Há não pouco tempo, escrevemos nestas colunas que o
Brasil atravessa, atualmente, a fase mais delicada de sua vida política
internacional. A esta afirmação, poderíamos acrescentar que nem a guerra holandesa
nem a do Paraguai puseram em tão rude cheque a integridade do território
nacional. E, infelizmente, a evidência dos fatos nos dá razão.
Realmente, são cada vez mais numerosos e mais
insistentes os rumores relativos a uma possível investida de potências
estrangeiras contra o Brasil.
O primeiro
destes rumores é antigo e data da guerra ítalo-etíope.
Não havendo meio de conciliar os interesses ingleses e italianos na Europa,
cogitou-se de uma solução extra-africana que
proporcionasse à Itália plena satisfação para suas tendências expansionistas, sem prejuízo do raio de influência exercido
pelo Império Britânico na África Setentrional e Central. Este projeto conduziu
naturalmente a outro: remodelar-se em todo o mundo a distribuição das colônias,
de sorte a atender também as reivindicações imperialistas alemãs e, com isto,
restituir a paz à velha Europa. A esta altura, os olhares dos estadistas se
voltaram para as terras que estão em mãos de povos fracos sob o ponto de vista
militar, o que eqüivale a dizer, hoje em dia, terras sem dono. E,
imediatamente, surgiu a proposta de saciar o apetite ítalo-alemão
às custas do Brasil e das colônias
portuguesas, o que não traria prejuízo à integridade territorial do Império
Britânico e não prejudicaria
a ninguém, uma vez que só traria prejuízos a povos desarmados e pobres, povos
que, dentro da atual moral (?)
internacional, não são gente.
É preciso que a opinião pública
saiba que um governo estrangeiro pretende governar no Brasil como se este fosse
uma nova China.
Todos os jornais falaram disto. E depois, graças a
Deus, os rumores cessaram.
Ultimamente, porém, os rumores tem recrudescido,
desta vez com uma insistência invulgar.
Na imprensa londrina, na yankee, na francesa, nas de outros países ainda, as
referências a um possível surto imperialista alemão se tornam cada vez mais
explícitas. E um telegrama de Washington, publicado pela “Gazeta” na última
semana, narra simplesmente esta enormidade: debateu-se na Câmara dos Deputados norte-americana
o problema da defesa do litoral brasileiro contra potências européias, sendo discutidos os meios mais
adequados para assegurar a proteção a nossas costas, por meio de uma cooperação
americano-brasileira!
Evidentemente, seria muito tolo quem supusesse que
jornais influentes de Londres e deputados yankees sobrecarregados de afazeres
estejam a se divertir em arquitetar hipóteses inverossímeis a respeito do
Brasil, coisa que, desde 1822, data de nossa independência, estariam pela
primeira vez achando divertido fazer... Diz o nosso caipira que não há fumaça
sem fogo. Fumaça de tais advertências, deve corresponder a existência de
algum fogo.
Como se não bastassem indícios tão expressivos, uma
brutal realidade - brutal, como tudo quanto procede do Sr. Hitler - saltou
subitamente a nossos olhos na última 4ª feira. Simultaneamente, era noticiado
em tais telegramas que a Alemanha enviara ao Brasil uma representação sobre a
situação de seus nacionais aqui residentes, e que o Sr. Hitler baixara instruções
aos alemães residentes no estrangeiro, sobre a linha de conduta que deveriam
observar fora do Reich.
Vejamos as mais expressivas dentre essas
instruções:
1º) - Indicar-se-ão aos alemães as casas de
negócios em que deverão fazer compras;
2º) - Os cidadãos germânicos serão compelidos a
registrar-se nos consulados nazistas e a notificar qualquer mudança de
residência ou do seu estado civil;
3º) - Serão nomeados chefes regionais, sob a
direção direta de Berlim, para que estes inculquem os princípios nazistas aos
alemães que vivem no exterior;
4º) - Fundação de clubes e sociedades para reunião
dos alemães;
5º) - Fornecimento a esses clubes e sociedades
recreativas de jornais e livros que reflitam a ideologia nazista;
6º) - Os sócios dos clubes alemães serão estimulados
a observar os feriados nazistas e a fazerem a saudação nazista.
