A desilusão política que narrei em meu último
artigo não era nem a mais completa, nem a mais profunda das que me aguardavam.
Onde meu antagonismo ideológico com as pseudo-direitas
se afirmou de modo definitivo e irremovível foi no
terreno religioso.
A princípio, chocava-me verificar que muitos
escritores católicos tratavam a sério do paganismo nazista e de certas
manifestações pagãs ocorridas nas fileiras fascistas. Parecia-me simplesmente imbecil
que certos alemães cultuassem seus deuses mitológicos antigos. A meu ver, esse
culto era um produto mórbido de certos rebotalhos morais das grandes cidades
contemporâneas, de “declassés” da inteligência, de toxicomaníacos, de indivíduos requintados nas piores exarcebações dos sentidos, etc.
Por isto mesmo, esta singularidade louca e
repugnante estava fadada a ficar circunscrita a um minguado número de elementos
fracassados. Nunca poderia constituir, para a civilização, um perigo digno da
atenção dos sociólogos católicos.
Evidentemente - a meu ver - os alemães que se
embrenhavam pelas florestas para adorar os deuses wagnerianos da era pré-cristã eram absolutamente tão loucos quanto os
paulistas que fossem dialogar com a Mãe d’água à beira do Tietê no Parque Pedro
II, ou espreitar o saci-pererê nas ramagens repolhudas do parque da Avenida
Paulista.
Era um caso a ser resolvido por psiquiatras e
moralistas, e não por sociólogos. E com isto estava dita a última palavra.
* * *
Dois fatos convergentes vieram tirar-me dessa
agradável atitude de despreocupação.
De um lado, já não eram só alguns escritores
católicos leigos que denunciavam como grave o perigo neopagão,
mas personagens altamente qualificados na Hierarquia da Igreja, a cujas
opiniões é devido um respeito e um crédito imenso, começaram a fazer coro com
eles.
Do outro lado, crescia à vista de olhos, o número
de pessoas que na Alemanha, sob a conduta de Rosenberg, procuravam restaurar a velha Religião pagã. Segundo todo
o mundo sabe e o “Osservatore Romano”, órgão do Vaticano, já tem informado
repetida e minuciosamente, trata-se, ao pé da letra, de um culto religioso.
Numerosos elementos constituídos não por toxicômanos e declassés publicamente
reconhecidos tais, mas por muitas figuras de alto relevo nas fileiras nazistas
embrenham-se pelas selvas, e ali, engolfados no segredo da noite, reproduzem
fielmente a adoração ritual dos velhos deuses pagãos, tal e qual ela se dava
antes de ser a Alemanha cristianizada por
S. Bonifácio e seus sucessores.
Nos seus discursos e impressos de propaganda, estes
neo-pagãos se ufanam de proclamar que essa adoração
não se reveste de um caráter apenas simbólico, mas que tem o cunho claro,
positivo, insofismável, da idolatria.
Sob pena, pois, de negar crédito a vozes das mais
qualificadas dentro da Santa Igreja, e a fatos cuja evidência se impunha à
minha observação, era-me forçoso reconhecer que os deuses pagãos ressuscitaram
na velha Alemanha.
* * *
Como explicar um fenômeno tão estranho? Para fazê-lo,
procurei sua relação com a História da evolução do pensamento alemão de Lutero para nossos dias. A
explicação jorrou daí clara e cristalina.
Infelizmente, neste artigo que já se alonga por
demais, não poderei senão indicar seus pontos fundamentais dessa explicação. O
Dr. José Pedro Galvão de Souza, redator-chefe desta folha, está, porém, preparando uma
série de artigos em que desenvolverá interessantes estudos de sua lavra sobre o
assunto. Desde já, eu os recomendo à atenção dos leitores do “Legionário”.
Reduzamos a “itens” minhas reflexões:
I - Nosso Senhor Jesus Cristo quis que amássemos ao próximo como Ele nos
amou. Decorre daí que os doentes, os fracos, os pobres, os infelizes, tem um
direito especial a nosso amor. O que, por sua vez, obriga os poderosos, os
ricos, os saudáveis, os felizes, a renunciar a qualquer egoísmo ou orgulho,
para servirem com afeto e despretensão àqueles sobre quem tem superioridade ou
vantagem. Esse princípio foi plenamente aplicado na Idade Média.
Não conduziu a um igualitarismo louco, mas levou,
dentro da sociedade mais aristocrática e hierarquizada que a Europa tenha
conhecido, reis e rainhas, príncipes e princesas, a se curvarem reverentes e
servirem com carinho a simples leprosos, tidos em horror por todos.
