Cumpramos hoje a promessa feita há
15 dias [cfr. artigo “Ressalva Preliminar”] de dizer algo sobre o movimento
católico em São Paulo. No último número, quisemos dedicar o artigo de fundo a
um assunto de atualidade que exigia um comentário positivo. Hoje, cuidaremos do
movimento católico.
Evidentemente, o
primeiro assunto que nos deve ocupar é a constituição das diretorias das
associações católicas. A diretoria é o cerne da associação. Bem constituída,
ela fará florescer o sodalício. Mal constituída, ela
abafará consciente ou inconscientemente todos os germens de vitalidade que
aparecerem, e, inevitavelmente, conterá o surto das associações de vida
interior vigorosa, e fará definhar as que tiverem seiva fraca.
Diria Monsieur de la Palisse [personagem utilizado na literatura francesa,
familiar no Brasil de então, que falava coisas óbvias] que a primeira qualidade
que se deve exigir de um Presidente de associação religiosa e de seus
companheiros de diretoria é uma compreensão larga, clara e positiva de seus
deveres. Ora, se é verdade que, em geral, os dirigentes de nossos sodalícios são de uma comprovada dedicação aos seus
deveres, força é confessar que a compreensão “larga, clara e positiva” é muito
menos freqüente do que exigiriam os interesses supremos da causa católica.
Um
dirigente que ocupa um cargo que não pode, não sabe ou não quer exercer, rouba
sua associação. E este roubo é especialmente grave porque consiste na subtração
de bens imperecíveis e eternos, que o dirigente, ao aceitar o cargo, se obrigou
implicitamente a proporcionar aos associados.
Principalmente, há três
noções que existem apenas de modo muito confuso, entre certos dirigentes de
associação:
I - O movimento
católico é uma “ação” e não uma “inação”. O que lhe é próprio é, portanto, o
dinamismo, a expansão, o desenvolvimento. As atenções das diretorias não se
deverão voltar, portanto, apenas para as questões administrativas internas, mas
também para a expansão da associação;
II - Cada associação
católica tem um fim que lhe é próprio, que ela deve realizar de acordo com os
processos que lhe são próprios, sem procurar absorver as finalidades de outras
associações, e, por outro lado, cooperando com estas associações para que
também elas preencham os seus fins;
III - O movimento
católico tem, antes de tudo, a função de formar almas dando-lhes um cunho de
profunda catolicidade. Ainda mesmo as associações de aparência meramente
beneficente tem esta função primordial e obrigatória. E, essencialmente, o
mérito de uma diretoria deve ser medido pelo zelo que desdobra em assegurar
essa formação aos seus associados.
Infelizmente, como
dizíamos, estas noções nem sempre são bem nítidas no espírito de todos os
dirigentes de associações católicas. No entanto, ninguém deveria ser escolhido
como dirigente sem ter a certeza de que está profundamente compenetrado de
todas e de cada uma destas verdades.
A primeira das
vantagens que a divulgação sistemática, metódica, insistente de tais verdades
proporcionaria seria a eliminação dos figurões inúteis. Compreender-se-ia que a
direção de uma associação religiosa não tem caráter honorifico, mas
essencialmente miliciano. Dirigir não é exibir-se, mas servir. Quem ocupa um
cargo de direção e não tem tempo, dedicação ou aptidão para servir, rouba a
associação. Rouba-a porque abusa de sua confiança. Rouba-a porque a frusta do
desenvolvimento a que teria direito. Rouba-a, enfim, porque se apropria das
discutíveis honrarias que os cargos de direção conferem, sem prestar em troca
disto os serviços que seriam necessários. Dizendo que eles roubam a associação,
empregamos uma expressão por demais fraca. Digamos a verdade inteira: eles
roubam as almas. Roubam-nas porque a associação por culpa deles não atingirá as
almas alheias ao seu seio, que jazem às vezes nas trevas à espera da Verdade.
Roubam-nas porque não dão aos próprios associados os bens espirituais que a
diretoria lhes deve. E, roubando-as, privam-nas de bens infinitamente mais
preciosos do que o dinheiro, pois que são bens eternos que proporcionam ao
homem o maior dos tesouros, que é a amizade de Deus.
* * *
Não é verdade, e bem
verdade, que se isto fosse sempre compreendido com clareza, os pobres
sacerdotes que dirigem associações religiosas não se veriam tão freqüentemente
em apuros para afastar da direção certos figurões mais ou menos rançosos e
inúteis, que se julgam com direito a todos os balandraus e às opas mais
bordadas e mais floridas, porque fazem à Igreja Católica a “honra” de se dizer
seus filhos?
Se o critério para a
eleição dos membros de associação religiosa fosse sempre este nas assembléias
dos associados, não é exato que, em São Paulo, o movimento católico teria o
dobro do que atualmente tem em intensidade, extensão e brilho?
No entanto, como se
passam as coisas de modo diverso em certas associações! Tem elas um núcleo de
“beneméritos”. São membros antigos que terão (ou não terão) prestado em outros
tempos serviços consideráveis. Por uma razão ou outra, aposentaram-se no
serviço de Deus. Já não trabalham. Já não podem trabalhar. E já não sabem
trabalhar, porque já não conhecem a época, o meio e o ambiente no qual devem
agir. No entanto, é entre esses “beneméritos”, e só entre eles, que se
distribuem todas as responsabilidades. Por ocasião das renovações das
diretorias, é sempre o mesmo grupo. O presidente passa a vice, e o vice sobe a
presidente. O tesoureiro passa a secretário, e o secretário passa a tesoureiro.
Membro novo, nenhum. A diretoria só é nova porque seus membros trocaram de fitões. Na primeira reunião da “nova” diretoria, um dos
membros propõe um voto de louvor à diretoria anterior. O voto é aceito por
unanimidade. Convocam-se os associados para uma reunião geral. Dos 100 ou 150
sócios, comparecem 20 ou 30. Lê-se um relatório massudo, que ninguém escuta. O
relatório é aprovado. O “déficit” da caixa é eliminado por algum ricaço que tem
a bondade de ser amigo do primo do tesoureiro ou do presidente, e que, quando muito
instado, abre às vezes um pouco a bolsa. Depois, tudo continua como dantes, e a
poeira continua a se sedimentar sobre os bancos da sala de reuniões, até a
sessão geral do ano que vem. Os papéis vão se tornando amarelos. Os dirigentes
vão se tornando enrugados. Tudo fenece.
E isto é vida? Isto é
movimento? Isto é ação?