Não sei o sentido popular da palavra “medalhão”
[como] é conhecido em todo o Brasil. O certo é que, porém, ele está largamente difundido em São Paulo, onde não
há ninguém que o ignore. Em última análise, a alcunha de
“medalhão” se aplica a todo
indivíduo cujas aparências vistosas contrastem dolorosamente com a realidade.
Certos intelectuais com mais fama do que talento, certos artistas com mais
nomeada do que virtuosidade, certos políticos com mais arrogância do que
influências, certos capitalistas com mais empáfia do que dinheiro, tudo isto,
na gíria popular, é chamado “medalhão”.
Evidentemente a palavra “medalhão” comporta
graduações, como a palavra “grã-fino”. Logo que começou a ser utilizada no
público a antipaticíssima palavra “grã-fino”,
aplicava-se ela a certos specimens
de nossa altíssima sociedade (altíssima por que riquíssima, e só por isso),
notáveis pela fidelidade com que reproduziam os modelos de Paris e de Londres. Aos poucos, a palavra se foi generalizando, e cada
indivíduo de uma determinada escala social começou a chamar “grã-fino” o outro
que pertencesse a categoria mais alta.
Este artigo foi feito para
focalizar mais um erro a ser corrigido. - Abandonemos de vez o culto dos “medalhões”.
- Nossa causa não lucra em se enfeitar com quinquilharia, e principalmente com
quinquilharia de segunda classe.
Assim, para o engraxate, grã-fino era o modesto
empregado que passava diante dele e que
dele se diferenciava tão somente por ter as mãos limpas e usar colarinho
surrado. Para o comerciário, grã-fino
era o filho de patrão... às vezes um mero almofadinha de subúrbio. Para
o filho do patrão, grã-fino era o colega de estudos que tinha um Ford 1934 ou mesmo 33. Por sua vez, o dono do Ford 34 ou 33 considera grã-fino o outro colega, que tinha
um escangalhado v.8. E assim por diante chegaríamos até aos automóveis de
primeira classe, e à autêntica fauna granfinesca de
nossos salões ricos.
Com o “medalhão”, até certo ponto deu-se o mesmo. O
conceito de medalhão, que primitivamente só se aplicava a certas altas figuras da politicagem, da literatice ou do banqueirismo, se generalizou. Para um homem do povo,
“medalhão” era o vizinho, velho funcionário aposentado que vivia de suas parcas
rendas e se dava ao luxo arrogante de comprar um charuto por semana,
insolentemente fumado na porta da farmácia mais próxima. Para o “medalhão” da
porta da farmácia, “medalhão” era o vizinho Dr. X, homem que gozava da singular
prerrogativa social de ter um título de bacharel, e até – suprema ventura! – de
ter sido íntimo do ex-senador Y ou do ex-prefeito Z,
a quem dera uma das filhas ou dos filhos como afilhado de casamento. Para o Dr.
X por sua vez, “medalhão” era o seu conhecido Dr. Z., homem que já fora político
e, como se não bastasse essa honra
olímpica, tinha no cofre algumas economias e na garagem um automóvel do velho,
velhíssimo, tipo Berliet ou Mercedes
com buzina de borracha. E assim por diante, até o autêntico medalhonismo de alto plano.
No entanto, a palavra “medalhão” não tem um sentido
tão variável quanto a palavra “grã-fino”. Qualquer cafajeste de subúrbio pode
ser chamado grã-fino hoje em dia pelos que têm menos dinheiro ou menos posição
(...) do que ele. Mas a palavra medalhão tem, a despeito de sua plasticidade,
uma constante invariável, e que se poderia até dizer inexorável: não se concebe
um “medalhão” que não seja, simultaneamente, vistoso e inútil.
E, exatamente por isto, de modo geral, o povo chama
de “medalhão” todo o indivíduo com fama feita e com valor nulo. Fixemos esta
constante, que ela nos será preciosa para entender o que se segue.
