O Sr. Getúlio Vargas, em entrevista coletiva concedida à imprensa em Petrópolis, analisando a situação atual do Brasil e os
projetos do novo governo, declarou que “as incertezas, as dificuldades, os
choques, promanam da existência de dois Brasis, um político e outro econômico,
que não coincidem”.
Não deixa de ter razão o Sr. Getúlio Vargas em
reconhecer a existência de um Brasil político distinto do Brasil econômico, e,
como conseqüência desse estado de coisas,
o aparecimento de dificuldades bastante graves para o governo, que se encontrava
manietado para resolvê-las dada a necessidade que tinha de contentar aos dois
Brasis. E, diga-se em abono à verdade, em geral nossos governos tem contentado
o Brasil político com prejuízo do Brasil econômico.
Veio o Estado Novo de 10 de novembro, e o Sr.
Getúlio Vargas acha-se agora aparelhado para evitar o entrechoque desses dois,
políticos e econômicos.
Porém, esperamos que não se esqueça o chefe do
governo de que a economia está longe de ser o fator principal da grandeza da
nação, e nem mesmo de seu bem estar, pois que este não consiste só na riqueza
material do seu povo, mas sobretudo na posse tranqüila da Verdade e na prática
invariável do Bem.
“As incertezas, as dificuldades,
os choques promanam de dois Brasis, um político e outro econômico, que não
coincidem”. - Getúlio Vargas.
Nossas maiores incertezas, nossas mais angustiosas
dificuldades, os nossos choques mais violentos, promanam, de fato, da
existência de dois Brasis, um político, o outro, porém, não é o Brasil
econômico, e sim o Brasil religioso. Esses é que são, na realidade, dois Brasis
que estão muito mais distanciados um do outro, do que o Brasil político do
Brasil econômico.
Aliás, esse mal não é de hoje. Desde o Império que
o Brasil, apesar de profundamente católico, é
dirigido por uma camarilha de parlamentares (...) que procuravam por todos os
modos destruir a vida religiosa do País. Era o Brasil político que procurava
enforcar o Brasil religioso com a corda de seda dourada do regalismo
de Pombal.
A República, em vez de corrigir esse mal,
acentuou-o desmedidamente, destruindo os últimos pontos de contato que ainda uniam os dois Brasis.
E a leva de “parvenus” da
política que, logo no início da era republicana, sucedeu aos estadistas do
Império e passou a encarnar o Brasil político, tentou estrangular o Brasil
religioso, não mais com corda de seda, mas com a reles corda de amarração do
positivismo francês. E isto durou até 1934, quando a Liga Eleitoral Católica alterou
parcialmente este estado de coisas.
Se o Estado Novo quiser ser realmente novo, deve
acabar com esta odiosa cisão entre os dois Brasis, que era a característica do
Estado Imperial e da República velha...
Mas as dificuldades maiores, os
choques mais fortes, as incertezas mais angustiosas promanam de dois Brasis, um
político e outro religioso.
Opondo-se ao catolicismo, como até agora se opôs o
Estado brasileiro, ele não podia dar à Nação o seu verdadeiro rumo, porque
implicitamente ele se apartava da Igreja e, portanto, dos brasileiros.
Dos governantes que até aqui teve o Brasil, só a
excelsa Princesa Isabel tentou fazer uma
política em sentido contrário. (...)
Todos estes fatos não terão escapado à argúcia do
Sr. Getúlio Vargas. E já que temos agora uma nova Constituição e Novos rumos se
abriram para o Brasil, o Sr. Getúlio Vargas, que tanto empenho mostra em
combater o choque entre o Brasil político e o econômico, deverá levar mais
adiante o seu projeto e evitar que a 3ª República reedite os erros das
anteriores e da monarquia construindo um novo Brasil política e religiosamente
uno. É esta a obra que poderá vincular ao Estado novo a simpatia dos católicos.
* * *
Quererá isto dizer que os católicos pleiteiam desde
logo a organização de um Estado inteiro e cabalmente católico sob todos os
aspectos, desde a sua Constituição até o menor dos regulamentos sobre venda de
bebidas alcóolicas ou organização dos cemitérios? Evidentemente, não.
Já temos dito mil e uma vezes que a ação social
deve preceder e preparar a reforma política. Um Estado cabalmente católico se
compreenderia em uma sociedade também ela cabalmente católica. Ora, se a
sociedade brasileira é católica, ela o é... brasileiramente, isto é, com panos
quentes, arranjos e transigências. É esta a
realidade. E como não se pode ser “brasileiramente”, “inglesmente”,
“teutonicamente” ou “niponicamente”
católico, mas se deve ser apenas “romanamente”, ou
melhor “vaticanamente” católico, compreende-se desde
logo que a sociedade brasileira não está preparada para servir de alicerce para
um Estado cabalmente católico.
O que os católicos desejam, no momento, do Estado
novo brasileiro, é muito simples. Em primeiro lugar, deve ele expurgar das
fileiras de seus amigos, de certos elementos com tendências incompatíveis com o
espírito católico. Certos pruridos de nazificação que
notamos em alguns amigos do Governo - queremos
e devemos crer que sem solidariedade intelectual deste - devem
desaparecer inteiramente. Também alguns velhos liberais da antiga guarda, que
pretendem derramar o emoliente malsão de suas
doutrinas no conteúdo espiritual do Estado novo, devem ser eliminados. Em
outros termos, o Estado novo deverá ser, de agora em diante, [autenticamente] anticomunista.
(...)
Finalmente, o Estado novo precisa cooperar
resolutamente com a Ação Católica na obra ingente da evangelização e da
moralização do povo.
Dizendo isto, não queremos concordatas, nem
reconhecimentos oficiais, nem favores que, inevitavelmente, seriam mais
onerosos para nós do que para o Estado. O “quia nominor leo”
da fábula é um argumento que ainda não perdeu sua atividade.
O que queremos, simplesmente, é que o Estado
promulgue uma legislação que reprima seriamente os vícios sociais, como a
jogatina, a embriaguês, a venda de tóxicos, e a
distribuição urbana de zonas que se deveriam encontrar não no centro da cidade,
mas nos seus mais afastados confins. (...)
Além de combater o vício, deveria o Estado iniciar
uma campanha resoluta para sanear as chagas sociais que ameaçam criar entre nós
tremendos problemas. Trate ele seriamente dos interesses das classes operárias,
do salário mínimo, das habitações física e moralmente higiênicas, da proteção
às gestantes, e estará merecendo a simpatia calorosa dos católicos.
E não basta. O combate ao mal não é suficiente. É
preciso, além disto, disseminar o Bem. Não pleiteamos, agora, que o Estado
oficialize a Religião Católica, repetimo-lo com insistência, para não criar
equívocos. Mas o que queremos é que o Estado dê à Igreja ampla liberdade de
penetrar nas escolas, nos quartéis, nas prisões, nos hospitais oficiais, etc.
Isto é o que pedem os católicos brasileiros.
Se o Estado realizar este magnífico programa, terá
encontrado sua identificação com o Brasil católico, e portanto com o Brasil
autêntico. É este o único caminho no qual ele encontrará a simpatia dos
católicos brasileiros.