Nunca, talvez, em todo o decurso da História, se
usou e se abusou tanto do segredo como arma política, quanto em nossos dias. É
no segredo dos laboratórios que a química moderna se esforça por inventar os
maravilhosos meios de destruição que devem assegurar ao seu detentor o triunfo
incontestável na próxima guerra. É no segredo impenetrável e profundo das
masmorras e dos campos de concentração que os poderosos do dia liqüidam certas
questões políticas mediante a eliminação de alguns infortunados adversários. É
no segredo cabalístico que envolve a atmosfera dos gabinetes de diretores de
banco que se tramam os grandes golpes financeiros, em torno dos quais se
decidem os destinos das nações. E é no segredo não menos impenetrável das
Secretarias de Estado que se faz e se desfaz a trama subtil das negociações
políticas e diplomáticas que os comunicados oficiais apresentam depois ao
público, sob a forma de vagas e inofensivas negociações.
Por um estranho paradoxo, entretanto, nenhum século
dispôs tanto quanto o nosso dos mais amplos meios de difusão e informação. O
rádio, o telégrafo, a imprensa e o cinema dão ao homem recursos
extraordinariamente eficientes para “furar” os mais altos segredos, arrastando-os
para a luz de uma desabrida publicidade. Daí, entre os jornalistas e as
empresas de rádio e de telégrafo etc., de um lado, e do outro lado todos os
alquimistas e manipuladores políticos, econômicos e
ideológicos dos altos segredos contemporâneos, uma luta tenaz e violenta, para
a qual cada chefe de Estado traz o contingente de suas qualidades pessoais.
A arte de impor o silêncio é hoje um capítulo
essencial da arte de governar. Um governante que não saiba fazer calar os seus
adversários é um pífio chefe de Estado. E por isto mesmo cada chefe de Estado
tem seu processo pessoal para impor o silêncio. Uma revista rápida desses
processos dá bem uma idéia do mundo moderno, e pode não ser inteiramente
destituída de interesse.
Comecemos pelo ocupante da Casa Branca.
* * *
O Sr. Roosevelt, quando quer pôr a pesada laje do segredo oficial sobre
qualquer assunto, convoca alguma comissão parlamentar, à qual faz suas
revelações mediante um juramento legal que, uma vez violado, pode levar os infratores
para a cadeia. Por isto mesmo, todos os membros da comissão, em geral políticos
de uma temível indiscrição, ficam inteiramente paralisados. É um processo
tipicamente “yankee” e rooseveltiano, um truque ágil e forte, que é tão eficiente
quanto o mais prodigioso dos cadeados super-mecânicos
e super-elétricos inventados naquela terra tão hábil
nestas especialidades.
O francês não gosta de “truques” ágeis e fortes. Os
expedientes mecânicos o seduzem muito pouco, mesmo no terreno da política.
Comprometer os adversários mediante um juramento parece ao francês simples
demais, e até um pouco vexatoriamente ingênuo. Um
artífice decente da capoeiragem política francesa
teria vergonha de recorrer a qualquer processo que não fosse a fina e subtil
maquinação dos cochichos de gabinete, murmurados no ambiente luxuoso dos salões
do Palais Bourbon ou do Quai d'Orsay, ou na lábia parlamentar
brilhante, inteligente e astuciosa da Câmara dos Deputados. Por isso mesmo, o
Sr. Daladier tem um recurso
muito diverso do truque rooseveltiano. Quando seus
adversários insinuam, durante os debates parlamentares, alguma impertinência
como, por exemplo, que o Sr. Pierre Etienne Flandin se vendeu à
Alemanha, arrastando atrás de si apreciável contingente de politicóides franceses, a camarilha do Sr. Daladier toma a “allure” característica do “coq gaulois”, agita as plumagens vistosas de
seu pundonor indignado, prorrompe em exclamações escandalizadas e desprezivas, em “ohs” de uma
incredulidade irritada, e acaba por exclamar, depois de ter exibido para as
galerias todo este vistoso aparato, que essa acusação não atinge apenas as
pessoas denunciadas, mas ofende a própria França. De sorte que, se realmente o
Sr. Flandin se vendeu - Judas, von
Papen e tantos outros não
o fizeram também? - não existe para a França outro remédio senão deixar que a
transação seja completada. Chega até aí a habilidade da justamente famosa lábia
parlamentar gaulesa...