II - Entretanto, a tendência de nossa natureza,
afetada pelo pecado original, é outra. Sem a luz da doutrina de Cristo, o homem
oprimiria naturalmente os mais fracos, fugiria dos infelizes e teria em horror
os doentes. Prova-o a História. Antes de Cristo, a opressão do fraco e o
desprezo ao infeliz e ao doente eram a regra geral de que só se excetuava o
povo eleito. O amor pleno e desinteressado do próximo só pode medrar onde medra
a Igreja, e fenece onde a Igreja é oprimida.
III - A Lei de Cristo é uma lei de Amor. A lei do
homem que não é cristão - e portanto pagão - é a lei da força. E assim como
aqueles que admiram a Lei do Amor tendem a amar e crer no seu Divino Autor,
assim também aqueles que apostatam do Amor para servir a força tendem aceitar a
apostasia completa, isto é, a renúncia a Cristo, e implicitamente a paganização. Porque não há meio termo: quem não é cristão é
pagão.
IV - Um estudo acurado demonstra que o princípio do
predomínio da força está na medula do pensamento de Lutero, dos demais pseudo-reformadores e dos enciclopedistas. A despeito de
aparências em sentido contrário, é esta a realidade. Desde que a sociedade
ocidental rompeu com a Igreja, sua História pode ser descrita, em última
análise, como a substituição gradual da Lei do Amor pela da força. E isto não
apenas nas relações entre ricos e pobres, poderosos e oprimidos, etc., mas até
entre as nações.
V - Quando apareceu na Europa o primeiro surto de
ateísmo, pareceu aos espíritos da época o mais completo absurdo, uma aberração
tão completa e tão estúpida quanto nos parece hoje o paganismo. Até Voltaire (!) se levantou contra
ele. No entanto, aí está o ateísmo triunfando na Rússia, e tentando a ferro e
fogo a conquista do México e da Espanha.
VI - No entanto, o ateísmo é mais absurdo do que o
paganismo. Porque é menos errado adorar um ídolo como deus, do que afirmar que
não há Deus. A História o prova, mostrando que, se houve povos idólatras, nunca
houve povos ateus.
VII - A tal ponto é isto verdade que, bem pesadas as
coisas, pode-se adiantar que se o comunismo conseguisse apossar-se do Ocidente
e torná-lo ateu, dentro de poucas gerações esses ateus se transformariam em
idólatras se resistissem ao apostolado da Igreja. A idolatria é o verdadeiro
ponto terminal do itinerário religioso comunista. E o nazismo alemão não faz
senão encurtar o caminho.
VIII - A tendência normal e lógica do mundo
contemporâneo dominado pela força, e que só a ela quer obedecer, é para o
paganismo. A inclinação universal para a força torna universal o perigo paganizante, que não é, pois, só alemão.
IX - Pode parecer absurdo que decaia tanto a
inteligência humana. Mas se decaiu tanto
a inteligência alemã, ou ao menos a de certos alemães, por que não poderá
suceder o mesmo a brasileiros, suecos, turcos ou chineses? Argumenta-se dizendo
que ninguém pode, hoje em dia, crer em religiões que não passam de lendas e
fábulas. Não é o que diz o Apóstolo São Paulo, quando profetizava que dia virá
em que os homens sentirão um comichão vivo nos ouvidos, e que só quererão
aceitar fábulas.
X - Aliás, que grande esforço precisa fazer uma
pessoa que crê em figas, em bolas de cristal, em quiromancia, etc., para crer
em Odin, em Wotan? As
épocas de maior cepticismo são as de maior superstição. A superstição é um
corolário necessário da descrença, a vala comum para a qual descambam os
cépticos. Por que não descambará para essa vala o mundo contemporâneo céptico e
orgulhoso, no qual tão freqüente se tornou o pecado contra o Espírito Santo?
XI - Em suma, afirmo que os velhos deuses
ressuscitam de sua poeira duas vezes milenar, e que o atual crepúsculo
comunista se terminará, em última análise, em uma aurora de deuses
sanguinolentos e brutais, signos novos de uma humanidade criminosa que se
afastou de Nosso Senhor Jesus Cristo.
XII - Cumpre, porém,
acrescentar que as portas do inferno não prevalecerão contra a Santa Igreja de
Deus. Nossa geração ou, ao mais tardar, a geração de nossos filhos verá os Julianos modernos morrerem como Juliano
antigo, feridos de morte, sangrando no lodo de um charco, e exclamando
“venceste finalmente, Galileo, venceste”. Este grito
de ódio fará eco à harmonia universal com que os humildes, os fracos, os infelizes
e os pobres e os doentes entoarão com os
Coros celestes o sublime cântico do Natal: “Glória a Deus no mais alto dos
céus, e paz na terra aos homens de boa vontade”. A paz de Cristo instaurada no
Reino de Cristo libertará mais uma vez o mundo do paganismo e da opressão.