Na belíssima Carta Pastoral
que dirigiu a seus diocesanos, S. Ex.a Rev.ma. o Sr. Arcebispo Metropolitano
teve uma atitude muitíssimo expressiva que, por não ter sido talvez
suficientemente notada, bem merece um comentário.
Não ignorava o novo Pastor
que, infelizmente, em sua Arquidiocese como hoje em dia em todas as grandes
cidades, fervilham heresias, pululam imoralidades, e se articulam, subtis e
tenebrosas, as tramas dos inimigos declarados
e ocultos da Igreja. Entretanto em sua primeira mensagem não quis S.
Ex.a Rev.ma lembrar-se de nada disto. Deixando para mais tarde o exercício dos
rigores do juiz e da energia do generalíssimo, quis apresentar-se aos seus
diocesanos exclusivamente como Pai, lembrando, por sua mansidão, as palavras
com que o Profeta antevia a entrada de Nosso Senhor em Jerusalém, na festa de
Ramos: “Ecce rex tuus pacificus... eis aí teu Rei
pacífico.”
Não obstante, ao mesmo tempo
que fechava os olhos a tantos fatos dignos de censura e estendia as
manifestações de seu amor até aos próprios infiéis, ele teve em sua Pastoral
duas ameaças fortes, enérgicas e carregadas de rigor. E uma delas foi para os
fautores de discórdia dentro dos meios católicos.
Penso não ser necessário
dizer mais do que isto para provar até que ponto um vivo espírito de união e de
colaboração corresponde aos desígnios daquele que, para o “LEGIONÁRIO” como
para todos os católicos de São Paulo, é a lei viva, e a encarnação da própria
Igreja Católica. É com o intuito de cooperar neste sentido que registro aqui
algumas reflexões.
* * *
Parece-me
que o problema da união dos católicos não é uma mera questão sentimental e
precisa ser encarado com realismo e espírito prático.
O problema da união se
reveste de aspectos diversos, conforme cada ambiente: entre os católicos
militantes ele é um; entre os que são simplesmente praticantes, ele é outro; e,
finalmente, no que se refere à união dos não católicos à Igreja, os termos da
questão variam mais uma vez.
Estudemos hoje a união entre
os católicos militantes.
Em meu último artigo, mostrei
como se deve entender, em linguagem católica, a união. Muita gente supõe que a
união consiste no convívio indiferente e indolente de elementos que
ideologicamente são heterogêneos e até antagônicos. Uma tal união não é senão a
caricatura da união pregada pelo Santo Evangelho. A verdadeira união em Nosso
Senhor Jesus Cristo é a convergência plena das almas que professam
integralmente a mesma Fé, vivem a mesma vida da graça e praticam os mesmos mandamentos.
Não há verdadeira união entre os católicos se alguns deles se afastam da vida
da graça, que se haure na freqüência dos Sacramentos e na prática séria da vida
interior. Não há verdadeira união entre os católicos se seu modo de vida, de
todos eles, não for idêntico em tudo, espelhando cada qual, segundo sua vocação,
as mesmas normas contidas no Santo Evangelho. A verdadeira união dos católicos
só existe quando estão todos unidos à Igreja. Pensar como a Igreja pensa, viver
da vida sobrenatural da Igreja e agir sempre e por toda a parte como a Igreja
manda, é na realização deste tríplice programa que os católicos podem e devem
encontrar a verdadeira união. O dulcíssimo apostolado da união deve consistir
em debelar nos círculos católicos, e não raro entre os próprios católicos
militantes, certos erros que, frutos da ignorância religiosa e da má formação,
diminuem a união das almas com a Igreja. É esta uma condição vital de
fecundidade para a Ação Católica. A Santa Igreja é a vinha e nós somos os
sarmentos. Quanto mais estivermos unidos a Ela pela inteligência, pela vontade
e pela vida, tanto mais abundante serão os frutos que poderemos fazer brotar da
vinha do Senhor.
Esta preocupação de unir mais
e mais os católicos militantes à Igreja se impõe por um duplo motivo. De um
lado, o primeiro de nossos deveres é para com os que estão mais próximos de nós
pela Fé. Se a caridade material deve começar em casa, e na própria família,
assim também a caridade espiritual deve começar não só em nossa casa, junto aos
que são nossos irmãos pelo sangue e pela natureza, mas ainda na nossa Casa
espiritual que é a Igreja, junto ao que são nossos irmãos na Fé, por obra da
graça. Por outro lado, não vejo meio mais urgente, mais eficaz e mais seguro de
desenvolver um amplo apostolado de conquista do que de orar e trabalhar para
que se integre na plenitude do espírito da Igreja essa multidão de católicos
militantes existentes na Arquidiocese. Já tenho tido ocasião de repetir mil
vezes que, segundo uma estatística já antiga, e portanto hoje superada pelos
constantes acréscimos dos sodalícios religiosos, há
em São Paulo 150.000 pessoas filiadas a associações católicas. Imagine-se este
imenso exército, abrasado de sede de apostolado em conseqüência de uma formação
esmerada e autêntica: que benefícios não se poderia esperar dele em prol da
salvação das milhares de almas que, nas trevas da heresia e da ignorância,
jazem hoje longe da Igreja?