* * *
Assim agem os chefes liberais. Este processo,
porém, entre fascistas seria “demodé”. Eles desprezam a tradição renascentista das
combinações maquiavélicas sabiamente urdidas em palácios suntuosos, atrás de
cortinas de seda e veludo, em Florença, Veneza, Gênova ou de Turim. O fascismo é teatral, mas de
uma teatralidade de encomenda, que não está na linha
da gloriosa tradição da bela Itália. O cochicho é pouco teatral, uma vez que
não pode ser ouvido pela platéia. Por isso, a grande arte do Sr. Mussolini, ao impor o silêncio, é urrar: urrar, mas urrar com todas
as forças de seus pulmões privilegiados e de suas infatigáveis cordas vocais.
Depois deste ronco de trovão, nas fileiras fascistas, o silêncio
inevitavelmente se faz...
Diferente é a técnica do Sr. Hitler. O nazismo também é teatral. Mas sua teatralidade,
“et pour cause”
não é, como a do Sr. Mussolini, a de um ator
dramático que grita, gesticula e canta longamente, antes de enfiar um cutelo,
às vezes inofensivo, na vítima paciente. A teatralidade
do Sr. Hitler, que desdenhou a gloriosa cultura da Alemanha de São Bonifácio,
para se arvorar em autêntico restaurador do culto germânico pré-cristão,
e a dos bárbaros que os escritores romanos nos descrevem seminus, colossais em
sua corpulência atlética, com alguma caveira de animal amarrada à cabeça para
meter medo, com os dedos tintos de sangue, cantando canções guerreiras e
invadindo com imenso e ameaçador vozerio a Europa romana.
Em outros termos, a técnica do Sr. Hitler para
impor silêncio é a ameaça. Nos seus discursos de uma retórica roliça e
agressiva como os roncos subterrâneos dos terremotos, há sombras de Dachau e relâmpagos de
fuzilamento. Evidentemente, isto é “kolossal” e tem,
portanto, o mais seguro êxito.
* * *
O Sr. Chamberlain, que merece um capítulo especial, tem outra técnica: a do
guarda-chuva. Quem usa guarda-chuva denuncia implicitamente que não tem o poder
de provocar ou fazer cessar a chuva, e que como não é manda-chuva, só aspira
modestamente a agasalhar-se dela. Porque, quem não é manda-chuva precisa de
guarda-chuva, para ficar esperando pacientemente, durante a tempestade, até que
ela cesse. E, cessada a tormenta, o humilde dono de um guarda-chuva dá graças a
Deus pelo fato de, conquanto as pernas e o tronco estejam gotejando, a cabeça e
os ombros terem ficado relativamente poupados, devido à proteção do algodãozinho preto, modesto, mas precioso. Por isso mesmo, Chamberlain não pretende fazer calar seus adversários.
Deixa, pelo contrário, que Churchill, sir Archibald
Sinclair e o Major Attlee digam tudo quanto
bem entendem. Pacientemente, ele sorri, enquanto goteja abundantemente sobre
ele a chuva dos doestos [insultos], das suspicácias e
até das injúrias da oposição. Armado de argumentos irrespondíveis e
tonitruantes, a minoria enche o Parlamento com seus clamores, acumula um
ambiente de tempestade nas cúpulas ogivais de Westminster,
e demonstra por a mais b que o Sr. Mussolini não está
fazendo facécias quando reclama o império colonial francês e nem tampouco o Sr.
