[No dia 23 de agosto é assinado
o pacto entre o Ministro Exterior soviético Vyacheslav
Molotov e o Ministro Exterior nazista Joachim von Ribbentrop,
o famoso pacto Molotov-Ribbentrop]
Toda
a orientação política desta Folha girou sempre em torno da convicção central e
fundamental de que entre o nazismo e o comunismo a aparente oposição se
resolvia, em última análise, em uma mal disfarçada solidariedade.
Por isso teve o
“Legionário” o dissabor de dissentir, mais de uma vez, de católicos que,
conquanto ilustres e dignos da maior atenção, viam os acontecimentos
internacionais através de outro prisma. Segundo eles, o mundo se encontrava
cindido em dois campos antagônicos, o das direitas e o das esquerdas. De um
lado, pois, todo o grupo de potências signatárias do pacto anti-Komintern,
bem como as correntes políticas que, nos países democráticos, preconizam a
aliança com tal bloco. Em outros termos, em um dos campos estariam o nazismo, o
fascismo, o falangismo espanhol, o rexismo, as “Croix de Feu” francesas, os fascistas ingleses de “sir” R. Owen, etc., etc. Em outro
campo, estariam os liberais, democratas, socialistas e comunistas.
Assim,
de um lado estando o comunismo, com tanta razão comparado ao anti-Cristo, e estando do outro lado um grupo de inimigos
do comunismo, em qual dos campos deveriam situar-se os católicos? A resposta
não parecia difícil: os que não se colocassem no campo dos inimigos do anti-Cristo ficariam automaticamente situados no campo
deste último. Ora, o “Legionário” não estava situado no campo das direitas.
Logo...
* * *
Dentro
do molejo férreo desta lógica simplista, como facilmente se pode imaginar, o
“Legionário” ficava mal situado. E, por isto mesmo os ataques e até as injúrias
as mais pesadas não lhe faltaram. Guardamos ciosamente em nossos arquivos
cartas de fascistas e nazistas afirmando de pés juntos que o “Legionário” se
alimentava com dinheiro de Moscou. E se apenas dos arraiais fascistas e
nazistas tal acusação tivesse procedido, ainda seriamos felizes...
Entretanto,
o que o “Legionário” sempre sustentou justificava amplamente sua posição. Se,
realmente, o mundo estivesse dividido entre direitas e esquerdas, a posição dos
católicos não poderia deixar de estar nas direitas. Mas as direitas comumente chamadas tais não eram, em última análise, senão pseudo-direitas que ocultavam um conteúdo doutrinário
profundamente esquerdista. E o comunismo e o nazismo eram irmãos xipófagos que se entregladiavam “pour épater les bourgeois”.
Quanta
risota cética, quanta dúvida enunciada com a
pretensão de quem via em nós uma meia dúzia de fantasistas divorciados do senso
comum!
Nem
as bênçãos ininterruptas das Autoridades Eclesiásticas, inclusive a do próprio
Papa Pio XII, expressiva particularmente por sua espontaneidade absoluta; nem o
apoio de um espírito de valor do Pe. Garrigou Lagrange, considerado o maior teólogo de nossos dias, que
deu a esta folha um autógrafo altamente expressivo, nem a evidência dos fatos
que se desenrolavam, conseguiu persuadir certos espíritos que não se animam a
ver as coisas por outro prisma senão pelos comentários mais ou menos
condimentados das agências telegráficas.
Finalmente,
os fatos aí estão. E o “Legionário”, para provar a seus leitores quanta razão
lhe assistia, publica aqui uma resenha de todas as notícias e comentários que
fez no ano corrente, prevendo o monstruoso conúbio
que o mundo inteiro contemplou boquiaberto e estarrecido.
Neste
momento, entretanto, não nos move um pensamento de vanglória, mas um desejo de
encaminhar para o conhecimento da verdade objetiva o maior número possível de
leitores.
Ao
mesmo tempo, temos uma palavra de homenagem comovida e de saudades ao grande Pio
XI, cuja política em relação a direitas e esquerdas recebe agora uma franca
comprovação. Nosso pensamento se volta também com indizível afeto e respeito ao
Santo Padre Pio XII, Pai da Cristandade e continuador
da grande obra política de Pio XI. Finalmente, depois de pensarmos em nosso Pai
espiritual, pensemos em nossos irmãos. Uma prece comovida e afetuosa, também
ela, pelos alemães, russos, franceses, italianos, ingleses e polacos espalhados
pelo mundo inteiro e tão duramente provados pelo sofrimento. Que Deus os
proteja e que recebam a solidariedade desta folha que, se foi sempre
antifascista, antinazista(...), teve apenas o intuito
de melhor servir os interesses da Cristandade, de que aqueles povos são parcela
integrante e gloriosíssima.
