Legionário, No 297, 22 de maio de 1938 

A argúcia, dever de hoje

Quando comparo as modernas condições em que deve desenvolver-se o apostolado, com as que encontrei quando, há cerca de dez anos, tive a honra e a felicidade imerecidas de começar servir a Causa Católica, verifico a enorme evolução que sofremos, e a crescente complexidade que o ambiente moderno vai criando para nossos trabalhos.

Há dez anos atrás, o panorama era triste, mas claro. A grande maioria da população ainda vivia naquele ambiente de catolicidade comodista e caseira (por isto mesmo de pseudo-catolicidade) que fazia da Religião uma preocupação meramente piedosa. Os mais perfeitos julgavam ter cumprido convenientemente seus deveres quando rezavam pela manhã e à noite, e, de quando em vez, comungavam. O resto de sua vida não pertencia à Igreja, que dela estava tão afastada quanto da vida de qualquer céptico ou indiferente. Por isto mesmo, qualquer atitude pública que traduzisse convicções religiosas era cuidadosamente evitada: quem se tornasse réu de uma ação dessa natureza seria prontamente qualificado de carola, de beato, e de outras quejandas coisas que, em última análise, apontavam o pobre “santarrão” - era outro termo corrente - a uma execração geral mais inexorável do que se em lugar de freqüentar a Igreja, consagrasse longas horas a frequentação dos lugares mais indignos da cidade.

Isto posto, e dadas as inevitáveis desvantagens decorrentes de qualquer pronunciamento público de convicções religiosas, claro estava que um indivíduo que se dissesse publicamente católico - um Chefe de Estado, por exemplo, que tivesse a audaciosa impertinência de pronunciar o nome de Deus quando tomasse posse de seu cargo - tinha o direito de ser tido como católico sincero e convicto, pois que a sua declaração trazia, inerente consigo, as garantias da sua autenticidade, garantias estas que consistiam nas inexoráveis sanções de ordem moral com que a opinião da grande massa burguesa e indiferente acolheria tal atitude.

Por isto mesmo, a atitude política dos católicos era clara e simples: deveriam dispensar, sem vacilações, seu apoio aos homens que se manifestassem religiosos, tratar com prudência os que se calassem, e fazer oposição aos que hostilizasse a Igreja. Em outros termos, sintetizando: a) havia todas as razões do mundo para confiar nos que se manifestassem católicos; b) entre os que silenciavam, havia fortes razões para supor que muitos eram simpáticos à Igreja, porém não se pronunciavam por timidez, pelo que deviam ser tratados com reserva prudente, e nunca com uma estúpida hostilidade; c) finalmente, era preciso fazer oposição nítida aos que, nitidamente, combatiam a Igreja.

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De lá para cá, quanto mudaram as coisas! Como se alterou o panorama! E como estão atrasados os católicos ingênuos que ainda agem em função do quadro antiquado que acabo de pintar acima!

Para compreender a formidável evolução por que passamos, é preciso olhar para além das fronteiras brasileiras. Até há 10 anos atrás, o mundo vivia sob o peso do ambiente criado pelas grandes ofensivas de ateísmo, de ceticismo, e de positivismo (...) contra a Igreja. Privada de todos os apoios humanos, separada do mundo das letras, da alta sociedade, da alta finança, da alta política, das altas esferas militares, a Igreja parecia, no meio da tormenta geral, um réu isolado de todos, desprezado por todos, odiado por todos e tendo apenas ao seu lado um pequeníssimo número de fiéis cuja influência social ou intelectual era freqüentemente nula. A exemplo de seu Divino Fundador durante a Paixão, o Catolicismo era, no mundo de então, o grande Réu, o grande Réprobo, o grande Leproso (a palavra é das Escrituras) que todo o mundo evitava, a quem só se atreviam a dar provas de amor as pessoas dotadas de um sentimento sincero.

Deus, porém, tem a sua hora. Crises pavorosas abalaram os alicerces do mundo burguês. A finança, a política, a vida intelectual, tudo entrou em decadência e hoje ameaça ruir. E, enquanto isto, no trono imortal da Santa Igreja, refloresce a primavera pujante de uma mocidade plenamente católica, heróica na sua Fé, invencível na sua pureza, sublime no seu destemor, com o que enche de espanto os carrascos que, há poucos anos ainda, se preparavam para desferir contra ela o golpe de misericórdia.

