Houve leitores que julgaram conveniente que não
déssemos por definitivamente interrompida com o artigo sobre “medalhões”
a série de observações que, sobre o movimento católico em São Paulo, escrevemos
há pouco tempo.
Resolvemos, pois, retomar o assunto. Antes de fazê-lo,
porém, torna-se necessário um esclarecimento que se dirige aos leitores -
infelizmente não são poucos - que tem os nervos à flor da pele para tudo que se
relaciona com questiúnculas de amor-próprio regionalista,
individualista, ou “associativista”.
É preciso que se entenda que o “Legionário” não vai
traçar um panorama geral da vida religiosa de São Paulo. A descrição de um
panorama, para ser boa, deve abranger todos os aspectos da região analisada.
Assim, pois, seria uma injustiça flagrante para com os católicos de São Paulo
e, mais do que isto, uma ingratidão para com a Divina Providência, deixar-se de
colocar no quadro, bem na primeira plana, tudo quanto de belo e até mesmo de
admirável se faz em São Paulo pela causa da Igreja.
Desde os primórdios de nossa
História, São Paulo nunca contou com um tão numeroso, tão aguerrido e tão
disciplinado escol católico quanto hoje. Negá-lo seria a maior ingratidão para
com a Providência.
O mais recente anuário da Arquidiocese de São Paulo
registra 130.000 pessoas inscritas em nossas associações religiosas. Trata-se
de uma estatística feita com cuidado, e cujo único defeito está talvez em ter
sido baseada em dados insuficientes, pois que mais de uma associação religiosa
não enviou informações completas. A realidade, portanto, excede a cifra
magnífica que mencionamos. Verdade é que há muitas pessoas inscritas em mais de
uma associação, e que talvez tenham sido contadas 2 ou 3 vezes na estatística.
Graças a Deus, porém, as famosas pessoas que eram um cabide de opas e fitões, ao mesmo tempo Terceiros do Carmo e de São
Francisco, membros das Irmandades da Boa Morte e do SSmo. Sacramento, e, além do mais, Marianos
e Vicentinos, já se vão tornando raras. Tais pessoas
poderiam ser - talvez - ótima gente. Sem embargo disto, porém, eram péssimos Terciários, péssimos irmãos da Boa Morte e do SSmo. Sacramento, péssimos Congregados e péssimos Vicentinos. Ninguém, exceto certos Santos, tem o dom da
ubiqüidade, isto é o poder maravilhoso de estar simultaneamente presente em
lugares diversos. Logo, um indivíduo qualquer não pode, aos Domingos, estar ao
mesmo tempo presente às Missas celebradas pelas Associações múltiplas a que
pertence. Implicitamente, deixa de satisfazer seus deveres e viola os
compromissos assumidos. Como dissemos, só a certos Santos deu Deus o dom da
ubiqüidade. E não nos consta que tais Santos se tenham servido desses dons para
estarem presentes, simultaneamente, em diversas associações nas quais se
houvessem inscrito por leviandade, assumindo deveres incompatíveis com outras
obrigações já anteriormente assumidas.
Mas voltemos ao caso. Tal gente, como dissemos, é rara.
A bem dizer, já não existem pessoas que levem a miopia a ponto de pertencer a
mais de duas associações religiosas. E mesmo as que pertencem a duas são
relativamente raras, porque só há neste terreno uma dualidade admissível: é a
de quem acumula a qualidade de Confrade Vicentino com
a de Congregado, Terceiro ou membro de
qualquer outra associação ou Irmandade. Em todo o caso, para efeito de
argumentação, concedemos que haja 30.000 pessoas nestas condições. Os membros
de nossas associações religiosas serão, então, 100.000. Descontemos ainda deste
número os que não são militantes por qualquer razão (doença, obrigações
domésticas e... preguiça) e teremos, no mínimo, 60.000 pessoas militando efetivamente na vida das associações religiosas.
Isto, como dissemos, só na Arquidiocese de São Paulo, isto é, no território de
jurisdição imediata do Ex.mo Rev.mo Sr. Arcebispo, excluídas portanto as demais
Dioceses do Estado.
Nesta imensa falange, é positivo que se nota uma
florescência religiosa das mais promissoras. Penso, mesmo, que desde os
primórdios de nossa História, São Paulo nunca contou com um tão numeroso, tão
disciplinado, e tão aguerrido escol católico. Quem, como eu, milita há já 10 anos no apostolado tem tido inúmeras
oportunidades de se extasiar - não vai nesta palavra o menor exagero - diante
de manifestações de desprendimento, de abnegação, de puro amor à Santa Igreja,
de inquebrantável disciplina às Autoridades Eclesiásticas, que mais de uma vez
tenho tido a fortuna de observar. E sabem todos quanto me conhecem de perto que
não tenho uma estrutura mental que me faça confiar com excessiva facilidade, e
aceitar sem prévio exame a autenticidade de certas manifestações de piedade,
que facilmente podem embair a outros.
É mesmo tão grande meu entusiasmo e minha
satisfação pelo que me tem sido dado observar, que freqüentemente discuto com
amigos e companheiros de luta, que me taxam de otimista e de ingênuo neste
particular, e que especialmente lhes chama a atenção porque, em matéria
política e em outros assuntos, minha orientação, segundo eles, é inteiramente
outra.
Não falta quem nos prodigalize
elogios cuja sinceridade se trai às vezes pelo exagero. O que nos falta, porém,
é quem denuncie com afetuosa coragem nossas lacunas. É o que o “Legionário”
procurará fazer.
Traçando um
panorama da vida religiosa de São Paulo, eu teria que retratar todas
estas culminâncias, reproduzir todas estas luzes,
espelhar todos estes esplendores. Mas meu intuito não é este. De propósito, não
elogiei ninguém neste artigo, nem elogiarei. Quem faz apostolado não quer como
coroa, ou ao menos não deve querer, o elogio de um jornalista. É uma coroa por
demais obscura e perecível, para que possa ser ambicionada. A única coroa do
verdadeiro apóstolo está no Reino dos Céus, e só Jesus Cristo Senhor Nosso será
sua recompensa. E qualquer recompensa
que não for esta deve, pelo apóstolo, ser olhado como o prato de lentilhas que
custou a Esaú o direito de primogenitura.
Com a graça de Deus, não quero dar a quem quer que seja este prato de lentilhas,
tanto mais que é um prato pequeno, e de lentilhas bem aguadas. Só compreendo
que se elogie uma obra religiosa pela imprensa quando se quer concentrar sobre
ela os benefícios dos leitores e sua simpatia eficaz e cooperante, ou quando se
quer edificar o próximo com a descrição da obra. Ora nenhuma destas coisas vem
ao caso no momento. Calar-me-ei, pois.
Em matéria de elogio, tem especial aplicação o
famoso provérbio “calar é ouro, falar é prata”. O mesmo já não se dá em matéria
de crítica.
Em geral, as verdades mais úteis são as que indicam
lacunas a preencher. As outras, não falta quem as diga, e até quem as exagere.
Deixo aos outros, portanto, a missão agradável de adocicar com açúcar e
estimular com elogios a atividade apostólica. Para mim reservo a tarefa mais
árdua, porém não menos meritória, de condimentar, uma ou outra vez, com a
pimenta da franqueza, algumas observações que me parecem oportunas.
Começarei a fazê-lo no próximo número. É possível
que muita gente se desagrade. Mais do que possível, é natural. Pimenta arde...