Neste
domingo em que a Santa Igreja de Deus celebra a realeza de Nosso Senhor Jesus
Cristo, encher-se-ão, no mundo inteiro, os templos católicos com uma multidão
piedosa, que irá depositar aos pés dos altares suas súplicas e suas orações.
Contemplando em espírito essa imensa multidão, composta de pessoas oriundas de
todas as raças e de todos os pontos do globo, tão numerosa que, segundo a
previsão do Apocalipse, “ninguém a pode recensear”, um pensamento se apodera de
mim. E ao mesmo tempo eu experimento o desejo imperioso de o comunicar aos meus
leitores.
Ser-me-ia,
sem dúvida, muito mais grato e mais fácil cingir-me exclusivamente a
considerações de ordem geral sobre a Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Tenho, porém, a certeza de que tais considerações outros as farão. Mas o
pensamento que está em mim, posso eu porventura ter a certeza de que todos os
demais o tiveram, e do que em hipótese afirmativa o externarão? Uma dolorosa
negativa me responde a esta pergunta. E, por isto, deixando a outros uma tarefa
aliás incontestavelmente indispensável e fundamental, vou fazer a tarefa mais
ingrata, mais obscura, mais desagradável, porém mais necessária: a de dizer uma
verdade áspera e dolorosa, neste grande dia de festa. Os bons pensamentos tem
isto de característico que, quando aproveitados, servem-no de remédio tanto a
nós mesmos quanto ao próximo. Quando, porém, nós os rejeitamos em nossa vida
interior, ou os calamos em nossas relações com o próximo, eles se transformam,
segundo São Paulo, em carvões ardentes, que nos causticam e calcinam a alma. Ai
dos que receberam e, por egoísmo ou covardia, não atenderam aos bons conselhos!
Ai também dos que, por covardia ou egoísmo, calaram os bons conselhos que eles
poderiam ter dado! Estes conselhos salutares, que eles não externaram,
queimá-los-ão a eles próprios pelo interior, como brasas ardentes. E no dia do
juízo serão levados à conta de talentos inaproveitados.
Aí
vão minhas reflexões, portanto...
*
* *
Quando
pronunciou, em Lisieux, sua magistral alocução, o
então Cardeal Pacelli, já predestinado pelo Espírito Santo a reger futuramente
a Igreja de Deus, fez uma queixa amarga, que nos cabe hoje recordar. Disse ele
que entre os muitos homens que desobedecem hoje as palavras dos Pontífices, há
uma categoria que causa especial mágoa ao Papa. Não se trata dos que não tem Fé
e nem dos que, tendo uma Fé morta e inoperante, não procuram ouvir o que o Papa
lhes diz. Os que mais fazem sofrer o Papa - e este é o ponto que nos interessa
- são os que, aos pés do púlpito, em atitude externa correta e reverente, ouvem
a palavra do Vigário de Cristo comunicada pela Hierarquia Eclesiástica... mas
não a compreendem, se a compreendem não a amam, e se a amam platonicamente não
lhe dão execução!
Assim,
no dia de hoje, quantos e quantos católicos, elevados pelo Batismo à dignidade
de cidadãos do Reino de Deus, nem sequer cumprirão o preceito dominical!
Quantos outros católicos, ainda, indo à Igreja, ouvirão algum sermão sobre a
Realeza de Jesus Cristo, sem saber entretanto, e sem procurar saber em que
sentido se deve atribuir a esta tão clara e tão litúrgica
festa! Quantos católicos finalmente, acompanhando até o próprio texto da
Liturgia Sagrada, lerão as maravilhosas lições que ela contém sobre a Realeza
de Jesus Cristo e não a compreenderão! Quantos os católicos que procuram
implantar o Reino de Cristo no mundo inteiro, esquecidos ou ignorantes de que
devem começar por implantar dentro de si mesmo! E quantos outros supõem que
podem implantar realmente dentro de si o Reino de Cristo, sem sentir um desejo
ardente e devorador de o implantar no mundo inteiro! Em outros termos, não são
tais católicos do mesmo jaez daqueles que ouvem corretamente... porém, só com
ouvidos do corpo e não com os da alma, o que lhes diz a Igreja, pela voz dos
Pontífices?
A doutrina da Realeza de Jesus
Cristo está intimamente ligada à belíssima e piedosíssima prática da
entronização do Sagrado Coração de Jesus nos lares. Se se
entroniza a imagem do Sagrado Coração de Jesus no lugar mais rico e mais nobre
do lar, é exatamente porque se reconhece que ele é Rei. Entretanto, quanto lar
há por aí, em que a imagem está entronizada na sala, mas em que Cristo não está
entronizado nos corações!