* * *
14/8/1938
- O governo mexicano exportou para a Alemanha dois navios carregados de
petróleo. A esse propósito, o “Legionário” nota a cooperação cada vez mais
estreita entre o México (...) comunista e a Alemanha nazista, contrastando com
as declarações de Hitler, quando se afirma o campeão do anticomunismo no mundo
inteiro.
* * *
28/8/1938 - Notícias da Grécia indicam como de
origem alemã o armamento levado por navios russos à Espanha, para servir aos
vermelhos espanhóis.
Simultaneamente, com o
tumulto causado pela questão germano-tcheca, dá-se o
reatamento das relações diplomáticas entre a Rússia e a Alemanha. Isto se
verifica exatamente quando se aproxima o termo do famoso tratado de Rapalo, concluído em 1922 entre esses dois países, tratado
esse firmado por cinco anos e renovado em 1927. Lembra o “Legionário” que,
enquanto anunciava uma luta feroz contra o comunismo, o Sr. Hitler recebia o
embaixador russo Tchinchuk (...) e renovava mais uma
vez aquele tratado, em cujo texto se lê, entre outras, essa declaração: “os
interesses mútuos (dos governos alemão e russo) exigem uma colaboração
confidencial e ambos estão decididos a consolidar suas relações de amizade”. O
“Legionário” nota mais uma vez o contraste entre as declarações anticomunistas
de Hitler e sua política amigável com a Rússia, lembrando ainda diversas
ofertas feitas pela Alemanha à Rússia depois do advento do nazismo, como a de
um crédito de 200 milhões de marcos pagáveis em cinco anos. É espantoso que o
mesmo homem que afirmou ser “o aumento do exército russo um sério perigo para a
paz”, ofereça grandes somas que ele sabe vão ser aplicadas, em grande parte, na
intensificação desse exército!...
* * *
11/9/1938
- Trechos do editorial da seção “Comentando”, com o título “nazismo e
comunismo”:
“Por
várias vezes, e isso desde há muito tempo, o “Legionário” assinalou os
parentescos ideológicos das duas doutrinas políticas. Em resumo, o fundo, a
essência mesma destas doutrinas é a mesma, elas têm ambas um mesmo pensamento
central, que é este: o Estado é a fonte de todos os direitos, o homem não tem
nenhum direito que lhe seja inerente, o que equivale
dizer que o homem não tem nenhum conteúdo que lhe seja substancial e
especificamente próprio, não tem realidade por si, mas é um mero acidente da
coletividade e, por conseqüência, do Estado. Esta é a idéia central e dominante
do nazismo e do comunismo, idéia predileta de todos os mestres (...) de Marx a Durkhein. As diferenças que se possam notar, são
acidentais, acessórias, versam apenas sobre minúcias.
“Mas
houve um acontecimento, desenrolado há poucos dias, aqui mesmo na América do
Sul, que põe a definitiva pá de cal nessa balela da inimizade entre Hitler e
Stalin. Se nazismo e comunismo eram aliados doutrinários, são agora aliados de
revolução”.
“De
fato, do Chile nos vem a notícia, por outro lado auspiciosa, do fracasso de uma
intentona que visava estabelecer naquela república um regime nazi-comunista”.
“Como
se vê, começam já a se entender muito bem os partidários da cruz gamada com os
do punho cerrado. Já são colegas...”.
* * *
2/10/1938
- Trecho do artigo de fundo:
“Se
reduzirmos ao devido valor os termos “nazismo” e “comunismo”, a diferença entre
ambos é insignificante. O comunista é ateu, materialista e partidário da
onipotência do Estado. O nazista não é menos ateu, nem menos materialista nem
menos estatolatra. A imoralidade comunista é
satânica. E a obra paganisadora do nazismo não o é
menos. Porque em nossos dias, erguer altares a ídolos decrépitos e ilusórios,
abater as cruzes e perseguir a Santa Igreja não é obra apenas das más
inclinações do homem, como pode ter sido uma ou outra vez antes de Constantino.
Hitler, exatamente como Juliano o Apóstata, é um
fenômeno histórico que não se explica sem a ação do demônio.
“Optar
entre o comunismo e o nazismo é optar, portanto, entre Lúcifer
e Belzebuth, entre o demônio e o demônio.
“É
compreensível, pois, como os católicos mais estreitamente ligados ao espírito
da Santa Igreja de Deus e entre eles aquele gloriosíssimo e extraordinário Schuschnigg que é mártir desse sublime delito, se
recusassem a optar entre Hitler e Stalin, [...] ficando sós com Jesus Cristo e
seu Vigário, o Papa”.
