A reunião efetuada pelo Episcopado Paulista, na
semana passada, oferece margem a preciosos ensinamentos para os fiéis. Não
necessitam estes de saber do que na reunião se tratou para tirar daí um fruto
abundante de edificação espiritual. A reunião fala por si mesma. A eloqüência
do fato independe de explicações. É que tal reunião de Bispos não constitui uma
inovação. Muito pelo contrário, reuniões como esta se praticam assiduamente no
mundo inteiro, e tais costumam ser seus frutos para a Igreja, que em certos
países elas tem sido a razão imediata de verdadeiras medidas de salvação para
os católicos. É, por exemplo, por meio de reuniões periódicas de Bispos, que se
tem jogado na Alemanha os mais importantes lances da grande batalha que a Santa
Igreja move naquele país contra o totalitarismo hitlerista.
A explicação é simples.
Quanto mais se torna rija a estrutura dos Estados
autoritários, tanto mais a Igreja deve estreitar os laços sobrenaturais e
naturais que unem entre si os membros do Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus
Cristo. Para cooperar cada vez mais com o Estado na obra da grandeza do País,
se o Estado estiver animado de propósitos autenticamente conformes ao espírito
da civilização católica. Para constituir uma barreira eficaz contra seus
desmandos, se ele se aproveita de sua crescente força, não para oprimir o mal e
proteger o bem, mas para proteger o mal e oprimir o bem.
Mas para que será necessário que
os Bispos se reunam? Perguntará muita gente. Identificados em espírito pela
íntima comunhão de doutrina que os liga ao Trono de São Pedro, trata cada qual
de apascentar o seu rebanho não subtraindo dessa tarefa nem um minuto de sua
preciosa atividade. Dioceses governadas de acordo com os mesmos princípios
católicos na vigência de um Direito Canônico igual para todas, em um Estado em
que a unidade psicológica da população é assegurada pela grande facilidade de
comunicações, não poderão deixar de seguir sempre um mesmo destino. E isto com
tanto maior razão quanto cumpre acrescentar que o próprio Direito Canônico lhes
proporciona um coordenador na pessoa de seu Metropolita.
Havendo tantos motivos de união, para que ainda essa reunião, que se tornará
periódica? Com uma tal falta de Clero, com o peso de tão graves encargos que
lhes consomem todas as horas do dia, não poderiam os Bispos fazer algo de mais
útil do que se reunir para tratar de assuntos que todos analisam à luz dos
mesmos princípios, e a respeito dos quais devem, pois, ter idênticas opiniões?
* * *
A argumentação parece simples, mas não, é
simplista, e o simplismo não é senão a caricatura da simplicidade. De fato, se
é certo que não há união mais íntima do que a que liga entre si os membros do
Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a Igreja Católica, a fortiori
essa união é fraternalmente estreita em se tratando dos Bispos, colocados à
testa da Igreja docente.
Entretanto, a Igreja, sempre Mestra sapientíssima,
conhece bem a complexidade dos problemas suscitados pelo apostolado. E é por
isto que ela se empenha tão fortemente por que os Bispos costumem reunir-se.
De fato, se a respeito de doutrina não pode variar
a opinião dos católicos e máxime a dos Bispos, é
certo também que sobre questões de fato as opiniões podem variar muito e essa
possibilidade aumenta extraordinariamente de proporções em nossos dias, quando
as circunstâncias sociais, econômicas, políticas e morais são de uma
complexidade capaz de exaurir as forças e os recursos de observação dos mais
finos psicólogos.
Os fatos devem ser julgados como eles são. Mas como
são os fatos? Seu aspeto varia conforme os jornais que lemos e os informantes
particulares de que dispomos. Uma diversidade de informações conduz a uma
diversidade de impressões. E quando essa diversidade se acentuou de modo
positivo, ela se torna, não raramente, irredutível. De mais a mais, é certo que
muitos olhos vêem mais do que apenas dois. Especialmente quando estão
colocados, como ocorre com os Srs. Bispos, nos mais variados ângulos de observação
do Estado. Isto posto, como negar que a unidade de ação não depende apenas da
unidade de doutrina, mas tem como condição essencial e indispensável a unidade
no modo de considerar os fatos? E quem ousaria negar que, na ordem concreta,
seria muito pequeno o valor de uma unidade de doutrina, meramente especulativa,
da qual não resultasse uma grande uniformidade de ação?
