A História do pontificado do grande Pio IX mereceria ser
estudada a fundo pelos católicos. Ela contém ensinamentos para nossa época
muito mais oportunos e mais profundos do que geralmente se pensa.
Em nosso último artigo, procuramos mostrar o êxito
da energia apostólica do grande Pontífice. Quer pela definição do dogma da
Imaculada Conceição, feito por meio da bula “Inefabilis” em 1854, quer pela convocação do Concílio do Vaticano e
a definição do dogma da infalibilidade papal em 1869, o grande Papa enfrentou
aguerrida e resolutamente o naturalismo e o racionalismo
do século. A despeito da opinião em contrário, de leigos eminentes e até de
Prelados, Pio IX julgou que a época
era ainda menos propícia do que outra qualquer para uma atitude de
impassibilidade sorridente, cujo efeito necessário seria o encorajamento dos
maus e o entibiamento dos bons. Com isto, Pio IX, calcando aos pés qualquer
falso sentimentalismo, enfrentou decididamente a impiedade. Sua energia
combativa venceu. Depois da definição do dogma da infalibilidade pontifícia
pelo concílio do Vaticano, a onda do racionalismo
naturalista tem decrescido incessantemente, e, se bem que ela ainda conserve
formas disfarçadas dignas da maior cautela dos católicos, é certo que ela
perdeu aquela agressividade truculenta e blásfema com
que se pavoneava nas altas rodas literárias, políticas e sociais da Europa do
século XIX.
Erraria quem pensasse que, agindo assim, Pio IX empregou uma
estratégia de cunho exclusivamente pessoal. O que o grande Pontífice fez não
foi senão a aplicação, ao seu século, dos tradicionais processos de apostolado
da Santa Igreja. A estratégia de Pio IX foi a de todos os Pontífices que se viram
em situação análoga à sua e que venceram as grandes crises que assediaram a
Santa Igreja no passado. E não seria difícil mostrar, que foi idêntica a linha
de conduta observada pelos Pontífices que depois de Pio IX se tem sucedido no
trono de São Pedro. É a admirável continuidade pontifícia que atesta, de modo
flagrante, a assistência indefectível do Espírito Santo aos Papas, através dos
séculos. Todos os capítulos da História da Igreja, em todos os séculos, atestam
esta admirável continuidade, e proporcionam aos fiéis ensinamentos de
inestimável valor. É o que o estudo do Pontificado de Pio IX demonstra, e o que
queremos fazer ainda neste artigo encarando a ação do seu grande sucessor, o
imortal Leão XIII.
* * *
Em nosso último artigo, mostramos a situação
dificílima - humanamente falando, ou seja, encarando as coisas apenas pelo modo
por que as vêem os que não tem espírito de Fé - que a Santa Igreja atravessou
no século XIX. Os inimigos da Igreja se compraziam em ver nela um imenso
edifício que se esboroava, e que cedo ou tarde ruiria, inteiramente, quando
ruíssem todas as grandes monarquias européias, restos com a Igreja, de um
estado de coisas destinado definitivamente a desaparecer. A apostasia de
grandes massas humanas, a infiltração de princípios errôneos no seio de
importantes frações do laicato, tudo convergia para que a vitalidade
inexaurível e divina da Igreja parecesse irremediavelmente perdida. Só os que
viam a realidade com os olhos penetrantes da Fé podiam discernir, neste
aparente inverno, os indícios de uma futura primavera, e nestas ruínas uma
miragem aparente que na realidade cederia ante uma estupenda ressurreição.
Leão XIII, ele também, via o domínio do mundo dividido entre duas
grandes forças: o liberalismo e o socialismo. Supor a vitória de qualquer coisa que não fosse isto,
parecia uma ilusão política vizinha da demência. Ou o mundo seria liberal, ou
socialista. Os dois extremos políticos se chocavam ardentemente nos
parlamentos, na imprensa, nas universidades e nos comícios eleitorais. O
Catolicismo ou se aliaria a uma
destas forças contra a outra, ou estaria - é o que diziam os de pouca Fé - irremediavelmente
derrotado. E, se abstraísse da indestrutibilidade da
Igreja, o argumento era certíssimo. Humanamente falando, os recursos da Igreja
não seriam suficientes para enfrentar um só destes adversários, quanto mais a
ambos simultaneamente!
