Normalmente, no “Legionário”, o artigo de fundo
deve ocupar-se com questões nacionais. Entretanto, as transformações que sofreu
o mundo em virtude do acordo de Munich, e sobretudo as ulteriores transformações porque ele
passará, são tão importantes e tão profundas, que não podem deixar de absorver,
no momento, toda a atenção de um público esclarecido. Por isto, o “Legionário”
julga atender ao desejo de seus leitores, tratando, ainda neste número, no seu
artigo de fundo, de questões internacionais.
* * *
Em nosso último número, tivemos ocasião de acentuar
a influência possível que exercerá na política interna da Inglaterra, França,
Alemanha e Itália, a aliança quádrupla esboçada em seguida à histórica
conferência de Munich. Com a imparcialidade que
caracteriza esta folha, mostramos as perspectivas risonhas e as nuvens sombrias
que cercam o panorama criado pela conferência de Munich.
De propósito deixamos para outro artigo a verificação de um fato de capital
importância, que terá enchido de gáudio os elementos anticomunistas e de
apreensões os partidários das rubras “frentes populares”.
Realmente, a principal ou ao menos uma das
principais conseqüências do acordo de Munich foi a
expulsão da Rússia do cenário político
europeu.
Este fato tem ao mesmo tempo dois significados. De
um lado, significa o afastamento, dos negócios da Europa Central e Ocidental,
de uma grande potência européia e asiática. De outro lado, implica no ocaso da
influência comunista no mundo inteiro. Vejamos como isto se demonstra.
* * *
Pode-se afirmar que a Rússia só começou a exercer
um papel de certo relevo na vida política da Europa nas guerras napoleônicas. Anteriormente a isto, o grande império
moscovita levava uma vida inteiramente isolada, separado como estava da
comunhão européia, por sua situação geográfica, seus interesses materiais e sua
posição religiosa.
Religiosamente, a Rússia cismática se isolou do
resto da Cristandade pela formação de uma igreja nacional que a separou da
comunhão romana na qual vivia toda a Europa medieval.
Geograficamente, a Rússia só tinha fronteiras
européias com povos de importância secundária, ou seja a longínqua Polônia, a
Hungria ainda então envolta em mistério, e os Balcãs escravizados pelos
muçulmanos. Nenhuma questão de importância a ligava a qualquer potência
ocidental do continente.
Por outro lado, seus interesses não exigiam
qualquer intercâmbio com a Europa. Dotada de imensas riquezas naturais com as
quais bastava a suas próprias necessidades, a Rússia não se interessava em
manter contato como o Ocidente. Pedro o Grande e a famosa Catarina procuraram ligar-se
mais à Europa. Mas fizeram-no por um interesse meramente cultural, sem, com
isto, envolver diretamente a Rússia na política européia.
Com Napoleão, a situação se alterou. Ao lado da Inglaterra e da Áustria, a Rússia, que inundou a Europa com seus cossacos,
apareceu como um fator primordial para o esmagamento do Corso. Daí lhe adveio
uma influência colossal, tornada tanto mais notável quanto o eixo de gravidade
do mundo germânico se ia deslocando de Viena para Berlim, colocando a Rússia na possibilidade de atingir
diretamente a Prússia, e de, com isto, ser
preciosíssima aliada da França. Quando a capital do mundo germânico era Viena,
estava este ao abrigo das investidas russas. Quando Berlim se transformou em
metrópole pan-germânica, a Rússia passou a ter
importância vital para a França, e daí por diante, até a guerra de 1914, sua atuação na
política européia foi constante e decisiva.
No fundo, todo o segredo da influência russa estava
na ruptura entre a Alemanha e a França. O acordo de Munich,
retirando a causa da influência, fez cessar implicitamente o poderio eslavo. E,
como conseqüência, a Rússia se viu, já naquela conferência, excluída da
política internacional européia.
* * *
Com o acordo de Munich, é a era do diabolismo ateu e anárquico que expira,
é a um crepúsculo dos demônios que se assiste, análogo ao inexorável crepúsculo
dos deuses da epopéia wagneriana.
Enquanto isto uma era nova parece
raiar para a Europa. A era dos deuses wagnerianos ressuscitados do seu sono
antigo. Veremos em outro artigo, como ao crepúsculo dos demônios parece
suceder-se a aurora dos deuses.
