Em meu último artigo, procurei tornar claro que
nosso século exige uma argúcia sem igual, para o êxito da Ação Católica na sua luta pelo
Cristo Rei. É preciso, a todo custo, acabar com a funesta ingenuidade de se
supor que todo o indivíduo que esboça confusamente um
ato de Fé vago e incompleto é, implicitamente, um católico, apostólico, romano
digno da maior confiança. Esta mentalidade é muito mais generalizada do que se
supõe. Pois não houve na França católicos e - quem o diria! - católicos de
certa projeção, que consideraram possível uma colaboração com os comunistas,
simplesmente porque estes disfarçaram um pouco seu materialismo sectário e
virulento? Não houve, na Alemanha e na Áustria, quem acreditasse nas promessas
de Hitler e na sinceridade de seus propósitos
construtores e cristianizadores, simplesmente porque
o “Füehrer” falou em Deus em um ou dois discursos
imediatamente subsequentes ao Anschluss? É preciso acabar com essa ingenuidade. Quem, na
Ação Católica, foi investido de postos de responsabilidade tem obrigação
absoluta - insistimos na palavra absoluta, com toda a consciência do que
dizemos - de adestrar sua argúcia, de sorte a poder distinguir da ovelha
verdadeira, o lobo que se revestiu matreiramente com a pele do carneiro, do
contrário, não poderá ser dirigente. Isto é, pastor. Por que qual a serventia
do Pastor que não sabe distinguir o lobo entre as ovelhas e preservar seu
rebanho das ciladas que lhe arma o adversário?
Que valor tem o pastor que não
sabe distinguir o lobo entre suas ovelhas? Que valor tem, pois, o dirigente de
Ação Católica que não tem a perspicácia recomendada pelo Evangelho?
Dissemos que a argúcia é uma necessidade
particularmente imperiosa em nosso século. Na realidade, porém, ela foi
necessária a todos os séculos, porque o espírito das trevas foi sempre
dissimulado e falso, e constituem verdadeiras exceções as épocas históricas em
que, como no século passado, a impiedade deixou de lado todos os disfarces para
se atirar abertamente contra a Santa Igreja. Em geral suas investidas foram
disfarçadas e sub-reptícias. O demônio nunca é tão perigoso como quando ele se
reveste da aparência dos Anjos fiéis.
Não é outra a razão pela qual a Santa Igreja de
Deus foi sempre de uma invencível argúcia em desmascarar as heresias
disfarçadas e subtis, e é curioso notar que nessa argúcia pertinaz e combativa
ela colocou as mais suaves refulgências de sua
santidade. A argúcia da Igreja nada tem de comum com
a perfídia malévola do politiqueiro desleal, do especulador sem entranhas, do
espião sem escrúpulos. O espírito católico não comporta ódio, nem malevolência,
mas só amor. A vigilância da Igreja é absolutamente idêntica à argúcia da Mãe
que, levada pelo amor aos seus filhos, sonda constantemente, com seu olhar
vigilante, os perigos que os circundam, a fim de discernir o inimigo que se
aproxima. O próprio amor de Mãe que lhe impõe que se revista de vigilância e de
energia para a defesa de seus filhos, e que se esmere em fazê-lo com toda a
eficiência necessária, com todo o luxo de detalhes exigido pela situação, com
toda a perfeição dos recursos ao seu alcance. No entanto, a Igreja assim
procede por um exclusivo sentimento de amor, sem abrigar no seu coração, por um
só instante que seja, a menor parcela de ódio contra o injusto agressor de seus
filhos. Na realidade, ela persegue esse agressor nas trevas de suas maquinações
ocultas, ela o desaloja do castelo de perfídias em
que ele se procura ocultar, ela o pune com soberana energia. Cumprindo esse seu
dever sem o menor desfalecimento, sem a mais leve mancha de falso
sentimentalismo, sem o menor recuo ditado pelo medo ou pela tolerância, ela o
faz, porém, transida de dor. Porque em lugar de ferir, de lutar, de perseguir,
ela quereria abrandar, dulcificar, suavizar, salvar. E seu zelo encontrará
sempre meios de manifestar seu amor ao adversário, ainda mesmo quando vibra
contra ele os mais rudes golpes.