Com os olhos fitos no auxílio sobrenatural, não
pensou assim Leão XIII. Sua tática foi muito outra. Inspirado na Verdade, ele
começou por estabelecer as analogias profundas existentes entre o liberalismo e
o socialismo e por distinguir nitidamente atrás do aparente conflito uma real
solidariedade entre ambas as doutrinas. Isto posto, mostrou vigorosamente como
o Catolicismo se opunha simultaneamente a ambas, conquanto em ambas se notassem
fragmentos de verdade roubados à doutrina da Igreja. Mostrou, em seguida, como
a Igreja, cônscia de sua indefectibilidade, desprezava qualquer aliança com a
heresia, e se opunha tenazmente a todas as formas de erro, quer viessem do “front” de combate socialista, quer do liberal. E com isto
ficou definida claramente a situação estratégica e evidenciado que, na
realidade, só havia uma luta, a dos inimigos da Igreja, estreitamente
conjurados uns com os outros (...) contra a mística nau de São Pedro. O
conflito das doutrinas socialistas e liberais, protestantes e cismáticas, fideistas e racionalistas entre
si, tudo isto era pura ilusão. Na realidade, só havia a luta da Igreja contra a
Cidade do demônio.
Esta orientação estratégica pareceu a muitos um
grande contra-senso. Contra-senso tanto maior quanto Leão XIII, ao mesmo tempo que rompia com o maçonismo
liberal e socialista, rompia também com os erros políticos dos monarquistas
franceses que representavam as forças conservadoras do passado. Humanamente,
Leão XIII estava tentando um contra-senso político, qual o de caminhar por
caminhos intransitáveis. A volta ao passado estava comprometida pela condenação
dos ultraconservadores. A reconciliação com o presente estava irremediavelmente
impedida pela condenação do liberalismo. Um acordo com o que parecia ser um
inevitável futuro seria impossível em virtude da anatematização do socialismo.
Com quem ficar se se tinha contra si as forças
conjugadas do presente, do passado e do futuro? Com Jesus Cristo, Senhor Nosso.
* * *
Realmente foi este o grande sentido da obra
política de Leão XIII. Ele não procurou senão os caminhos do Senhor.
Humanamente, era isto um contra-senso. Aos olhos da Fé, era no entanto a única
conduta realmente sábia. E os fatos mostram mais uma vez que a fé tinha razão, e
não as vistas míopes da prudência humana.
Realmente, as obras dos socialistas estão caindo em
descrédito cada vez maior. O comunismo decai a olhos vistos. O liberalismo é um
monstro em putrefação. Do monarquismo herético francês só resta a combatividade de
dois anciãos, Maurras e Daudet, que a morte arrebatará dia mais dia menos. Só uma coisa
sobreviveu: a Igreja. Realmente, só ela trilhou, como necessariamente trilharia,
os caminhos indefectíveis do Senhor. E à sua sombra confluem hoje liberalões rançosos que há 20 anos atrás proclamavam sua
decadência fatal. Eles sentem perfeitamente que só a Igreja é capaz de dominar
o totalitarismo ao qual as jactanciosas forças liberais não resistiram...
Se assim foi Leão XIII, assim está sendo com Pio XI, que repetiu ostensivamente a mesma política, condenando,
quase simultaneamente, o comunismo e o nazismo, para mostrar que seu apoio não
está na boa vontade fementida de heresiarcas, mas em Deus, e só n'Ele.
Erram os que supõem ser o apostolado viável unicamente por meio de sorrisos e
carícias. É certo, certíssimo, incontestável, que ele não pode ser feito a não
ser com caridade. Mas que a caridade consiste em ostentar para gregos e
troianos, filhos da luz e filhos das trevas, pecadores arrependidos como a
Madalena ou impenitentes como os fariseus e os mercadores do Templo, o mesmo
semblante perpetuamente desanuviado e inexpressivamente
risonho é errar gravemente. Errar não apenas porque não é este o ensinamento da
Santa Igreja, que armou contra os mouros as cruzadas e instituiu contra os
hereges o Santo Ofício romano e as fulminações das penas canônicas, mas ainda
porque é colidir com os ensinamentos dos Santos Evangelhos que, se de um lado
nos mostram o Salvador afável e misericordioso para com os pecadores que queria
atrair a Si, também O mostram inexorável e terrível para com os pecadores que
se mantinham obstinados na impenitência.
* * *
E se assim são os RR. PP., assim será, com a graça
de Deus, o “Legionário”. Sua política só é uma: a que se aprende nas páginas do
Evangelho e da História da Igreja. Qualquer outra política seria além de uma
traição ao Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo, a negação à Pátria do
mais indispensável dos serviços que ela está no direito de esperar de nós.