Na admirável e promissora multiplicidade das obras
de apostolado que florescem na Arquidiocese de São Paulo, é muito possível que
se oblitere a noção indispensável de que a obra fundamental, o eixo necessário,
o centro único de gravidade de todo o trabalho que atualmente se realiza é a
Obra das Vocações.
O assunto tem sido objeto de
tantas e tão autorizadas dissertações que seria temerário ou até impossível
pretender dizer-se qualquer coisa de novo a este respeito. Entretanto, a função
da imprensa comporta uma larga tarefa vulgarizadora. Por isto, e porque me
parece que nosso público nunca estará suficientemente cônscio da grandeza da
Obra das Vocações, aproveito as solenes comemorações que se desenrolaram nesta
Capital na semana passada, para dizer algo a este respeito.
* * *
Jornal feito por enquanto exclusivamente para
católicos – por enquanto, note-se – o “Legionário” não tem necessidades de
demonstrar que o Clero, sendo indispensável para toda a vida religiosa do País,
deve ser numeroso para que sua função primordial, que é o de promover a
salvação das almas, seja convenientemente exercida; tanto mais que o exercício
dessa função espiritual e sobrenatural tem como conseqüência, na ordem material
e concreta, os frutos mais promissores e substanciais.
O que sobretudo quero provar é que todas as classes
sociais tem obrigação de concorrer com um contingente apreciável para o recrutamento
das fileiras sacerdotais e que o Sacerdócio, em lugar de ser um encargo oneroso
do qual fogem as famílias, deve ser considerado uma honra sublime, um florão do
patrimônio moral da família, sem o qual não estarão completas as glórias de qualquer
linhagem, por mais antiga e ilustre que seja.
Esta
observação tem sua importância. O Rev.mo Pe. Garrigou
Lagrange lhe deu um forte
relevo, na conferência que pronunciou em nossa Cúria Metropolitana, a propósito
das vocações ao sacerdócio. Realmente, não é justo que se esquivem as famílias
mais abastadas e mais ilustres a dar seus filhos à Santa Igreja, entregando-os
à vida religiosa ou sacerdotal. Não se compreende que, entre nós, este estado
de coisas perdure por mais tempo. Ele gera inconvenientes graves para a própria
tarefa apostólica e constitui um sintoma irrefutável de uma crise moral séria.
Os inconvenientes decorrentes do fato de quase não
se recrutarem Sacerdotes em certas camadas sociais são evidentes. A Santa Sé,
hoje mais do que nunca, insiste para que o apostolado seja, de preferência,
desenvolvido por pessoas do próprio meio social. Em relação à Ação Católica, é
esta uma norma essencial. Evidentemente, perde ela muito de seu vigor quando se
trata não mais do apostolado de leigos, mas das atividades da própria
Hierarquia Eclesiástica. Sem embargo disto, ainda neste terreno, ela conserva
uma oportunidade que os espíritos previdentes não poderão contestar.
Não convém que cheguemos a generalizações falsas e
temerárias. Seria errôneo sustentar-se que não se encontram no Brasil, entre as
famílias mais ilustres, Sacerdotes. Entretanto, é incontestável que esse é o
ambiente mais refratário ao recrutamento sacerdotal. A Igreja não precisa,
evidentemente, de Sacerdotes desta ou daquela classe, para realizar sua tarefa.
Tanto pode um Sacerdote de família operária fazer seu apostolado nas mais altas
classes sociais, quanto pode outro Sacerdote, filho de ilustre família,
dedicar-se ao apostolado entre proletários. Sem embargo disto, é certo que o
apostolado feito por uma pessoa do próprio meio tem vantagens que ninguém pode
ignorar, e que devem ser tomadas na devida consideração.
Quanto à crise moral que essa abstenção revela, é
muito séria. Em última análise, significa isto que o espírito de abnegação, de devotamento, de renúncia, escasseia em nossas classes
dirigentes. Efetivamente, se há retraimento em relação ao Sacerdócio, deve-se
isto não raras vezes ao fato de parecer a vida de um Sacerdote - e esta
impressão é verdadeira - muito pouco vantajosa sob o ponto de vista das
honrarias e dos lucros. De sorte que as famílias desviam, intencional e até
pertinazmente, seus filhos da vocação que Deus lhes dá.
Se em um país é este o espírito das classes
dirigentes, que catástrofes, que abismos, que nuvens, não se podem antever em
seu caminho?
Por que? Porque,
evidentemente, é mais rendoso ser banqueiro do que Sacerdote ou Militar. E, por
isto, todos querem ser bacharéis e banqueiros. E poucos se obstinam em envergar
a batina ou a farda.
* * *
Cabe à Obra das Vocações remover este e outros
obstáculos. E ela o tem feito magnificamente, sob a direção de um Sacerdote
providencial, que tem sido, para a Arquidiocese de São Paulo, um elemento de
valor inestimável.
Realmente, graças à orientação suave e inteligente,
ao devotamento sem limites, e à clarividência notável
do Rev.mo Pe. João Pavésio, a Obra das Vocações vem se desenvolvendo e produzindo
frutos cada vez mais notáveis, que prometem para a Arquidiocese um futuro
risonho. Por isto, as Autoridades Eclesiásticas lhe deram o seu mais inteiro
apoio. E o “Legionário”, que é, por natureza, um servidor de todas as causas
santas, não poderia deixar de chamar, sobre ela, a atenção de seus leitores.