Simultaneamente com o tumulto causado pela tensão germano-tcheca, produziram-se dois fatos importantes e que
não provocaram a atenção do grande público, muito preocupado pelo exorbitante expansionismo alemão.
O primeiro foi o reatamento das relações
diplomáticas entre a Alemanha e a Rússia, que vinham sendo muito regulares e que se tornaram normais.
Moscou tem hoje o seu embaixador ariano, assim como Berlim o seu embaixador
russo.
O segundo acontecimento que deve ser notado é este:
está próxima de seu fim a prolongação do famoso tratado de Rapallo, concluído em 1922 entre a Alemanha e a Rússia. Será
possível estabelecer relações entre estes dois fatos? Parece-nos que sim e
vamos mostrar porque.
Em 1922, durante a conferência de Rapallo, os representantes das outras potências foram
surpreendidos pelo fato de a Alemanha aproveitar a ocasião a fim de concluir um
tratado com a Rússia. Por esse tratado as duas nações renunciaram
definitivamente a todas as demandas de reparação de guerra e se comprometeram a
seguir uma política que excluísse toda a possibilidade de guerra. Esse tratado
foi concluído por 5 anos e renovado em 1927.
Quando Hitler subiu ao poder, em
janeiro de 1933, um de seus primeiros gestos foi de renovar o mesmo tratado, se
bem que ele tivesse anunciado uma luta feroz contra o bolchevismo. Ele recebeu
solenemente o embaixador russo Tchinchuk (...) e prolongou o
tratado por mais cinco anos.
Algumas passagens desse documento são muito
interessantes, como por exemplo, o preâmbulo, no qual se diz que os governos
alemão e soviético estão convencidos que “os seus interesses mútuos exigem uma
colaboração confidencial e estão decididos a consolidar suas relações de
amizade”. O artigo 1º precisa que os dois governos permanecerão em contato
amistoso para tornar possível uma compreensão mútua de seus problemas políticos
e sociais. O artigo 2º estabelece que se uma das partes, apesar de sua atitude
pacífica, for atacada por outra potência, a outra parte deverá se manter de
modo neutro durante todo o conflito. Também nenhuma das partes deverá
participar de um boycott
econômico que porventura for organizado contra a outra.
Seu titular, Adolf Hitler confirmou essas
disposições e ratificou a prolongação do tratado por mais cinco anos, isto é,
até 1938. O momento do fim se aproxima e é lícito perguntar: será ainda uma vez
renovado?
A decisão de reatar as relações diplomáticas com a
Rússia projeta uma certa luz sobre o estado de espírito do governo alemão e não
será de estranhar que o tratado seja prolongado. Porque a verdade é esta: se
bem que Hitler pregue contra o comunismo e se apresente como
defensor da civilização européia contra esse mal, sua atitude em relação ao
governo soviético difere fundamentalmente dessa propaganda e, apesar de todos
os seus discursos inflamados, ele tem feito muitas ofertas interessadas e
amistosas a Moscou.
Sobre o número destas não queremos insistir, pois
são por demais conhecidas por aqueles que se interessam um pouco pelo panorama
internacional.
Basta citar a de Abril de 1936, aceita pela Rússia e que forneceu a
esta um crédito de 200 milhões de marcos pagáveis em cinco anos.
E é espantoso que o mesmo homem que declarou ser “o
aumento do exército russo um sério perigo para a paz", ofereça
continuamente grandes somas que ele sabe vão ser aplicadas em grande parte na
intensificação desse mesmo exército!...
Como também não se explica a insistência da
Alemanha contra os tratados franco-russo e tcheco-russo, quando ela mesmo renova os seus com a Rússia,
entra em negociações com esta e regulariza suas relações diplomáticas com
Moscou...
Qual o pensamento de Hitler? Só os iniciados no nacional-socialismo
poderão talvez responder...