Dos artigos
que tenho escrito ultimamente, creio que nenhum é mais delicado do que o
de hoje. Por isto mesmo, antes de entrar
na matéria, quero fixar alguns princípios capazes de evitar qualquer dúvida
sobre o que vou dizer.
Em uma semana mariana
realizada na Paróquia de Santa Cecília há algum tempo,
tive ocasião de expor as mesmas considerações que hoje publico. De lá para cá -
já há 2 ou 3 anos disto - minhas observações não fizeram senão confirmar, com o
contato diário e a observação meticulosa de muitos fatos, o ponto de vista que
então externei. Limitar-me-ei, pois, a coordenar aqui o que já disse naquela
ocasião.
* * *
Segundo a doutrina católica, a santificação do
homem deve resultar da cooperação de dois elementos, a graça e a vontade.
A graça é um auxilio
sobrenatural que Deus dá ao homem, iluminando sua inteligência e fortificando
sua vontade a fim de que ele possa ver claramente a Verdade e praticar o Bem. É
ponto fundamental da doutrina católica que, sem o auxílio da graça, o homem é
inteiramente impotente, na ordem sobrenatural, não sendo sequer capaz de
invocar com piedade o nome de Jesus.
Os Sacramentos que Nosso Senhor Jesus Cristo
instituiu na Santa Igreja Católica e a
oração são os meios pelos quais o fiel
pode receber essa graça que é condição de sua salvação eterna, tornando com
ela onipotente a incapacidade de sua
vontade débil, e clarividente a cegueira de sua inteligência falha.
Há, portanto, um orgulho insuportável em qualquer erro doutrinário que vise negar à
graça divina a menor parcela do papel preponderante que ela ocupa na
santificação individual. Tal erro implica em ver no homem uma força de que ele
é incapaz, lisonjeando seu orgulho e diminuindo criminosamente a ação de Deus.
Como corolário, é simplesmente abominável o erro
dos que quereriam difundir entre os católicos - graças a Deus, este erro está,
aliás, muito pouco difundido - uma formação espiritualista, na qual o
adestramento da vontade por processos muito parecidos com os da protestantíssima Associação Cristã de Moços ocupasse o primeiro
lugar, ficando reduzida para segundo plano, como coisa de somenos importância,
a freqüência dos Sacramentos, a prática da oração e toda a vida de piedade em
geral.
Há tanto veneno neste erro, tanto orgulho, uma tão
pronunciada infiltração de princípios diametralmente opostos ao espírito da
Igreja, que nem sequer nos deteremos em lhe dar refutação.
* * *
Se pusemos em evidência a formal condenação em que esse erro deve ser tido por parte dos
católicos, foi para que, nas linhas a seguir, ninguém supusesse que nutrimos
para com ele a menor complacência. O amor à verdade nos leva, porém, a apontar
os efeitos funestos de uma situação decorrente de um erro oposto a este que
apontamos. É o que procuraremos fazer.
“Aquele que te criou sem o teu concurso não te
salvará sem tua cooperação”, dizia Santo Agostinho, dirigindo-se aos fiéis.
Realmente, se é verdade fundamental da doutrina
católica a incapacidade total do homem sem a graça, não é menos verdade por
isto que a doutrina católica afirma a necessidade da cooperação humana com a
graça, para que seja efetiva a santificação. E quem negasse a necessidade de
tal cooperação incidiria irremediavelmente em heresia.
A vida espiritual não pode, pois, limitar-se à recepção
dos Sacramentos e à prática da oração. Por meio dos Sacramentos e da oração, o
homem adquire as luzes e as energias necessárias para a prática do bem e o
combate às suas más inclinações. Munido destes recursos, é necessário que o
homem deles se utilize efetivamente, por um trabalho muitas vezes lento e
penoso, em que sua inteligência e a sua vontade devem cooperar arduamente para
aumentar o amor à virtude, aperfeiçoar-se na sua prática, e vencer as más
inclinações e as tentações a que todos estamos sujeitos.
Uma alma que sinta em si a fraqueza resultante do pecado original e a ação muitas vezes impetuosa das tentações, não se pode dispensar deste trabalho penoso. Seria inútil, para ela, cifrar-se à recepção dos Sacramentos, se sua vontade não desferisse contra as más inclinações um combate cerrado e intransigente.
“Em tudo que fizerdes, eis a regra
das regras a seguir: confiai em Deus, agindo entretanto como se o êxito de cada
ação dependesse unicamente de vós e não
de Deus; mas empregando assim vossos esforços para esse bom resultado, não
conteis com eles, e procedei como se tudo fosse feito por Deus e nada por vós.”
Santo Inácio de Loyola.
Exemplifiquemos, para maior clareza.
Em um século cujo ambiente intelectual está
infestado pelas doutrinas as mais heréticas, que muitas vezes se apresentam sob
forma subtil e inocente, o católico deve desenvolver um trabalho interior intensíssimo, no sentido de conservar virginalmente
incorrupta de qualquer erro sua inteligência. Ele será realmente católico na
medida em que esse trabalho interior for, nele, bem sucedido. Mas, para isto, é
preciso antes de tudo que ele estude e conheça bem a doutrina da Igreja. E, em
segundo lugar, que por uma vigilância constante, evite de dar sua adesão
intelectual a toda e qualquer doutrina oposta a da Igreja ou simplesmente a ela
suspeita.