Assim, pois, se é verdade que por três dias
consecutivos - sem contar os dias de viagem e de aprestos, de estudo dos
assuntos a serem ventilados na reunião, etc., etc. - todos os Bispos deixaram
as respectivas ocupações para se reunir, é porque compreendem que a condição
essencial para a união, na quadra torva e tormentosa porque passamos, é o
hábito da reunião.
* * *
Ouvi pessoalmente do Pe. Garrigou
Lagrange que o cume da sabedoria pertence não àqueles
que têm a mania de se embrenhar em digressões transcendentais, mas aos que
possuem com clareza e segurança os princípios fundamentais. Porque, com um
lastro sólido de princípios fundamentais, qualquer esforço de aeronáutica
doutrinária, se nos pode conduzir às alturas, nunca permitirá que nos desviemos
para o vácuo ou a estratosfera.
As razões que acima apontei poderão parecer, a
muita gente, inspiradas por Monsieur de la Palisse ou pelo Conselheiro Acácio. Entretanto, a verdade é que se muitos princípios de
elementar bom senso não tivessem sido, com tanta freqüência, atribuídos a
mentalidades de cretinos como o valente La Palisse ou
o sentencioso Acácio, outro e bem outro seria o
estado do mundo.
A prova disto está na inteira inobservância dos
princípios que enumerei, em nossa vida de todos os dias.
Fui e sempre continuarei a ser entusiasta de um
apostolado metódico, inteligente e raciocinado; e por isto mesmo infenso às
iniciativas que brotam de movimentos sentimentais de fervor, sem base na
realidade, prescindindo da consideração objetiva das circunstâncias e da
escolha inteligente dos métodos de trabalho.
* * *
Ora, a reunião dos Bispos prova claramente quanto
tenho razão. O que significa ela, senão a necessidade suma de racionalizar o
esforço apostólico, para tirar dele todos os juros que o homem da parábola
exigia pelos talentos que emprestou? O que significa um apostolado mal
raciocinado, senão um talento enterrado? E, entretanto, quanto trabalho desse
gênero há por aí, meritório, digno de aplauso, empolgante até, mas que poderia
ser ainda mais meritório, ainda mais digno de aplauso, ainda mais empolgante,
se os que o orientaram compreendessem que devem roubar uma apreciável parcela
de seu tempo à ação, para o empregar na meditação diligente do plano a seguir e
dos melhores meios a escolher? Não é certo que essas irreflexões,
esses estouvamentos, essa parcial desadaptação de
certas obras ao respectivo meio, tem roubado e prejudicado mais a causa da
Igreja do que a ofensiva soez de muito inimigo?
* * *
Não convém ficar nas censuras e nas objurgatórias.
Melhor é que fixemos no espírito o grande exemplo que nos deram nossos Bispos,
para o aproveitarmos cada qual em sua seara particular.
Compreendamos bem nós, católicos, que só estaremos
realmente unidos, caso saibamos entreter esta união por freqüentes
comunicações, encontros, reuniões e entendimentos entre os que estão à testa
das principais obras de apostolado.
A este respeito, há países que tem uma experiência
trágica a registrar. Olhemos, por exemplo, para a França. O que tem feito pela
Cristandade os católicos daquele glorioso país! Entretanto, quanto e quanto
poderiam eles ter feito se dissensões intestinas lamentáveis ao último ponto não tivessem
prejudicado sua união?
Curioso é notar a este respeito que há uma máxima
que parece muito favorável à união e que na realidade desune profundamente.
Consiste a máxima em considerar digno de aprovação tudo, absolutamente tudo
quanto não atingir princípios definidos pela Igreja a respeito da Fé e de
costumes.
No fundo disto, há um subjetivismo à toda a prova.
Os princípios não são atacados apenas na ordem teórica. Do que adianta
professarmos doutrinariamente e negá-los na prática? Do que adianta, por exemplo,
aceitar em tese que o mandamento da pureza obriga sob pena de pecado grave, mas
achar que as modas as mais ardidas e as mais contrárias à pureza nada tem de
mal? Do que adianta afirmar o princípio da autoridade, mas pactuar na prática
com tudo aquilo que, sem destruir esse principio abertamente, o corrói o mais
possível? A verdadeira união só existe na Verdade. Unir os espíritos é uni-los
na Verdade. Porque uni-los no erro é fazer obra de cego que conduz outros cegos
ao abismo. E procurar estabelecer essa união na zona fronteiriça entre a
Verdade e o erro é procurar confraternizar sobre um abismo.
Enquanto a unidade doutrinária não se traduzir em
uma unidade no modo de considerar os fatos e os resolver, ela será incompleta.
É esta a grande lição que nos deu nosso Episcopado.