Podemos retomar, hoje, o fio já tantas vezes
interrompido de nossas reflexões sobre lacunas do apostolado leigo em São
Paulo.
Conquanto possamos parecer maçantes, não nos
furtaremos ao dever de insistir sobre a questão da formação dos dirigentes. Em
rigor, o assunto é tão complexo que nem sequer poderia ser tratado em artigos
de jornal, a não ser que esses artigos servissem simplesmente de indicações
sumárias para estudos ulteriores. Infelizmente, porém, tenho certeza de que os
“estudos ulteriores” ficarão, na maior parte dos leitores, congelados no estado
de mera veleidade. Tanto quanto possível, portanto, procurarei abordar no
próprio “Legionário” os pontos principais.
Entremos diretamente no assunto.
Em meu artigo anterior, disse que o principal dever
de um dirigente consiste em conhecer os fins de sua associação. É uma verdade
evidente. S. Tomás de Aquino disse que
as coisas são perfeitas na medida em que realizam seu fim. Assim, por exemplo,
um relógio será tanto mais perfeito quanto maior for sua pontualidade no marcar
as horas, uma arma de guerra será tanto mais perfeita quanto mais mortífera, e
um remédio tanto mais perfeito quanto mais salutar.
Como conseqüência, uma associação
religiosa será tanto mais perfeita quanto melhor preencher seus fins. E os
dirigentes da associação deverão ter, desses fins, uma idéia clara, positiva,
meticulosa.
* * *
O primeiro fim de toda e
qualquer associação religiosa é a santificação de seus membros. O segundo, deve
ser a santificação do próximo.
Uma sociedade que não realiza seus fins é uma sociedade cujo
funcionamento é anormal e imperfeito.
Um dirigente que não conheça os fins da sociedade não é capaz de reconduzí-la à normalidade. Ele é, pois, um dirigente
incapaz de dirigir, um piloto que não conhece o mar, um capitão que não sabe
guerrear.
E quando, em virtude disto, a associação se esfarelar e se esboroar
nas suas mãos, ele ainda clamará contra a corrupção do século, como se fosse esta
a única causa de seu fracasso!
Certamente o século é corrupto. Mas a Igreja é santificadora,
e não há quem lhe possa resistir!
Aparentemente, há associações que
fogem a esta regra, como certos sodalícios destinados
diretamente à beneficência, à distribuição de víveres a indigentes, à confecção
de roupas para pobres, etc. Há, também, associações que se destinam a uma
finalidade tão especial que parecem também estar fora da regra geral que
enunciamos. Há, por exemplo, associações destinadas a angariar fundos para
certas despesas do culto, como azeite, velas, etc. Outras se destinam a prover
as Igrejas de paramentos adequados. Outras, finalmente, cuidam especialmente do
provimento de flores.
É um erro supor que mesmo essas associações não tem
como finalidade a santificação de seus membros. Em breve, veremos a razão
disto.
Nosso Senhor Jesus Cristo instituiu a Santa Igreja
Católica para que esta pregasse a Verdade e distribuísse os Sacramentos pelo
mundo inteiro para a santificação dos fiéis e a conversão dos infiéis.
Certamente, como adverte Leão XIII, a Igreja, na exuberância de sua ação benfazeja, pode,
freqüentemente, proporcionar à humanidade até mesmo as vantagens temporais as
mais apreciáveis. Não é esta, no entanto, a razão de ser da Igreja. Ela foi
instituída para dar glória a Deus por meio da santificação de seus membros e da
conversão dos infiéis, chamados por sua vez, dentro de seu grêmio bendito, a
galgar os degraus luminosos da santidade.
O que se entende aí por “santificação”? Sem entrar
no domínio das altas cogitações teológicas, digamos simplesmente que a pessoa
atinge a santidade quando chega à plenitude do amor de Deus de que é capaz, e
implicitamente do amor do próximo. Este amor se traduz na ordem dos fatos pelo
cumprimento pleno dos preceitos e conselhos do Santo Evangelho.
Se, portanto, todos nós fomos chamados por Deus à
Santa Igreja Católica, foi para nos santificarmos. Mas como nossa santificação
implica no amor do próximo por amor de Deus, devemos fazer bem ao próximo. E
como o maior bem que lhe possamos fazer é concorrer para a sua santificação,
devemos antes de tudo cuidar de cooperar com nosso próximo, a fim de que ele se
santifique.
Se o fim da Igreja e de nossa participação em sua
vida sobrenatural é esse, é óbvio que as associações religiosas, que existem
para facilitar a obra da Igreja, tem o mesmo fim.
Uma associação religiosa só pode, pois, ter por fim
a santificação de seus membros, e a procura de novos membros para santificar.
* * *
E uma associação de mera beneficência? Uma
associação, por exemplo, na paróquia X, que só cuide, p. ex., da obtenção de
remédios para crianças indigentes?
A resposta é simples. Tais associações estão
perfeitamente dentro do espírito da Igreja, mas é preciso que elas sejam
vividas e compreendidas como a Igreja quer.
O amor ao próximo nos leva a desejar principalmente
sua santificação. Mas “principalmente” não significa “exclusivamente”. É
muitíssimo louvável e justo que se procure também confortar o próximo em seus
padecimentos ou dificuldades materiais, ainda mesmo que o resultado concreto de
nossa ação seja exclusivamente o de aliviar suas dores. As associações
beneficentes são, pois, muitíssimo conformes ao espírito da Igreja.
No entanto, como o católico deve amar o seu próximo
por amor de Deus, cada ato de amor ao próximo, feito em tais associações, para
ter seu pleno mérito, deve ser também um ato de amor de Deus. É precisamente aí
que o ato de beneficência encontra a inteireza de seu valor sobrenatural.
Por outro lado, todas as ações do católico devem
tender à sua santificação. Não se compreende, pois, que um católico desperdice
uma ação tão santa como seja a beneficência, e que não coloque na sua raiz o
amor de Deus, que o santifica a ele próprio, e santifica também seus semelhantes.
Um católico que, fazendo bem ao seu próximo, o faz
como faria um ateu, isto é, o faz como se Deus não existisse, é uma perfeita
aberração.
Por outro lado, cumpre acrescentar que, sempre que
possível, as associações de mera beneficência material devem estender seus
proveitos à beneficência espiritual. Em outros termos, distribuindo remédio e
alimento para o corpo, não devem perder uma única oportunidade para distribuir
remédio e alimento para a alma.
Abordaremos ainda, mais de perto, esta última
questão. De passagem, digamos agora somente o seguinte: se a alma vale mais do
que o corpo (e qual o católico que possa não estar profundamente convicto
disto), mais vale curar a moléstia da alma, que é o pecado, do que a moléstia
do corpo, que é a doença. Portanto seria absurdo levar-se um benefício material
a alguém, deixando passar a oportunidade de um socorro espiritual.
Entenda-se bem o que dizemos aqui. Não queremos
afirmar que todas as associações de beneficência devem ter obrigatoriamente o
caráter de associações de apostolado direto sobre a pessoa beneficiada. Muitas
vezes, é a própria prudência que impõe o contrário.
Não há, porém, um único católico ou uma única
associação que, podendo promover a salvação de uma alma, não deva fazê-lo.
* * *
Preenchido o espaço de que dispúnhamos, verificamos
que nem sequer chegamos às aplicações práticas. Os princípios, entretanto, aí
ficam. Vejamos mais tarde, de que modo são aplicados.