Parece que a imprensa diária ainda não acentuou com
suficiente insistência a situação em que ficou colocado o famoso pacto Anti-Komintern, depois do rumoroso conúbio
político do nazismo com o comunismo. Evidentemente, tanto os cronistas
internacionais quanto as agências telegráficas tem dito alguma coisa a
respeito. Mas o vulto dos recentes acontecimentos bem mereceria uma análise
mais detida. Para suprir esta falta, procuraremos proporcioná-la agora a nossos
leitores.
* * *
Considerando as coisas à primeira vista, parece
evidente que o convívio pacífico dos povos civilizados exige o intransigente
respeito de cada qual para com as instituições políticas e sociais adotadas por
seu vizinho.
Esta verdade de bom
senso é aplicada por todos os indivíduos na sua vida privada. Todos nós
consideramos como um de nossos mais fundamentais deveres em relação a nosso
vizinho o invariável respeito a seu direito de arranjar sua casa como lhe aprouver,
e de organizar dentro dela como entender sua vida de família.
Esta mesma ordem de
idéias se aplica perfeitamente à esfera internacional. Quando os dirigentes de
um país se servem abusivamente de sua autoridade a fim de perseguir metodicamente
todos os cidadãos virtuosos e todas as instituições dignas de louvor, e
promover oficialmente a prática dos crimes os mais abomináveis contra Deus e
contra os homens, o dever da não intervenção cessa, para os vizinhos e se
transforma na grave obrigação de intervir a fim de libertar o povo oprimido
injustamente.
Ora, nenhum espírito reto poderá negar que a Rússia se encontra neste
caso. E contra seus dirigentes milita uma agravante
de grande valor. É que eles, não contentes de transformarem o infeliz povo
russo em uma massa de escravos reduzidos a uma situação moral e material
insuportável, ainda ateavam pelo mundo inteiro o incêndio da revolução social.
O dever da intervenção na Rússia não é apenas resultante do dever de auxiliar o
próximo. É uma legítima defesa a que todos os governantes do mundo inteiro
deveriam votar, com todo o empenho, os seus esforços.
* * *
Foi neste terreno elevado que alguns países,
duramente provados pela campanha comunista, estabeleceram um pacto internacional;
a Alemanha, a Itália, a Hungria, o Japão, e ulteriormente a Espanha se federaram entre
si para uma luta de vida e de morte contra o comunismo. Os signatários do pacto
afetaram uma posição nitidamente ideológica. Não se tratava de combater contra
a Rússia como tal, mas contra a malta de comunistas que infesta a Rússia.
Assim, pois, o pacto não se chamou “anti-Russo”, mas anti-Komintern, e, na lógica rigorosa das coisas, poderia
até ter tomado o nome de pacto “pro-Rússia”, pois que
invadir a Rússia para depor os sovietes seria o maior dos serviços que a esta
se poderia prestar.
A este propósito, como provamos claramente em outro
local de nossa edição de hoje, o “Legionário” se viu forçado a opor algumas
objeções fundamentais:
a) a política religiosa seguida por certos
signatários do pacto, e principalmente pela Alemanha, não constituía um combate
ao comunismo, mas uma verdadeira propaganda do ateísmo, que é a raiz e a
essência da própria doutrina marxista;
b) a concepção das funções do Estado, por parte de
quase todos os governos signatários do pacto, era tão extensa que poderia ser
subscrita por socialistas dos mais avançados. No terreno da socialização, quase
todos os signatários excederam de muito as indicações da Igreja quanto à função
social da propriedade, e fizeram mais no sentido da socialização da vida e da
restrição da propriedade do que desejariam os próprios socialistas aos quais
arrancaram o poder;
c) a função social da família, desagregada pelo
caracter excessivamente absorvente da militarização da infância, ficou reduzida
de muito em seus aspectos mais importantes; por outro lado, a Alemanha nada fez
para consolidar a família por meio da abolição do divórcio, instituição
comunista por excelência;
d) enquanto a obra anticomunista ficasse, nos
países anti-Komintern, circunscrita a uma mera
repressão policial, e a legislação encaminhasse todo o curso da vida social e
econômica para uma situação claramente próxima do comunismo, haveria razões
para pôr em dúvida a sinceridade dos propósitos anticomunistas dos signatários
do pacto, ou ao menos - ao menos, insistimos - de sua quase totalidade.
* * *
A este respeito, o pacto de não agressão teuto-russo, que o “Legionário” previu com tanta clareza
como exuberantemente documentamos, tem uma cláusula decisiva.