Esta argúcia amorosa faz parte das mais autênticas
tradições da Igreja. Leiam-se as atas dos Concílios, as definições doutrinárias
dos Pontífices, os juramentos impostos pela Igreja aos seus Sacerdotes, e
notaremos que foram redigidos com uma argúcia sem igual, para desmascarar o
erro nas suas mais imperceptíveis e ligeiras manifestações, e para definir a
verdade com uma precisão de termos tal que a Igreja cultiva como uma arte
indispensável a difícil aptidão de encontrar para cada pensamento a palavra
adequada, e de definir às vezes a palavra antes de empregá-la com o fito
exclusivo de impedir que qualquer parcela de erro se misture com a verdade. É
assim a Santa Igreja.
Se é assim a Igreja, assim devemos ser nós. E,
neste século que é o século das grandes heresias sociais, nossa argúcia se deve
voltar tenazmente para o campo político, social e econômico, a fim de descobrir
ali a ação devastadora dos lobos mascarados em cordeiros.
O Espírito Santo não recusa a
graça do senso católico aos que a pedem oferecendo a Deus, em união com Maria,
uma vida casta, alimentada por preces humildes e guiada por um amor e uma
confiança, sem reservas, na Santa Igreja de Deus.
Dissemos que nosso século é o século das heresias
políticas e sociais. Ninguém poderá negá-lo. Os erros de Nestor,
Pelágio, Ario, as especulações
dos gnósticos e dos maniqueus, e até mesmo as
controvérsias da pseudo-reforma protestante, do
jansenismo e do quietismo não serão capazes, hoje em dia, de apaixonar as
massas. Todas estas heresias versam sobre assuntos por demais espirituais e
elevados para nosso século encharcado de materialismo. As massas, hoje em dia,
não são capazes de se apaixonar por qualquer heresia referente à Santíssima
Trindade ou à Encarnação do Verbo. Para empolgar e arrastar as massas, o
demônio usa hoje uma tática diferente. Insinua-se na política, na sociologia e
na economia, e, nestes terrenos diretamente ligados com a vaidade e ganância de
cada indivíduo, faz fermentar o veneno da heresia. E, como se trata de
dinheiro, de luxúria e de mando, o homem moderno se agita, se entusiasma e se
levanta em pé de guerra. É esta a tática que seguiu o demônio.
Assim sendo, nossa tática é de aceitar o combate
neste terreno em que somos atacados, e de procurar preservar as almas contra a
heresia, não apenas no terreno da filosofia e da Religião (o que nunca deixará
de ser mais essencial), mas ainda no terreno da política, da sociologia e da
economia.
Nosso século sofre de duas grandes heresias. Uma é
o comunismo, que ele herdou do século anterior. A outra é a idolatria pagã do
Estado, que encontra no nazismo sua expressão mais completa. Contra estes
inimigos, os católicos deverão empregar o melhor de sua argúcia, procurando
atentamente, nos magníficos Documentos Pontifícios contra o liberalismo, contra
o modernismo, contra o socialismo, contra o comunismo, contra o nazismo e
contra o fascismo (a magistral Encíclica “Non Abbiamo Bisogno”, que muita gente
não gosta de ler) a condenação dos princípios fundamentais de todos estes
erros. Bem conhecidos os princípios errados, bem conhecidas principalmente as
verdades que se opõem a estes princípios, o católico deverá adestrar seu
espírito na pesquisa de todas as conseqüências próximas ou remotas, diretas ou
indiretas, que tais princípios podem engendrar. Isto posto, deverá ele ter uma
idéia nítida, não apenas das opiniões que colidem com as verdades fundamentais
expostas pelos Pontífices, mas ainda das opiniões simplesmente suspeitas de
heresia. E, então, terá adquirido com o auxílio de Deus aquele senso católico
que é uma das graças que mais deve ambicionar um filho da Igreja, realmente
digno deste glorioso nome.
O senso católico será o
farol do apóstolo leigo que queira ser verdadeiramente um pastor arguto e
vigilante em união e sob as ordens da Santa Igreja de Deus. Será o senso
católico que lhe fará perceber os mais ligeiros resquícios de erro, as mais
dissimuladas manifestações do mal. E, coisa curiosa, esse senso católico que é
uma das graças que mais deve ambicionar inestimavelmente útil e nobre de perceber até nas pessoas, por meio de uma
percepção intelectiva muito subtil, muito nítida, o
hálito da impureza e da heresia.
Só os que tiverem chegado a este grau de vida
íntima com a graça serão dignamente os chefes da milícia gloriosa da Ação
Católica.
Mas esta graça penso que o Espírito Santo não a
recusa aos que, para obtê-la, ofereçam a Deus, em união com Maria, uma vida
casta, alimentada por preces humildes e guiada por um amor e uma confiança, sem
reservas, na Santa Igreja Católica.