* * *
Quem conhece um pouco nosso Brasil - é provável que
os outros Países não estejam atrás - sabe perfeitamente que há umas certas
fábricas de fabricar fama, manejadas por certos elementos. Estas máquinas têm a
peculiaridade de produzir toda espécie de pseudo-notabilidades:
grandes artistas, médicos oraculares, advogados admiráveis, engenheiros
insuperáveis, músicos inexcedíveis, tudo isto pode ser facilmente fabricado
para embair o povo incauto. E estas famas assim fabricadas têm uma resistência
que zomba dos mais evidentes insucessos. O médico poderá mandar para a outra
vida seus doentes até por um simples defluxo, o advogado poderá atirar involuntariamente
à enxovia os mais inocentes dos seus clientes; o engenheiro poderá fazer ruir o
mais aparatoso dos prédios; o artista poderá infligir ao bom gosto do próximo o
mais inclemente dos tratamentos; nada disto tem importância: insultez le soleil, il brillera
quand même [insultai o
sol, ele brilhará do mesmo modo].
* * *
Para a Ação Católica , o Santo
Padre só quer valores espirituais autênticos. – Por que não estender este
critério a todas as associações?
Infelizmente, o brasileiro é um apaixonado dos “medalhões”.
Se eu acreditasse em atavismo, eu veria um prenúncio desta nossa disposição na
boa vontade com que nossos índios trocavam os mais preciosos objetos em troca
de quinquilharia ordinária que os colonizadores lhes
ofereciam. Não há país do mundo mais amigo de quinquilharia humana do que o
Brasil. Certamente, outros o igualam. Nenhum, porém, pode excedê-lo. Porque o medalhonismo
entre nós não é uma mania e nem mesmo um vício: é uma doença.
Desta mania, infelizmente, não são isentos muitos
católicos cuja formação religiosa é deficiente. Confiando, para o apostolado,
mais nos valores humanos do que nos sobrenaturais, estão sempre à procura de
algum “homem importante”, para colocar à testa de suas organizações. E,
infelizmente, indo à cata de valores humanos, em geral, ainda para cúmulo da
desgraça, se deixam impressionar por valores... inteiramente sem valor, ainda
mesmo sob o ponto de vista humano. É esta a pura realidade.
Esta atitude precisa acabar. Do contrário, teremos
sempre que lutar com o peso de certas presenças pomposas e inúteis, que servem
apenas para encher de ranço um ambiente que deveria estuar de energia e de
Vida.
Enquanto tivermos a preocupação de colocar, nans nominatas, os
Drs., os coronéis, ou os “honrados comerciantes” em posição de destaque apenas
para efeito ornamental, não poderemos caminhar com passo célere.
Por isto mesmo, é preciso insistir sempre, e sempre
com muita pertinácia, na atitude sensata que a Santa Sé prescreve quanto à Ação
Católica, e que nós devemos generalizar a todas as outras associações
religiosas: a qualidade fundamental para que alguém exerça cargos de grande
responsabilidade não é a fama mas a competência. E essa competência se mede,
antes de tudo, pela virtude e em segundo lugar pelas qualidades de chefe e pela
agudeza da inteligência e do senso prático. O que não for isto é medalhonismo,
isto é aparência vã, estagnação, e finalmente decadência.
A meu ver, a guerra ao culto dos medalhões deve ser
uma das maiores preocupações dos católicos no momento atual.
* * *
No entanto, tenho uma ressalva a fazer. Por uma
generalização muito do espírito democrático de nossa época, chegou-se ao
absurdo de equiparar aos “medalhões” certas pessoas que conquistaram merecidamente os galões do generalato, e de lançar a pecha
de incompetência a quem quer que sobressaia no meio de seus companheiros, por
longos decênios de serviços prestado à Santa Igreja, e por uma idade provecta.
Sem dúvida, é na categoria dos de idade não pequena
- digamos assim - que se recruta a maior parte dos “medalhões”. Isto, no
entanto, não quer dizer que a causa católica, ainda hoje, não encontre mais
preciosas dedicações em elementos que encaneceram no serviço da Igreja. Só
mesmo em nossa época anarquizada se veria o absurdo de considerar a idade como
uma circunstância vexatória, quando uma velhice digna é uma das mais
respeitáveis e legítimas auréolas que o homem pode ambicionar neste mundo.
Se a guerra dos “medalhões” é uma necessidade,
convém, no entanto, que ela seja feita com critério. Exterminemos o joio.
Cuidado, porém, com o trigo!