O “Figaro”, que é um dos mais importantes órgãos da imprensa
francesa, divulgou recentemente algumas informações que extraiu de relatório
apresentado pelo Episcopado polonês em 1939 sobre a
situação em que se encontra a Igreja nas províncias da Polônia submetidas à
dominação alemã. E o “Jornal Brasil” teve a boa idéia de as publicar no Rio.
Pertencem à mencionada notícia do “Figaro” os fatos que a seguir transcreverei.
Desde o primeiro momento da ocupação alemã, afirmam
os bispos poloneses, o governo nazista teve em vista a destruição total do
catolicismo na zona invadida. Em todos os lugares que penetraram, as tropas
alemãs tentaram extinguir completamente o culto católico ou quanto menos
reduzir sua prática no mínimo.
Aprisionados à viva força em suas residências
episcopais, os prelados não podiam manter contato com as demais autoridades
religiosas, pelo que a resistência católica se sentia profundamente debilitada.
Grande número de Igrejas e de Seminários foi fechado. Com freqüência muito
significativa, os membros do clero eram encarcerados e escolhidos como reféns,
sendo de notar que assim se submetia a grave perigo a existência do sacerdote,
uma vez que para cada alemão morto, eram imediatamente executados dez
poloneses. Também são numerosos os eclesiásticos recolhidos a campos de
concentração, onde são obrigados a trabalhos forçados e submetidos aos piores
vexames. A maior parte das Igrejas foi fechada ou profanada. Repetem-se com
assustadora freqüência as profanações das imagens, igrejas e calvários que a
piedade popular polonesa disseminou por todos os recantos do país. Os fatos de
perseguição assumem, não raramente, um feitio brutal. Assim, um sacerdote da
diocese de Posnan, ao voltar do cemitério lia
piedosamente seu breviário pelo caminho, quando encontrou cerca de 200 homens
arrastados à força para um lugar de desterro, na própria Polônia. Os nazistas
que conduziram o triste grupo de exilados, se apoderaram também do sacerdote
que foi forçado a seguir o mesmo caminho. Obrigado a permanecer 36 horas sem se
alimentar, foi submetido a este deplorável estado de depauperamento a trabalhos
forçados ajudando a construir uma ponte, pelo que se viu obrigado a permanecer
dentro da água, em um rio cujo nível crescera consideravelmente devido à
enchente.
Ocupada a cidade de Varsóvia, foram detidos imediatamente 230 sacerdotes, em condições
mais insalubres e desumanas. Em Bromberg, os membros do clero foram reunidos em uma praça central,
obrigados a permanecer durante quatro horas com os braços erguidos. No fim,
sete cadáveres jaziam no chão. Uma das vítimas tentara fugir pelo que foi
cruelmente fuzilada. Outro sacerdote recebeu uma coronhada
que lhe fraturou o maxilar. Depois, foram as vítimas recolhidas à prisão onde
sofreram o mais atroz tratamento. Em Gdynia grupos de
sacerdotes condenados à morte cavaram sua própria sepultura, ali sendo em
seguida enterrados depois de fuzilados. Em Kaliz foi enforcado um
sacerdote cujo corpo permaneceu suspenso durante dois dias. O seminário de
filosofia de Gnieono se achava fechado,
e o respectivo edifício serve de quartel às tropas nazistas. O comando nazista
se instalou no Arcebispado, cujos bens foram roubados. Um busto do Papa Pio XI, muito popular na Polônia onde exercera as funções de
representante diplomático da Santa Sé, foi quebrado. Na Poznanie,
foram proibidos casamentos religiosos, os batizados, etc. O Santo Viático só
pode ser levado ao moribundo ocultamente. O monumento ao Sagrado Coração de
Jesus foi destruído a dinamite.
Tais fatos falam por si mesmo, e dispensam qualquer
comentário. O “Legionário”, há vários anos, vem insistindo sobre a identidade
do espírito existente entre o nazismo e o comunismo. Há cegos que não querem reconhecer esta dolorosa
situação. Doe-lhes o amor próprio nacionalista ante a idéia de que as formas
totalitárias de governo, cujo espírito o nazismo encara de modo perfeitamente
nítido, possam não ser aquilo que seu pueril otimismo imaginara.
Entretanto os fatos continuam a gritar. A relação
de atrocidades que acima transcrevemos são perfeitamente típicas de movimentos
comunistas, e retratam fielmente o que se passou na Rússia, no México, na
Espanha, e nas províncias polacas atualmente submetidas ao jugo russo. Será
possível que nem mesmo em presença da identidade de frutos venham certos
espíritos reconhecer a identidade das árvores?
A pergunta não é ociosa, e está longe de ter um
interesse meramente especulativo. O totalitarismo “pseudo-anticomunista”
– o neologismo se impõe para caracterizar a farsa política inédita diante da
qual nos encontramos – é um perigo que não interessa somente a Europa mas o
mundo inteiro. Vitorioso no Velho Mundo, terá ele o cetro da hegemonia mundial,
e esse cetro se transformará em suas mãos em acoite para flagelar novamente
(...) o Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Cumpre, pois, que os católicos estejam alertados,
e, pela oração tanto quanto pela atenção vigilante, saibam conjurar o perigo
que ameaça arrastar novamente às Catacumbas a Esposa do Salvador, que é a
Igreja de Deus.