Hitler, quando reclama o império colonial inglês. Quando todo o mundo, animado
pela grandeza da tempestade, espera um desfecho teatral e grandioso, supondo
que o Sr. Chamberlain terá uma deslumbrante e
magnífica explosão de oratória indignada, ou se renderá solenemente aos
argumentos da oposição, o Sr. Chamberlain, pelo
contrário, fica quieto e, ao responder, sentindo que a tempestade está
passando, sorri com o ar beatífico de quem, no fim da tormenta, fecha
finalmente o guarda-chuva. Sorri, e diz com o ar meigo de uma “nurse” bem treinada: “Tudo isso é verdade, mas eles são tão
bons...”
Esta resposta cândida e melíflua desconcerta a todo
o mundo e acalma os nervos super-irritados. É como se
uma chuva de manteiga de cacau derretida caísse sobre o auditório. Todo o mundo
se afoga na moleza que jorra abundantemente das palavras do burguês do
guarda-chuva. E o Sr. Chamberlain, sorridente, volta
para casa secando fleugmaticamente seu inseparável
guarda-chuva.
* * *
Haveria ainda outras estratégias interessantes a
mencionar. Por exemplo, a do General Franco, rigorosamente inspirada na experiência das touradas tão
características de sua terra. Quando na arena acontece que os picadores começam a brigar, chama-se sua atenção para o
touro, que constitui no momento o inimigo comum. Automaticamente, os furores
convergem para o animal perseguido, que os contendores crivam com suas farpas,
fazendo descarregar sobre ele todo o ódio recíproco que se votam um ao outro.
Até aqui, o monstro comunista tem feito o papel do touro, para abrandar as
brigas entre requetés, falangistas,
partidários de Gil Robles e sequazes de
Afonso XIII. Quero ver como se arranjará o General Franco quando
tiver acabado de abater o touro. Porque, caramba, impor silêncio a espanhóis
não é brincadeira!
E o Sr. Getúlio Vargas?
Sua tática é paradoxal. Em primeiro lugar, ele não
tem grande amor ao silêncio. Pessoalmente, ninguém sabe cercar de mais
impenetrável silêncio suas próprias intenções e suas próprias “démarches” [providências]. Esse silêncio inviolável é da
essência de sua política. Mas pouco se lhe dá que os outros falem ou não. Por
isto mesmo, força é reconhecer que, em pleno Estado forte, a imprensa tem tido
uma apreciável liberdade, e, se por decoro - porque afinal esta democracia é
bem forte - a imprensa não pode gritar alto, tem sido tolerado que resmungue
baixinho, dizendo neste tom tudo aquilo que, antes de 10 de novembro, diria
gritando. É que o Sr. Getúlio Vargas, quando quer impor o silêncio a alguém,
não lho diz. Pelo contrário, escolhe o momento oportuno e então deixa que o “de cujus” diga
o que entender. Este momento oportuno para o Presidente é exatamente o mais
inoportuno para o paciente que fala e fala gritando. Mas fala no momento em que
deveria estar calado. Por isso mesmo, sua idéia esvoaça pelo ar, sem interessar
a ninguém. Às vezes, até, o paciente leva algumas pedradas. E se recolhe
novamente ao seu primitivo silêncio. Enquanto isto, o Sr. Getúlio Vargas
despacha calmamente com seus Ministros no Catete ou
dá um passeínho pelas praias e pela Cinelândia.
Aliás, o Sr. Getúlio Vargas, de todos os Chefes de
Estado contemporâneos, é o único que quase não se incomoda que os outros
enunciem suas opiniões. Porque sua arte não consiste apenas em fazer dizer o
que convém a si, e o que não convém aos seus adversários. Ele é mais subtil.
Seu grande talento con-[siste
em..... ND: frase truncada na composição tipográfica do jornal]
adversários, seja lá o que for. E por isto mesmo podem eles dizer o que bem
entendem.