* * *
23/10/1938
- A propósito de uma reportagem sensacionalista do “Voelkischer Beobachter” sobre as
riquezas das Igrejas na Áustria, com insinuações para a socialização dessas
propriedades, frisa o “Legionário” que “enquanto se acentua cada vez mais a
solidariedade fascista-nazista, patenteia-se também
cada vez mais a analogia entre o nazismo e o comunismo”.
4/12/1938
- Informa o “Vaterland”, de Lucerna, que o colégio
jesuíta “Stella Matutina”, de Feldkirch,
na Áustria, foi confiscado pelo Estado nazista sem indenização nenhuma. Como os
bolchevistas, os nazistas não respeitam o direito de propriedade.
Trecho
do artigo de fundo desse mesmo dia:
“Que
há de temerário em se afirmar que no Wotan nazista há
apenas o mesmo satanás fantasiado de deus pagão? E que nos impede de prever
que, em uma catástrofe não distante, o mesmo satanás que se apresenta mascarado
em Berlim e despudoradamente claro em Moscou, se
atire com as tenazes comunista e nazista sobre a Igreja Católica, o Corpo
Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo”?
* * *
1º/1/1939
- Traçando um panorama da situação política internacional em 1938, o artigo de
fundo do “Legionário” começa por dizer que eram 4 as grandes posições
ideológicas em que, no começo desse ano, se distribuía a humanidade:
Catolicismo, Liberalismo, Comunismo e Nazismo. No correr do ano, enquanto o
liberalismo vai desaparecendo acentuam-se as outras posições. Compreende-se que
o Catolicismo verdadeiro é incompatível com certos movimentos vagamente
cristãos ou pan-cristãos. Percebe-se claramente que a
política “de la
main tendue” tentada
pelos comunistas em relação aos católicos é uma contradição insustentável. E o
nazismo radicaliza-se cada vez mais, abrangendo na sua tendência doutrinária, o
fascismo. Assim termina o artigo em questão: “Enquanto o socialismo rolou para
a esquerda, e o fascismo para a direita, enquanto o “pan-cristianismo”
rolou para baixo, enquanto algumas raras almas voaram para cima, o que sucedeu
com o liberalismo?
“Derreteu-se
como um sorvete”.
...
“Enquanto todos os campos se definem, um movimento cada vez mais nítido se
processa. É o da fusão doutrinária do nazismo com o comunismo. A nosso ver,
1939 assistirá à consumação dessa fusão. E desse conúbio
monstruoso, nascerá uma corrente que será, para os planos de satanás, o “nec plus ultra”.
“Será
que nos enganamos? É possível. Em todo o caso, é o próprio “Osservatore” que
tem assinalado essa marcha do nazismo para a esquerda.
“Quer
dizer que todos os erros estão escorrendo para o mesmo abismo, e que todas as
forças do século se coligam.
“Contra
quem?
“Neste
mar tormentoso, navega a Nau Mística de São Pedro. Contra ela se formam
misteriosos movimentos de onda, que degenerarão rapidamente em tempestade
imensa.
“Nós, porém, não tememos. Sem
desdenhar de lançar um olhar vigilante para as ondas encapeladas que formigam
de monstros misteriosos, é nas estrelas todavia que procuramos nosso roteiro”.
* * *
29/1/1939
- O “Legionário” transcreve o trecho seguinte de um comentário da “Der Deutsche in polen”, de Dantzig, a propósito do livro de Hermann
Rauschining, “A fraqueza mortífera do Reich”:
“As
conseqüências tiradas pelo dr. Rauschning
da fraqueza mortífera do Reich confirmam a nossa opinião de o povo alemão não
ter que recear a vinda do bolchevismo, porque já o tem no nazismo. O que,
antes, era um perigo real, a revolução proletária dum bolchevismo alemão, hoje
é uma realidade. Estamos plenamente nele, pois o característico não é um Hitler
para o nazismo e um Stalin para o bolchevismo, mas o fato que, em Moscou e em
Berlim, se veja na estima exclusiva da violência e da verdade para dominar a
única reguladora da vida histórica, e que assim se pratique; é isso que torna
público a identidade de orientação”.
Em
“7 Dias em Revista” comenta-se o fato de ter o governo nazista feito exumar os
cadáveres de Mons. Seipel e Dollfuss,
empregando o mesmo processo de profanar cadáveres de antigos inimigos políticos
aplicado pelos sovietes.
