Quando comparo as modernas condições em que deve
desenvolver-se o apostolado, com as que encontrei quando, há cerca de dez anos,
tive a honra e a felicidade imerecidas de começar servir a Causa Católica,
verifico a enorme evolução que sofremos, e a crescente complexidade que o
ambiente moderno vai criando para nossos trabalhos.
Há dez anos atrás, o panorama era triste, mas
claro. A grande maioria da população ainda vivia naquele ambiente de catolicidade
comodista e caseira (por isto mesmo de pseudo-catolicidade) que fazia da Religião uma preocupação
meramente piedosa. Os mais perfeitos julgavam ter cumprido convenientemente
seus deveres quando rezavam pela manhã e à noite, e, de quando em vez,
comungavam. O resto de sua vida não pertencia à Igreja, que dela estava tão
afastada quanto da vida de qualquer céptico ou indiferente. Por isto mesmo,
qualquer atitude pública que traduzisse convicções religiosas era
cuidadosamente evitada: quem se tornasse réu de uma ação dessa natureza seria
prontamente qualificado de carola, de beato, e de outras quejandas
coisas que, em última análise, apontavam o pobre “santarrão” - era outro termo
corrente - a uma execração geral mais inexorável do que se em lugar de
freqüentar a Igreja, consagrasse longas horas a frequentação dos lugares mais
indignos da cidade.
Isto posto, e dadas as inevitáveis desvantagens
decorrentes de qualquer pronunciamento público de convicções religiosas, claro
estava que um indivíduo que se dissesse publicamente católico - um Chefe de
Estado, por exemplo, que tivesse a audaciosa impertinência de pronunciar o nome
de Deus quando tomasse posse de seu cargo - tinha o direito de ser tido como
católico sincero e convicto, pois que a sua declaração trazia, inerente
consigo, as garantias da sua autenticidade, garantias estas que consistiam nas
inexoráveis sanções de ordem moral com que a opinião da grande massa burguesa e
indiferente acolheria tal atitude.
Por isto mesmo, a atitude política dos católicos
era clara e simples: deveriam dispensar, sem vacilações, seu apoio aos homens
que se manifestassem religiosos, tratar com prudência os que se calassem, e
fazer oposição aos que hostilizasse a Igreja. Em outros termos, sintetizando:
a) havia todas as razões do mundo para confiar nos que se manifestassem
católicos; b) entre os que silenciavam, havia fortes razões para supor que
muitos eram simpáticos à Igreja, porém não se pronunciavam por timidez, pelo
que deviam ser tratados com reserva prudente, e nunca com uma estúpida
hostilidade; c) finalmente, era preciso fazer oposição nítida aos que,
nitidamente, combatiam a Igreja.
* * *
De lá para cá, quanto mudaram as coisas! Como se
alterou o panorama! E como estão atrasados os católicos ingênuos que ainda agem
em função do quadro antiquado que acabo de pintar acima!
Para compreender a formidável evolução por que
passamos, é preciso olhar para além das fronteiras brasileiras. Até há 10 anos
atrás, o mundo vivia sob o peso do ambiente criado pelas grandes ofensivas de
ateísmo, de ceticismo, e de positivismo (...) contra a Igreja. Privada de todos os apoios humanos,
separada do mundo das letras, da alta sociedade, da alta finança, da alta
política, das altas esferas militares, a Igreja parecia, no meio da tormenta
geral, um réu isolado de todos, desprezado por todos, odiado por todos e tendo
apenas ao seu lado um pequeníssimo número de fiéis cuja influência social ou
intelectual era freqüentemente nula. A exemplo de seu Divino Fundador durante a
Paixão, o Catolicismo era, no mundo de então, o grande Réu, o grande Réprobo, o
grande Leproso (a palavra é das Escrituras) que todo o mundo evitava, a quem só
se atreviam a dar provas de amor as pessoas dotadas de um sentimento sincero.
Deus, porém, tem a sua hora. Crises pavorosas
abalaram os alicerces do mundo burguês. A finança, a política, a vida
intelectual, tudo entrou em decadência e hoje ameaça ruir. E, enquanto isto, no
trono imortal da Santa Igreja, refloresce a primavera pujante de uma mocidade
plenamente católica, heróica na sua Fé, invencível na sua pureza, sublime no
seu destemor, com o que enche de espanto os carrascos que, há poucos anos
ainda, se preparavam para desferir contra ela o golpe de misericórdia.