Evidentemente, não quero exagerar
a tristeza já de per si tão grande deste quadro, cometendo a injustiça de
desprezar o que há de belo e de bom apesar destas lacunas. Qualquer ato de
piedade, qualquer atitude de reverência para com a Igreja de Deus, por mais
superficial e insignificante que seja, deve ser por nós, católicos, apreciado,
amado e estimulado com um zelo imenso, reflexo direto de nosso amor a Deus.
Longe de nós, pois, um pessimismo de sabor farisaico, que nos fizesse contestar
todo e qualquer valor a estas práticas de piedade, desde que sejam sinceras,
por mais que a frieza ou a ignorância lhes toldem o brilho sobrenatural.
Entretanto, feita esta reserva, a
verdade aí está: a queixa de São João ainda hoje é muitas vezes procedente: “in propria venit et sui eum
non receperunt”....
* * *
Não seria, aliás, difícil conhecer
a doutrina da Igreja sobre a realeza de Jesus Cristo.
Na Sua infinita misericórdia, Deus
Se dignou de comparar o amor infinito com que nos ama ao amor que nos tem
nossos pais. Evidentemente, não quer isto dizer que Ele tenha reduzido na
comparação as insondáveis dimensões de Seu amor, para as amesquinhar até as
proporções exíguas dos afetos de que os homens são capazes. Pelo contrário, se
Ele se serviu dessa comparação do amor paterno foi apenas para nos dar a entender,
de longe, o quanto Ele nos ama. Se dermos à palavra “pai” o sentido que ela tem
na ordem natural, Deus não é apenas nosso Pai, mas muito mais do que isto, por
ser nosso Criador. Porém, como a função de pai, na natureza, não é senão de
coadjuvar a Deus na obra da criação, se alguém merece na realidade o nome de
Pai, é Deus. E nosso pai segundo a natureza outra coisa não é senão o
depositário de uma parcela da paternidade que Deus tem sobre nós.
O mesmo se dá com a Realeza de
Jesus Cristo. Para nos fazer compreender a autoridade absoluta que, como Deus,
Ele tem sobre nós, Jesus Cristo dignou-Se de Se
comparar com um Rei. Entretanto, como é por Ele que reinam os reis, e a
autoridade dos reis só é autêntica por provir d’Ele,
na realidade, o único Rei, Rei por excelência, é Ele. E os reis ou chefes de
Estado não são senão seus humildes acólitos, dos quais Ele se digna servir-Se na obra da direção do mundo. Cristo é Rei por ser
Deus. Chamando-O de Rei queremos simplesmente afirmar
a Onipotência divina, e nossa obrigação de Lhe obedecer.
* * *
Obediência! Eis aí um dos
conceitos contidos essencialmente no conceito da Realeza de Nosso Senhor Jesus
Cristo. Cristo é Rei, e a um Rei se deve obediência. Festejar a Realeza de
Nosso Senhor Jesus Cristo é festejar Seu poder sobre nós. E, implicitamente,
nossa obediência em relação a Ele.
Como
é que se obedece a um Rei? A resposta é simples: conhecendo-Lhe
as vontades, e cumprindo-as com amorosa e pormenorizada exatidão.
Assim,
pois, o único modo de obedecermos a Cristo Rei é conhecer Sua Vontade e
segui-la.
Dessa
noção tão clara, tão simples, tão luminosa, um programa de vida, também ele
claro, luminoso e simples, se segue.
Para
conhecer a vontade de Cristo Rei, devemos conhecer o Catecismo. Porque é ali,
através do estudo dos Mandamentos, estudo este que só será completo com o
estudo de toda a doutrina católica, que conhecemos a vontade de Deus. E para
seguir esta vontade, devemos pedir a graça de Deus pela oração, pela prática
dos Sacramentos e por nossas boas obras. Finalmente, pela vida interior, isto é
pela leitura espiritual, pela meditação, e pela vida vivida exclusivamente à
luz do Catecismo seguiremos a vontade de Deus.
Disse
Nosso Senhor que o Reino de Deus está dentro de nós mesmos. Ora, este pequeno
reino, pequeno como extensão mas infinito como valor porque custou o Sangue de
Cristo, cada um de nós o deve conquistar para Nosso Senhor, destruindo tudo
aquilo que, dentro de nós, se oponha ao cumprimento de Sua lei.
Finalmente,
as leis de Cristo se aplicam não apenas a um indivíduo em particular, mas aos
povos e nações. Que os povos conheçam e pratiquem na sua organização doméstica,
social e política, as Encíclicas que são a expressão da própria vontade de
Deus, e Jesus Cristo será Rei.
Em
outros termos, sejamos bons católicos; sendo-o, seremos necessariamente
apóstolos; e sendo apóstolos seremos necessariamente soldados de Cristo Rei.