Lê-se na edificantíssima
vida de Santo Afonso de Ligório, fundador da benemérita Congregação dos Redentoristas, que, já em avançada idade e impossibilitado
de fazer pessoalmente todas as leituras, ouvia de irmão leigo uma página de uma
obra de piedade sobre Nossa Senhora. O Santo perguntou ao irmão que livro era
aquele, e informado em resposta que se tratava das “Glórias de Maria”, exclamou
jubiloso “como me alegro de ter escrito este livro”, e prosseguiu mostrando
como são felizes aqueles que tiveram a ventura de colaborar, de qualquer
maneira, para a maior glória de Maria Santíssima.
É este mesmo sentimento que deve animar quem teve a
feliz idéia de traduzir o belíssimo livro que, com o título de “Ma Mère”,
escreveu um outro redentorista ilustre, o Pe. Schryvers, teólogo polonês de nomeada universal.
Tradução feita com carinho e esmero, impressa com
cuidado sob os auspícios da editora que, em boa hora, se fundou na Diocese de
Taubaté, o livro que em português conservou o título do original - “Minha Mãe”
- está chamado a fazer um grande bem em nosso meio. Com efeito, trata ele, de
modo admiravelmente piedoso e douto, de um assunto de suprema relevância, ao
qual as circunstâncias do momento presente vem acrescentar, se possível, uma
atualidade a bem dizer palpitante.
Escrevendo sua obra, quis Schryvers, principalmente, pôr em relevo a ação da providência de Maria na vida espiritual e temporal de cada um de nós. A piedade dos verdadeiros filhos da Igreja não se contenta com saber que Nossa Senhora, em virtude dos mais sólidos e indiscutíveis argumentos teológicos, é nossa Mãe. Ela se compraz em admirar, na ordem concreta dos fatos, o poder sem limites e o amor incomensurável com que essa Mãe dirige a vida de cada um de nós, implorando junto do trono de Deus as melhores graças para seus filhos, guiando-lhes os passos nos transes por vezes tão difíceis da vida espiritual, e apartando de seu caminho, no que diz respeito à vida terrena, todos os sofrimentos que não sejam indispensáveis à santificação.
Daí, em torno de Nossa Senhora, essa florada intérmina de fatos
comovedores que se transmitem nos livros de piedade ou na tradição,
atestando cada qual de modo mais comovedor o poder e a indulgência da celeste
advogada dos pecadores. Para mostrar a largueza das recompensas com que Ela
agradece qualquer obséquio de seus devotos, Grignion de Montfort tem uma expressão
tirada se não me engano da linguagem popular francesa de seu tempo. Essa
expressão diz tudo: “pour un oeuf Elle donne
un boeuf” [por um ovo
Ela dá em troca um boi]. Aliás, é o mesmo Grignion que afirma com razão que o
amor de Nossa Senhora a qualquer um de seus filhos, ainda mesmo ao mais pecador
ou mais desprezado pelos homens, excede absolutamente à soma do amor que todas
as mães do mundo teriam ao seu filho único.
O grande mérito do livro de Schryvers
é que ele completa, por assim dizer, o de Grignion de Montfort. Este último é
uma tese ardente e doutissimamente sustentada em que
todas as excelências de Maria Santíssima se demostram de modo irrefutável. O
livro de Schryvers é um manual prático para se seguir
passo a passo o caminho que Grignion ilumina com sua doutrina. Ele nos toma
pela mão e nos vai conduzindo suavemente na senda da espiritualidade marial. À
margem do caminho, nenhuma flor fica para trás sem que ele a colha, nenhum
encanto se perde sem que ele o note, e as próprias cruzes, que Maria não afasta
do caminho de seus devotos, ele se detém ante elas amorosamente, filialmente, tranqüilamente, não como o sentenciado ante o
patíbulo que o faz tremer de horror, mas como o guerreiro intrépido ante o
campo de batalha, ou melhor ainda como Nosso Senhor Jesus Cristo ao receber com
lágrimas de amor e com beijos ardentes de carinho a Santíssima Cruz na qual
iria redimir finalmente a humanidade.
Se o livro de Grignion de Montfort nos ilumina
admiravelmente o caminho, o livro de Schryvers nos
ensina a percorrê-lo com nossos próprios passos.
* * *
Nenhum católico pode negar que Nossa Senhora é
Medianeira de todas as graças, e que, portanto, sem o apoio de suas orações
ninguém se pode salvar.
Assim, qualquer livro ortodoxo, douto e piedoso
sobre Nossa Senhora, tem sempre a suprema atualidade de todas as coisas que
interessam fundamentalmente nossa salvação eterna.
Isto não obstante, ouso afirmar que o livro do Pe. Schryvers goza atualmente de uma oportunidade particular.
Sem analisar tudo
quanto de errado há em tal modo de ver, acentuo somente que em lugar de
deformar o Catolicismo subtraindo aos olhos de todos a austeridade de sua
divina moral, dever-se-ia proclamá-lo completo como ele é, pregando, juntamente
com a austeridade do dever, as verdades suaves e consoladoras
que nos tornam não só suportável, mas empolgante o caminho que devemos seguir.
Em lugar de perpétuos recuos, de indefinições
intencionais, de transigências que confinam
decididamente com o mais censurável laxismo, seria
muito preferível que se atraísse as almas com a proclamação do amor de Deus aos
homens, manifestados sobretudo nos mistérios inefavelmente consoladores
da Vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, na definição do amor do
Coração de Jesus, e das graças infinitas que Ele nos dispensa, e na devoção a
Nossa Senhora.
São essas verdades que enchem de luz o caminho
austero, que em lugar de nos afastar da senda do bem, nos dão forças de as
trilhar resolutamente e que nos conservam igualmente distantes de um laxismo luterano e de um jansenismo herético.
* * *
O apostolado de
conquista não pode ter como processo o recuo sistemático ante o espírito do
mundo, a omissão de nossos deveres que não se poderia chamar de simplesmente
ardilosa, e a “camouflage”
do catolicismo. Mostremos com santa ufania as cruzes, os espinhos, as lutas que
se encontram no caminho do verdadeiro católico. Tal atitude não afugentará os neófitos, se lhe soubermos mostrar esse
caminho resplendendo de glória pelo esplendor do sol das almas que é o Coração
de Jesus, e suavizado a cada passo pelo sorriso maternal de Maria.