E, com isto,
a era de uma outra estratégia anti-católica começou.
Na Paixão do Salvador, o beijo de Judas antecedeu os tormentos da flagelação e
da crucifixão. No caminho do Calvário que a Santa Igreja segue desde a pseudo-Reforma até hoje, a Paixão precedeu o beijo.
Procuraram matá-la pela violência: “Deus riu-se deles”, como diz a Escritura.
Procuraram agora iludir os católicos com as manobras pérfidas de uma pseudo-religiosidade tão hipócrita quanto a amizade de
Judas ou a virtude dos fariseus. Também destes, “Deus rir-se-á”. Mas é preciso
que os católicos estejam vigilantes.
* * *
De dez anos para cá, a tática dos
inimigos da Igreja passou por uma transformação radical.
No século passado, os católicos
foram mais uma vez culpados por sua falta de fortaleza.
No século presente, os católicos
serão especialmente culpados se, além da fortaleza, não tiverem uma invencível
perspicácia.
No século XX, mais do que nunca, a
Providência nos pede que, conservando a inocência da pomba, não negligenciemos
por isto a aquisição da astúcia da serpente, expressamente recomendada pelos
Santos Evangelhos.
No que consiste, em termos claros e positivos, esta
nova tática?
Dotada, hoje em dia, de recursos humanos que lhe
faltavam absolutamente em outros tempos, a Santa Igreja (que aliás não precisa
desses recursos, porque sua indestrutibilidade provém
só de Deus) é hoje uma inimiga temida. Por isto mesmo, a manobra ideal para os
seus adversários é obter sua aliança para conquistarem com o auxílio dela o
Poder Temporal. Uma vez aboletados em situação conveniente, reservar-se-ão
ocasiões favoráveis para iniciar novamente a luta contra aquela divina
“infame”, que o ímpio Voltaire queria a todo o
custo “écraser” [esmagar].
De onde procede a manobra? De que grupo político?
De todos. No século passado, o ideal dos comunistas era de “enforcar o último
Padre nas tripas do último Papa”. Hoje, pela Europa inteira, mendigam eles o
apoio dos católicos para combater o nazismo, escondendo as convicções
materialistas inseparáveis do comunismo, e prometendo, por meio da famosa “politique de la main tendue”, colaborar na
França, na Suíça, na Inglaterra e em outros países, com aquela mesma Igreja que
eles perseguem sem tréguas na Rússia, na Espanha e no México.
Não é diferente a tática dos partidos ditos do
“Centro”. É ainda sob pretexto de combater o nazismo e de obter o apoio da
Santa Sé para a política internacional francesa, que os mais graduados membros
do socialismo (...) francesas receberam com mil honrarias e mil melúrias, no
ano passado, o Legado Pontifício que, há alguns lustros atrás, teriam enxotado
da França por meio da polícia.
E não é outra a atitude de certas direitas. Para
prová-lo basta o cinismo revoltante do Sr. Hitler, e de seus cúmplices que comprazem em afirmar perante o
mundo inteiro que não querem perseguir a Religião Católica, sendo seu desejo,
tão somente, coibir as pretensas intervenções do Clero na política.
Se perguntarmos aos inimigos da Igreja na França,
na Inglaterra, na Alemanha, etc., o que pensam da Igreja, não responderão mais,
como outrora, com uma injuriosa blasfêmia. Pelo contrário, um sorriso lhes
ficará aos lábios macios e, gentis, eles oferecerão ao seu interlocutor
católico o morno e húmido beijo de Judas.
E a tal ponto é isto verdade, que a Santa Sé se viu forçada a
intervir diretamente em uma situação tão complexa, desmascarando ao mesmo tempo
a perfídia nazista quando nega haver perseguição religiosa na Alemanha, e a
ignominiosa falsidade dos comunistas, quando estendem as mãos aos católicos, numa
aliança que seria monstruosa.
Compreenderam agora nossos
leitores a razão pela qual o “Legionário” passa muitas vezes por pessimista,
por intransigente, por agressivo? Porque ele não intenta fazer para a Igreja
certas “conquistas” que introduziriam o cavalo de Tróia na cidadela católica!
Com a graça de Deus, o “Legionário” nunca se acumpliciou
com os beijos de Judas. Que Deus o ajude para perseverar sempre neste caminho.
A argúcia é o grande dever do momento. A ela, o
“Legionário” espera, com a graça de Deus, não faltar.