* * *
5/2/1939
- A secção “Letras Nacionais e Estrangeiras” traz um
“compte-rendue”
do livro de J. Bauer Reis “O nazismo sem máscara”,
que mostra uma série de pontos comuns ao comunismo e ao regime hitlerista. “O nazismo é irmão do comunismo por seus
princípios, por seus fins e por seus atos” (sic). O
mesmo livro transcreve a seguinte carta de Goebbels
dirigida a um chefe comunista em Moscou muito antes da subida de Hitler ao
poder e publicada pelo “Voelkischer Beobachter”, órgão dirigido por Hitler, em seu número de
14/11/1925:
“O
senhor e eu, nos combatemos sem que, de fato, sejamos inimigos. Com isso
desperdiçam-se as nossas forças e não chegaremos nunca ao terreno desejado.
Talvez a extrema necessidade nos unirá. Talvez nós, jovens, o senhor e eu,
somos os portadores da sorte das gerações; não o esqueçamos nunca. Eu o cumprimento.
Dr. Goebbels”.
* * *
12/2/1939
- O “Legionário” lembra a energia com que Pio XI condenou o totalitarismo, como
fizera em relação ao comunismo. Verberando os desmandos da Alemanha pagã,
aquele Pontífice denunciou a inconsistência do anticomunismo ilusório dos
nazistas não sem atacar também as infiltrações nazistas ultimamente feitas na
Itália.
Noticia-se
que a Itália concluiu um acordo comercial com a Rússia e segundo o “Manchester Guardian” a Alemanha
dispõe-se a fornecer, aos comunistas um crédito de 200 a 300 milhões de marcos
em material bélico, enquanto a Rússia lhe forneceria em troca, matéria prima.
* * *
12/3/1939
- Comentando os ataques do nazismo à Igreja:
“Cada
vez mais se aclaram as suspeitas contra o arcabouço político da nova Alemanha e
cada vez mais se identificam os dois mais perigosos regimes do mundo
contemporâneo: comunismo e nazismo”.
* * *
16/4/1939
- Segundo noticia “La Journée Industrielle”,
o camarada Manonilsky, em congresso bolchevista
recentemente realizado, expôs a necessidade de intensificar a agitação nos
países democráticos, enfraquecendo-os exatamente quando se acentua a pressão
dos países totalitários. O mesmo se dera no tempo da anexação da Áustria ao
Reich, quando os comunistas franceses promoveram uma greve geral que vinha
enfraquecer a França, exatamente no momento em que Schuschnigg
tentava resistir.
* * *
23/4/1939
- Em resposta a uma consulta do Parlamento sobre o reatamento das relações
diplomáticas com os sovietes, o Conselho Federal Suíço mostra que essas
relações, uma vez reatadas, sempre servem à Rússia bolchevista para propaganda
política de suas idéias. O Sr. Hitler, apesar disso, mantém relações diplomáticas
com os sovietes.
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14/5/1939
- De “7 Dias em Revista”:
“A
Alemanha é nacional-socialista. A Rússia está ficando
nacionalista, sem deixar de ser comunista.
“Pesem-se
bem as palavras: entre um “nacionalismo socialista” e um “nacionalismo comunista”,
que diferença há?”
No
mesmo dia, a “Nota Internacional” observa que as notícias de um pacto germano-russo não foram desmentidas e que a imprensa
nazista cessou suas diatribes contra os sovietes.
Ainda
em “7 Dias em Revista”, comenta-se a surpresa que essas notícias tem causado em
certos meios. Essa surpresa não a pode ter um observador menos superficial,
dada a afinidade ideológica entre nazismo e comunismo, e porque Hitler está
realizando uma verdadeira proletarização da vida
social em sua pátria.
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25/6/1939
- Enquanto cresce, nos Estados democráticos, a convicção de que é necessária
uma aliança com a Rússia, esta se mostra cada vez mais exigente criando uma
atmosfera de desconfiança “com seu jogo entre Londres e Berlim, para o máximo
proveito próprio, que talvez esteja muito mais perto de Berlim do que de
Londres” (“Nota Internacional”).
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20/8/1939
- “La Croix” oferece algumas considerações,
comentadas pelo “Legionário”, sobre a aproximação entre nazistas e
bolchevistas, constatando que em suas doutrinas há mais pontos de contato que
de divergência. Noticia também que von Papen procura as plagas soviéticas.
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6/8/1939
- Trecho da “Nota Internacional”:
“As
negociações anglo-franco-russas continuam em um
impasse, e se as missões militares francesa e inglesa, que vão a Moscou
fracassarem - o que é bem provável - será certa a neutralidade, se não [a] aliança
com o Reich, por parte dos sovietes”.