Não faltam, infelizmente, nos meios católicos como
em todos os outros meios, os pessimistas incuráveis, que se esforçam por ver
tudo com cores carregadas, prognosticando, com os braços cruzados, o insucesso
das iniciativas de todos aqueles que procuram trabalhar pela Santa Igreja de
Deus. Este estado de espírito é, muitas vezes, tão intenso que chega aos
limites da patologia. Só uma cura metódica e cuidadosa pode, realmente,
restituir-lhes, com um realismo sadio, o desejo de trabalhar e de cooperar com
os seus irmãos na Fé, em lugar de resmungar esterilmente
sobre dificuldades que muitas vezes nada tem de terrível.
A espíritos que sintam em si a
tentação negra do pessimismo, recomenda-se como excelente método de cura, a
freqüência às reuniões joviais e eficientes que a Ação Católica promove
mensalmente, na Cúria Metropolitana.
Nada se pode imaginar de mais diferente de certas
reuniões que o “Legionário” descreveu em recentes artigos de fundo, do que as
reuniões da Ação Católica.
Sua primeira característica é a ausência de “medalhonismo”. Não há figurões. A disciplina é rígida e
real. Mas tem o condão de não “medalhonisar” os que
mandam, e de mover eficientemente os que obedecem.
Aliás, qualquer “medalhonismo”
seria impossível no ambiente de jovialidade ponderada e sadia que ali reina.
Não existe ali formalismo, conquanto exista muita ordem e muito daquilo que os
franceses chamam “rang”. Quem comparecesse a essas
reuniões munido de formalismo estéril das frases ocas faria o papel ridículo de
quem de casaca fosse participar de uma reunião familiar e estritamente íntima.
E, no entanto, todos os detalhes da reunião indicam a existência de uma
hierarquia forte e ativa, que detém, dentro da organização, uma autoridade
estimada e obedecida.
* * *
O traço mais característico dessa jovialidade
construtiva transparece na narração de alguns revezes, aliás inevitáveis, com
que a Ação Católica tem tido de lutar.
A Juventude Católica Feminina empreendeu a
construção de uma sede. A história dessa sede é a história de muitas das
iniciativas que dependem de algum dinheiro. A princípio, muito entusiasmo e
portanto muitos proveitos. Depois o entusiasmo foi diminuindo e o dinheiro
minguando.
Depois, o entusiasmo [chega ?] à fase aguda em que
o empreendimento começa a parecer inviável a alguns - os que menos trabalham,
em geral - e os autores da iniciativa começam a ser recriminados.
A essa altura, o que faria muita associação? Ou se
entregaria ao esforço estéril das dissenções íntimas,
ou deixaria indefinidamente suspensas as obras, imprimindo a respeito, em seu
relatório do fim do ano, alguma frase oca e sonora, tão oca e tão sonora quanto
seus cofres vazios: “as obras de nossa casa continuam no andamento compatível
com as dificuldades impostas pela crise”; ou então “não se descurou a atual
Diretoria das obras da sede da associação que continuam a caminhar
normalmente”. Normalmente como? Com o passo do caranguejo...
Foi outra a orientação da Juventude Feminina. Nem
desânimo, nem recriminação, nem pessimismo. Mas cantos joviais, sob a forma de
“confissões” alegres. Em diversas poesias ligeiras, acompanhadas ao piano,
jovens cantoras diagnosticaram com fina malícia as causas da dificuldade em que
se encontravam. Foram mesmo distribuídas algumas carapuças. Mas tão leves, que
pareciam de papel de seda... conquanto
entrassem inteirinhas, fazendo rir no entanto, e
muito gostosamente, todas as “vítimas”. O que o mais inexplorável dos realistas
diria disseram-no as cantoras. Mas com tanta leveza, com tanta graça, e
sobretudo com tanto espírito construtivo, que o pessimismo nem sequer
transpareceu, e o auditório só ouviu admoestações úteis, e cheias de encanto. O
resultado não se fez esperar: as atividades em prol da coleta de fundos
continuam mais intensas do que antes, e, se Deus quiser, não levará muito tempo
para que a sede esteja construída.
Outra praxe digna de nota pelo que significa é a
evocação dos representantes dos diversos setores, para que contem os progressos
feitos durante o mês.
Cada qual fala com concisão maior do que o outro.
Mas concisão substanciosa que resume, dentro da modéstia de um estilo quase
telegráfico, resultados concretos e muitas vezes notáveis. Novos setores
fundados, recepção de novos membros, inauguração de campanhas de vulto, tudo se
diz, tudo se conta, tudo se narra com aquela brevidade que é uma marca
característica da despretensão e um atrativo insubstituível em todas as
reuniões.
Qual o espírito dessa praxe? A Ação Católica é essencialmente
orgânica. E seus setores devem, pois, nutrir um mútuo interesse por tudo quanto
fazem. E o mais novo dos jocistas do mais distante
dos bairros da Arquidiocese deve sentir entusiasmo pelo que faz a JUC ou JIC,
assim como o mais atarefado dos dirigentes da JIC, JUC, JEC, da Liga Feminina
ou dos Homens da Ação Católica deve sentir entusiasmo por qualquer vitória dos
mais novo e do menos conhecido dos núcleos JOCISTAS. Por isto, para satisfazer
a curiosidade afetuosa dos outros setores e só por isto, é que cada Presidente
narra o que realizaram seus dirigidos. E para isto poucas palavras bastam.
* * *
Vem por fim a palavra de ordem da Autoridade
Eclesiástica. Seria de se ver o respeito carinhoso com que é ouvida. Nota-se
que S. Ex.a Rev.ma o Sr. Bispo Auxiliar se sente perfeitamente “em casa”. Sua
palavra corre animada, fluente e despreocupada. Fala como a filhos a quem pode
livremente comunicar todas as suas decisões na certeza de ser obedecido sem
rebuços nem resmungos. Pelo contrário, sabe que será
obedecido sem tergiversações, e que, por isto, pode dizer direta, clara e
positivamente o que deseja.
E a reunião se encerra dentro de um ambiente de
entusiasmo e de cordialidade.
* * *
Um último detalhe que é altamente confortador é
verificar-se a cooperação efetiva que as associações auxiliares da Ação
Católica vem prestando a esta última. Presidentes de Congregações, membros de
Diretorias etc., já tão onerados com suas ocupações habituais, vem à reunião da
Ação Católica, à qual pertencem para cooperar com esta, na qual vêem com razão
a “menina dos olhos” do Santo Padre. A própria Presidente da Federação Mariana Feminina estava ali presente. Bem se vê que a
admirável capacidade formadora das Congregações e das Pias Uniões está
produzindo seus frutos, e que a obra ingente de verdadeiros heróis do
apostolado como o Rev.mo Pe. Cursino de Moura, e o Pe.
Eduardo Roberto atinge uma
extraordinária eficiência, para a maior glória de Deus e exaltação da Santa
Igreja.
E o Exército Azul de Nossa Senhora, que tem sido a
ufania e a esperança do Brasil, cumpre mais essa missão verdadeiramente
providencial de fornecer à Ação Católica muitos dos de quase todos os elementos
de que esta se compõe.