 E, com isto, a era de uma outra estratégia anti-católica começou. Na Paixão do Salvador, o beijo de Judas antecedeu os tormentos da flagelação e da crucifixão. No caminho do Calvário que a Santa Igreja segue desde a pseudo-Reforma até hoje, a Paixão precedeu o beijo. Procuraram matá-la pela violência: “Deus riu-se deles”, como diz a Escritura. Procuraram agora iludir os católicos com as manobras pérfidas de uma pseudo-religiosidade tão hipócrita quanto a amizade de Judas ou a virtude dos fariseus. Também destes, “Deus rir-se-á”. Mas é preciso que os católicos estejam vigilantes.

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De dez anos para cá, a tática dos inimigos da Igreja passou por uma transformação radical.

No século passado, os católicos foram mais uma vez culpados por sua falta de fortaleza.

No século presente, os católicos serão especialmente culpados se, além da fortaleza, não tiverem uma invencível perspicácia.

No século XX, mais do que nunca, a Providência nos pede que, conservando a inocência da pomba, não negligenciemos por isto a aquisição da astúcia da serpente, expressamente recomendada pelos Santos Evangelhos.

No que consiste, em termos claros e positivos, esta nova tática?

Dotada, hoje em dia, de recursos humanos que lhe faltavam absolutamente em outros tempos, a Santa Igreja (que aliás não precisa desses recursos, porque sua indestrutibilidade provém só de Deus) é hoje uma inimiga temida. Por isto mesmo, a manobra ideal para os seus adversários é obter sua aliança para conquistarem com o auxílio dela o Poder Temporal. Uma vez aboletados em situação conveniente, reservar-se-ão ocasiões favoráveis para iniciar novamente a luta contra aquela divina “infame”, que o ímpio Voltaire queria a todo o custo “écraser” [esmagar].

De onde procede a manobra? De que grupo político? De todos. No século passado, o ideal dos comunistas era de “enforcar o último Padre nas tripas do último Papa”. Hoje, pela Europa inteira, mendigam eles o apoio dos católicos para combater o nazismo, escondendo as convicções materialistas inseparáveis do comunismo, e prometendo, por meio da famosa “politique de la main tendue”, colaborar na França, na Suíça, na Inglaterra e em outros países, com aquela mesma Igreja que eles perseguem sem tréguas na Rússia, na Espanha e no México.

Não é diferente a tática dos partidos ditos do “Centro”. É ainda sob pretexto de combater o nazismo e de obter o apoio da Santa Sé para a política internacional francesa, que os mais graduados membros do socialismo (...) francesas receberam com mil honrarias e mil melúrias, no ano passado, o Legado Pontifício que, há alguns lustros atrás, teriam enxotado da França por meio da polícia.

E não é outra a atitude de certas direitas. Para prová-lo basta o cinismo revoltante do Sr. Hitler, e de seus cúmplices que comprazem em afirmar perante o mundo inteiro que não querem perseguir a Religião Católica, sendo seu desejo, tão somente, coibir as pretensas intervenções do Clero na política.

Se perguntarmos aos inimigos da Igreja na França, na Inglaterra, na Alemanha, etc., o que pensam da Igreja, não responderão mais, como outrora, com uma injuriosa blasfêmia. Pelo contrário, um sorriso lhes ficará aos lábios macios e, gentis, eles oferecerão ao seu interlocutor católico o morno e húmido beijo de Judas.

E a tal ponto é isto verdade, que a Santa Sé se viu forçada a intervir diretamente em uma situação tão complexa, desmascarando ao mesmo tempo a perfídia nazista quando nega haver perseguição religiosa na Alemanha, e a ignominiosa falsidade dos comunistas, quando estendem as mãos aos católicos, numa aliança que seria monstruosa.

Compreenderam agora nossos leitores a razão pela qual o “Legionário” passa muitas vezes por pessimista, por intransigente, por agressivo? Porque ele não intenta fazer para a Igreja certas “conquistas” que introduziriam o cavalo de Tróia na cidadela católica! Com a graça de Deus, o “Legionário” nunca se acumpliciou com os beijos de Judas. Que Deus o ajude para perseverar sempre neste caminho.

A argúcia é o grande dever do momento. A ela, o “Legionário” espera, com a graça de Deus, não faltar.