* * *
Um homem vale pelo que valem
suas convicções e pela firmeza de sua vontade. Se quisermos realizar um
programa de união, deve ele consistir em coordenar fortemente os espíritos em
torno das mesmas verdades e de educar vigorosamente as vontades na prática das
mesmas virtudes.
Ora, não há outro modo de se
conseguir isto, senão por meio da pregação insistente de uma verdade que, para
os católicos, é chave que lhes franqueia todas as outras. Um amor esclarecido,
fundamentado, lúcido, entusiástico, incondicional e intrépido dos católicos
para com a Igreja, deve levar-nos a pensar em tudo e por tudo como Ela pensa,
agir como Ela age, e sentir como Ela sente. Isto obtido, estará realizado em
sua medula nosso programa de união.
* * *
A este propósito, é preciso
acentuar que uma verdadeira união dos católicos só pode ser obtida se tivermos
em vista que na Igreja, tanto quanto na Casa do Pai Celeste, “há muitas
moradas”.
É interessante notar como na
Igreja, ao par de uma inflexível e inquebrantável unidade de doutrina, há
grandes variedades nas coisas contingentes. Esta variedade começa por se fazer
notar em assuntos dos mais centrais, como seja, por exemplo, a liturgia. Como
ninguém ignora, é grande a variedade das liturgias existentes na Igreja. Ao par
disto, muitas são as Ordens Religiosas ou as Dioceses do rito latino que
conservam, com a aprovação da Santa Sé, pequenas variantes litúrgicas
que lhe são peculiares. No teor de vida e na espiritualidade das Ordens
Religiosas, quantas diferenças! São variedades harmônicas que, longe de se
contradizerem, se completam. Mas nem por isto deixam de ser variedades que
mostram como é rico em tonalidades e aspectos o espírito católico. Se todas
estas variedades existem licitamente dentro da Igreja, e constituem para Ela um
ornamento, deve-se compreender que a Ação Católica não deve procurar reduzir e
uniformizar entre seus membros estas múltiplas manifestações de vida
espiritual. Pelo contrário, firmando fortemente a unidade em tudo que é
necessário, deve ela deixar uma santa liberdade naquilo que constitui, não
apenas uma variedade formosa de aspectos, mas muitas vezes obra direta do
Espírito Santo nas almas. Qualquer trabalho de coordenação dos católicos deve
opor-se intransigentemente a todas as falsas espiritualidades,
todos os exageros, todas as deformações de piedade. Mas seria uma exorbitância
e um erro lamentável pretender impor uma espiritualidade única, um tipo único
de vida de piedade ou de vida interior.
* * *
Finalmente, ainda há um ponto
a acentuar.
Seria uma ingenuidade supor
que aos católicos militantes basta uma unidade de formação. Esta unidade é essencial.
Mas não é tudo. É necessário que dela decorra uma séria unidade de ação.
A este propósito, convém
lembrar que a identidade dos princípios doutrinários não é suficiente para
assegurar aos homens uma efetiva unidade de movimentos. Tão complexa é a realidade
contemporânea, que quando os espíritos passam da ordem doutrinária para o campo
da ação, muitas vezes são levados a divergir entre si sobre o modo de ajustar
os fatos aos princípios.
Evidentemente, jamais será
possível, neste terreno, reduzir os espíritos a uma unidade completa.
Entretanto, é certo que grandes divergências se poderiam evitar se, entre os
elementos católicos, houvesse um sistema de articulação mais metódico e
inteligente.
A realidade é que, sendo
inúmeros os problemas a resolver, cada qual se consagra inteiramente à sua
esfera de atividade, nela se especializa, e com isto perde freqüentemente a
visão de conjunto dos fatos. Daí certos erros freqüentes, auxiliados pelas
fraquezas a que tão facilmente nos prestamos. Assim, é as vezes difícil exigir
das obras particulares um certo sacrifício em benefício de uma iniciativa
coletiva. Por que? Porque, perdida a visão de conjunto, cada qual supõe que sua
obra é a mais importante de todas, e considera uma sonegação injusta o
sacrifício que se lhe pede. Outras vezes, trata-se de restabelecer uma grande
obra de conjunto. As pessoas responsáveis pela direção da obra tomam uma certa
orientação, e as críticas pululam por todos os lados. Por que? É que tendo cada
qual começado a se preocupar com aquele problema geral apenas naquele momento,
evidentemente as incompreensões são inúmeras.
Urge estruturar de tal modo o
movimento católico que a compreensão recíproca entre os que trabalham nos
diversos setores da Ação Católica, das obras e associações auxiliares, seja
levada ao máximo.
* * *
Finalmente,
como já ficou dito, é obvio que nem sempre se conseguirá reunir todos os
espíritos em torno dos mesmos pontos comuns. Mas, como bem disse um santo -
Santo Inácio de Loyola se não me
engano - a obediência consiste em obedecermos os superiores quando suas ordens
não concordam com as nossas idéias particulares. Porque não há mérito em
obedecermos quando estamos de acordo com nossos superiores.
Assim estruturado o movimento
católico, é ou não é verdade que dele se poderá dizer que pela integridade da
doutrina, será “pulchra ut sol”, pela
pureza de sua vida será “electa ut luna” e pela rijeza de sua
ação será “terribilis
ut castrorum acies ordinata”?