Sou um fascista convertido. Por
isto compreendo e acolho com simpatia todas as invectivas que me tem sido
dirigidas a propósito da atitude anti-direitista.
Compreendo-as porque há anos atrás, eu as teria feito, idênticas, ao jornal que
tivesse a orientação que tem hoje o “Legionário”. Simpatizo com elas porque
vejo que são, muitas vezes, produto de intenções retas e louváveis, que teriam
outra orientação se um esclarecimento mais sistemático da opinião católica
tivesse sido empreendido em nosso meio. E, exatamente porque as compreendo e
com elas simpatizo, julgo-me autorizado a refutá-las. Conheço minuciosamente,
por experiência própria, a mentalidade que se convencionou chamar “direitista”.
E, por isto, conheço com toda a precisão cada um de seus erros.
* * *
É simples a análise que a mentalidade direitista
faz do mundo contemporâneo.
O protestantismo inoculou na Europa os princípios
tóxicos do individualismo e do liberalismo, aplicando-os na mais elevada e mais
fundamental das esferas de cogitação do pensamento humano: a Religião. Dessa
culminância, os princípios liberais e individualistas rolaram, como sinistras
bolas de neve, sobre todos os outros planos da vida intelectual: a filosofia, o
direito, a economia, as ciências, etc. E da esfera do pensamento derivaram para
a da ação. A Enciclopédia foi a Revolução em potência. A Revolução foi a
Enciclopédia em ato.
Evidentemente, porém, a Revolução Francesa com seus “imortais
princípios” representava apenas uma aplicação incompleta das premissas liberais
individualistas de Lutero. A avalanche da Revolução não se poderia deter na
destruição do arcabouço político da Europa cristã e monárquica.
Necessariamente, deveria rolar mais para longe. Daí os princípios destruidores
da propriedade e da família, daí Karl Marx, daí a III Internacional e finalmente a bolchevização do mundo inteiro.
Incontestavelmente, é para o abismo comunista que
rolavam todas as tendências filosóficas, políticas, sociais e econômicas do
século passado. Na realidade, tudo nos arrastava para lá. E, em essência, o
grande problema político do século XIX e do século XX seria a luta entre o
espírito de Revolução e o espírito de Construção.
Nas duas extremidades do mapa ideológico
contemporâneo estavam o Kremlin e o Vaticano. Aproximar-se de um seria necessariamente afastar-se do
outro. Combater um, seria inevitavelmente apoiar o outro. Por isso mesmo, e
porque os lauréis da vitória teriam que caber inevitavelmente a um ou ao outro,
todo o movimento que combatesse o comunismo seria necessariamente simpático à
Igreja. E todo o movimento que combatesse a Igreja seria necessariamente
simpático ao comunismo.
De tal maneira estava tudo isto na ordem concreta e
natural dos fatos que qualquer movimento deveria se encaixar nesta
classificação, quer quisesse quer não quisesse. Um movimento que pretendesse
ser ao mesmo tempo anticomunista e anticatólico seria
julgado como um contra-senso. Dizer-se ao mesmo tempo anticomunista e anticatólico era expor-se a ser tido por imbecil, para os
que compreendessem a fundo a situação. Seria possível a alguém ser
anticomunista sem ser católico. Mas ser anticatólico
além de anticomunista era o que não se podia compreender.
Assim postas a coisas, como não ser fascista?
Concedamos, para argumentar, que o fascismo tivesse pontos de doutrina hostis
aos da Igreja. Admitamos, ainda, que essas divergências doutrinárias fossem
profundas. Desde que esmagasse o comunismo, o fascismo criaria necessariamente
um tal estado de coisas que a vitória ficaria, em última análise, nas mãos do
Vaticano. De mais a mais, estes pontos de divergência não estavam no eixo do
pensamento fascista. Eram excrescências acidentais que, de um momento para
outro, poderiam ser suprimidas. E por que não esperar que o fossem, quando à
testa do Partido Fascista se encontrava um homem como o Sr. Mussolini, no qual tantos e tantos católicos aclamavam o Bayard ou o Godofredo de Bouillon dos tempos modernos, paladino irrepreensível da
causa da civilização cristã contra a barbárie (...) do comunismo?
A todas estas razões de simpatia para com o
fascismo, inspiradas no interesse da Igreja, se acrescentavam outras de ordem
secundária que me confirmavam nesta atitude.
A Providência deu-me sempre a graça de ver a fundo
o mal que o liberalismo produzia e produz na sociedade contemporânea, o câncer
profundo e voraz que ele instalou no mais íntimo das vísceras do mundo
hodierno. Percebi nitidamente como, do bojo de suas doutrinas, saía o comunismo
anarquizante e ateu. Detestei de todo o coração a
árvore e os frutos, e (...) levei, na luta contra o liberalismo e o comunismo,
todo o vigor de minhas convicções religiosas, de minhas convicções políticas, e
das tendências essenciais de meu temperamento.
* * *
Por isto tudo, não tinha suficientes palavras de
reprovação para os católicos que se diziam anti-fascistas
e anti-nazistas. Necessariamente, a vitória do
nazismo e do fascismo teria de acarretar a da Igreja. E isto de modo tão
positivo, que esmagado o comunismo, a vitória seria nossa ainda que Hitler e Mussolini no-la quisessem
roubar. O que importava era esmagar a hidra comunista. Depois, um ajuste de
contas entre os elementos anticomunistas nos daria inexoravelmente a tão
almejada vitória.
Qualquer obra, pois, que tendesse a esclarecer os
católicos sobre os dissídios doutrinários entre o fascismo e o nazismo seria
uma obra de divisão entre os filhos da luz. Portanto, uma manobra voluntária ou
involuntariamente bolchevizante. Melhor seria
suportar em silêncio todas as dificuldades até que Moscou estivesse golpeada de
morte. Depois, a vitória seria nossa.
Especialmente quanto ao nazismo, fazia eu
reiteradamente esta reflexão. E tive uma dificuldade quase invencível em
compreender a política anti-nazista de Bruning, que me parecia quase tão inexplicável quanto a política anticatólica de certos elementos do partido nazista.
Em última análise, se a grande tarefa consistia em
esmagar o comunismo, qualquer divisão entre os anticomunistas era pura e
simplesmente uma traição. Como escapar a estes princípios de uma clareza
fulminante?
Julguei conveniente publicar esta introspecção política para provar aos meus leitores
“direitistas” até que ponto compreendo suas objeções, que já vivi intensamente.
Hoje em dia, a experiência me convenceu de que
estava errado. Continuo direitista. Mas nego peremptoriamente que o fascismo e
o nazismo, tanto quanto a Action Française, sejam direitas. A experiência me provou que são
esquerdas materialistas e socializantes, mais ou
menos disfarçadas. Onde me parecia ver desfraldado o estandarte de S. Miguel,
encontrei os galões dos soldados de Lúcifer. Onde me
parecia ver os soldados de Deus, encontrei na realidade os asseclas mais ou
menos conscientes das divindades ferozes e diabólicas do paganismo antigo. Onde
me parecia só haver dois campos, o do Kremlin ateu e o do Vaticano, encontrei
na realidade um terceiro campo, que é o da Alemanha pagã.
Sem que se compreenda na sua essência a
ressurreição dos deuses, não é possível compreender o momento que passa, nem
sequer a atitude política do “Legionário”. É o que procurarei demonstrar no
próximo número.