Implica isto em afirmar que a III Internacional viu
estourar na conferência de Munich, como uma
inofensiva bolha de sabão, a formidável influência diplomática da Rússia, de
que o comunismo se servia, evidentemente, como arma para a propaganda de suas
doutrinas.
Em todos os discursos proferidos pelos políticos
mais eminentes da Inglaterra, Alemanha, França, e Itália, fala-se em um
reajustamento internacional para evitar a guerra. Esse reajustamento se faria
sobretudo entre os quatro mencionados países, comportando a eliminação de todas
as questões que os dividiam quanto ao Mediterrâneo, a Espanha, as colônias,
etc. No entanto, nenhuma palavra é pronunciada sobre a interferência da Rússia
em tais acordos. O mapa político da Europa Central e Ocidental será remodelado
como se a Rússia não existisse. Praticamente, o acordo de Munich
expulsou a Rússia da Europa.
Evidentemente, o fato desagradou do modo mais vivo
todos os políticos de colorido vermelho, da França e da Inglaterra. Por isto,
as oposições parlamentares desses países investiram,
de lança em riste, contra os Srs. Chamberlain e Daladier. No entanto, o Parlamento Inglês e seu congênere
francês resolveram rejeitar por maioria esmagadora os argumentos das esquerdas.
E, com isto, a impotência política dos partidos comunistas da Inglaterra e da
França se atestou com uma clareza iniludível.
Praticamente, se o acordo de Munich
expulsou a Rússia da política européia, a ratificação de tal acordo pelos
parlamentos inglês e francês demonstra que muito antes dessa expulsão oficial e
diplomática, o comunismo tinha sido repudiado da França e da Inglaterra pela
opinião pública na qual já não encontrava raízes.
Há pouco tempo ainda não havia quem não
considerasse com apreensão os progressos do “Front Populaire” na França e a fermentação comunista que lavrava
nas fileiras do “Labour Party”,
na Inglaterra. Hoje em dia, tal fermentação cessou inteiramente e, graças a
Deus, o recuo comunista foi tão extenso que, praticamente, não conseguiram eles
impressionar qualquer parcela da opinião pública em benefício da política
fracassada de Stalin e de Litvinoff.
* * *
Houve quem comparasse, com muita exatidão, a III
Internacional como o quartel general dos poderes das trevas, no século XX. Se Joseph de Maistre disse com razão que
a Revolução Francesa foi satânica,
pode-se dizer com maior razão que a guerra de classes promovida pelo comunismo
internacional é a explosão universal daquilo que, na Revolução havia de mais
caracteristicamente diabólico.
A III Internacional é, pois, o foco pestilencial do
qual emanam para o mundo inteiro as palavras de ordem do programa diabólico da
destruição completa de toda a crença e de toda a sociedade, e da construção de
um mundo novo, baseado no ateísmo e na anarquia. Foi da sede da III
Internacional que partiram como anjos do mal os emissários que atearam o
incêndio da revolução social no mundo inteiro. Foi lá que os morticínios
criminosos, as profanações satânicas, os atentados pérfidos se planejaram, e de
lá partiram as ordens para que eles se executassem. Os espíritos malignos que
infestam a terra tinham na Moscou de post-guerra seu
“rendez-vous” [ponto de encontro] predileto.
Hoje, no entanto, um ambiente crepuscular cerca o
quartel general de Satanás instalado no Kremlin. No mundo inteiro, os partidos comunistas decaem. Não se
ouve mais falar em greves, nem em reivindicações proletárias, nem mesmo em
propagandas comunistas. As fogueiras da Espanha e da China crepitam ainda. Mas
são brasas de um incêndio em decadência. Mais cedo ou mais tarde, estarão
reduzidas a cinzas frias e inofensivas.
O acordo de Munich
assinalou, incontestavelmente, o crepúsculo dos demônios de Moscou. É a era do
diabolismo ateu e anárquico que expira lentamente, como na epopéia wagneriana
expirava em lento e inexorável crepúsculo a era das divindades germânicas.
Enquanto isto, uma era nova parece raiar para a
Europa. É a era dos deuses wagnerianos ressuscitados de seu sono antigo.
Veremos, em outro artigo, como, ao crepúsculo dos demônios, parece suceder-se
hoje em dia a aurora dos deuses...