Efetivamente, no pacto, a Rússia e a Alemanha se
obrigam reciprocamente a não fazer parte de qualquer grupo de
potências que ataque a outra. O texto é o seguinte: “Nenhuma das duas potências
contratantes participará de qualquer outro grupo político que, quer direta ou
indiretamente, seja contrário a uma das
signatárias”. De onde se deduz ou que o
pacto anti-Komintern morreu, ou que deixou de ser anti-Komintern, e que seus signatários poderão atacar
qualquer país do mundo, exceto a Rússia! Era esta a sinceridade de propósitos
do Sr. Hitler quando se erigiu em cruzado do anticomunismo!
* * *
E os outros signatários do pacto? Desde já
afirmamos que não sentiremos a menor surpresa se continuarem quase todos
ligados à Alemanha.
E a imprensa italiana, que atacou tão severamente,
e com tanta razão, as potências democráticas por se terem aliado a Rússia
comunista, recebeu com evidente júbilo o pacto de não agressão com os sovietes.
Além de estar ligado ao grupo anti-Komintern, o Sr.
Hitler tem outro tratado; o que constituiu o eixo Roma-Berlim.
Deixará o “eixo” de ser anticomunista? Ou romperá o Sr. Mussolini com o Sr. Hitler?
Os amigos do Sr. Mussolini
estão à espera de uma ruptura. O “Legionário” regozijar-se-ia ardentissimamente com eles se a ruptura se der. Mas devemos
confessar que o horizonte não apresenta, neste sentido, qualquer prognóstico.
* * *
E “el Caudillo”?
Chegou para ele a “hora H”. O que todos os anticomunistas sinceros devem
esperar dele é uma atitude desassombrada. Se o Sr. Hitler não é anticomunista,
os verdadeiros propósitos com que ele mandou tropas à Espanha estão patentes.
Quis ele acorrentar por esta forma a península Ibérica, salvando-a de um
perigo... que ele hoje declara não ser perigoso, e prendendo a seu carro
triunfal, pelos vínculos de uma gratidão incondicional, o país que ele
beneficiou, isto é, a Espanha.
Qual o dever de Franco? Fazer digressões sentimentais sobre essa gratidão? Ou
proclamar que devemos mais a Deus do que a todos os nossos benfeitores humanos
e que a gratidão a estes últimos jamais nos farão pecar contra Deus?
O gesto de Franco deve ser agora claro, positivo,
enérgico, altivo. É possível que, a hora em que este artigo sair, tal gesto já
se tenha verificado.
Mas o que não for isto será uma decepção profunda.
Simples boatos de que a Espanha está descontente não bastam. Franco deve dar à
neutralidade espanhola o sentido de um protesto altivo contra a farsa
totalitária. E não o aspecto de uma atitude embaraçada e ambígua, que só
servirá para alimentar apreensões quanto ao futuro daquele país, tão amado pela
Igreja, e portanto pelos católicos do mundo inteiro.
* * *
Antes de finalizar, mais uma observação. Em 1938,
Hitler, em Munich, teve a seus pés o mundo inteiro.
Esta preeminência se conservou inalterada até agora. Mas agora este estado de
coisas se transformou. Para fazer com a Rússia sua deplorável negociação,
Hitler não esperou altivamente em Berchtesgarden algum representante
soviético. Foi ele que deu o primeiro passo mandando seu próprio ministro a
Moscou. Foi ele que se colocou em situação secundária. E, hoje, por obra do Sr.
Hitler, Moscou pode olhar de cima o mundo inteiro, pois que se curvou perante
ela o homem perante o qual em 1938 o mundo inteiro se curvava...
* * *
Uma nota final ainda merece registro. Não é
impossível que certos partidários incondicionais do totalitarismo pseudo-anticomunista forjem o boato de que Stalin (...) vai derrubar o regime
comunista, estabelecendo uma situação análoga à da Alemanha.
A bem dizer, ele não teria grande coisa a mudar
para tornar sua situação análoga a da Alemanha. Como ninguém ignora, a
inviabilidade do regime comunista total, como o sonharam seus doutrinadores, é
tal que na prática os chefes soviéticos sentiram a necessidade de o mitigar até
certo ponto. Com mais um pouco, a Alemanha se socializando mais, e a Rússia se emburgesando mais (muito pouco, ou quase nada, aliás), a
fusão estará feita.
Mas esta fusão será uma conversão da Rússia a uma
forma anticomunista? Quem dará crédito a uma manobra tão evidentemente
falaciosa?
Se a ela nos referimos agora, é simplesmente com o
intuito de a denunciar logo que se esboce. Porque, possivelmente, ela não
tardará. E isto para gáudio dos cegos que não querem ver...