Em terceiro lugar, deve o católico fazer toda uma
educação de seus sentimentos, seus costumes, e suas inclinações. Quem tem um
pouco de prática de vida espiritual sabe o que isto significa de esforços e até
de violências sobre si mesmo. É necessária uma vigilância indefectível e
atentíssima, uma análise penetrante de todos os atos, a fuga intransigente das ocasiões de pecado,
para combater o mal. E, além disto, há o trabalho positivo de aumentar o amor
do bem pela leitura, pela observação
atenta de todos os exemplos edificantes, por toda uma série de esforços enfim,
que tendem a levar a vontade a se conformar em tudo com a santíssima vontade de
Deus, e, portanto, com os Mandamentos de Deus e da Igreja.
Claro está - volto a insistir neste particular -
que é temeridade estulta e ridícula pretender alguém realizar este trabalho
dissociando-o da vida da graça, haurida na oração e nos Sacramentos. Pelo
contrário, quanto mais íntima e intensa for a vida da graça, quanto mais
assídua e perfeita a recepção dos Sacramentos, tanto mais perfeito será este
trabalho que, sem o auxílio da graça, será de todo em todo impossível.
No entanto, cumpre não esquecer que há aí uma parte
da cooperação da vontade, e que, sempre que esta cooperação for omitida na
formação espiritual, há os maiores desastres a recear.
* * *
Qual a fisionomia espiritual de um homem que,
vivendo intimamente unido a Nosso Senhor Sacramentado e a sua Mãe Santíssima,
realize com seu favor e proteção este trabalho interior? Bastará olhar para
qualquer Santo, e ter-se-á a resposta. De um lado, uma doçura celeste,
triunfando humildemente no coração do Santo sobre as investidas, finalmente
domadas, do orgulho, da ira, e de todas as paixões a que o homem está sujeito.
De outro lado, completando esta doçura, uma energia invencível, um caráter
varonilmente forte, uma vontade mais inflexível que o aço, toda ela posta a
serviço do amor de Deus e do próximo. São assim os Santos.
Sem atingir o esplendor desta plenitude espiritual,
poderiam ser assim as almas de todos os católicos de vida realmente interior.
Enérgicos e varonis, mas cheios de suavidade; mortificados e desprendidos, mas
vibrantes de santa alegria; acolhedores e afáveis, mas estuantes de santa
combatividade.
* * *
Infelizmente, porém, digamo-lo com franqueza afetuosa,
os leigos que se encontram à testa das associações religiosas se esquecem com
demais freqüência de abrir estes horizontes para seus consócios.
É muito freqüente, graças a Deus, um dirigente de
associação religiosa que estimule a seus companheiros à Comunhão assídua, à
oração e a outros atos de piedade. Já dissemos como isto é magnificamente
louvável.
Mas será igualmente freqüente o membro de diretoria
de associação religiosa que estimule os associados a leituras espirituais
realmente úteis, boas e proporcionadas aos problemas morais relacionados com
seu estado e profissão? Quantas, por ano, as reuniões na associação X, Y ou Z,
destinadas a explanar problemas morais atuais e palpitantes, ou a persuadir os
sócios de estudarem seriamente seu Catecismo? Não é verdade que são pouco
freqüentes, muitas vezes, tais reuniões?
E fazendo agora uma indagação dolorosa, mas
indispensável, pergunto: não residirá nisto a causa de muita defecção súbita e
inexplicável, de muita deserção que faz
sangrar a fundo o coração de um Presidente zeloso?
Entra-se em uma sala de reunião. O presidente
perora. Trata de questiúnculas burocráticas ou
de política. Ou, então, trata de piedade ou vida espiritual. Mas de tão
alta piedade, ou questões de vida espiritual tão superior, que boa parte dos
ouvintes não o entende. Enquanto isto, o moço X, ou a moça Y, ou Mme. Z, que é casada e luta com as mais sérias
dificuldades, fingem ouvir, por mera cortesia, mas não ouvem. Seu espírito está
longe do que se passa na reunião. O moço tem algum grave problema moral que o
agita. É sua pureza que periclita. A moça tem suas perplexidades
às vezes dramáticas, sobre alguma situação moral que não sabe resolver. A
senhora casada encontra-se em alguma daquelas encruzilhadas em que é preciso
escolher entre a vida da alma ou a do corpo. Para estas pessoas, é a salvação
eterna que está em jogo.
Mas a reunião continua indiferente a tudo isto...
Oficialmente, dir-se-ia que a associação ignora tais problemas. Por isto, o
moço X, a moça Y ou a Sra. Z os resolverão sem o apoio dos ensinamentos
ministrados na associação.
Um belo dia, não comparecem mais à reunião... é o epilogo doloroso que fará sangrar muitos corações bem intencionados na associação. Corações bem intencionados, sim, mas que não compreenderam a gravidade do drama que se desenrolava ao seu lado e, por isto, não souberam, perante este drama, cumprir sua missão.
[faltam as últimas
linhas]