* * *
Nunca consentiremos que o Brasil
venha a ser uma nova China, rinha de briga de países estrangeiros.
Aí estão os fatos, na inexorável dureza de sua
realidade. Uma potência estrangeira teve a ousadia de organizar partidos
políticos no Brasil. Essa potência é a Alemanha que, procurando
fazer a propaganda do nazismo na colônia alemã aqui estabelecida, coloca essa
colônia em uma detestável posição perante o Brasil. Realmente, até aqui, a colônia alemã era unanimemente
benquista por todos os brasileiros que, com sobeja razão, apreciavam sua
operosidade, a fecundidade de seu trabalho e a exemplar perseverança com que
levava a cabo suas iniciativas. Enquanto o alemão é no Brasil um elemento
excelente, o alemão nazificado é um elemento
detestável. Realmente, tornando-se nazista, ele implicitamente faz fé de
respeitar o Füehrer alemão, colocando-o acima das
autoridades brasileiras. Com todas as suas forças, agarra-se ele a um partido
hostil à Igreja e que, no Brasil, não pode e não deve medrar. Neste partido,
incutem-lhe a noção de que deve ser alemão e não brasileiro. E esse alemão,
cujos filhos seriam normalmente ótimos brasileiros, passará a ser, no Brasil,
com toda a sua progênie conquistada com ele para o nazismo, um elemento
duplamente inassimilável: 1) sob o ponto de vista religioso, pela irremediável
e intransponível incompatibilidade entre o Catolicismo e o Nazismo; 2) sob o
ponto de vista patriótico, pelo espírito de resistência à assimilação nacional,
que o nazismo procura criar nos alemães residentes no estrangeiro.
Assim, não há como negar que um grave problema de
ordem interna e internacional foi criado dentro do Brasil pela política expansionista do Sr. Hitler.
E o problema é tão grave que, enquanto a opinião
nacional continua numa relativa e censurável pasmaceira à vista do perigo, já
em outros países se discute a gravidade da situação em que nos encontramos.
* * *
Em última analise, que conclusão pratica quererá o “Legionário” tirar de tantos fatos dolorosos, que aponta sem poder
remediá-los? Por que clama ele contra um perigo que, por medo, tantos
brasileiros estão calando, e por indolência tantos outros estão esquecendo? Por
que tomar atitude, podendo envenenar a situação da Igreja em uma crise que
eventualmente venha a se delinear?
Propriamente, estas perguntas não deveriam ter
resposta. Quem, no seu coração de católico e de patriota, não sentir indignação
ao lê-las, pode ter a certeza de que não apenas não é católico nem patriota,
mas não tem coração.
A Igreja foi sempre, no Brasil, o esteio da
nacionalidade. Ainda que todos recuassem, ainda que todos transigissem, ainda
que todos silenciassem - o que graças a Deus não sucede - necessário seria que
se pudesse escrever daqui a cem anos ou mais, que um jornal católico protestou
contra o perigo e se levantou para enfrentá-lo. Não é apenas para o presente
que escrevemos, mas para o futuro. É preciso que a situação da Igreja fique bem
clara nisto, por causa do futuro, por causa desse futuro no qual a Igreja
continuará a existir, quando já todos os homens da geração presente estiverem
reduzidos a pó pela morte.
E, depois, não vêem os leitores o destino de que
estamos ameaçados, no risco iminente de servirmos de rinha de briga a ingleses,
norte-americanos e alemães?
O dever do Brasil é de se levantar como um só homem
e, colocando-se ao lado das autoridades, fazer ouvir bem alto junto ao mundo
inteiro o seu propósito de conservar sua independência, sem tutelas, sem
proteções, sem perigosas alianças com quem quer que seja, evitando ao mesmo
tempo a sanha devoradora de nossos inimigos... e de nossos amigos.