico
museu da Cúria. São Paulo reconhecerá um dia este serviço prestado pelo Sr.
Arcebispo Metropolitano nos nossos estudos de História. E, ao seu lado,
recordar-se-á também com gratidão do falecido diretor do Museu da Cúria,
Francisco Collet e Silva, a cuja dedicação se deve, em grande parte, o êxito da
obra que o Sr. Arcebispo concebeu e levou a cabo.
* * *
Fizemos todas estas considerações para poder, no
final, protestar energicamente contra o tom de azedo agastamento com que o Sr.
Paulo Duarte se referiu a elementos do Clero de São Paulo e ao silêncio que, em
seu artigo, se nota sobre a obra salvadora empreendida pela Cúria
Metropolitana. Quando muito, com grande esforço, notar-se-á em seu artigo uma
ou outra alusão. E só.
Muitos outros dos missivistas que escreveram depois
dele agiram do mesmo modo. Ataques agressivos e descabidos a certos
eclesiásticos. E silêncio absoluto a respeito da obra da Cúria Metropolitana,
da dos Jesuítas de S. Gonçalo, etc., que tanto zelam
pelas relíquias de nosso passado.
O próprio título da seção em que o “Estado” tem publicado as missivas
merece censura: “Contra o Vandalismo e o
Extermínio”. É certo que não se deseja atingir diretamente certos elementos
do Clero. Querendo ou não, em todo o caso, eles são atingidos.
E agora vem uma verdade que vai doer aos ouvidos de
muita gente, mas que precisa ser escrita muito claramente em letra de forma: o
clero não é passível de censura pelos jornais, ainda que algum de seus
elementos não tenha andado bem. E isto pelo simples fato de ser Clero.
O Clero está investido de Poderes espirituais tão
sublimes e tão respeitáveis que seus dignatários não
podem ser censurados pelos simples fiéis. O contrário viria a constituir uma
desordem insuportável, no seio da Igreja. Para dirigir o Clero, para pedir
contas aos seus membros do que fazem, para zelar pela correção de seus atos, há
a Hierarquia Eclesiástica. Ela está sob a suprema autoridade do Pontífice
Romano. E este, por sua vez, está sob a única e exclusiva autoridade de Deus,
Nosso Senhor.
Certamente, estas verdades causarão estranheza a
muita gente. Mas é preciso que sejam ditas, porque nosso século anárquico se
vai desadaptando a qualquer autoridade. Sentimos o prazer de um desabafo,
proclamando esta verdade. E “que viengam” os que quiserem contestá-la. Terão resposta
caridosa e conveniente.
Dirá alguém: Mas o Sr. Paulo Duarte, o Sr. Oswaldo de Andrade, etc. estão muito longe de ser
católicos. Podem, portanto, dizer o que lhes aprouver do clero.
Mas, pergunta-se: o jornal “Estado de São Paulo” viveria se não fosse lido, assinado e
comprado pelos católicos diariamente? E, principalmente, se não fossem
católicos quase todos os seus anunciantes? Não. Se ele não é, pois, um jornal
católico, é, ao menos, um jornal mantido pelos católicos. E um jornal nestas
condições não tem direito de publicar críticas desabusadas a certos sacerdotes
que, ainda que não tenham agido com o acerto desejável, procederam
incontestavelmente com a melhor das intenções.
Se alguma observação devesse ser feita sobre a
conservação dos monumentos religiosos, ela poderia ser apresentada pessoalmente
a nossas autoridades eclesiásticas, sob a forma de carta, relatório, ou outra
qualquer coisa. Se alguma denúncia devesse ser feita, este mesmíssimo processo
deveria ser empregado. Mas não queremos, não podemos e não devemos concordar em
que, abertamente, se levantem críticas ou ao menos suspeitas injuriosas a
elementos do Clero.
É esta a verdade, embora possa doer a muita gente.